
Zuza Homem de Mello
A ERA DOS FESTIVAIS
UMA PARBOLA
TODOS OS CANTOS
editora 34
Editora 34 Ltda.
Rua Hungria, 592 Jardim Europa CEP 01455-000
So Paulo-SP Brasil Tel/Fax (11) 3816-6777 www.editora34.com.br
Copyright (c) Editora 34 Ltda., 2003
A Era dos Festivais: uma parbola (c) Zuza Homem de Mello, 2003
Imagem da capa: A torcida, marca registrada da Era dos Festivais
Imagem da capa: Jair Rodrigues, Nara Leo e Chico Buarque no II festival
da TV Record em 1966
Capa, projeto grfico e editorao eletrnica: Bracher & Malta "Produo
Grfica
Reviso: Alexandre Barbosa de Souza
Cide Piquet
Isabella Marcatti
1a Edio - 2003, 2a Edio - 2003
Catalogao na Fonte do Departamento Nacional do Livro (Fundao
Biblioteca Nacional, RJ, Brasil)
Mello, Zuza Homem de
M527e A Era dos Festivais: uma parbola / Zuza Homem
de Mello - So Paulo: Ed. 34, 2003. 528 p. (Coleo Todos os Cantos)
Inclui fotografias, discografia e bibliografia.
ISBN 85-7326-272-9
1. Festivais de msica Brasil. I. Ttulo. Tl. Srie.
CDD - 780.7981
LEI DE INCENTIVO  CULTURA
MINISTRIO DA CULTURA
A ERA DOS FESTIVAIS UMA PARBOLA
Prlogo 9
1. "Cano do Pescador" (I Festival da TV Record, 1960) 13
2. "Arrasto" (I Festival da TV Excelsior, 1965) 31
3. "Porta Estandarte" (II Festival da TV Excelsior, 1966) 75
4. "A Banda" e "Disparada"
(II Festival da TV Record, 1966) 95
5. "Saveiros" (I FIC/TV Rio, 1966) 147
6. "Ponteio" (III Festival da TV Record, 1967) 171
7. "Margarida" (II FIC/TV Globo, 1967) 223
8. "Lapinha" (I Bienal do Samba da TV Record, 1968) 251
9. "Sabi" (III FIC/TV Globo, 1968) 271
10. "So, So Paulo Meu Amor"
(IV Festival da TV Record, 1968) 303
11. "Cantiga por Luciana" (IV FIC/TV Globo, 1969) 335
12. "Sinal Fechado" (V Festival da TV Record, 1969) 351
13. "BR-3" (V FIC/TV Globo, 1970) 367
14. "Kyrie" (VI FIC/TV Globo, 1971) 391
15. "Fio Maravilha" e "Dilogo" (VII FIC/TV Globo, 1972) 413
A Era dos festivais  tambm o ttulo de um CD duplo com 28 gravaes
histricas, selecionadas por Zuza Homem de Mello, que representam a
trilha sonora da poca. O repertrio dessa coletnea, produzida pela
Universal Music, est relacionado na Discografia ao final do livro.
A ERA DOS FESTIVAIS
UMA PARBOLA
Para
Vov Elisa, que me ensinou a ouvir rdio,
Dona Lisah, a me que me deu o apoio para seguir na msica,
Ercilia, amada companheira dos 52 anos para a frente, os melhores,
Patrcia e Mnica, as filhas que depois quis ter,
Marina e Luisa, as netas que tenho.
Na rua da Consolao, em So Paulo, ainda com paraleleppedos e trilhos
de bonde, ficava o Cime Rio, que em 1959 foi transformado no Teatro
Record. A partir desse ano, foram apresentados em seu palco alguns dos
maiores nomes do show business internacional.
PRLOGO
A cabine de projeo do Cine Rio na rua da Consolao, 1992, seria
certamente o local ideal para a instalao do controle de udio no
teatro. Bastava abrir uma ampla janela de vidro duplo e instalar a mesa
de som, monitores e rack onde anteriormente ficavam os projetores
cinematogrficos, que o problema estaria resolvido. Sobrava espao at
para uma bancada de manuteno e uma pequena cabine de locuo para
possveis intervenes, como no estdio prximo ao Aeroporto de
Congonhas. Essas foram as mudanas cuidadosamente executadas durante a
temporada de Nat King Cole no Brasil, em 1959, pela equipe do chefe do
departamento tcnico da TV Record, o seu Spencer, um simptico portugus
de cabelos finos e muito lisos, que se orgulhava com razo de sua menina
dos olhos, o som do Teatro Record. Tanto que as duas grandes colunas de
alto-falantes montadas nas laterais do palco representavam o que havia
de melhor na poca. Pelo menos em So Paulo, no havia nada superior. A
mesa de som, marca Gates, de oito canais, viera do auditrio que a
emissora ocupara provisoriamente na sede da Federao Paulista de
Futebol nos anos 50, freqentado por um pequeno pblico que assistia a
programas simultneos de televiso e rdio. Simultneos, sim, pois
embora alguns deles, como o Histrias das Malocas e a edio paulista do
Csar de Alencar, fossem apenas de rdio, o show semanal de Angela Maria
ia ao ar pela Rdio Record e ao mesmo tempo pela TV Record. Ao vivo e em
preto-e-branco. Assim era a televiso ainda herdeira do rdio no incio
dos anos 60, a dcada que iria alar a msica popular a seu estgio mais
frtil.
Da janela de vidro da cabine de som do Teatro Record, tinha-se uma
excelente viso do balco, no primeiro plano, de parte da platia, e o
que mais interessava, do palco todo, incluindo o poo de orquestra que
foi aberto logo depois.
O nico inconveniente era o acesso  cabine. Partindo-se do bali de
entrada havia uma escada com tapete vermelho que se bifurcava em mais
dois lances: pela esquerda, chegava-se ao balco superior da platia e,
pla direita, atingia-se a saleta do gerente do teatro. Era o reinado do
Gacho, ngelo Cunha, profissional experiente e ladino, com respeitvel
bagagem na Companhia de Teatro de Revista Walter Pinto, no Rio de
Janeiro. Gacho, que tinha cara de cantor de tango, demonstrava reaes
to frias como as de um crupi: contava dinheiro enquanto conversava,
sem o menor esforo. Era casado com Ceclia, uma ex-vedete argentina
corpulenta, de porte elegante e sempre muito bem maquiada, como nos seus
ureos tempos de ribalta. Terminado o trabalho, ambos iam jantar no
restaurante Gigetto, ainda na rua Nestor Pestana, ocupando
invariavelmente a mesma mesa. A saleta do Gacho, modestamente
mobiliada, era local dos encontros praticamente dirios entre ele e
Paulinho Machado de Carvalho, o diretor. Tambm era o centro de longos e
produtivos bate-papos com artistas de rdio, televiso, teatro e cinema,
com empresrios brasileiros e estrangeiros, alm de colunistas do ramo
televisivo como o sbrio Egas Muniz, com seu fino bigodinho de lorde, ou
o sarcstico e indefectvel gozador Denis Brean - o grande compositor
campineiro - e o sempre tranqilo e espigado Max Gold, o carioca que com
uma fala muito mansa no era outro seno a prpria Candinha da Revista
do Rdio, talvez a mais lida coluna de mexericos sobre os felizes
personagens do rdio e TV brasileiros. Outra figurinha rara dessa fauna
impagvel era Mauro "Capucetta" Cesarini, um bon vivant que descrevia
com perfeio lugares onde nunca tinha estado. Recebia as informaes
por tabela de seu ntimo amigo, o empresrio Ricardo Clia, um boa-pinta
que no passava mais que uma semana em So Paulo, viajando atrs de
contrataes. Ricardo descrevia as cenas e Mauro, que embora longe de
ser um gal dizia-se perito nas intimidades de alcova, logo se apossava
das informaes, chegando a mincias espantosas. Pobre Mauro, no dia em
que soube que sua herana tinha evaporado! A vasta rea de
estacionamento defronte aos Correios no Anhangaba, na realidade, no
pertencia a seu progenitor, que, enquanto vivo, brindava-o com uma
mesada bem razovel. Aps a sua morte  que Mauro despencou, ao saber a
verdade sobre a propriedade do terreno que ele tinha como herana
garantida. Pelo menos no Teatro Record, Mauro Capucetta soube cumprir
como ningum a misso que lhe era destinada: sexy relations.
Tambm freqentavam a sala da gerncia o porteiro Benedito, o iluminador
Luiz Doce, o contra-regra Armando Mirabelli e, principalmente, aquele
que, pelo aroma, anunciava sua presena antes mesmo de chegar: o sempre
muito bem trajado Paulo Charuto, seguramente o mais garboso componente
da equipe fixa do Teatro Record. Paulo Charuto,
que, quando se entusiasmava passava a falar uns cinco pontos acima do
volume, era freqentemente confundido com o dono daquilo tudo, ou seja,
dono do teatro, do canal 7 e at das Emissoras Unidas de rdio. D para
acreditar? Como era xar do proprietrio, tirava disso o maior partido
possvel para conseguir facilmente ingressos, vantagens ou favores de
despachantes, funcionrios pblicos, empregados de linhas areas e
hotis, maitres de restaurantes, porteiros, bilheteiros, motoristas,
detetives, mocinhas ou coroas; enfim, uma infinidade de pessoas que
podia dominar no beio, para obter com inacreditvel percia o que s
ele conseguia, deixando at o diretor incrdulo. O "doutor Paulo", como
se identificava, nunca fazia muita questo de desmentir que, de fato,
no era o dr. Paulo Machado de Carvalho, o verdadeiro dono daquilo tudo.
Dessa saleta do Gacho, cujas paredes felizmente nunca falaram,  que
partia, sobre o vo onde ficava o cofre com os borders e o dinheiro da
bilheteria, o lance da escada estreita, com degraus de ferro, para a
cabine de som. A "Tcnica", como era chamada, cujo minsculo estdio de
locuo era usado raramente, como em janeiro de 1962, quando Agnaldo
Rayol deveria cantar no show Skind mas, por motivos contratuais com a
TV Tupi, no podia aparecer em cena. A soluo foi escond-lo no estdio
s escuras e, na hora H, sua voz era ouvida na platia, para espanto dos
reclamantes que, desesperados, no conseguiram descobrir o truque
durante a temporada inteira.
Ali era o territrio do tcnico de som do Teatro Record, que sonorizava
os programas, na maioria musicais, tendo como assistentes um segundo
operador, Oswaldo Schmiedel, o instalador de microfones Ernani de Nardo
e um tcnico de manuteno que geralmente podia ser encontrado no bar
vizinho tomando cafezinho. Assim que terminavam as transmisses, por
volta de 11 da noite, o operador, que naquela poca era impropriamente
chamado de sonoplasta, dava uma respirada funda levantando-se aliviado
para efetuar a derradeira operao da jornada, retirar os patch coras do
rack. Isto , os cabos que eram manobrados para estabelecer as ligaes
dos vrios microfones com cada canal da mesa.
A noite de 10 de outubro de 1966, em particular, tinha sido uma tremenda
pedreira. Tanto que, terminados os ensaios da tarde, o operador ficara
to cansado que, ao invs de ir jantar como habitualmente, resolveu dar
uma volta no vasto quarteiro que bordejava o cemitrio da Consolao, a
fim de espairecer um pouco e memorizar bem as mltiplas manobras que
deveriam ser efetuadas vrias vezes e com preciso na transmisso
daquela noite.
Agora porm, depois de tudo terminado, ele podia descontrair. Fazia
silncio. Havia acabado a finalssima do II Festival da Msica Popular
da TV Record, com um empate entre "A Banda", de Chico Buarque, e
"Disparada", de Geraldo Vandr e Tho de Barrou Grande parte do pblico
j sara, alguns ficaram comentando o resultado no saguo, a cortina
preta do palco fora reaberta, e os funcionrios, exaustos, desmontavam o
que era preciso antes de irem para suas casas. O tcnico j estava
desplugando o ltimo patch quando algum subiu a escada. Era o diretor
da TV Record, Paulinho Machado de Carvalho, trazendo um envelope
fechado. "Zuza, leve esse envelope para casa e guarde num cofre. No
entregue para ningum." Mais uma vez Paulinho confiava um segredo a seu
fiel funcionrio. No envelope, estavam as fichas de votao dos jurados
- um resultado que durante muitos anos permaneceu um mistrio da Era dos
Festivais.
Zuza Homem de Mello
Captulo 1.
"CANO DO PESCADOR"
(I FESTIVAL DA TV RECORD, 1960)
No Brasil, como em alguns pases, festival  um evento com duas
concepes diferentes. A primeira  uma forma de reunir exibies
artsticas durante um certo perodo, tendo como denominador comum um
gnero musical, como o samba, ou uma determinada rea artstica
predominante, como o teatro. Nesse modelo de festival no existe
competitividade, sendo assim mais uma feira de amostras de um setor da
arte. Seu objetivo  oferecer, em curto espao de tempo, a oportunidade
de acesso a novas tendncias, a novas obras, ao que est em voga, ou
ainda, num sentido diametralmente oposto, revisitar a obra de artistas
amplamente consagrados. Entre os mais concorridos e aclamados do mundo
esto o monumental Festival de Edimburgo e o de Bayreuth, ou ainda os
Festivais de Jazz que proliferaram pelo mundo numa abundncia jamais
imaginada nos seus primrdios, em meados dos anos 50. No Brasil, pode-se
considerar como um pioneiro desse modelo o I Festival da Velha Guarda,
que o cantor e radialista Almirante promoveu pela Rdio Record em 1954,
trazendo a So Paulo Pixinguinha, Joo da Baiana, Donga e outros msicos
notveis de dcadas anteriores para exibies no Teatro Colombo, do
bairro do Brs, e no Parque do Ibirapuera. Agradaram tanto, que no ano
seguinte seria promovida uma segunda edio, devidamente ampliada, e com
o apoio, desta vez, da TV Record. O Festival de Teatro de Curitiba e o
Free Jazz Festival, que tm se realizado periodicamente no Brasil,
tambm pertencem a este tipo.
O outro modelo de festival, cujo objetivo tambm  ir em busca de novas
manifestaes,  marcado pela competitividade. Essa  a grande
diferena. Os festivais de cinema de Cannes e Veneza, que no deixam de
ser festivais, so eventos de competio. Por mais que disfarcem, os
concorrentes buscam a vitria. Ora, como em msica popular novas
manifestaes geralmente implicam em obras inditas, quando se fala em
festival de msica popular no Brasil, a idia  mesmo de uma competio
de canes, a exemplo do que tambm existe em Vina dei Mar, no Chile, e
em San Remo, na Itlia. No  pois uma competio entre grupos
13
entre bandas ou intrpretes. Os concorrentes so de fato os autores das
obras, os compositores e letristas.
Esse conceito de festival de msica popular ou de festival de cano,
que se estabeleceu nos anos 60, j existia no Brasil, embora com outro
ttulo: eram os concursos de msicas carnavalescas promovidos com
sucesso no Rio de Janeiro na dcada de 30, embora em 1919 j tivesse se
realizado, sem muita repercusso, um concurso organizado por Eduardo
Frana.
Anos mais tarde, o crescente aumento anual de novas composies
destinadas a animar o carnaval instigou a decantada Casa Edison do Rio
de Janeiro, que gravava os discos Odeon, a promover um certame. Assim 
que em 18 de janeiro de 1930 realizou-se no Teatro Lrico a primeira
edio desse Concurso, premiando com 5 contos de ris a marcha de Ary
Barroso "D Nela", cantada por Francisco Alves. "Vem C Nenm", de Bento
Mussurunga e Carolina Cardoso de Menezes, e "Melindrosa Futurista", de
Clovis Roque da Cruz, foram a segunda e terceira colocadas,
respectivamente. Surpreendentemente, na mesma poca, a revista O
Cruzeiro tambm realizou um concurso para escolha das melhores
composies para o carnaval de 1930. O veredicto do jri, que inclua
figuras ligadas  msica e literatura como Lorenzo Fernandes e Olegrio
Mariano, indicou como ganhador dos 2 contos de ris o samba de Lamartine
Babo "Bota o Feijo no Fogo", gravado depois por Janurio de Oliveira
num disco da marca Columbia. Em segundo, "Eu Sou do Amor", composta por
Ary Barroso mas inscrita em nome de sua noiva, Ivone Arantes, e em
terceiro "Macumba da Mangueira", tambm de Ary em parceria com
Almirante. Percebe-se assim que ambos os concursos estavam vinculados a
duas gravadoras rivais, a Odeon e a Columbia de ento, que seria
sucedida pela Continental em 1943.
De 1931 em diante, os concursos foram realizados por vrios anos
seguidos, como parte das festividades oficiais do carnaval do Rio e, por
essa razo, promovidos pelo Departamento de Turismo da Prefeitura do
Distrito Federal. O carnaval foi oficializado em 1932 e a partir de
ento  que nascem as subvenes e premiaes, gerando controvrsias
muito parecidas com as que existem at hoje nos desfiles de escolas de
samba.
Os critrios para a eleio dos vencedores de tais concursos variavam
bastante, mas de uma maneira geral o pblico sempre esteve presente. Uma
das formas de escolha era a da msica mais aplaudida durante a
apresentao. Ou a mais cantada. A outra era o juzo de um jri nem
sempre muito abalizado. Havia tambm o sistema de votao, o chamado
 voto popular, mas tambm esse teve seus percalos, as injustias que o
tempo se encarregou de passar a limpo. "O Teu Cabelo No Nega", que foi
a vencedora no Teatro Joo Caetano em 1932, consagrou-se para sempre,
mas, por outro lado, "Cidade Maravilhosa" no ganhou em 1935. Foi a
segunda colocada. E por acaso algum se lembra da marcha de Nssara e
Frazo, "Corao Ingrato", a vitoriosa? Andr Filho, autor da marcha que
se tornaria o hino da cidade do Rio de Janeiro, rompeu relaes com Ary
Barroso, um dos jurados. Rompeu e quase se atracaram, no fosse a
interveno de outros compositores. Talvez tenha sido este o primeiro
caso de uma srie que se repetiria ao longo dos concursos e festivais: a
dos erros de deciso dos jurados. Ou, dependendo da exaltao e da
interpretao dos cronistas, o primeiro caso de uma "marmelada" na
msica popular.
Se pairam dvidas quanto a 1935,  certo que a marmelada ocorreu em
1938. Nesse ano houve anulao do resultado, inventando-se uma artimanha
para desclassificar "Touradas em Madrid", a desculpa da ausncia no jri
do presidente da comisso nomeada no edital, tila Soares. O motivo
verdadeiro tambm era ridculo: segundo os compositores reclamantes
perdedores, a msica no era uma marcha, era um passo-doble, considerado
ritmo aliengena. O concurso se transformou num verdadeiro tumulto,
houve nova classificao e "Pastorinhas", que havia ficado em segundo,
passou para primeiro. Alguns dos demais concorrentes anteriormente
contemplados tiveram suas posies alteradas, outros foram simplesmente
descartados, e portanto prejudicados, sem ter nada a ver com o peixe. O
incrvel dessa histria  que em quaisquer dos resultados estava
presente o nome de um dos maiores compositores carnavalescos da
histria, Joo de Barro, o Braguinha. Ele era o parceiro de Alberto
Ribeiro em "Touradas em Madrid" e de Noel Rosa em "Pastorinhas", que, ao
vencer, abriu caminho para o gnero marcha-rancho. Enquanto
"Pastorinhas" ganhou na categoria de marchas, na de sambas, o vencedor
de 1938 acabou sendo "Juro", de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira. Assis
Valente, o autor de "Camisa Listada", samba vencedor no julgamento
anulado, foi vergonhosamente chutado para terceiro, a posio anterior
de "Juro". Vale recordar que Milton de Oliveira  considerado o criador
da caitituagem na msica brasileira. Muitos anos mais tarde o ato de
caitituar seria acrescido de um "jabacul", ou "jab", designando a
propina que os discotecrios recebiam para interferir na programao,
favorecendo compositores, cantores ou gravadoras. Estas acabaram
assumindo de vez a responsabilidade, transferindo as vantagens
diretamente aos proprietrios ou diretores das emissoras, passando por
cima dos discotecrios e programadores. Foi quando esse procedimento,
que tanto mal tem causado  cultura brasileira, passou a ser
oficializado sob o nome de "verba de promoo".
A rivalidade tambm foi um componente de fundamental importncia nos
concursos de msica carnavalesca da Prefeitura. Orlando Silva contou,
daquela sua maneira expressiva e nem sempre muito fiel, sua verso de um
episdio do carnaval de 1939: "Gravei quatro msicas e classifiquei as
quatro. Olha que isso no  fcil, mas no  mesmo. Agora, com os
recursos... mas naquele tempo no fazia no. Eu gravei "A Jardineira" e
"Meu Consolo  Voc". Gravei "Histria Antiga", e do outro lado "O Homem
Sem Mulher No Vale Nada"... foram as quatro premiadas. E o Silvio
Caldas] tinha uma muito boa, "Florisbela", do Frazo e Nssara. Eles
eram jornalistas, ento todo dia saa nas revistas... Da houve o
concurso do DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda s/c]. Mas o
negcio no era jri, no tinha nome de jurado, era por voto do pblico.
A eu to em casa, muito bem, deitadinho, mas j o Slvio, o Frazo, o
Rubens Soares, desde 3 horas da tarde estavam na Feira de Amostras
pegando voto. E ganhou da "Jardineira". Menino, o Benedito Lacerda,
autor de "A Jardineira" ficou louco, rapaz, Nossa Senhora. Bom, tambm
teve mais trs concursos aquele ano, mas a eu no perdi pra nenhum.
Enfiei "A Jardineira" e "Meu Consolo  Voc", dois no campo do Amrica.
A teve outro, foi do Jornal dos Esportes, outro foi do Jornal do
Brasil, e outro foi do Globo. Mas mesmo assim "Florisbela" no foi esse
sucesso. "Jardineira"  todo ano, j atravessou geraes. Voc v,
quando o baile est meio frio, o maestro manda a "Jardineira", e at
mesa sai danando".
Como se nota, nos concursos de carnaval que proliferavam ento, os
principais ingredientes que fariam parte dos festivais, mais de trinta
anos depois, j estavam presentes: a rivalidade, a participao do
pblico e os estratagemas para vencer.
O auge dos concursos carnavalescos foi mesmo nos anos 30. Nos vinte anos
seguintes houve muita marchinha e muito samba que nem vale a pena
lembrar. Entre as excees, foram premiadas nas dcadas de 40 e 50 "Lero
Lero", de Frazo e Benedito Lacerda (42), "A Mulata  a Tal", de Joo de
Barro e Antnio Almeida (48), "Chiquita Bacana", de Joo de Barro e
Alberto Ribeiro (49), "Tomara que Chova", de Romeu Gentil e Paquito
(51), "Sassaricando", de Luiz Antnio, O. Magalhes e Z Mrio (52),
"Saca Rolha", de Z da Zilda, Zilda do Z e Valdir Machado (54) e "Quem
Sabe Sabe", de Carvalhinho e Joel de Almeida, em 1956. Quem reconhece
esses ttulos sabe que as marchinhas carnavalescas esto entre as mais
lindas e expressivas reas da nossa msica popular.
Nesse ano de 1956, o escritor Edigar de Alencar, renomado estudioso do
carnaval brasileiro, passou pela experincia de integrar o jri,
lastimando "o quanto  penosa e ingrata essa tarefa." Apesar dos
critrios adotados para a trplice classificao de mais popularizadas,
melhores melodias e melhores letras, o trabalho foi precrio. Num sbado
inteiro de carnaval estiveram alguns membros da comisso entre quatro
paredes de um estdio a ouvir mais de duzentas gravaes!... e o
resultado, como sempre, foi comentado, discutido e malsinado... com
alguma razo". A mesma experincia teriam os jurados dos anos 60, quando
os concursos ganharam um novo layout e se transformaram em festivais. Os
clebres Festivais da Msica Popular Brasileira.
Isso se deu a partir de 1965, com "Arrasto", costuma-se dizer.  que
nem todos se lembram que o primeiro festival competitivo de canes na
histria da msica popular brasileira foi promovido no final de 1960
pela Rdio e TV Record. Embora sem grande repercusso, esse  que foi
cronologicamente o nmero 1 entre os de mbito nacional com participao
de compositores de outros estados. O que aconteceu no Rio de Janeiro em
setembro desse ano, denominado "As 10 Mais Lindas Canes de Amor", era
evidentemente restritivo. Foi criado pelas lojas O Rei da Voz e a
gravadora Copacabana, tendo como vencedor Ary Barroso com a "Cano em
Tom Maior", interpretada por Ted Moreno, que no fez carreira, ao passo
que "Poema do Adeus", de Luiz Antnio com Miltinho, e "Ternura Antiga",
de Ribamar e Dolores Duran com Lucienne Franco, outras duas entre as dez
eleitas, se projetaram atravs do tempo. O espectro desse "Festival do
Rio" era circunscrito ao mbito carioca, enquanto o Festival da Record
tinha ambies maiores, como se ver. Alis no se chamava festival. Nem
concurso. A I Festa da Msica Popular Brasileira aconteceu no Guaruj,
em dezembro de 1960. Nem os que dela participaram se lembram muito bem.
Sobraram poucos rastros. Numa certa manh, Paulinho Machado de Carvalho
chamou seu assistente Zuza para uma reunio em sua sala do edifcio das
trs Emissoras Unidas de rdio, a PRB 9, Rdio Record, apelidada de "A
Maior", a Rdio So Paulo, PRA 5, a emissora das novelas dirigida pelo
dr. Passos, e a Rdio Panamericana, PRH 7, que deixara havia muito de
ser a popular emissora dos esportes para se tornar uma pobre coitada
vagando como nau sem rumo pelas ondas do ter. Esse edifcio, na avenida
Miruna, 713, ocupava os fundos do estdio da TV Record nas cercanias do
Aeroporto de Congonhas, onde anteriormente existia um dos mais reputados
sales de festas de formatura da cidade, o Colonial.
Embora a TV Record fosse um confuso conglomerado de salinhas e sales,
corredores, escadinhas, passagens e puxados, o prdio da Miruna fora
planejado como se deve, abrigando os estdios das trs emissoras de
rdio e suas diretorias, tesouraria, departamentos diversos, discoteca,
lanchonete e a barbearia no terceiro andar, o ponto onde rolavam as
fofocas entre os homens. Mulher nem chegava perto. Cantores, locutores,
msicos e funcionrios em geral, cercados daquele perfume barato de
barbearia, falavam de futebol e contavam anedotas exclusivamente
masculinas, exceo feita  mais engraada e desbocada artista das
Emissoras Unidas, a passional cantora Isaurinha Garcia, uma mulher fora
de srie, divertidssima. Dos artistas vindos do rdio para a televiso,
Isaurinha e o comediante Adoniran Barbosa, que na poca no era l muito
reconhecido como compositor, eram as pratas da casa que mais brilhavam.
Suas vidas artsticas comearam e acabaram na Record.
Assim que entrei na sala, Paulinho me encarregou de uma nova misso:
"Zuza, quero que voc cuide desse caso. O Tito quer fazer esse festival
de msica e ns pensamos transmitir o que for possvel". Tito era Tito
Fleury, um simpaticssimo e bem-apanhado radialista, com a voz
envolvente indispensvel para a atividade. Fora locutor e ator do TBC
nos anos 40, quando casado com Cacilda Becker. Agora era jornalista e
diretor do rdio-teatro da Excelsior, PRG 9, 1.400 Khz, com estdios num
prdio da rua 24 de Maio. A sbria Rdio Excelsior tinha sido da Cria
Metropolitana e era famosa pela Hora da Ave Maria, pontualmente s 6 da
tarde, narrada com devoo por Pedro Geraldo Costa, que acabou se
elegendo deputado depois da fama que ganhou narrando a orao! Em 1960,
a Excelsior era vinculada ao grupo Folha da Manh.
Em 1959 Tito fizera uma viagem de frias  Europa, e resolvera ir a San
Remo, onde se realizava o festival da cano italiana.
O Festival di San Remo era realizado ao ar livre, e aberto a
compositores italianos e cantores do mundo. Idealizado pelo floricultor
Amilcare Ribaldi em 1946, somente se concretizou em 1951, atravs da
iniciativa do diretor do Cassino de San Remo, Pier Busset, associado ao
maestro da RAI, Giulio Razzi. Entre 29 e 31 de janeiro de 1951, foi
realizada a modesta primeira edio no salo de festas do Cassino, com
entradas a 500 liras que davam direito a assistir ao espetculo e a um
jantar. Foi vencido por Nilla Pizzi com "Grazie dei Fiori" e divulgado
apenas pela rdio. Quando foi transmitido pela televiso italiana em
1954, o Festival deu um passo vital para seu desenvolvimento, mas foi a
partir de 1958 que ele passou a exercer um papel de grande importncia
na msica popular do pas, marcando o fim da tradicional "canzone
alPitaliana". Nesse ano, surgiu um compositor e cantor vitorioso que
levou s Amricas e aos quatro cantos a nova cano italiana que surgia.
Quando Domenico Modugno cantou "Volare, oh oh", o mercado internacional
se abriu para a msica e at para o turismo na Itlia. Modugno, um dos
maiores artistas da msica popular de todos os tempos, luminoso como o
sol, estourou com "Nel Blu, Dipinto di Blu" e, no ano seguinte,
repetiria a dose com outra estupenda cano, "Piove", inspirada numa
cena a que assistiu na estao ferroviria de Pittsburgh, nos Estados
Unidos. Alm de Modugno e da nova cano italiana, o Festival de San
Remo tambm estava consagrado mundialmente. Em sua edio de 1959, Tito
Fleury estava na platia e ficou entusiasmado com a possibilidade de
criar um concurso semelhante com canes brasileiras. Tanto que trouxe
em sua bagagem uma cpia do regulamento.
Voltando da Europa, Tito apresentou sua idia ao jornal ltima Hora,
onde foi muito bem recebida tanto por Samuel Wainer quanto pelo diretor
da sucursal de So Paulo, Josimar Moreira. Como o jornal estava
promovendo o Concurso de Miss Luzes da Cidade de So Paulo, Josimar
vislumbrou a possibilidade de associar os dois eventos num s. Msica e
mulher bonita, uma grande jogada bem ao estilo do brasileiro, a cara da
ltima Hora.
Tito estava interessado na msica, e para que as canes fossem ouvidas
pelo povo, seria indispensvel transmitir pela televiso. Procurou a
Organizao Vitor Costa, pois tambm trabalhava na TV Paulista, canal 5,
com minsculos estdios num prdio prximo da esquina da Consolao com
avenida Paulista. Para sua surpresa, no houve muito interesse, e ele
decidiu levar a idia para a TV Record, canal 7, pois Paulo Machado de
Carvalho, o famoso "Marechal da Vitria" do futebol e diretor da
emissora, fora seu primeiro patro, em 1936, quando Tito era locutor da
Rdio Record.
A aproximao se deu de uma forma inusitada: Paulo Machado de Carvalho
Filho recebeu um telefonema do governador Jnio Quadros convidando-o
para almoar com Tito Fleury num apartamento que tinha na avenida So
Joo. Foi nesse almoo que, pela primeira vez, ventilouse a idia de se
realizar o festival.
Paulinho, que j estava intensamente ligado  msica popular, encampou a
idia com entusiasmo, o que no era de estranhar. Quando diretor da
rdio, estava sempre inventando promoes que conseguiam envolver grande
parte da populao da cidade, e a proposta de Tito Fleury parecia estar
dentro do esprito daquelas iniciativas. Na Record j existia, por
exemplo, o Concurso de Garons, o Concurso de Bandas, coordenado pelo
ativo organizador comendador Siqueira, e o clebre Concurso de
Resistncia Carnavalesca, em que os casais ficavam danando horas e
horas noite adentro, um dia, dois dias, at no agentarem mais. Esse
esprito brincalho, que a alguns parecia um exagero, era uma
caracterstica dos Amaral, a famlia de dona Maria Luiza Amaral de
Carvalho, me de Paulinho.
A idia de Tito Fleury tinha o feitio para se encaixar como mais uma
promoo do calendrio da Record: um concurso de msicas. Paulinho
prometeu transmitir a festa pelas rdios e pela televiso, dando o
suporte necessrio para a organizao do evento. Foi designado o maestro
Silvio Tancredi para avaliar as partituras das concorrentes que viessem
a ser inscritas atravs da divulgao na ltima Hora e na prpria Rdio
Record. Aceitavam-se canes, sambas, valsas, maxixes, enfim, ritmos
brasileiros, e foram inscritas entre 300 e 400 msicas, sob a forma de
partituras primrias. As msicas seriam devidamente orquestradas pelo
maestro da Rdio Record, Zico Mazago, um alto de cara comprida que
lembrava o dolo do cinema italiano Tot. Seriam defendidas por alguns
elementos do cast fixo da emissora, alm de cantores da noite como Mag
May, Nelson Alencar, Joo Vicente e Mariana Ribeiro, totalmente
desconhecidos at mesmo na rdio. Em compensao, a premiao era
prdiga: confeccionados pela H. Stern, os trofus Noel de Ouro eram
destinados aos trs primeiros colocados; havia medalhas de ouro, prata e
bronze para os trs seguintes e ainda mais 15 outras para os demais.
Prmios at o vigsimo primeiro colocado. Os patrocinadores faziam
questo de que ningum sasse de mos abanando da festa. Um deles era o
Clube dos Artistas e Amigos da Arte de So Paulo, o clebre Clubinho,
que j ocupava o subsolo da rua Bento Freitas, 306, onde a msica sem
muito compromisso era providenciada pelo pianista Polera, irmo de
Joubert de Carvalho, um bomio e tanto. Para selecionar as 21 msicas,
foram realizadas quatro eliminatrias, duas no Clubinho e duas no Teatro
Record, estas ltimas televisionadas.
Neide Fraga, do elenco fixo da Rdio Record, cantou numa das duas
eliminatrias televisionadas no Teatro Record para a I Festa da Msica
Popular Brasileira, o primeiro festival de carter nacional.
Havia muito que o Clubinho era um centro da bomia artstica paulistana,
local de fcil acesso para jornalistas, pois as redaes eram todas no
centro da cidade, e baixar naquele poro onde todo mundo se conhecia era
a melhor pedida para os longos papos aps o trabalho. No entanto, a
repercusso do festival foi mnima. No havia nenhum nome muito famoso
entre os autores das 21 msicas finalistas divulgadas pela comisso
julgadora, num jantar no prprio Clubinho, em 29 de novembro de 1960. A
reunio para essa seleo se realizara na vspera e a final j tinha
data marcada: seria no Guaruj, no primeiro fim de semana de dezembro
daquele ano.
Porm, a parte musical da I Festa da Msica Popular Brasileira seria
apenas um dos itens no meio de uma programao ultramovimentada. A turma
do Clubinho sabia fazer festas e criar badalaes melhor que ningum.
Deveria durar quatro dias.
s 9 horas da ltima quinta-feira de novembro de 1960, um alegre bando
de cantores e msicos da Record saiu de So Paulo, a bordo dos nibus da
Viao Cometa, chegando para almoar, participar de um coquetel e jantar
na piscina do mais chique balnerio do estado, o Guaruj, a prola do
Atlntico.
Nos anos 50, chegava-se ao Guaruj de duas maneiras: os mais abonados,
de automvel, aps cruzarem de ferryboat o canal por onde os navios
entravam no porto de Santos. Havia vrias balsas, mas quando atracava a
Cunhambebe, a maior delas, era uma comemorao na fila de espera. Ia dar
para todo mundo embarcar e, no se espantem, sua capacidade era de oito
automveis. Enquanto isso, a turma p-de-chinelo tinha que ir at a
Ponta da Praia, caminhar at o ancoradouro, atravessar de balsa e, do
outro lado, pegar um trenzinho de trs romnticos vages de madeira que,
nos anos 30, estacionava no Petit Casino, quase defronte ao Grande
Hotel, at o ponto final ser removido, anos depois, para a rua detrs, a
Mrio Ribeiro. Aps a desativao da linha frrea, os vages foram
levados para o interior de So Paulo, onde continuam funcionando; uma
das velhas locomotivas acabou virando trofu.
O grande centro de animao da estncia balnearia, nos anos 60, era o
complexo do hotel, cassino e piscina, situados na orla da magnfica
praia de Pitangueiras, onde as ondas, muito maiores e mais atraentes que
as de Santos, espumavam para morrer na areia fina e branca, o que tambm
no existia nas praias santistas, duras e acinzentadas. Bem defronte de
Pitangueiras havia a ilha Pombeva, alcanada apenas pelos exmios
nadadores, e, j mais alm, o mar aberto. O nome oficial do luxuoso
Grande Hotel, de linhas arquitetnicas europias com uma grande varanda
defronte  calada, decorado com vitrs e lustres de cristal e forrado
de tapetes persas era Grande Hotel de La Plage. L se hospedou a nata da
sociedade brasileira, figuras marcantes da indstria paulista e
personalidades como Santos Dumont, que se enforcou em um de seus quartos
em 1932. O auge do Grande Hotel foi nos anos 40 e 50, aps a abertura da
Via Anchieta, mas quando os abonados freqentadores do Guaruj comearam
a adquirir apartamentos nos edifcios que foram construdos, entre eles
o emblemtico "Sobre as Ondas", o hotel no conseguiu suportar a
concorrncia, sendo finalmente demolido em dezembro de 1961. A seu lado,
separado pela rua Nami Jafet e explorado pela famlia Bianchi, ficava o
Cassino do Guaruj, de linhas mais modernas, que, aps o grande favor
que o presidente Dutra prestou  classe artstica do pas, extinguindo o
jogo no Brasil em 1946, passou a abrigar um concorridssimo jogo
carteado, freqentado sobretudo pelas senhoras cujos maridos "davam duro
no trabalho" na capital paulista.
Defronte ao Grande Hotel, do outro lado da avenida Marechal Deodoro, com
suas caladas de cor rosada, ficava a maior atrao do Guaruj nos anos
60, o famoso Grill do Guaruj. Seu principal atrativo era a piscina em
forma de ameba, rodeada pelo bar semicoberto de um lado e tendo do outro
uma escada que parecia flutuar no espao com seus degraus de placas de
concreto, conduzindo ao mezanino apoiado em colunas em V. Era mesmo um
conjunto espetacular, cercado por um muro alto e muita vegetao, cuja
face externa, frente ao mar, morria na prpria areia da praia.
A piscina era o point obrigatrio por onde circulava invariavelmente uma
"dona boa" que se esticava ao sol, ou onde se reunia um grupo de "gente
bem" bebericando em alguma mesa. Era freqentada pelos playboys e pelas
mais lindas e cobiadas socialites da Paulicia, como Carmen Terezinha
Solbiatti (Mayrink Veiga depois de casada), Nelita Alves de Lima, as
irms Lcia e Ceclia Matarazzo (que se tornaram respectivamente Falco
e Braga), e a deslumbrante Xinha D"Orey, que fora Glamour Girl do Clube
Harmonia de So Paulo. A homarada girava em torno dessas e outras
puro-sangue. No vero era certo encontrar numa das mesas, contando casos
com seu vozeiro que ecoava pelo ambiente, o engraadssimo Srgio
"Cavalo" (Srgio Barbosa Ferraz), um dos habitues, bem como Antnio
Augusto Rodrigues, Ricardo Fazzanello, Olmpio e Eduardo Matarazzo, que
tiveram um famoso arranca-rabo com o delegado da cidade. Sentado  beira
da piscina, geralmente com um copo de usque na mo, depois de vrios j
consumidos, ficava o mais lido cronista social, Mattos Pacheco, do
Dirio de So Paulo, facilmente reconhecido pela sua boca torta. Aquele
era o centro dos potins mais alvissareiros tanto para ele como para
outros cronistas, como Ricardinho Amaral, o criador da coluna Jovem
Guarda no Shopping News e depois obrigatria na Ultima Hora. Foi nessa
piscina que, segundo se conta, o playboy por excelncia, Baby Pignatari,
clebre por suas histricas gozaes, ofereceu certa vez a algumas
garotas um love de atraentes maios de um material novo que ele trouxera
dos Estados Unidos, capaz de modelar seus corpos como nenhum outro
tecido. Cada uma pegou o que mais gostou e foi ansiosa vestir-se para
exibi-lo  platia ouriada. A rapaziada postou-se  volta da piscina,
aguardando a exibio prestes a acontecer. Bastou que mergulhassem para
que em poucos minutos os maios se dissolvessem como que por encanto,
desintegrando-se misteriosamente na gua da piscina. Num instante, todas
ficaram nuazinhas e desesperadas, sem saber o que fazer diante da
platia que se escangalhava de dar risada. Isso  que era acontecimento.
Para os hspedes do Grande Hotel, bastava atravessar a rua, passar pela
borboleta e desfrutar daquelas delcias exclusivas, dar um mergulho,
tomar uma cuba-libre ou um ice-cream soda. Quem no era hspede pagava
uma taxa de entrada e, pronto, estava naquele recanto ednico onde as
coisas de fato aconteciam. A piscina do Guaruj celebrizou-se tambm por
programar shows e msica danante de qualidade.
O Guaruj era mesmo sinnimo do que havia de mais charmoso em matria de
praia no estado de So Paulo, donde ter sido logicamente escolhido para
a final do grande evento. Era o balnerio dos paulistas que mais se
parecia com San Remo. E o Gnll seria o ambiente ideal para a grande
festa.
Os participantes, artistas, modelos e jornalistas quase no tiveram
tempo livre. Devidamente credenciados e alojados com as garotas do
concurso Miss Luzes da Cidade, convidados e concorrentes se esbaldaram
com a intensa programao. O concurso de Miss Luzes era uma conhecida
promoo da ltima Hora, comandada pelo costureiro Alberto Mauro em sua
coluna diria no jornal. Alis, Alberto era considerado por Mattos
Pacheco o costureiro das estrelas de rdio, televiso e teatro, e estava
naquele fim de semana lanando a linha Musical, homenagem aos artistas
em geral. Depois do desfile, Pacheco escreveria em sua coluna estar
decepcionado, e que "os vestidos da linha Musical do... d".  de notar
que uma das manecas desse desfile, justamente a Miss Luzes da cidade,
Manlda Moreira, iria iniciar ali uma vitoriosa carreira no Brasil. Em
abril de 1963, ela seria contratada como manequim da Rhodia e, como a
elegantssima Mila, se tornaria a maior atrao dos seus desfiles.
Naqueles dias de 1960, houve banho de mar, visitas  praia de Pernambuco
e at  Base Area, um belssimo coquetel durante a visita ao Forte,
almoos e jantares danantes, mas quem mais abafava eram mesmo as
garotas com seus biqunis. Finalmente, no sbado, 3 de dezembro, teve
incio a ltima seqncia de atividades presenciada pelos convidados,
que lotavam todas as dependncias do hotel, alm de cinegrafistas,
animadores, cmeras, locutores e elementos das gravadoras. Foi imaginado
de tudo para entreter os convivas: mais banho de mar, mais almoo, uma
corrida de garons, uma gincana e as evolues, por todos presenciada,
do helicptero da Record. s 19h30 foi servido um jantar  volta da
piscina, com bale aqutico, desfile de moda tendo como manequins a Miss
Luzes e suas princesas, seguindo-se um show com os maiores nomes do cast
da Record. L estavam Cmderela, a bonequinha loura de olhos puxados da
TV que namorava o gal Randal Juliano, o comediante Chocolate, que
revirava os olhos e tambm compunha nas horas vagas, o brotinho Paulo
Molm, o elegante locutor Jorge Magalhes, alm de outras conhecidas
pratas da casa, as cantoras Neide Fraga, Neide Salgado, Dircinha Costa e
Estherzmha de Souza. Embora sem receber cach extra, a Festa do Guaruj
fora para eles um verdadeiro bnus.
Normalmente, esses artistas da Rdio Record eram escalados para estar s
6h30 da manh do domingo na Praa da S, a fim de pegar o nibus que os
levaria a algum bairro paulistano, de onde era transmitido o programa
matinal Alegria dos Bairros, com produo de Waldir Buentes. Ou ento -
grande vantagem! - participar do Aqui Est a Record, transmitido s
segundas-feiras, cada vez de um diferente cinema de bairro. Isso, fora
os programas de auditrio regulares. Dessa vez, seu super fim de semana
nada tinha a ver com o "Tristeza dos Bairros", como era chamado. Era
praia, hotel, comida da melhor, garotas, muita badalao, tudo de graa.
Os freqentadores do Guaruj estavam animadssimos com a novidade da
festa, apesar de o Festival de Cinema programado para o comeo do ano se
constituir, como j era hbito, no grande acontecimento do vero que se
aproximava. Os ingressos haviam se esgotado e alguns santistas que
pretendiam assistir a festa no tiveram outro jeito seno regressar sem
conseguir acomodao e sem ver nada. "O povo se comprimia junto aos
muros da piscina", descreveu o ento reprter destacado pela Ultima
Hora, Ignacio de Loyola Brando, que, de cmara fotogrfica em punho,
sacava fotos no saguo do hotel. Aquele publico no estava to
interessado assim em conhecer as canes, como se imagina, mas sim em
ver o desfile das garotas.
A comisso julgadora, que comeou a ouvir as concorrentes apenas  1 da
manh, era o que havia de mais ecltico: tinha gente do cinema, como a
atriz Ruth de Souza e o cangaceiro Milton Ribeiro, o escritor Mrio
Donato, a gordota cronista social Irene de Bojan, com seus culos de
lentes tipo fundo de garrafa, o presidente do Conselho Municipal de
Turismo, Amrico Nagib, e logicamente o prefeito Jaime Daige, que tinha
tido o privilegio de colocar a faixa de Musa do Ano de 1960 em Anmk
Malvil, uma francesinha starlet do cinema brasileiro, que sabia como
ningum fazer-se de gostosa. E dava lies de autopromoo ao gravar com
um sotaque afrancesado para chamar a ateno.
O apresentador Jorge Magalhes ia anunciando, com sua voz imponente e
agradvel, as musicas concorrentes interpretadas pelos cantores
acompanhados da orquestra. Cavalheiros trajados a rigor e damas de
longo, como em todos os programas de gala da televiso. Apesar de
prometido, nem a TV Record ou TV Rio, nem a Rdio Jornal do Comercio do
Recife ou Guarani de Belo Horizonte transmitiram a Festa da Msica. S
as Rdios Record e Panamericana.
Entre os compositores concorrentes, o de mais evidncia era o carioca
Armando Cavalcanti, autor de marchas de carnaval como "Maria
Candelria", "Maria Escandalosa" e "Papai Ado", alm do tema do filme
Somos Dois, um samba-cano gravado por Dick Farney. Descrito numa
reportagem como "magro, bem-falante, fumando Liberty e munido de drops
de cevada", ele conquistou a imprensa, elogiou a festa "para tirar o
autor da condio de desconhecido". Do Rio Grande do Sul, inscrevera-se
o folclorista gacho Barbosa Lessa, famoso pelo "Negrmho do Pastoreio",
e entre a grande maioria de paulistas estava a bossa-novista e tima
violonista Vera Brasil. Pouco se sabia dos demais. Inclusive do advogado
Vadim da Costa Arsky, tambm bossa-novista, que conseguiu emplacar nada
menos que trs canes entre as 21 classificadas. Havia seis sambas,
cinco sambas-cano, alem de marchas-rancho, congada, baio e canes.
Aps a apresentao das msicas, a comisso se reuniu enquanto a
orquestra tocava marchas e sambas para um carnavalzinho  beira da
piscina. Como o tempo foi passando e nada do resultado sair, os
compositores decidiram ento improvisar um regional, cantando e
batucando  nas mesas. Algum se arrisca a dizer que horas eram a essa
altura dos acontecimentos? Pois somente s 5h30 da manh  que saiu o
resultado anunciando a vencedora, "Cano do Pescador", a mais
aplaudida, de um autor carioca pouco conhecido na poca, o pianista
Newton Mendona. Na eliminatria do Clubinho fora cantada por Mag May,
mas nessa noite foi defendida por Roberto Amaral, um moreno alto e
bonito que namorava a cantora Neide Fraga, mas que jamais gravou
"Cano do Pescador". O prometido LP desse festival nunca saiu.
Que foi feito ento das outras msicas, onde foram parar "Afinado",
"Continue a Tentar", "Juzo Final", "Eu" e tantas outras? Que se saiba
s "Rimas de Ningum", da Vera Brasil, foi aproveitada. Ela mesma
gravou-a em junho de 1964 com arranjos do genial e lendrio baixista
Boneka, num disco para o mercado americano da etiqueta Revelation,
dirigida por Bill Hardy, um f de msica brasileira. Comeava assim:
"Lua deserta procurando algum, algum...".
Observando a relao completa dos jurados,  com espanto que se vai
constatar que um deles tinha o mesmo nome do vencedor. Esse componente
do jri era Nilton Mendona, jornalista responsvel pela coluna de rdio
e televiso Vendo e Ouvindo, ao passo que o Newton Mendona vencedor do
Festival, parceiro de Tom Jobim em "Desafinado" e "Samba de Uma Nota
S", jamais poderia estar no Guaruj a 3 de dezembro de 1960. Quem
recebeu o prmio Noel de Ouro foi Cirene Mendona, sua mulher, presente
 festa. O compositor e letrista, homnimo do jurado, havia morrido dias
antes, a 22 de novembro de 1960. Enfarte fulminante.
Dona Cirene fora convidada pela produo e, embora ainda abalada pela
morte do marido, foi muito cumprimentada ao receber o prmio. Essa foi
mais uma demonstrao do quanto a vida havia sido tortuosa para Newton
Mendona. No pde gozar a satisfao pela vitria, e ainda, por ironia,
o jurado homnimo seria depois abordado em So Paulo e cumprimentado por
um prmio que no era dele, embora, diga-se de passagem, fizesse questo
de esclarecer a coincidncia.
Gravada em 1961, por Marisa Gata Mansa, em um LP da Copacabana com
quatro msicas de Newton, "Cano do Pescador"  uma cano melanclica,
bastante simples, com versos que podem ser interpretados como
premonitrios, traduzindo de maneira crua o estado de nimo de seu
autor: "L onde a praia termina/ mora um homem cansado da vida... que
foi moo e sonhou tantas vezes/ e em noites de lua fez tanta cano/
minha vida est perto do fim/ tudo  triste,  triste pra mim/ meus
cabelos j tm cor do mar/ quando  noite de lua e eu no posso
sonhar...".
No dia seguinte  festa, domingo, houve uma indefectvel partida de
futebol pela manh e a caravana da Record partiu do Guaruj depois do
almoo. Todo mundo exausto, nos nibus da Cometa. Estava acabada a Festa
da Msica Popular Brasileira sem que ningum tivesse visto o que
aconteceu pela televiso.
Talvez seja essa uma razo para explicar por que quase nenhum dos seus
participantes consiga descrever aquela noite. Por mais que se esforcem,
cantores, jornalistas e compositores ainda vivos no se lembram de quase
nada. Por outro lado, a intensa programao naqueles dias murchou a
importncia da parte musical, que acabou sendo apenas mais um item, e
sem a mesma projeo dos desfiles de misses. Mas a grande desvantagem
foi a escolha dos intrpretes. Certamente, aquelas mesmas canes
chegariam muito alm na voz de outros cantores. Faltou cantor, faltou
cantora.
Foi precisamente essa a mudana fundamental na proposta levada alguns
anos depois a outra emissora de televiso por um jovem produtor que
ficaria associado para sempre  realizao de festivais na msica
popular brasileira.
Captulo 2
"ARRASTO"
(I FESTIVAL DA TV EXCELSIOR, 1965)
Nos quatro anos seguintes, de 1961 a 1965, a msica na cidade de So
Paulo iria passar por uma substancial transformao, rotulada na
imprensa como movimento de integrao da msica popular. Sem se
identificar como uma tendncia, essa transformao foi se dando
gradativa e espontaneamente em bares e teatros, na televiso e nas
rdios paulistas, com a mudana dos programas de "palco-auditrio" para
os de estdio.
Afora as novelas da Rdio So Paulo, que viviam seus estertores de
suspiros e lgrimas atravs do ter, as atraes em que se concentravam
as trs grandes emissoras paulistas, Tupi, Record e Nacional,
representavam o ocaso dos espetculos ao vivo, que na dcada anterior
atingiram o auge. No comeo dos anos 60, ainda desfilava diariamente em
seus auditrios um respeitvel cast de locutores (Homero Silva, Drcio
Ferreira, Ribeiro Filho, Francisco Renato Duarte) e humoristas (Vicente
Leporace, Maria Amlia e Jos Rubens, Pagano Sobrinho, Adoniran Barbosa)
que davam vida aos textos dos redatores e produtores (Thalma de
Oliveira, Oswaldo Molles, Tlio de Lemos, Armando Rosas, Jlio Atlas),
alm de cantores, orquestras e conjuntos regionais, levando sentimento
s canes nacionais e internacionais. Programas jornalsticos, s de
manh cedo, como o proverbial Grande Jornal Falado Tupi, de Corifeu de
Azevedo Marques, em que preponderava a voz solene de Alfredo Nagib. Os
poucos programas de discos, logicamente de 78 rotaes, comeavam em
geral depois de meia-noite. Os ouvintes vidrados em msica americana no
perdiam um Midnight na Cultura, cujo prefixo era o intimista "Midnight
Masquerade", com o guitarrista Alvino Rey. Antes do sol raiar, vinham as
modas para a caipirada, no volume mximo e pela PRB 9, "A Maior", numa
oferta do sabo Minerva, com a grande autoridade no assunto, Raul
Torres, lder do trio Torres, Florncio e Rieli, os "trs batutas do
serto". Durante o dia, poucas opes: tangos, tambm em 78 rotaes
"por supuesto", anunciados pela voz arranhada de Loureno Amadeu,
anttese do padro vigente, na Rdio Cruzeiro do Sul, depois
Piratininga. Ou big bands e cantores americanos aps a hora do almoo no
Ecos da Broadway, com o saudoso Renato Macedo, pela Excelsior,
introduzido pelo "In the Mood", com a orquestra de Glenn Miller.
s emissoras, cabia encontrar novos formatos para fazer frente quela
considervel produo radiofnica dos anos 50, que ia ao ar diariamente
sem se repetir, e ingressava na fase terminal de seu domnio no cenrio
radiofnico paulistano, a exemplo das correspondentes cariocas,
Nacional, Tupi e Mayrink Veiga. Pois coube  Rdio Bandeirantes, a mais
popular emissora paulista, instituir em So Paulo as bases de um novo
formato, calcado em programao de estdio, sem auditrio, sem um cast
daquelas propores, que mudaria radicalmente as estruturas da
programao radiofnica.
A base dessa mudana pioneira em So Paulo, rotulada inicialmente de
RB-55, se assentava no tringulo jornalismo, esportes e msica com disc
jockeys. No primeiro vrtice, imprimia-se uma vivacidade indita aos
principais noticirios, Titulares da Notcia e Primeira Hora (no ar at
os dias de hoje, no mesmo horrio das 7 s 8), nas vozes de Franco Neto,
Antnio Pimentel e Salomo Esper, sob o comando de Alexandre Kadunk;
enquanto no segundo vrtice, Edson Leite, que tambm era o diretor
artstico, encabeava o Scratch do Rdio, uma equipe esportiva de
arrebentar a boca do balo: os dois mais vibrantes e estilistas
narradores da poca, o prprio Edson e Pedro Luiz; dois comentaristas de
escol, o finssimo e irnico Mrio Morais e o gentleman Mauro Pinheiro;
os mais geis reprteres de campo, Slvio Luiz e Ethel Rodrigues; e
ainda Braga junior, Darcy Reis e uma vasta equipe, para transmitir os
joguinhos chinfrins atravs da "Cadeia Verde-Amarela Norte-Sul do
Brasil". O terceiro membro desse triunvirato da PRH 9 era Henrique Lobo,
que dirigia a programao musical. Henrique era um radialista
diferenciado, filho do maestro Elias Lobo Neto, neto do maestro Jernimo
Lobo, bisneto do maestro Elias Lobo e ele prprio pianista, tendo
estudado com sua tia Menininha Lobo. Henrique atuou decisivamente na
fixao dos programas de disc jockeys em diferentes faixas de horrio,
para fazer frente aos espetculos de auditrio das trs grandes.
Vrios disc jockeys de duas emissoras paulistas em particular,
Bandeirantes e Excelsior, eram experts em msica popular. Alm de
anunciar, discutiam a matria com conhecimento de causa, programavam
msicas ainda consideradas elitistas, chegando a provocar a ira dos
departamentos comerciais, que acomodadamente preferiam o bvio. O
prprio Henrique Lobo (que apresentava  Disco Que Eu Gosto e Varig 
Dona da Noite na Rdio Bandeirantes), Walter Silva (Pickup do Pica-Pau,
com duas horas no horrio do almoo, tambm na Bandeirantes e mais tarde
na Excelsior), Humberto Marcai (com Mil Discos  o Limite e Sambalano
na Bandeirantes), Fausto Canova (com o Tribuna Musical na Excelsior e
assumindo, aps a sada de Humberto Marcai, o Sambalano na
Bandeirantes), alm dos irmos Macedo, Fausto (com o Arquivo Musical na
Bandeirantes) e Ricardo (com o Discomentando e O Diabo Disse No, ambos
na Excelsior), eram os nomes mais destacados, afora Moraes Sarmento, do
mesmo nvel, embora mais apegado ao tradicional. Esses radialistas
estavam atentos ao que era lanado pelas gravadoras, e tambm ao que
corria nos bares e bocas, em decorrncia do incontestvel avano que a
bossa nova produziu no conceito de forma musical no Brasil. Ao lado de
alguns discotecrios e programadores, como Magno Salerno da Rdio
Cultura, eles formavam uma elite de apresentadores e programadores
musicais nunca antes igualada nas rdios paulistanas, mantendo um
compromisso com o que anunciavam, mostrando discernimento e
independncia no que escolhiam para seus programas, alm da capacidade
de perceber que algo novo e importante estava acontecendo e devia ser
difundido entre os ouvintes. O sucesso nacional de "Desafinado" com Joo
Gilberto, por exemplo, alm do trabalho do divulgador da Odeon Adail
Lessa, fora detonado em 1959, quando o Pica-Pau parecia estar empenhado
numa campanha poltica, de tanto -que repetia e elogiava o disco. Como
um dos responsveis pela divulgao que Joo Gilberto teve em So Paulo,
apresentou em seu programa a gravao do Concerto de Bossa Nova no
Carnegie Hall, que assistira em Nova York. Por outro lado, o destacado
apresentador Fausto Canova criou uma verdadeira escola em que o bom
gosto, o comedimento nas crticas e a abertura para o novo foram a
tnica de todos os programas que produziu e apresentou. Alis, o nico
deles em atividade at o presente momento e mantendo os mesmos
princpios.
Os citados radialistas tinham, dessa forma, sua participao na abertura
do gosto musical dos ouvintes ou, ainda, na preparao de seu
subconsciente para o que de mais denso ocorria na msica popular do
pas. Os programas tipo hit parade eram, como sempre aconteceu, mais
acomodados, podendo ser exemplificados por Telefone Pedindo Bis e
Atendendo o Ouvinte, apresentados por Enzo de Almeida Passos, Parada de
Sucessos das Lojas Assumpo, por Hlio de Alencar, com a clssica
abertura das clarinadas de "Saint Louis Blues March" pela orquestra de
Glenn Miller, e Grande Musical G-9, com Odilon Arajo. Eram atados ao
que mais vendia, no interessando muito nadar contra a corrente.
Ouviam-se neles muitos boleres e semelhantes, nivelados pelos "Algum
Me Disse", "Fica Comigo Esta Noite" e "Esta Noite Eu Queria Que o Mundo
Acabasse" da vida: a pura essncia do cafonismo. Dessa forma, as rdios
paulistanas tinham programas de discos para gostos bem diferentes: de um
lado, os sucessos das paradas, boleres como "Tenho Cime de Tudo" ou
"Perdoa-me Pelo Bem Que Te Quero"; de outro, canes como "O Amor em
Paz", "O Barquinho", "Quem Quiser Encontrar o Amor", identificadas com
um segmento bem definido. Onde estaria ento o futuro da msica
brasileira? O tempo se encarregaria de dar razo queles programadores.
Os radialistas paulistanos, que formavam a faco pacfica e eficaz na
formao do gosto musical, contriburam  sua maneira para o surgimento
de ncleos na classe estudantil que tiveram iniciativas surpreendentes,
a ponto de superar a atividade que deveria ser exercida por promotores
profissionais. A moda de espetculos de bossa nova, uma rplica
paulistana dos shows universitrios de bossa nova no Rio de Janeiro mais
de um ano antes, proliferou a partir de 1961.
Em 27 de junho desse ano, foi realizado com sucesso incomum, no
auditrio Ruy Barbosa da Universidade Mackenzie, o pioneiro espetculo A
Bossa Nossa, que daria origem  srie conhecida como Show da Balana. A
sala com poltronas de madeira ficou abarrotada com mais de 1.500 pessoas
ocupando at as alas de passagem para assistir s cantoras Claudete
Soares (apelidada de "transistor" em virtude de seu tamanho), Maricene
Costa, Alade Costa e Ana Lcia (uma das intermedirias na organizao)
e aos convidados do Rio: Baden Powell, Geraldo Vandr, Vinicius de
Moraes e Joo Gilberto, que trouxe a ento desconhecida em So Paulo
Nara Leo. Joo j tinha seu pblico em So Paulo, embora tivesse
causado comentrios controvertidos quando se apresentara em maio de 1960
no Club Paulistano: chegou a parar o show quando esqueceu a letra de
"Desafinado". Mas, no show do Mackenzie, ele abafou, sendo o mais
aplaudido. Foi esse o primeiro espetculo paulista de grande repercusso
que vinculava a msica popular contempornea a centros estudantis.
No mesmo dia de setembro em que o Centro Acadmico Horcio Lane, da
Engenharia do Mackenzie, promoveu um show antagnico ao show de bossa
nova, o Cancioneiro do Brasil, produzido por Alberto Helena Jnior,
apresentado por Srgio Porto, mas com a velha guarda (Cyro Monteiro,
Cartola, Ataulfo Alves, Jacob do Bandolim, Aracy de Almeida e Silvio
Caldas, entre outros), as alunas "gente bem" do Colgio Ds Oiseaux
arriscaram produzir seu showzinho no fechadssimo Club Harmonia, que no
queria ficar atrs do Paulistano. Foi mais um espetculo com a turma da
bossa nova: Vinicius, Baden Powell, Alade Costa e Joo Gilberto. Em
novembro, foi a vez do Club Pinheiros, que reuniu Joo Gilberto, Baden
Powell e outros, tambm num espetculo de bossa nova para seus
associados.
No entanto, essa crescente movimentao em torno do gosto musical da
juventude mais abonada no era claramente percebida pela televiso. Na
Record, artistas da bossa nova como Joo Gilberto cantavam apenas em
ocasies muito especiais, como na entrega do Trofu Chico Viola de 1960,
quando aconteceu nos bastidores um tremendo bate-boca entre ele e o
compositor Tito Madi. Nos camarins do Teatro Record, em 14 de janeiro de
1961, Joo quebrou um violo na cabea de Tito e ainda cantou depois.
Tito no pde entrar no palco: foi para o hospital.
O outro programa da TV Record que, esporadicamente, tambm abrigava
artistas de vanguarda era a parada semanal de sucessos Astros do Disco,
apresentada pelo casal mais assduo da telinha na poca, o po Randal
Juliano e a sempre impecvel morena Idalina de Oliveira.
Na necessidade de conquistar audincia, a TV Excelsior era menos
conservadora, incluindo com mais assiduidade Joo Gilberto e boa parte
dos nomes que ainda se projetavam, como Tom Jobim, Vinicius de Moraes e
Carlos Lyra, egressos da bossa nova.
Impulsionada pelo estonteante capital do empresrio Mrio Wallace
Simonsen (1909-1965), amealhado com seus negcios como exportador de
caf atravs da Comal, a TV Excelsior tornou-se uma das mais de 40
empresas do poderoso grupo Simonsen (ao lado da Panair do Brasil,
Cermica So Caetano, Wacin Importao e Exportao e Super Mercados
Sirvase) quando seu filho, o educadssimo e viajadssimo Wallinho
(Wallace Cochrane Simonsen Neto), ficou fascinado com a idia de montar
uma rede nacional de televiso, a exemplo das cadeias norte-americanas,
o oposto do que pensavam nas Emissoras Unidas os Machado de Carvalho, da
TV Record, e os Amaral, da TV Rio, que viviam s turras.
Mrio se tornara bilionrio comprando diretamente dos fazendeiros safras
inteiras de caf que, com seu cacife incalculvel, conservava estocadas
pelo tempo que fosse necessrio, at o momento de vender para o mercado
exterior em poca de geada ou de safra baixa. Desse modo, conquistava
lucros fabulosos que engordavam suas contas bancrias. Fiel a seus
antepassados, mantinha-as em libras esterlinas na Inglaterra, o que
provocava a ira de tycoons americanos, como Nelson Rockfeller, que
cobiavam tamanhas fortunas para seus bancos. Wallinho, um playboy culto
e bonito, era apaixonado por cinema, que conhecia bastante bem, e por
plo, esporte ao qual se dedicava sem medir conseqncias, no se
furtando sequer a mandar retirar metade das poltronas dos avies da
Panair - de seu pai,  bom lembrar - para transportar seus cavalos de
raa para o Reino Unido, onde vivia num castelo cinematogrfico.
Convenceu o pai a entrar na comunicao visual, ainda que sem objetivo
de lucros comparveis aos da Wacin ou mesmo da Panair. Assim, com
Wallinho na superintendncia e cercada de um certo diletantismo, nasceu
a emissora que iria superar a Tupi, canal 4, e a firme liderana da
Record, canal 7, lanando inovaes fundamentais para os padres da
poca.
Um grande show de duas horas e meia, com a presena de Ary Barroso,
Dorival Caymmi, Dick Farney e, notem s, Joo Gilberto, marcou a sua
inaugurao a 9 de julho de 1960. Realizado no Teatro Artur Azevedo, na
Vila Clementino, foi produzido pelo prprio diretor artstico lvaro
Moya e dirigido por Abelardo Figueiredo, com textos de Manoel Carlos,
que duas semanas depois estreava como produtor do canal 9 num programa
baseado nesse mesmo espetculo de inaugurao. Era o mais novo show
domingueiro, destinado a fazer histria na televiso brasileira, o
Brasil 60, estrelado por Bibi Ferreira, patrocinado pela Nestl e
presenciado por senhores engravatados e muito bem-vestidos, ao lado de
senhoras que chegavam a ir ao cabeleireiro para comparecer ao auditrio
lotado.
Manoel Carlos Gonalves de Almeida, que, como os pioneiros da televiso,
iniciou fazendo de tudo, de ator a cmera, j estava na TV Tupi desde
maro de 1951, passando sucessivamente pelas TVs Paulista (criada pelo
deputado Ortiz Monteiro), Record e Rio, antes de chegar  Excelsior,
onde permaneceu at meados de 1963 no comando desse programa destinado a
receber expressivos nomes da cultura nacional, entre escritores e
teatrlogos, polticos e maestros, seresteiros e cantores de bossa nova.
Seu ttulo foi mudando para Brasil 61, etc., acompanhando o ano em
curso, tendo estado fora do ar apenas por oito meses para retornar em
maro de 1963. Maneco, com seu rosto rechonchudo e nariz redondo, que
lhe davam uma aparncia de anjinho at a sua fase de autor de novelas da
Globo, quando deixou crescer a barba, sempre teve grande intimidade com
cantores clssicos da msica brasileira. Marcou suas produes na
Excelsior aglutinando cantores em parcerias inusitadas: Juc Chaves
cantou com Lamartine Babo, Joo Gilberto com Orlando Silva... juntou at
um quarteto como jamais se sonhou: Carlos Galhardo, Orlando Silva,
Silvio Caldas e Dorival Caymmi. Alm de cantores, chargistas como
Ziraldo, Jaguar, Fortuna, Millr, comediantes como Oscarito, Cole,
Renato Corte Real, J Soares e Grande Otelo, ou personalidades como a
carnavalesca Eneida foram alguns dos convidados desse riqussimo
programa da TV Excelsior em seus anos de esplendor.
A programao do canal 9 fora baseada ironicamente na de outro canal 7,
o de Buenos Aires, e amplamente divulgada para captar em pouco tempo a
audincia dos concorrentes. O principal segredo eram os intervalos entre
programas, rigorosamente curtos, o oposto daquela abusiva e
descontrolada enxurrada de comerciais da Record, que chegavam s vezes a
mais de 20 minutos, deixando o povo, coitado, a aguardar pacientemente e
sem reclamar daquelas esperas monstruosas que tumultuavam a vida do
telespectador. Com uma divulgao originalssima atravs de simpticos
bonequinhos e um reloginho que destacava os precisos trs minutos dos
intervalos com apenas "quatro anncios" (no se usava ainda a expresso
"comerciais"), a Excelsior foi ganhando consistncia e audincia. Seu
primeiro diretor artstico foi o criativo lvaro Moya, que depois iria
se dedicar  rea cinematogrfica, sendo sucedido por Graa Melo de
outubro de 1962 at o incio de 1963. Em seguida, o cast da emissora
recebeu um reforo impressionante, atravs de sedutoras propostas de
salrios altssimos, nunca vistos na TV brasileira. O dinheiro corria
solto, e assim foram contratados, a peso de ouro e numa s enfiada, Lima
Duarte - mveis e utenslios das Associadas - e os produtores Tlio de
Lemos e Walter George Durst, tambm da Tupi. S faltou o big boss das
Associadas, Cassiano Gabus Mendes. Num evidente descontrole de despesas,
vieram ainda, com salrios vrias vezes superiores ao que ganhavam, o
prestigiado comentarista de futebol Mrio Moraes, o comediante Jos
Vasconcelos, o veterano seresteiro Silvio Caldas, a ex-cantora de
msicas espanholas Lolita Rodrigues, o compositor e cantor Luiz Vieira,
o comediante Walter Stuart, artistas e tcnicos em penca, causando
rebulio no controlado meio televisivo. At ento, as cpulas das
emissoras tinham um acorddHcito de no contratar artistas da
concorrncia. A Excelsior chutou o acordo para o espao e mandou bala.
Ao lado das contrataes milionrias, o canal 9 montou uma boa
programao cinematogrfica, cujos expoentes eram o Dr. Kildare e Ben
Casey, criou o Show de Notcias, com Fernando Barbosa Lima, e inaugurou
a era das novelas, a maior herana da televiso argentina. O custo da TV
Excelsior era astronmico, mas havia uma retaguarda financeira que
parecia no se esgotar jamais. Em janeiro de 1963, o casal top das
novelas, Tarcsio Meira e Glria Menezes, assinou com a Excelsior. At o
narrador de futebol Geraldo Jos de Almeida, um intocvel na Record, se
transferiu em maro de 1963 recebendo s de luvas quase US$ 10 mil. O
canal 9 tinha ainda sob contrato duas orquestras de grande prestgio em
So Paulo, a de Slvio Mazzuca e a de Enrico Simonetti, este com seu
exclusivo Simonetti Show.
Pode-se dizer que a TV Excelsior ganhou a simpatia definitiva da
audincia de So Paulo a partir de 1 de abril de 1963, quando a TV
Record cometeu o erro de estratgia ao anunciar um cantor misterioso que
tudo levava a crer fosse Frank Sinatra.
O comandante dessa verdadeira blitz nunca vista nos anais da televiso
brasileira era Edson Leite (1923-1983), que, vindo de Bauru, alcanara
fama como speaker de futebol da Rdio Bandeirantes em 1949, chegando ao
topo dessa atividade com sua voz segura e vibrante, sua presena de
esprito e frases com que cunhou seu estilo, como "meeeeu cronmetro
maaaarca...". Mas foi principalmente com o dinamismo de sua invulgar
habilidade comercial, negociando cotas de patrocnio de suas prprias
narraes, que Edson abriu a trilha como futuro diretor da Bandeirantes
e depois da TV Excelsior. Edson era pequeno e magricela, agitadssimo e
ultracriativo, tinha cabelos ondulados e rosto de pele bexiguenta,
cultivando o emblemtico bigodinho de radialista debaixo de uma bela
"napa". Ainda na Rdio Bandeirantes, uma de suas proezas para atingir a
liderana parece lorota de pescador: bolou aparelhos de rdio com
sintonia fixa, pregados nos 840 quilociclos, que eram distribudos
gratuitamente a bares e restaurantes para criar o hbito de ouvir a PRH
9. Em novembro de 1961, recomendado pelo prprio lvaro Moya, que
preferiu dedicar-se ao cinema junto a Wallinho, assumiu a direo geral
da TV Excelsior, trazendo como parceiro no setor comercial seu
inseparvel companheiro da Bandeirantes, Alberto Saad.
O arrojado Edson Leite, que no ligava a mnima para suas limitaes
culturais e gafes antolgicas - uma das mais clebres era o automvel
"VolksWagner" -, tinha um secretrio chamado Jos Bonifcio de Oliveira
Sobrinho, apelidado de Boni, que em 1963 foi guindado a diretor
artstico. Alm dessa enxurrada de contrataes, Edson, que deu uma
feio empresarial  TV Excelsior, implantou uma conscincia de rede de
televiso e regulamentou, com rigor nunca antes visto, a durao de cada
programa, a ponto de se poder acertar as horas pelo reloginho dos
intervalos. Com sua notvel percepo de marketing, descobriu logo que a
mercadoria que se vendia em televiso no eram programas, eram segundos.
Edson criou assim uma programao horizontalizada, promovendo a emissora
como jamais se vira. Expandiu a linha de shows (Noite de Gala, Times
Square, Vov Deville, com texto de Srgio Porto) e, aproveitando os
resultados na televiso argentina, introduziu em 1 de julho de 1961 "um
programa seriado trs vezes por semana", que ia ao ar s segundas,
quartas e sextas-feiras s 19h30: 2-5499 Ocupado, com texto e direo,
no por acaso, de dois argentinos, Alberto Migret e Tito de Miglio,
respectivamente. Tambm da Argentina, para onde Edson costumava viajar
amide, vieram o cengrafo Federico Padilla, uma continusta e outros
profissionais para o novo programa, que foi nada menos que a primeira
novela da televiso brasileira. Anos mais tarde, essa seria a base da
programao da TV Globo.
Valorizando os artistas brasileiros, inclusive com vinhetas
exclusivamente de msica nacional, em menos de seis meses a Excelsior j
era considerada lder. Corria o ms de outubro de 1963, quando o
bailarino Lennie Dale e o grupo Bossa Trs foram contratados.
Trs anos antes a TV Excelsior arrendara o excelente teatro da Sociedade
de Cultura Artstica, inaugurado em 1950 por um grupo de amigos da arte
na capital paulista. Apesar do risco de adulterar consideravelmente as
instalaes concebidas para uma sala de concertos, a renda desse aluguel
iria aliviar a situao financeira da entidade. Desde julho de 1955, a
Sociedade, dirigida pela famlia Mesquita, tentava administrar a
reconstruo do teto do teatro, que desabara. Com a converso de teatro
para televiso, a sala de concertos passou a ser o auditrio dos grandes
shows do canal 9, o pequeno auditrio do subsolo foi adaptado para
estdio de comerciais, as bilheterias, o foyer e outras salas viraram
escritrios, cabines e outras dependncias necessrias para as
transmisses, numa adaptao que assim permaneceu durante dez anos.
Situada na rua Nestor Pestana, a Excelsior estava praticamente no mago
da night life paulistana, a praa Roosevelt, que no era muito diferente
de um descampado de terra em quase toda a sua extenso. No havia
qualquer edificao, a no ser a Igreja da Consolao, na face oeste,
com as escadarias da entrada dando para a rua da Consolao, que mais
tarde seria alargada, e uma horta dos padres nos fundos. Nas suas ruas
laterais, Martinho Prado de um lado e Olinda de outro (posteriormente
rebatizada Joo Guimares Rosa), havia o Olinda Schule, depois Colgio
Visconde de Porto Seguro, e alguns dos bares que movimentavam a vida
noturna e musical da sociedade de So Paulo. ZZZ O mais afamado de todos
era A Baica, de Srgio Avadis e Heraldo Funaro, reinaugurado numa casa
velha da Martinho Prado, depois de ter sido fechado pelos comandos
sanitrios no seu endereo primitivo,  rua Major Sertrio. O balco do
bar, onde se podia ficar pendurado numa banqueta, era comandado por um
expert no ramo, o barman Andrs, e ficava  direita; ao fundo estava o
piano de cauda, emoldurado por uma janela de vidro que separava o
ambiente de um pequeno jardim decorativo iluminado;  esquerda havia uma
porta que se comunicava com o salo do restaurante que foi anexado. Quem
gostasse de msica, quem estivesse atrs de um bom papo, nem precisava
se preocupar, bastava entrar na Baica e se deixar levar.
A Baica foi um dos mais duradouros bares da cidade, centro obrigatrio
de msicos e freqentadores da noite, onde por muito tempo imperaram
grandes pianistas como Moacyr Peixoto, jazzista convicto e com longa
folha corrida em outras casas de So Paulo: Osis, After Dark, O Boteco
(do mesmo Srgio Avadis), entre outras. Quando saiu para abrir seu bar,
em 6 de novembro de 1961, o Moacyr"s, na rua Nestor Pestana, seus
acompanhantes, o baterista Rubinho e o baixista Xu, permaneceram na
Baica, mas com o outro grande nome do teclado da poca, Pedrinho
Mattar, com seu estilo  Ia Carmen Cavallaro.
Apesar de os grupos de Manfredo Fest e Walter Wanderley se revezarem, e
das canjas de msicos americanos das atraes da TV Record, o bar de
Moacyr no se agentou, foi vendido a Paulo Soledade em maio de 1962 e
mudou de nome para Zum Zum. A Baica continuava firme, igualmente
freqentada por msicos internacionais, como Dizzy Gillespie. Em abril
de 1963, Moacyr Peixoto estava de volta com Luiz Chaves e Rubinho (ambos
componentes do que seria o Zimbo Trio, formado em janeiro de 1964 na
prpria Baica), tendo como cantora Marisa Gata Mansa. Marisa, que havia
namorado Agostinho dos Santos, era uma exuberante mulata clara, de olhos
verdes, que deixou o segundo pianista da Baica, o jovem Cesinha,
alucinado de paixo, a ponto de pedi-la em casamento, embora ele fosse
dez anos mais moo. Considerado uma revelao, Cesinha, que idolatrava
Walter Wanderley, era ningum menos que Csar Camargo Mariano.
Havia ainda, na praa Roosevelt, o Farney"s, com o toque decorativo e
musical do prprio Dick Farney e que oferecia atraes internacionais
que vinham ao Brasil pela TV Record, como o baterista Buddy Rich
No intervalo entre sets do lendrio bar da noite paulistana A Baica, o
acordeomsta Areski, o baterista italiano Nino (de terno claro), o
pianista Pednnho Mattar (na direo da lambreta) e o baixista Newton.
Atrs, o baterista Pintuba.
No interior da Baica, o guitarrista Duilio ( frente da entrada para o
restaurante), a crooner Mary Gonalves, Walter Wanderley ao piano, Mrio
Augusto ao baixo ( frente do )ardim interno), todos sob a vista do
pianista Pednnho Mattar (atrs).
e seu grupo. Foi depois adquirido pelo pianista carioca Djalma Ferreira,
e reinaugurado como Boate Djalma em 23 de janeiro de 1962, no qual se
apresentavam o proprietrio ao rgo e o saloon singer americano,
residente no Brasil, Fred Feld, ex-atrao de outro bar famoso da
redondeza, o Michel. Enquanto isso, Dick partiu para outra e organizou
uma orquestra de bailes com as maiores feras que havia no mercado
paulista.
Do outro lado da praa, ia-se danar no "benzrrimo" Stardust, comandado
pela simpaticssima dupla Alan e Hugo (piano e bateria), o bar mais
freqentado pelos socialites de So Paulo, como a locomotiva Bia
Coutinho, que tinha mesa fixa todas as noites. No Stardust, o conjunto
do Robledo e, mais tarde, o badaladssimo Jair Rodrigues, com seu
gingado de samba e, ao rgo, um Hermeto Paschoal de cabelos curtos,
apelidado de Coalhada, embalaram os romances de muitos casais. Bem
pertinho dali, na rua da Consolao, pouco abaixo da Nestor Pestana,
ficava o maior rival do Stardust, o Cave, criado por Jordo Magalhes e
comandado, de abril de 1960 at maio de 1963, por lvaro "Menino"
Assumpo, que o vendeu para Ciro Batelli. No Cave, menos preocupado com
a dana que com msica para ser ouvida, o pianista Johnny Alf, que viera
do Rio em meados de 1956 para inaugurar a primeira Baica, tocou por
muito tempo. Depois dele, Aracy de Almeida fez um tremendo sucesso em
dupla com Murilinho, tambm de Almeida, do Vogue carioca. Entre 1961 e
meados de 1963, o Cave rivalizava com o Stardust, apresentando artistas
como George Green, Baden Powell e Leny Andrade. Cave e Stardust eram as
boates society na capital paulista onde as contas, freqentemente
penduradas "no cabide ali em frente", nunca tinham menos de quatro
algarismos antes da vrgula.
As trocas das atraes, dos msicos e conjuntos eram comuns e motivavam
uma migrao constante e variada entre os freqentadores, mantendo aceso
o agito musical que acontecia noite aps noite entre nuvens de fumaa e
tragos de bebida, que, misturados ao som da msica e do bate-papo, eram
os principais mandamentos da raa bomia da cidade.
No Claridge, que ficava na avenida Nove de Julho, e portanto a uma curta
distncia da praa Roosevelt, atuou Dick Farney antes de abrir seu bar.
Depois veio o fabuloso msico pernambucano Walter Wanderley, balanando
com seu piano at setembro de 1961, quando Dick Farney foi
festejadamente reconduzido ao ninho antigo. Em maio de 1962, o bar do
Hotel Claridge seria rebatizado de Cambridge e abrigaria o trio de
Pedrinho Mattar. Do outro lado da mesma Nove de Julho, um pouco mais
acima, havia o Sirocco, freqentado pelas donzelas da noite, jornalistas
Integrantes do conjunto do pianista Robledo no Stardust:
o argentino Gato Barbieri (no sax-tenor, durante sua estada no Brasil),
Gafieira (na bateria) e Newton de Siqueira Campos (no baixo).
No Cave, Booker Pittman (o segundo da direita para a esquerda)
e trs msicos de seu conjunto com o ator Anselmo Duarte, o cronista
Egas Muniz e a jornalista Lenita Miranda de Figueiredo.
e bomios, onde o samba era tema constante em torno de um bom copo,
principalmente quando apareciam por l compositores de raiz como Geraldo
Filme.
Fora dessa rea, iriam proliferar, nessa primeira metade dos anos 60,
dois outros bares cujas trajetrias foram significativas tanto pelo
aspecto social quanto pela msica. O Lancaster, na parte final da rua
Augusta, comeou a receber jovens simpatizantes do i-i-i atrados
pelos The Jordans e pelo cantor George Freedman, e tornou-se um foco da
garotada que anos depois iria desaguar no elenco da Jovem Guarda.
Enquanto isso, na Vila Buarque, na rea da rua Maria Antonia, onde
imperavam estudantes universitrios das escolas da vizinhana, a
Universidade Mackenzie e a Faculdade de Filosofia da USP, iria nascer
outro bar que marcou poca no Brasil: o Juo Sebastio Bar, na rua Major
Sertrio.
Montada por Paulo Cotrim e Relu Jardim Vieira, a casa derrubou desde seu
incio a crena de que bares de sucesso tinham que ser elitistas. O
Juo, como ficou sendo chamado, era diferente em tudo. Desde a
inaugurao, em abril de 1962, sua freqncia era de gente da
"sociedade, menininhas conhecidas, artistas, intelectuais, transviados,
desajustadinhas com cabelo taradinha, desajustadas, comunistas e
efeminados", segundo o mais dinmico e bem informado colunista da poca,
Ricardo Amaral, que tinha uma coluna imperdvel no jornal ltima Hora de
So Paulo. No segundo ms de funcionamento, j havia fila e briga na
entrada, controlada por trs porteiros e s vezes pelos garons, que
tambm se envolviam nos rolos, todos chefiados pelo indivduo que de
fato decidia quem entrava e quem ficava de fora, o Divino. Todo mundo
queria ser amigo ntimo do Divino, que, como sua prpria funo indica,
de divino no tinha nada. Pancadaria, e da grossa, houve mesmo em maio,
a ponto de deixar o mundo"noctvago paulistano ainda mais excitado. Tudo
isso s para danar a dana da moda, o twistl (Que alis, segundo
Vincius de Moraes em "S Dano Samba", j tinha sido danado at
demais.) Parece que sim, mas na verdade era na msica ambiente que
estava o grande segredo do Juo: uma salada de sons imprevisveis
misturada com tal molho e criatividade, que o seu maior hit nem mesmo
era um twist, e sim o clssico "Jesus Alegria dos Homens", do inspirador
do bar, Johann Sebastian Bach. Valia de tudo nessas fitas histricas do
Juo: trechos de locuo de futebol, da vitria na Copa de 62, rudos de
pratos quebrando, poesia e clssicos da msica popular. At quarteto de
cordas de msica erudita tocava ao vivo no Juo,  luz de velas. Era,
enfim, uma zorra total, onde tudo se misturava, som e clientela. A
balbrdia do Juo irritou a vizinhana, a casa foi fechada e reaberta
como restaurante, mas logo passou a ter msica ao vivo novamente. Cotrim
roubou a grande atrao do Claridge, o organista Walter Wanderley e seu
conjunto, que fizeram histria no bar. Walter j era casado com a
passional cantora paulista Isaurinha Garcia, mas no perdia a chance de
um namorico por fora. Na temporada em que acompanhou a mignon Claudete
Soares, que ainda cantava sentada sobre o piano com suas pernocas
atraentes, aconteceu o inevitvel: os dois mergulharam num flerte
perigoso e foi o maior rebu quando Isaurinha descobriu: furiosa, um belo
dia ela se vingou, bem na porta do Juo, com um gesto impublicvel.
Os detalhes desse e de outros "casetis" fazem parte do inesgotvel
repertrio de histrias e lances sobre msica, contados na roda que se
formava noite adentro, num botequim ao lado da Baica, a Baiuquinha ou
Sujinho, do Man portugus. Decorado com o indefectvel painel de
azulejos do Atelier Artstico e Mural, servia caf at o ltimo fregus,
um msico com certeza. Alm das parcerias e criaes que l nasceram,
inclusive os primeiros entendimentos para a formao do Zimbo Trio,
clebres passagens desfilavam na voz dos seus protagonistas. Uma das
mais conhecidas aconteceu com o excepcional contrabaixista Xu Vianna, o
inventor da expresso "mandar o Lima", usada quando um msico faltava a
um compromisso e cruzava com o patro com cara de cachorro que apanhou.
No primeiro encontro, justificava-se muito surpreso: "U, o Lima no
foi? Mandei ele no meu lugar". Como Moacyr Peixoto, Xu, que tratava quem
quer que fosse de major e adorava apostar nos burrinhos, detestava
baio. Ainda nos anos 50, no Captain"s Bar do Hotel Comodoro, na avenida
Duque de Caxias, ambos deviam acompanhar a convidada Carmlia Alves, e
quando ela atacou "Eu vou mostrar pra vocs, como se dana o baio", Xu
replicou na bucha: "Pra mim a senhora no vai mostrar nada". Parou de
tocar de estalo, largou o contrabaixo onde estava e se mandou.
Em dezembro de 1962, Claudete Soares continuava no Juo, agora
acompanhada pelo trio de Pedrinho Mattar, e revezava-se com o conjunto
de Walter, que reformaria seu contrato dali a quatro meses pela bagatela
de 800 mil cruzeiros por ms. Ela cantava de p, descala sobre a tampa
do piano de cauda, emoldurada por candelabros que criavam uma imagem
capaz de atravessar fronteiras. De fato, o fotgrafo do New York Times
John Bryson veio ao Brasil fazer uma reportagem sobre o "talk of the
town" da vida noturna paulistana, registrando a inusitada imagem. Em
abril de 1964, foi aberto outro bar bem defronte, o Ela, Cravo e Canela,
e como nos quarteires seguintes abundavam inferninhos, o trecho dos
bares, em declive, no podia jamais ser confundido com aqueles antros da
perdio. A fim de salvaguardar a conduta de passantes distrados, a
descida da Major Sertrio recebeu o apelido de Ladeira da Pureza. Pureza
de araque, porque nessa mesma descida podiam ser fisgadas garotas de
programa que circulavam qual liblulas num jardim em flor.
Ouvindo continuamente esse scratch de grandes msicos dos bares e
botecos, ou os artistas que iam dar canja aps os espetculos na
televiso, alm de ocasionalmente presenciar amadores arriscando-se nos
passos iniciais de uma carreira, era natural existir uma influncia
benfica no apuro musical da juventude estudantil. A msica espalhava-se
pelos bares e at pelos botequins de lanches, como o bar Redondo, assim
chamado em virtude da conformao de sua marquise desde a esquina da rua
Teodoro Baima at a avenida Ipiranga, e dois bares na Galeria Metrpole,
o Sandchurra, do Pao, e o Rosa Amarela, do Lus Carlos Paran. A msica
era atrativo at em residncias particulares, onde tambm se promoviam
reunies peridicas. Assim, atravs do acesso ao que havia de melhor na
msica brasileira, moldava-se entre os jovens uma cultura musical de
bases slidas, como numa universidade de msica popular. Restava que
preparassem sua conscincia social para se converter nos elementos da
platia atenta e inflamada dos futuros festivais. Os acontecimentos
polticos encarregaram-se de munici-los com um tipo de msica que tinha
propriedades tais que as identificariam mais tarde como msicas de
festival.
De fato, o que aconteceu a seguir no estava na msica das rdios, dos
bares e botequins, nas residncias ou na televiso. Quem poderia
imaginar onde? Bem prximo da praa Roosevelt: no Teatro de Arena.
Vale a pena um recuo no tempo para descrever como se deu essa
interferncia decisiva na msica popular brasileira, em que a forma
musical e potica da bossa nova, decantada pelo seu bom gosto, sofreu
uma mudana de rumo sonora e temtica. Foi dado um verdadeiro pontap no
lirismo romntico e um abrao com beijo e tudo na ideologia de contedo
poltico. Fosse ela evidente ou subliminar, no importa.
Nos anos 50, a atividade teatral em So Paulo tinha se desenvolvido a
partir do modelo do TBC com o impulso de diretores italianos, franceses
e belgas, e por isso mesmo dotados de uma viso europia quanto 
impostao cultural. Por outro lado, o Teatro de Arena, sem tantos
recursos, composto de artistas mais ligados  esquerda, tinha uma
perspectiva mais enraizadamente brasileira para ser atingida. Na busca
dessas razes, desenvolvia-se supostamente uma oposio ao TBC, que iria
levar o Arena  descoberta de uma forma de teatro mais apropriada para
as condies brasileiras. Na pea Eles No Usam Black-Tie (1958) deu-se
a flagrante presena do homem brasileiro comum como personagem e,
conseqentemente, com um contedo popular dentro da realidade
sciopoltica. A pea, de autoria de Gianfrancesco Guarnieri e dirigida
por Jos Renato Pcora, representou uma fratura na medida em que as
peas brasileiras, que antes eram montadas apenas para cumprir a lei
apelidada de "Trs por um" (que obrigava a montagem de uma pea nacional
para cada trs estrangeiras), passaram a ser um atrativo com sucesso de
pblico. Os atores do Arena tambm escreviam, o que sugeria a impresso
de uma participao mais profunda de suas opinies sobre o mundo na
tica do teatro. Assim, criou-se um estilo que recebeu a adeso de
pintores, arquitetos, jornalistas (como Benedito Rui Barbosa) e msicos.
O sucesso do Arena levou o repertrio constitudo de Eles No Usam
Black-Tie, Cbapetuba Futebol Clube (1959) e Revoluo na Amrica do Sul
(1960) para o Rio de Janeiro, onde os espetculos provocaram um
interesse muito grande no meio musical, gerando contato imediato entre o
grupo do Arena e alguns compositores da bossa nova que foram
assisti-los. Foi em razo dessa amizade nascente que Chico de Assis, um
dos componentes do ncleo do Arena, convidou alguns dos novos conhecidos
para compor msicas para a pea de Vianinha A Mais Valia Vai Se Acabar,
Seu Edgar que ele montou por conta prpria em 1961, na Faculdade de
Arquitetura da Praia Vermelha. Pouco a pouco, os ensaios aos sbados
eram transformados em reunies de msica, com a participao de atores
do elenco e de compositores como ngelo Pvoa, Carlos Castilho e dois
amigos ntimos, Nelson de Lins e Barros e Carlos Lyra. As reunies se
ampliaram quando Carlinhos Lyra decidiu convidar tambm alguns
sambistas, como Nelson Cavaquinho e Cartola, os trs admiradores uns dos
outros. Lyra ficara fascinado com as novidades da postura social que
desconhecia e, aos poucos, "o amor, o sorriso e a flor" comearam a se
distanciar de sua obra musical.
Nessas reunies nasceria a idia de se fundar um centro cultural, o que
de fato se efetivou no Centro Popular de Cultura, o CPC do Rio de
Janeiro, criado em dezembro de 1961 por msicos, teatrlogos, cineastas,
artistas plsticos e lderes estudantis, e que se tornou o brao
cultural da Unio Nacional dos Estudantes, a UNE. Promovendo atividades
teatrais e cursos, atuando na literatura, cinema e msica, um dos
objetivos do CPC era, segundo o professor Carlos Estevam Martins, um de
seus fundadores, "politizar as pessoas a toque de caixa, para engrossar
e enraizar o movimento pela transformao estrutural da sociedade
brasileira". Afirmava ainda que "em nosso pas e em nossa poca, fora da
arte poltica no h arte popular".
A palavra era o veculo para as doutrinas do populismo, do nacionalismo
e do desenvolvimentismo, que se alinhavam nas propostas para a soluo
dos problemas nacionais segundo as teorias concebidas em 1955 pelo
Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), um rgo subordinado
ao Ministrio de Educao. Assim, ao seguir nessa mesma direo, o CPC
foi, aps seis anos, um derivado da filosofia isebiana, pondo em prtica
mtodos e concepes do trip de modelos tericos para solucionar
problemas do povo brasileiro.
Em conseqncia, os msicos freqentadores das reunies do CPC, cujas
discusses principais costumavam ser em torno de notas musicais e cifras
de harmonia, passaram a conviver com um ambiente diferente do que
estavam acostumados, o da realidade social brasileira, em que a
abordagem poltica ocupava o centro do debate. Esse era precisamente o
prato do dia no meio teatral. O tema foi se incorporando como uma nova
preocupao entre esses msicos, e o passo seguinte  contaminao
inicial foi inevitvel: os compositores, que trabalhavam a msica,
passaram a fazer parcerias com quem dominava a palavra, isto , o
pessoal do teatro e do cinema. Uma das pioneiras composies dessa
ligao que surgia, e que se transformaria numa nova tendncia na msica
brasileira, teve um sucesso surpreendente: a "Cano do
Subdesenvolvido", de Carlos Lyra e Chico de Assis. Embora gravada
rudimentarmente por um coro, o disquinho vendeu dezenas de milhares de
cpias, que eram negociadas em centros de universidades, e se tornou um
cone da poca. Assim  que um homem de teatro e no de msica, o
brilhante, enrgico e participativo Chico de Assis, acabou sendo um
personagem responsvel pela mudana de curso da msica popular
brasileira a partir de ento.

Carlos Lyra, Geraldo Vandr e Srgio Ricardo, este por suas ligaes com
o cinema, foram os trs compositores que se envolveram de corpo e alma
nesse processo em que Chico de Assis, Ruy Guerra e Glauber Rocha
exerceram influncia decisiva. Eles perceberam que a cano, alm de
expressar seus sentimentos pessoais, tambm poderia abordar a realidade
concreta. A partir desse momento, suas obras do um salto imenso e
inesperado. A inocncia de "Lobo Bobo", de Lyra e Ronaldo Bscoli,
parece brincadeira diante da contundncia de "Maria do Maranho", de
Lyra e Nelson de Lins e Barros. As novas letras das canes atualizam a
emoo musical, com diferenas palpveis tanto em relao s da chamada
poca de Ouro, dos anos 30 e 40, da qual no fazem parte, quanto s do
seu bero musical, a bossa nova. As letras desse perodo, que podiam ser
cantadas para as namoradas, como entoava Dick Farney, representavam o
indivduo classe mdia, aquele que podia possuir um barquinho, enquanto
as da fase de ouro abordavam sobretudo a ingratido e a malandragem,
temas renegados pela bossa nova. J o contedo das novas letras no era
nem uma coisa nem outra: abordava o homem brasileiro comum, o que nada
possua, retratando a situao do povo brasileiro naquele momento e o
que era preciso fazer para que ele tivesse um destino mais feliz. Era
essa a realidade tematizada pelo que se conheceria, nos anos seguintes,
como msica de festival.
E qual era essa realidade? Ela estava visceralmente ligada aos
acontecimentos polticos que agitaram o Brasil nesses anos. Se a euforia
durante o governo Juscelino, decorrente do desenvolvimento e das
conquistas brasileiras em diversos setores, inclusive o extraordinrio
crescimento do PIB, teve seu papel na bossa nova, os tormentosos anos 60
mostraram um panorama bem diferente, a anttese daquela fase eufrica.
A atuao de grupos comunistas como o PUA (Pacto de Unidade e Ao,
precursor do Comando Geral dos Trabalhadores) na organizao sindical e
na vida operria, a disputa pelo poder aps a surpreendente renncia de
Jnio Quadros, as agitaes das Ligas Camponesas, o considervel aumento
de greves, as mobilizaes estudantis atravs da UNE na fase Joo
Goulart e, sobretudo, a instituio de uma Doutrina de Segurana
Nacional na rea militar, atemorizada pelo xito da Revoluo Cubana,
geraram uma mobilizao social popular indiscutivelmente mais intensa,
que atingiu a classe artstica. Enquanto os temores na classe mdia
aumentavam, um termmetro da situao era a classe artstica, cuja
sensibilidade pedia uma tomada de posio.
Carlos Lyra e Geraldo Vandr resolveram vir morar uns tempos em So
Paulo, para trabalhar com Augusto Boal e Chico de Assis, envolvendo-se
com o teatro, que necessitava de msicos. O mesmo aconteceria depois com
Edu Lobo, que, seguindo a mesma trilha, veio compor em parceria com o
teatrlogo Gianfrancesco Guarnieri.
A organizao poltica da juventude paulista era um pouco mais
desenvolvida que a de outros lugares, e por isso a cultura poltica dos
jovens tinha mais espao para a arte. A mo-de-obra necessria a essa
cultura exigia recursos e, como sempre, em So Paulo havia dinheiro. Os
shows dos estudantes da Universidade Mackenzie, que formaram a srie
denominada Festival da Balana, contavam com uma mola propulsora na
forma de subsdio do Partido Comunista, do qual era membro o seu
organizador, tambm diretor do Centro Acadmico Joo Mendes Jnior, o
futuro empresrio Manoel Poladian.
Nos anos de 1962 a 1964, justamente quando a bossa nova mais fazia
sucesso no exterior, fixando a msica popular brasileira como a mais
bem-sucedida forma de arte do pas, a produo musical paulistana
gradualmente se afastava dos cnones dessa mesma bossa nova.
Nesse ambiente recheado de agitao social e msica, rdios, bares e TV
Excelsior por todos os lados, floresceram, a partir do segundo semestre
de 1962, os primeiros espetculos semiprofissionais, encetados por dois
promotores em potencial, os jornalistas da ltima Hora Moracy do Vai,
paulista (que manteve uma coluna diria sobre a vida noturna at julho
de 1963), e o paraense Franco Paulino (inicialmente reprter e depois
colunista da rea musical). Os dois realizaram jam sessions no Teatro de
Arena, logo denominadas Tardes de Bossa, e encontros musicais em
residncias de conhecidos seus, como a loura Ana Lcia, cantora paulista
de certa projeo. Sua finalidade era aproximar msicos e cantores de
So Paulo, mas no havia como disfarar a inteno de fazer uma
represlia  comentadssima, e um tanto infeliz, declarao de desprezo
pelo samba paulista emitida por Vincius de Moraes, em sua clebre
assertiva de que So Paulo era o tmulo do samba. Alis, tanto ele como
Tom Jobim e Ronaldo Bscoli reconheceram publicamente, em janeiro de
1963, a vitalidade da noite paulistana. Vincius constatou pessoalmente
essa efervescncia em julho do mesmo ano, quando foi ao Juo Sebastio
Bar aps o espetculo Bossa Nova, da Universidade Mackenzie, do qual
participara ao lado de cariocas (Baden Powell, o sexteto de Srgio
Mendes e o Trio Tamba), paulistas (o Sab Trio, Paulinho Nogueira e Ana
Lcia), alm de cantoras "paulistanizadas" como Claudete Soares, Alade
Costa e Marisa Gata Mansa, e de nordestinos que atuavam em So Paulo,
como Geraldo Cunha, Geraldo Vandr e Walter Santos. No bar, havia uma
"noite dos novos", e naquele dia um deles tocava suas msicas ao violo.
Seu nome era Francisco Buarque de Hollanda.
Outro promotor desse mesmo modelo de espetculos musicais, que misturava
conhecidos e desconhecidos, foi um freqentador das Tardes de Bossa no
Arena, que resolveu criar algo semelhante junto com seu amigo Lus
Vergueiro. Aproveitando o horrio alternativo das segundasfeiras 
meia-noite, concebeu as Noites de Bossa para o Teatro de Arena, que
aconteceriam de janeiro at abril de 1963 e projetariam, entre outros, o
violonista Tho de Barros e o pianista Csar Mariano. Os espetculos
comearam a atrair um pblico cada vez mais entusiasmado - a ponto de
serem necessrias duas sesses numa das noites - para ver em ao
msicos e cantores que na verdade no tocavam nem cantavam estritamente
bossa nova.
Esse promotor, candidato a produtor de televiso, chamava-se Solano
Ribeiro. Com curso na Escola de Arte Dramtica, uma passagem como cantor
do grupo de rock The Avalons, liderado pelo guitarrista Dudu, outra como
ator do Teatro de Arena, o politizado Solano, com cabea empresarial,
foi se firmando no grupo do Arena. Em maio de 1963, comearia a escalada
de seu verdadeiro objetivo, ao ser convidado pelo diretor da Excelsior,
Boni, para exercer um cargo burocrtico, o de coordenador de
programao. Aos poucos, foi estendendo seus conhecimentos a outros
setores da televiso, ao mesmo tempo em que prosseguia com suas
produes no teatro. Do Arena para a Excelsior, da Excelsior para o
Arena, era s atravessar a praa Roosevelt, uma sopa.
Quase um ano depois, a direo do teatro cedeu-lhe o horrio principal
para montar o show Bossa & Balano, com Lennie Dale e seu bale, o trio
de Csar, a cantora Marisa, paixo do pianista, e o pandeirista
Gaguinho. O show emplacou, com casas lotadas de 17 de abril a 7 de junho
de 1964.
Em agosto, as atividades de Solano na TV Excelsior iam de vento em popa:
passou a produzir o programa Signo Show e tornou-se um dos coprodutores
do Bibi Sempre Aos Domingos, o novo ttulo do programa de Bibi Ferreira,
ento sob a direo geral de Walter Avancini. Nos dias 30 de setembro,
1 e 2 de outubro, ele produziu uma srie de trs espetculos, gravados
no auditrio do canal 9, sob o nome Primavera Eduardo E Festival de
Bossa Nova, para serem transmitidos no sbado, dia 10. Solano montou um
elenco com artistas de So Paulo (Alade Costa, Walter Santos, Ana
Lcia, Paulinho Nogueira, Zimbo Trio e Pedrinho Mattar Trio) e do Rio
(Oscar Castro Neves e seu noneto, Rosinha de Valena, Os Cariocas e o
Copa Trio). Tambm trouxe uma cantora muito badalada entre os msicos da
noite carioca. Seu nome era Ellis Regina, grafado assim mesmo, com dois
"ll", como aparecia nas capas dos trs discos que gravara at ento.
Muitos estranhavam aquele nome esquisito, e ningum sabia com certeza se
era com um ou dois "ll". Na hora de falar, ento, era um perereco:
alguns acentuavam o "e" - Elis -, outros acentuavam o "i" - Els. Quem
era afinal essa cantora bonitinha que vinha pela quarta vez cantar em
So Paulo?
"H uma estrela no cu, h uma estrela na terra, e esta brilha na
constelao do cast da Rdio Gacha! Vem a, Elis Regina!", anunciava
empolgado o animador Maurcio Sobrinho antes de cada apresentao da
mais aguardada atrao de seu popularssimo programa, aos domingos de
manh, transmitido do cinema Castelo, bairro da Azenha. A garota
assinara seu primeiro contrato profissional com a Rdio Gacha em 1960,
ao completar 16 anos, j tendo participado durante meses do Clube do
Guri, da Rdio Farroupilha, com Ari Rego. Foi o comeo da carreira de
Elis Regina em Porto Alegre, com sua voz juvenil e afinada, como se ouve
nos seus dois primeiros discos da Continental.
Quando o Brasil 62 de Bibi Ferreira passou a ter como novo patrocinador
as Lojas Renner, foi seu desejo inaugurar a srie com um programa
gravado em Porto Alegre. Para preparar a gravao e selecionar dois
artistas gachos, um rapaz e uma garota, que iriam cantar num dos
programas, foi enviado ao Sul o produtor Manoel Carlos. Vrios artistas
locais se candidataram para a audio, realizada na Rdio Gacha. Os
escolhidos foram o violonista Neneco - que desapareceria de cena aps
uma tentativa de se estabelecer no Rio - e Elis Regina, j considerada
na cidade grande barbada em qualquer competio de que participasse.
Na noite da gravao em Porto Alegre, Bibi Ferreira adoeceu e, na ltima
hora, Walter Silva, que atuava na rea de esportes da Excelsior, foi
convidado para substitu-la, gravando o programa e revendo a gauchinha
que conhecera semanas antes, quando ela estivera em seu Pickup do
Pica-Pau, na Rdio Bandeirantes, para divulgar seu primeiro compacto com
"Dor de Cotovelo", uma das faixas de seu LP de estria na Continental,
Viva a Brotolndia.
Nessa noite em Porto Alegre, ela circulava feliz entre os grandes
cartazes que participaram. Algumas semanas depois, ela viria cantar pela
primeira vez em So Paulo, no auditrio da TV Excelsior, no programa
Brasil 62, sob o patrocnio da cadeia sulina de lojas.
J bem mais amadurecida, a 28 de maro de 1964, Elis desembarcava no Rio
de Janeiro com seu pai como contratada da CBS, onde havia gravado seu
quarto LP, para candidatar-se ao elenco do disco da pea Pobre Menina
Rica, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes. Foi preterida por Dulce Nunes
e, diante disso, sentiu-se  vontade para assinar com a gravadora
Philips, por sugesto do produtor Armando Pittigliani, que at torcia
por esse aparente insucesso. Por influncia de Armando, Elis passou a
atuar regularmente em programas da TV Rio, com salrio fixo de 80 mil
cruzeiros, e em pocket sbows no decantado Beco das Garrafas.
Por volta de 1 da manh de quarta-feira, 5 de agosto, estreava na boate
Djalma, em So Paulo, um novo show reunindo o cantor Slvio Csar e Elis
Regina. A diminuta platia ficou com a sensao de presenciar o
surgimento de uma estrela. O show poderia ter sido um acontecimento
histrico na noite paulista no fosse a falta de pblico, o que provocou
um desentendimento entre o quintento Sambossa 5 e o patrocinador Teco.
Os msicos - Kuntz  clarineta, Costita ao saxofone, Luiz Mello ao
piano, Xu Vianna ao baixo e Turquinho  bateria - ganhavam na base de
couvert artstico e, aps as quatro primeiras noites de casa vazia,
chegaram  concluso de que no valia mais a pena prosseguir, tendo que
trabalhar e voltar para casa sem nenhum. Elis e Slvio, que cantavam
"Olhou Pra Mim" e "Voc" entre outras, tinham recebido boa cobertura na
imprensa, mas, diante da situao, o que fazer? Solidrios com os
msicos, a ltima sesso no Djalma foi na sexta-feira, 14 de agosto. No
dia seguinte, a boate fechou para uma reforma e reabriu tempos depois
com msica de disco. Show ao vivo, nunca mais. O comeo da carreira de
Elis em So Paulo no foi nem um pouco auspicioso. Antes de voltar para
o Rio, ela tinha aproveitado para participar de um programa da TV
Excelsior no domingo, 9 de agosto, cantando depois de outra cantora
pouco conhecida, Wanda S.
Ao retornar a So Paulo, para cantar na srie produzida por Solano, em
setembro, ela abafou em grande estilo. Depois de ouvi-la em "Menino das
Laranjas", de um compositor novo, o baixista Tho, l estava, aplaudindo
de p na primeira fila da platia, o radialista Walter Silva, que a
contratara pouco antes para o show Boa Bossa, realizado no Teatro
Paramount, em 31 de agosto.
No quinto dia de setembro, precisamente um ms aps a estria na
malfadada temporada do Djalma, e de volta ao Rio, ela cantaria no
Bottles ao lado do Copa Trio, com o pianista Dom Salvador, o baixista
Gusmo e o baterista Dom Um Romo, no show Ssifor Agora. Antes da
estria, o bailarino americano Lennie Dale, que dirigia o show do bar
vizinho, o Little Club, com Wilson Simonal, Marly Tavares e o Bossa
Trs, resolveu dar uma mo na coreografia. A partir da, Elis passou a
usar os braos em movimentos rotatrios para trs enquanto cantava, o
que daria grande realce a suas apresentaes e seria motivo para muitas
controvrsias. Contudo, a sugesto mais importante e menos comentada do
bailarino Lennie Dale foi na parte musical. Como j fizera com Simonal,
Lennie sugeriu que, para obter maior impacto, ela poderia utilizar um
artifcio que no era nenhuma novidade nos shows da Broadway e que, no
Brasil, da em diante seria chamado de "desdobrada". Elis, uma guia em
perceber o que funcionava em msica, tratou de aplicar imediatamente a
nova idia. No show que fez a seguir, O Remdio  Bossa, novamente no
Paramount, em 26 de outubro, Elis testou a desdobrada no "Terra de
Ningum", cantando com o autor, Marcos Valle. Quando ela atacou sozinha
"Mas um dia h de chegar/ e o mundo vai saber/ no se vive sem se
dar...", o pblico veio abaixo, para espanto de todos, inclusive de um
de seus heris, Tom Jobim, que tambm participava do espetculo. Nesse
show e nesse momento, Elis sacou o que seria a chave do seu estilo
musical.
De fato, em janeiro de 1965, ao gravar seu primeiro disco na Philips,
com arranjos do baixista Luiz Chaves, de Paulo Moura e de Lindolpho
Gaya, ela j seria uma outra Elis, bem diferente dos lollypops  la
Celly Campelo dos quatro discos anteriores. Na primeira faixa, seu
"Reza" teria uma monumental diferena da verso que o prprio autor, Edu
Lobo, gravara na mesma poca com o Trio Tamba. E a diferena era a
desdobrada. Aps os primeiros compassos a libitum, a orquestra vem com
tudo e Elis manda ver: "Ah meu santo defensor/ traga o meu amor/ laia,
ladaia, sabadana, Ave Maria...". Nesse disco, ela no disfarava que j
estava batendo asas para cima de Edu Lobo. Nada menos que trs msicas
eram suas: alm de "Reza, "Resoluo" e "Aleluia". Da mesma forma, Elis,
sempre a primeira a chegar ao estdio, pediria ao arranjador Paulo Moura
que aplicasse a desdobrada no final de seu arranjo para "Menino das
Laranjas". O ttulo do disco era premonitrio: Samba Eu Canto Assim.
Ao cantar "Menino das Laranjas" no Primavera Eduardo... de Solano
Ribeiro, Elis j atacava no novo estilo, com o movimento de braos, que
seria descrito como nado de costas, e a desdobrada, ofcourse. Aquela no
era mais a Elis com acento no "e". Era uma nova Elis: era Elis Regina,
com acento no "i".
Trs dias aps o Primavera Eduardo..., Solano, que havia deixado crescer
a barba e adquirido uma aparncia de Dr. Freud, estava duplamente
encantado com Elis. Pela mulher, com quem estava namorando, e pela
cantora, que convidou para outros programas da TV Excelsior nesse
segundo semestre de 1964. Sua carreira deslanchava rapidamente: shows na
TV Rio e TV Excelsior de So Paulo, no Beco das Garrafas e no Teatro
Paramount, premiada como a melhor cantora da noite do Rio de Janeiro,
Trofu Imprensa em So Paulo, prmios Sete Dias na TV e Revista do
Rdio.
Ao mesmo tempo, Solano amadurecia outro projeto, um evento em que
pudesse reunir compositores e intrpretes daquela msica brasileira que
vinha sendo ouvida nos bares, nos shows das universidades, nas reunies
em residncias particulares, no Teatro de Arena e, ocasionalmente, em
alguns programas de rdio e da prpria TV Excelsior.
Ele comentava com amigos sobre sua idia de levar essa nova msica para
a televiso.  medida que seu temperamento empresarial foi se combinando
com a experincia de msico e produtor de teatro e TV, dois universos se
fundiram, e ele acabou sendo o agente desse projeto que, na verdade, j
existia, mas no no Brasil.
A idia que cutucava Solano Ribeiro era fazer um festival de msica
brasileira. Na Itlia, o Festival de San Remo provava sua fora com
sucessos espalhados pelo mundo, e ele meteu na cabea que podia fazer um
festival de msica popular no Brasil. Pediu uma cpia do regulamento ao
editor Henrique Lebendiguer, o proprietrio da Fermata, e ao traduzi-la
concluiu que a frmula italiana deveria ser modificada. Quem inscrevia
as msicas em San Remo eram as editoras e gravadoras, em funo de seu
interesse em investir em novos compositores de sua escolha, que assim
acabavam dominando o festival. Algumas msicas eram defendidas por
artistas estrangeiros, convocados pelo festival, como foi o caso de
Louis Armstrong e, mais tarde, seria o de Roberto Carlos. Solano
entendia que a competio deveria ser aberta a compositores, portanto
eles  que deveriam inscrever suas obras. De outro lado, os intrpretes,
que no fundo eram os astros, seriam escolhidos pela direo do festival,
assim como nos programas de TV. Depois de adaptar o regulamento de San
Remo, ele procurou os principais diretores da TV Excelsior, Edson Leite
e Alberto Saad. Ambos se empolgaram, aprovando o projeto de Solano.
O primeiro Festival da TV Excelsior foi lanado no incio de 1965,
quando a emissora j era lder havia vrios meses, segundo o Ibope. Foi
divulgado que o festival seria no Guaruj, de 14 a 20 de fevereiro, e
que o primeiro colocado ganharia 10 milhes de cruzeiros. As inscries
seriam feitas mediante a entrega das partituras das canes em postos da
rede Excelsior, instalados em So Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre,
e em suas afiliadas de outras praas.
Ainda assim, Solano Ribeiro fez contato com vrios compositores amigos
seus para que mandassem composies inditas, pretendendo com isso
receber msicas bem diferentes daquela que muitos julgavam ser a msica
da poca. Sua experincia lhe garantia que havia uma gerao de
extraordinrios compositores novos para serem lanados no mercado, assim
como um pblico predisposto a aceitar msicas, msicos e cantores
desconhecidos. Tal qual acontecera com Cesinha e Tho no Teatro de
Arena.
Para avaliar o material, formou-se um grupo que se reunia na casa do
cantor e compositor Caetano Zammataro, o Caetano Zamma, na alameda
Joaquim Eugnio de Lima, 133. Essa comisso, abastecida com sucos e
sanduches nas longas reunies para ouvir cada composio inscrita, era
formada por Amilton Godoy, do Zimbo Trio - que alm de avaliar tambm
tocava ao piano a partitura para os demais membros -, Augusto de Campos,
Dcio Pignatari, Damiano Cozzella e Walter Silva. Como Solano havia
imaginado, foram filtradas algumas boas msicas de compositores que se
projetavam, como Francis Hime, Baden Powell, Caetano Veloso e Chico
Buarque.
A segunda etapa do trabalho de Solano seria reunir o elenco de
intrpretes, o ponto que, no seu modo de ver, daria credibilidade ao
evento e o nvel de qualidade necessrio a um grande programa de
televiso. O que fazia sucesso na poca eram os boleros com Ansio
Silva, Gregorio Barrios, Nelson Gonalves e outros, mas Solano sabia
muito bem que existia um elenco capaz de cantar as novas msicas,
contrapondo-se a esses cantores mais populares. Embora cada compositor
ou cada dupla de compositores pudesse ter apenas uma msica selecionada
dentre o mximo de duas inscritas, os intrpretes poderiam defender mais
de uma cano, e assim, aqueles em quem ele mais confiava, como Elis
Regina e Jair Rodrigues, certamente cantariam mais de uma msica. Entre
os cantores, foram convocados iniciantes como Wilson Simonal, Claudete
Soares e Geraldo Vandr, outros consagrados como Agnaldo Rayol,
Agostinho dos Santos, Altemar Dutra, Cauby Peixoto, Cyro Monteiro,
Elizeth Cardoso, Miltinho e Orlando Silva, e ainda outros que faziam
parte do bloco intermedirio, como Germano Mathias e Marisa.
Em fevereiro, o festival foi adiado e o prazo para o trmino das
inscries, dilatado, a fim, dizia-se, de dar oportunidade aos
compositores de outros estados. A nova data marcada para seu incio foi
de 14 a 20 de maro, ao passo que o show de abertura seria produzido por
Franco Paulino e Lus Vergueiro. Contudo, tanto as datas quanto o show
seriam modificados mais uma vez. A equipe de contatos do canal 9
continuava se mobilizando em busca de patrocinador para um evento de
tamanho vulto, o que finalmente se conseguiu no incio de maro.
Quem quer que tenha tido a idia de propor  Rhodia o patrocnio do I
Festival de Msica Popular Brasileira da TV Excelsior, em 1965, acertou
na mosca. A diviso txtil da Rhodia, um conglomerado de origem francesa
da indstria qumica, era a Rhodiaceta, que produzia fios de acetato,
viscose, nylon e polyester destinados  indstria de tecidos. Esta,
porm, no tinha o menor charme se comparada aos compradores do produto
final, os tecidos para a moda. O ento diretor de marketing da
Rhodiaceta, Livio Rangan, ex-bailarino de origem italiana que tambm
havia trabalhado com moda, props  empresa uma nova forma de expanso
de vendas, tentando empolgar o consumidor final, aquele que ia s lojas
comprar tecidos, e no os clientes diretos da empresa, isto , as
fbricas de tecido. Seu argumento era que, atingindo o comprador de
ponta, despertariam o desejo dos consumidores de tecido, o que foraria
a indstria txtil a ir bater s portas da Rhodia.
A fim de atingir esse objetivo, sua estratgia era aproveitar sua
experincia em moda para promover desfiles de grande porte, nos quais,
naturalmente, os mais atraentes tecidos seriam mostrados com suas novas
cores, padres e texturas, e ao mesmo tempo fomentar um elemento
inerente a todos os desfiles do mundo, a msica de fundo durante a
passagem das manequins. A novidade da idia de Livio era dar um grande
realce  msica, a ponto de ela ter um peso igual ao dos desfiles
propriamente ditos, ou seja, promover a participao de msicos,
cantores e danarinos como parte integrante do evento. Seria um
verdadeiro show musical, inaugurando um novo conceito em matria de
desfile de moda, ao unir o glamour das manequins, na passarela ou no
palco, com o atrativo de um espetculo com o que havia de melhor na
msica popular brasileira.
Aprovada a idia, Livio passou a ser um dos homens de maior projeo
dentro da Rhodia, perfeitamente de acordo com seu bom gosto, seu
temperamento atiado, sua capacidade de seduzir e sua vaidade. Era ele
quem montava esses espetculos com mulheres bonitas e msicos refinados.
Os shows da Rhodia tinham ainda um detalhe: deviam percorrer o maior
nmero de cidades possvel, tal qual um circo rodando pelo Brasil afora
e exterior. Foi o que se deu em julho de 1964, com Nara Leo e o
conjunto de Srgio Mendes, no Japo, e que iria se repetir em 1965 com
Wilson Simonal e o Bossa Trs, de Luiz Carlos Vinhas, contratados em
janeiro.
Ao conceber o festival, Solano tinha muito claro que ele deveria ser
realizado no Guaruj, nos moldes do de San Remo. No entanto, diante do
patrocnio da Rhodia, teve que ceder. Assim como os desfiles, o festival
seria itinerante, ainda que a primeira eliminatria acontecesse onde ele
queria, no Guaruj. E mais: os shows de abertura seriam os que Livio
Rangan contratara, estrelados por Simonal e as manecas.
Provavelmente ningum na Rhodiaceta, nem mesmo Livio, se lembrava que o
binmio msica e desfile tinha sido justamente a tnica da I Festa da
Msica Brasileira da TV Record, cinco anos antes, no chiqurrimo
balnerio. Imaginava-se que a msica do evento, as canes concorrentes,
mostrariam a cara da mais nova msica popular brasileira atravs da
produo indita de seus compositores. Parecia um casamento destinado a
que ambas as partes, TV Excelsior e Rhodia, fossem felizes por muitos e
muitos anos.
O I Festival Nacional de Msica Popular Brasileira, nome oficial do
evento, ficou ento marcado para se iniciar no dia 27 de maro, com a
apresentao de 12 msicas, e no mais dez como fora anunciado antes.
Por conseguinte, o total fora ampliado para 36, das 1.290 inscritas.
Nessa data, seriam escolhidas quatro canes; outras quatro sairiam da
segunda eliminatria, dia 30 de maro, no auditrio do canal 9,  rua
Nestor Pestana, e mais quatro na terceira eliminatria, marcada para o
dia 3 de abril, no Hotel Quitandinha, em Petrpolis. A grande final
teria assim a participao das 12 escolhidas nas trs eliminatrias, num
grandioso programa a ser transmitido ao vivo no sbado, 6 de abril,
diretamente do Teatro Astoria, no Rio de Janeiro, sede da TV Excelsior
Rio, canal 2.
Todos seriam acompanhados ou pelo Trio Tamba ou pela Orquestra
Excelsior, regida pelo diretor musical do festival, Slvio Mazzuca, em
arranjos de alguns dos maiores nomes da poca: Mrio Tavares, Severino
Filho, Radams Gnattali, entre outros.
Os prmios somavam um total de 21 milhes de cruzeiros, sendo 10 milhes
e o trofu Berimbau de Ouro para a primeira msica, 5 milhes para a
segunda, 3 milhes para a terceira, 2 milhes para a quarta e 1 milho
para a quinta.
O festival seria aberto com um desfile em homenagem ao quarto centenrio
do Rio de Janeiro e com o show Rio 400 Anos, criado por Miele e Bscoli,
do qual participariam o conjunto Bossa Trs, de Luiz Carlos Vinhas,
acrescido de ritmistas, Raulzinho do Trombone e os cantores Wilson
Simonal e Marly Tavares. J o desfile de modelos apresentaria as
criaes e fantasias de Alceu Pena, sob o comando de Livio Rangan. A
mais famosa modelo da Rhodia era a mesma Mila da Festa da Record de
cinco anos antes.
Para julgar as msicas em cada eliminatria e tambm na final, pensou-se
em convidar um jri de alto gabarito: o maestro Lirio Panicalli, os
crticos Lcio Rangel e Nestor de Holanda, os jornalistas Srgio Cabral,
Franco Paulino, Lenita Miranda de Figueiredo, Slvio Tlio Cardoso, e o
produtor Aloysio de Oliveira.
Para surpresa da direo do festival, uma vez anunciadas as
concorrentes, houve uma enorme presso de jornalistas e compositores do
Rio de Janeiro, descontentes com a ausncia de sambas dos grandes
compositores entre as 36 msicas escolhidas. Levantou-se a possibilidade
de uma reviso, o que foi feito. O jri foi novamente reunido, houve um
reajuste em algumas msicas e a situao ficou parcialmente acomodada,
causando porm uma impresso negativa no festival. Solano tentava de
todas as maneiras evitar que o jri tivesse que decidir sob presso.
Finalmente, chegou o dia da primeira eliminatria do I Festival Nacional
de Msica Popular Brasileira, com transmisso direta da TV Excelsior,
canal 9, no ltimo sbado de maro de 1965, dia 27. Todos os
participantes foram encaminhados para o Hotel Delfim, onde j estavam os
dez elementos do jri, jogando conversa fora no bar do hotel, ao lado do
assessor de imprensa Mrio Regis Vitta. Os encarregados de julgar as
msicas daquela noite eram crticos especializados e msicos de So
Paulo e Rio de Janeiro, um jri to capacitado como o que se imaginara
originalmente. L estavam os jornalistas Franco Paulino, Lenita Miranda
de Figueiredo, Srgio Cabral, Nestor de Holanda, Everaldo Guillon e
Slvio Tlio Cardoso, o psicanalista-escritor-novelista Roberto Freire,
o radialista Roberto Corte Real, os maestros e arranj adores Erlon
Chaves e Eumir Deodato. Naquele primeiro encontro, em que todos contavam
amenidades sobre suas vidas profissionais, ningum desconfiava que o
jri iria pouco a pouco se dividir em dois grupos distintos.
O elenco de cantores e msicos havia ensaiado em So Paulo, indo de
nibus para o Guaruj no prprio dia 27. Aps terem passado as msicas
para testar o som, foram todos trocar de roupa no mesmo Hotel Delfim.
O acontecimento despertara grande interesse no pblico do balnerio e o
salo do cassino acabou ficando pequeno. A TV Excelsior havia vendido
ingressos em quantidade razovel, mas os organizadores no contavam com
a quantidade de convites distribudos pela Rhodia e pela Prefeitura do
Guaruj. Poucas horas antes do incio do evento, houve uma inesperada
afluncia de pblico, e no havia como acomodar tanta gente: tumulto na
entrada e l dentro mais de 2 mil pessoas se acotovelando num salo em
que cabiam 500, sob um calor tipo "al-l-". A temperatura atingia 39
graus.
O show da Rhodia deveria abrir a noite, antes da apresentao das
concorrentes, sob o comando do elegante e querido locutor Kalil Filho.
Quando os artistas e msicos do festival voltaram do hotel, o cassino j
estava completamente lotado e no havia como entrar, havendo at risco
de desabamento, segundo um engenheiro.  medida que o show da Rhodia foi
se desenrolando, os participantes do festival foram entrando com
dificuldade e, apenas 30 segundos antes do final, todos estavam a
postos.
A eliminatria foi enfim transmitida pelo canal 9 at quase 1 da manh,
quando Kalil Filho anunciou solenemente as quatro classificadas. A
deciso foi bem recebida, embora alguns elementos do jri tivessem
sentido o incio de um certo joguinho de interesse por parte do
patrocinador do festival.
O cronista Srgio Porto, que assistiu ao festival pela televiso ao lado
de Dorival Caymmi, elogiou em sua coluna, assinando como Stanislaw Ponte
Preta, as interpretaes de Alade Costa, que cantou maravilhosamente
"Flor da Manh", e tambm de Marisa Gata Mansa, que levara a tiracolo
seu marido Csar Camargo Mariano, Altemar Dutra, Elizeth Cardoso e
Mrcia. Mas Srgio no ficou muito satisfeito, chegando a comparar o
programa com o "festival de besteira que assola o pas", que ele mesmo
havia criado. Quanto a Elis, achou que imitava Lennie Dale, ficava s
berrando e mexendo com os braos.
Ainda assim, foi ela quem conquistou o pblico e o jri, tornandose a
grande vencedora da noite, somando 296 pontos com a interpretao de
"Por Um Amor Maior" (de Francis Hime e Ruy Guerra), que alguns j
pressentiram ser uma das melhores letras. A segunda msica colocada foi
"Sonho de um Carnaval" de Chico Buarque de Hollanda, defendida por
Geraldo Vandr, alcanando 176 pontos.
Chico ainda era estudante de Arquitetura mas j circulava no meio
musical universitrio, participando dos primeiros shows musicais
produzidos pelo radialista Walter Silva, que se tornaram muito populares
na poca. Quando sua msica foi selecionada para a primeira
eliminatria, soube que seria defendida por Geraldo Vandr, que j era
um cantor profissional nos shows universitrios e no Juo Sebastio Bar
e que ele conhecia  vagamente atravs da sua irm Micha. O arranjo
seria do Erlon Chaves. Chico combinou assistir a eliminatria com alguns
amigos de Arquitetura, indo para o Guaruj no Fusca de sua irm. Antes
da apresentao, Vandr havia se queixado de que o tom era muito baixo,
mas mesmo assim classificou a msica para a final. O acontecimento foi
comemorado com um grande porre de Chico e sua patota. Foram ainda
classificadas no Guaruj "Miss Biquni" defendida por Mrcia, e "Flor da
Manh".
Na segunda, eliminatria, realizada numa tera-feira, 30 de maro, no
auditrio do canal 9, o nvel melhorou bastante segundo a opinio geral.
Foram classificadas cinco e no quatro msicas: "Eu S Queria Ser" (Vera
Brasil e Miriam Ribeiro) com Claudete Soares, "Valsa do Amor Que No
Vem" (Baden e Vinicius), cantada por Elizeth Cardoso, "Rio do Meu Amor"
(Billy Blanco) por Wilson Simonal, "O Amor Que Se Fez Cano" (Joubert
de Carvalho) por Hugo Santana e "Arrasto" (Edu Lobo e Vinicius) por
Elis Regina, que assim passaria a defender duas msicas na final. Foi
nessa noite que Elis concluiu que a msica que defendera no Guaruj, a
de que mais gostava, no era a candidata mais forte. "Arrasto" fez um
sucesso retumbante, repetindo-se a manifestao da platia daquele show
no Teatro Paramount do ano anterior. Ao contrrio de Srgio Porto, Elis
foi elogiada pelo jurado Franco Paulino na sua coluna da ltima Hora e
apontada como uma das provveis candidatas ao primeiro lugar. Se Edu, o
autor da msica, no era conhecido, o letrista era, e isso pesou
fortemente na deciso dos jurados.
Quem no gostou muito dessa tendncia, inerente  interpretao nada
cool de Elis, foi o diretor da Rhodiaceta Livio Rangan. Para ele, a
msica mais de acordo com a linha do patrocinador era "Rio do Meu Amor",
cantada brilhantemente por Wilson Simonal (que era tambm o astro do seu
show), que se encaixava perfeitamente com as festividades de comemorao
do quarto centenrio do Rio de Janeiro, pois era uma verdadeira ode 
cidade. A letra bem trabalhada comeava assim: "Que ficou quatrocento,
quatrocento/ Rio que ficou quatrocento, quatrocento", e abordando o
Estcio do passado, as francesas do Ouvidor, o futebol, o carnaval, o
jogo do bicho e outras mumunhas em que Billy Blanco era mestre. O samba,
engenhosamente construdo sobre escalas ascendentes e descendentes,
repleto de sncopes, exigia do intrprete qualidades acima do habitual.
Justamente o que Simonal - que j o gravara em 15 de maro pela Odeon,
com arranjo de Lirio Panicalli, para seu prximo disco - tinha de sobra.
A tentativa de interferncia de Livio Rangan incomodava pelo menos dois
dos jurados, Franco Paulino e Roberto Freire, os quais, preocupados com
os problemas polticos de ento, interessaram-se em observar mais a
fundo a sinceridade de um tipo de letra e o comportamento de certos
artistas, que refletiam atitudes da juventude contrria ao regime
militar. Estando ambos envolvidos com a reao  ditadura, foram levados
a proteger os artistas e as propostas revolucionrias, caso de
"Arrasto", pela qual se apaixonaram. Com exceo de Srgio Cabral,
Lenita e Erlon Chaves, havia, entre os que no pensavam assim, um
interesse maior em outro tipo de msica, exemplificado pelas que Livio
preferia. Um dos jurados desse grupo, Eumir Deodato, fez uma acusao
grave, afirmando que "Arrasto" era plgio de uma msica de Villa-Lobos.
Indignado, Roberto Freire, que conhecia a obra do mestre a fundo,
desafiou-o a trazer a partitura que comprovasse o plgio.
- Se voc no trouxer essa partitura, eu te quebro a cara! No admito
que voc acuse de roubo um cidado por quem eu tenho todo o respeito -
arremeteu Roberto Freire.
Essa partitura nunca foi apresentada em nenhuma outra reunio. A partir
da, a corrente mais politizada decidiu radicalizar de vez,
preocupando-se em defender as canes de qualidade dentro do jogo de
interesses que existia. E esse jogo foi longe: na reunio seguinte, os
jurados foram surpreendidos ao encontrar, sobre a mesa, pacotes com
tecidos da Rhodia em seus lugares, numa visvel tentativa de seduo do
patrocinador. Pelo menos os pacotes "desses" jurados, foram todos
devolvidos.
Na terceira eliminatria, sbado, dia 3 de abril, no Hotel Quitandinha
em Petrpolis, foram classificadas "Queixa" (Sidney Miller, Z Kti e
Paulo Tiago) com Cyro Monteiro, "Jangadeiro" (Joo do Vale e Dulce
Nunes) com Catulo de Paula, "Por Quem Morrer de Amor" (Ronaldo Bscoli e
Roberto Menescal) com Peri Ribeiro e "Cada Vez Mais Rio" (Luiz Carlos
Vinhas e Ronaldo Bscoli) com Wilson Simonal.
O nvel foi ainda melhor, havendo concordncia do resultado com a reao
do pblico. A mais votada foi "Jangadeiro" (220 pontos), aplaudidssima
e muito elogiada pelos jurados. Cyro Monteiro, intprete de "Queixa", do
novato Sidney Miller, tambm fez grande sucesso. Desta vez, Livio ficou
muito feliz com o resultado: as msicas cantadas por Simonal e Peri eram
perfeitas para seu show, bem no estilo bossa nova.
Na tera-feira, 6 de abril, um verdadeiro circo de msicos, cantores,
jurados, jornalistas e tcnicos aportou no Teatro Astoria, um cinema
adaptado que servia de auditrio para a televiso. O antigo Cine
Astoria, na rua Visconde de Piraj, Ipanema, era agora sede da TV
Excelsior Rio, canal 2. A partir das 21 horas entraria no ar a final do
I Festival Nacional da Msica Popular Brasileira.
Entre as 13 concorrentes, no havia quem no comentasse sobre a
favorita: "Arrasto", de Edu Lobo e Vincius de Moraes, defendida por
Elis Regina.
"Arrasto" nascera numa festa na casa dos Caymmi, quando se cantava a
terceira parte da "Histria de Pescadores", o trecho denominado
"Temporal". Ao improvisar um contracanto para o nome de cada um dos
pescadores (Pedro, Chico, Lino, Zeca), Edu percebeu que estava nascendo
uma msica sob a inspirao de Dorival Caymmi. Guardou a idia e
completou a msica depois, mostrando a Vincius quando este voltou de
uma viagem.
Vincius sentiu o tema praieiro e, incorporando um certo misticismo 
pescaria, comeou a escrever a letra de "Arrasto". Ele no gostava
muito de trabalhar com gravao de fita, ento pediu para Edu ir tocando
a msica ao violo enquanto ia fazendo a letra aos pedacinhos e
mostrando para ver se estava ficando bom. Assim foi feita "Arrasto", em
tempo relativamente curto.
No era uma ruptura com a bossa nova, nem uma corrente contrria, e sim
uma decorrncia da estrutura harmnica da bossa nova. "Arrasto" passou
a ser um divisor de guas, provocando o surgimento de uma msica popular
moderna, abreviada na sigla MPM. A grande novidade, o que conquistaria o
jri e a platia do festival, seria a interpretao explosiva de Elis
Regina, o oposto da verso calma gravada anteriormente pelo autor com o
Tamba Trio em seu primeiro disco na Elenco. Antes do disco ser lanado,
Solano havia procurado Edu para incluir uma msica no Festival da
Excelsior e Edu pedira ao produtor da Elenco, Aloysio de Oliveira, para
segurar o lanamento do disco a fim de preservar o item de msica
indita exigido no regulamento. Assim, "Arrasto" pde ser inscrita.
Como cada compositor podia incluir duas msicas para que uma fosse
escolhida, Edu mandou "Aleluia", parceria com Ruy Guerra, e "Arrasto",
com Vincius de Moraes, que ele achava ser a melhor. Deu no cravo.
A escolha de Elis como intprete era quase natural, uma vez que ela j
cantara trs msicas de Edu em seu disco Samba Eu Canto Assim, pe-
Ia Philips. Com seu estilo e pelo jeito como cantava em seus shows, o
oposto do intimismo da bossa nova, era previsvel que Elis daria uma
interpretao mais dramtica  cano, completamente diferente da
concepo de Edu.
Mas Edu no podia antever tudo. Alm de mergulhar nos versos como um
tubaro, Elis iria acrescentar duas marcas registradas de seu estilo,
ambas devidamente testadas desde outubro do ano anterior nos espetculos
que fizera no Rio de Janeiro e em So Paulo. Uma delas eram os
movimentos dos braos, que tanto chamaram a ateno e que sugeriam o ato
do pescador puxando a rede, ao mesmo tempo que fixariam o visual de seu
estilo na pequena tela da TV. A outra marca era a desdobrada, que ela
tambm sabia capaz de levantar a platia, como j acontecera em "Terra
de Ningum" no show do Teatro Paramount. Ambos os recursos, como se viu,
haviam sido sugeridos no por um msico mas por um danarino-coregrafo,
o talo-americano Leonardo Laponzina, mais conhecido como Lennie Dale,
que chegara ao Brasil integrando um grupo de baile para o musical de
Carlos Machado Elas Atacam Pelo Telefone, na boate Fred"s, e, apaixonado
pelo Rio, resolvera ficar.
A fim de aproveitar melhor os passos de dana, Lennie criou coreografias
para outros artistas e para si prprio, exercendo uma influncia
fundamental na fase inicial da carreira de Elis Regina e inovando o
visual da msica popular brasileira, at ento limitado ao modelo
banquinho e violo. Lennie, que foi considerado equivocadamente o
inventor da dana da bossa nova, aplicava sua experincia como
coregrafo americano nas boates do Beco das Garrafas. O mesmo vale para
a desdobrada (que costumava anunciar com um chamado "S"imbora!"), j
presente na msica americana, por exemplo nas gravaes de "New York,
New York" com Frank Sinatra, que os DJs adoram detonar para encher a
pista em festas de casamento, a partir do famoso vamp introdutrio. Aps
a modulao, ao trmino da primeira vez, h uma fermata, e o andamento 
alterado para uma levada mais lenta, no verso "Those little town
blues...", criando um clima dramtico e contagiante que a cano
original no tinha, como se pode conferir na trilha sonora do filme, com
Liza Minelli. Esse expediente, tradicional em shows da Broadway,
desenvolvido nesse caso pelo prprio Sinatra com o arranjador Vinnie
Falcone,  a mesma desdobrada dos nossos festivais.
Na interpretao de Elis Regina para "Arrasto", a msica vem num tempo
rpido, como se fosse uma marcha, passa por uma frase lenta, quase ad
libitum ("Minha Santa Brbara/ me abenoai/ quero me casar com
Janana"), para retornar ao tempo marchado na repetio da melodia. Mas
quando atinge o refro pela segunda vez, que  o trecho mais empolgante
da melodia, e que na primeira parte tinha os versos "J"ouviu/ olha o
arrasto entrando no mar sem fim...", ocorre a desdobrada, anunciada
pela bateria: pa-paa-p. Os novos versos "Pra mim/ valha-me meu, Nosso
Senhor do Bonfim..." so cantados num andamento muito mais lento, ou
seja, so os mesmos compassos, porm num tempo bem mais dilatado. Em
termos musicais, trata-se de um sbito rallentando, e seu efeito 
imediato. Alm de ressaltar a marcao da frase, a desdobrada causava um
dinamismo to invulgar que o pblico era levado a aplaudir ali mesmo,
antes da msica terminar. Era tudo o que as canes precisavam para
impressionar o jri e empolgar as platias. Esse expediente foi to
importante que passaria a determinar o modelo das msicas de festival.
Nos anos seguintes, quando esse formato ficou evidente para
compositores, intrpretes e at para o pblico, a desdobrada seria ento
chamada vulgarmente de "Catupiry-Tamandar", aproveitando a diviso
mtrica das duas palavras. A desdobrada caiu como uma luva na
interpretao de uma cantora como Elis, que, sabendo como criar e
explorar a dinmica de uma cano, deu um novo destino ao seu visual e
ao da prpria msica popular brasileira na televiso. Foram inmeros os
compositores e cantores que ficaram fascinados quando viram Elis Regina
em suas aparies na TV.
No Teatro Astoria, Elis e mais outros 12 cantores disputavam o Berimbau
de Ouro com canes que representavam o que havia de mais novo na msica
brasileira. Antes de cantar, Elis leu o bilhete que Vinicius de Moraes,
presente na platia, lhe mandara atravs do reprter da Folha de S.
Paulo Adones de Oliveira: "Arrasta essa gente a, Pimentinha". E
arrastou mesmo. Quando pisava o palco, a baixinha virava um gigante.
Elis sabia desde a vspera que no jri ainda havia empate e que a
vitria de "Arrasto" estava muito difcil. Fez uma apresentao
empolgante para os presentes no teatro e para quem assistia pela
televiso. O teatro veio abaixo, foi uma ovao emocionada e incontida.
Depois dessa final, surgiu na imprensa o apelido "lice" Regina, que ela
odiava e teria sido criado pelo sarcstico Ronaldo Bscoli.
"Sonho de um Carnaval" foi a ltima msica apresentada nessa noite.
Outras j tinham sido muito bem recebidas, como "Jangadeiro", de Joo do
Vale, cantada por Catulo de Paula, e "Rio do Meu Amor", de Billy Blanco,
cantada por Simonal. A msica de Chico foi discretamente aplaudida, pois
o tom continuava muito baixo e a orquestra encobriu a voz de um Vandr
visivelmente nervoso. No intervalo, antes de se anunciarem as
vencedoras, estavam todos no saguo quando Chico Buarque ouviu Braguinha
comentar: "Essa ltima msica  uma porcaria!".
Enquanto isso, os membros do jri se reuniam para decidir. "Arrasto"
era a preferida do pblico e de metade dos jurados, para os quais, no
havia como negar, o nome de Vincius tinha muito peso. Mas, a essa
altura, at os jurados que j tinham decidido votar contra "Arrasto"
ficaram com vergonha e foram derrotados pela exibio de Elis. Apenas um
deles no se conformou com tal deciso: como era esperado, Eumir
Deodato, que ganhou o apelido de "Eu Gnio". Irredutvel, foi o nico a
votar contra "Arrasto", que ento ganhou por 9 a 1.
O resultado seria comunicado por Bibi Ferreira, a estrela mxima da TV
Excelsior. Quando foi anunciada a quinta colocada, "Cada Vez Mais Rio",
de Luis Carlos Vinhas e Ronaldo Bscoli, o diretor da Rhodia ficou
possesso e retirou-se do recinto. Para ele, essa msica, que teria
entrado por debaixo do pano na seleo das 36 finalistas,  que deveria
ganhar. Seu plano era inclu-la no repertrio do show itinerante da
Rhodia, cujo astro maior era o prprio Wilson Simonal. Este chegou a
chorar ao saber do resultado, recusou-se a entrar no palco com os demais
e declarou mais tarde que "Arrasto" no podia ganhar porque era msica
regional. Contudo, na opinio de vrios presentes, a msica de Chico
Buarque ou a de Joo do Vale  que mereciam o quinto lugar. Nenhuma das
duas foi premiada. O quarto lugar foi para "Queixa" de Z Kti, Paulo
Tiago e um desconhecido, Sidney Miller, mas quem subiu ao palco foi o
intrprete, Cyro Monteiro. Vera Brasil e Miriam Ribeiro foram premiadas
com o terceiro lugar por "Eu S Queria Ser", que depois seria gravada
com a cantora Claudete Soares. O segundo lugar foi para outra cano que
no convenceu, a "Valsa do Amor Que No Vem", de Baden e Vincius, to
insossa que logo desapareceria. Ficou patente que essa colocao foi
conseguida por mrito exclusivo da magistral interpretao de Elizeth
Cardoso. A deciso para o primeiro lugar foi aplaudidssima pela
platia. Venceu a favorita: "Arrasto", de Vincius de Moraes e Edu
Lobo, com uma Elis que no cabia em si de contente e saiu dali
consagrada.
Aps a premiao, como alguns ainda insistissem em reclamar do
resultado, Cyro Monteiro resumiu o festival com uma de suas frases que
acabaram fazendo histria: "No houve aqui vencidos nem vencedores. Quem
ganhou foi a nossa msica".
A final do Festival da TV Excelsior foi celebrada em vrios pontos do
Rio de Janeiro. A maior parte dos jurados foi jantar num restaurante.
Baden Powell foi para seu apartamento no Copacabana Palace, festejar o
segundo lugar e cantarolar com os amigos a msica que julgava ser a mais
popular de todas: "Carnaval, desengano,/ deixei a dor em casa me
esperando...". "Sonho de um Carnaval" seria gravada por Vandr em seu
segundo LP, de 1965, Hora de Lutar, e depois por Chico no lado B de
Pedro Pedreiro. Na esteira do sucesso desta ltima, Chico Buarque seria
contratado pela TV Record, fazendo parte do segundo time de artistas dos
programas musicais e da parada semanal, Astros do Disco. Com o salrio
mensal de 500 cruzeiros, ele comprou um Fusquinha usado. A cano de
Chico tambm havia conquistado o jurado Franco Paulino, que escreveu em
sua coluna A Bossa  Msica: "O Chico ainda vai espantar este pas".
Depois da vitria, Elis Regina, a mais cumprimentada, foi direto para a
festa de comemorao no apartamento de Vincius, a tempo de assistir ao
final do programa pela televiso. Dois dias depois ela estaria no
Paramount, em So Paulo, com Jair Rodrigues e o Zimbo Trio, cantando na
primeira das trs noites do show que resultaria em seu segundo disco
pela Philips, Dois na Bossa, que logo seria o novo recordista de
vendagem no Brasil. No dia 10 de abril, ela receberia no Teatro Record o
prmio Roquete Pinto como cantora revelao do ano, e no dia 18
embarcaria para uma temporada no Peru acompanhada pelo Zimbo Trio.
Vincius, rodeado de amigos e evidentemente de muito usque, estava
alegrssimo. Ausente, apenas o parceiro, Edu Lobo. Edu estava em So
Paulo desde fevereiro, trabalhando com Gianfrancesco Guarnieri na trilha
do musical Zumbi, Rei dos Palmares, que seria rebatizado de Arena Conta
Zumbi. Como ainda no havia rede nacional de televiso, Guarnieri
convidou Edu para irem ao Bar Redondo, prximo do Teatro de Arena, de
onde telefonariam para saber o resultado. Os pais de Edu, que assistiam
ao festival pela televiso, foram contando por telefone quem estava
sendo premiado. Quando disseram que o segundo lugar era de Baden e
Vincius, Edu perdeu as esperanas e falou:
- Bom, Guarnieri, agora eu perdi, nunca vo dar dois prmios para o
Vincius.
Meio triste, entregou o telefone para Guarnieri, que retrucou
animadssimo:
- Voc vai ganhar! Deixa eu continuar ouvindo.
Logo depois, saiu pulando, felicssimo com a notcia que ouvira de
Fernando Lobo:
- Voc ganhou, seu f... da p...!
Os dois tomaram o maior pileque da parquia, ali mesmo, no Bar Redondo.
Com o dinheiro, 5 milhes de cruzeiros, Edu comprou um Fusca do ano
anterior, para poder sobrar algum. O zero km de 1965 custava 3,2 milhes
e o usado, 2,5 milhes. Edu preferiu o 64 e depositou a outra metade no
banco. Foi o primeiro dinheiro grande que ganhou e a partir da sua vida
mudaria. Dois dias depois do festival, jornais e revistas estampavam a
foto do jovem Edu Lobo, que logo foi convidado por Aloysio de Oliveira
para fazer um show com o Tamba Trio e Nara Leo. Comeava uma nova
carreira para o compositor de "Arrasto". Como artista de palco, deixou
de comer sanduche para comer bem com o dinheiro que ganhava.
Os compositores das cinco primeiras msicas ainda se reuniram no dia 12
de abril, em So Paulo, para serem homenageados no Teatro de Arena e no
programa de Bibi Ferreira na TV Excelsior, quando receberam os cheques
dos prmios. Ronaldo Bscoli recebeu o do quinto, Cyro Monteiro o do
quarto, Vera Brasil e Miriam Ribeiro o do terceiro, Vinicius e Baden o
do segundo, e novamente Vincius mas ao lado de Edu, que usava uns
apertadssimos sapatos pretos de seu pai. Receberam o cheque de 10
milhes e um berimbau de ouro das mos do governador Adhemar de Barros,
que jamais ouvira falar de berimbau em sua vida. Entregaram o trofu
para Elis Regina, que gravaria "Arrasto" em estdio no arranjo de
Luizinho Ea. Essa gravao foi lanada em maio num compacto com
"Aleluia" no lado B. Que se saiba, no existe nenhuma imagem de Elis
cantando "Arrasto" no festival. Se alguma foi registrada, provavelmente
desapareceu para sempre no incndio da Excelsior em 2 de junho de 1967.
"Arrasto" determina o nascimento do gnero msica de festival, que
tinha por modelo a temtica com uma mensagem, como na letra de Vinicius;
a melodia contagiante, como na msica de Edu Lobo; o arranjo peculiar,
que levantava a platia, e a interpretao pica de Elis Regina.
"Arrasto" deu um novo rumo para a msica popular brasileira (mais tarde
alcunhada MPB) e foi o ponto de partida da msica na televiso, um
espao que no existia antes. A despeito] de a audincia no ter sido
espetacular, a partir do Festival da TV Excelsior, a msica brasileira
pela TV no seria mais a mesma. Os quase sonolentos programas em que um
grande cantor ou cantora se apresentava durante meia hora num cenrio de
gosto discutvel, mesmo com uma mulher admiravelmente fotognica como
Maysa, chegavam ao fim de uma era. No novo modelo, havia um outro
elemento: o pblico.
Nascia, embora timidamente, um novo gnero de programa de televiso, no
qual a platia se manifestava e torcia. Como no futebol, havia a
competio. Em vez de jogadores e times, cantores e compositores. Em vez
de estdios, os auditrios. Nascia uma nova torcida no Brasil, a torcida
pelas canes.
A partir do I Festival da Excelsior, programa musical na televiso
brasileira seria outra coisa. Uma coisa nica no mundo. E ainda mais:
pela primeira vez na histria da televiso brasileira, quem estava em
casa tinha um contato direto com o que acabava de sair do forno, a nova
usina de produo da msica popular, a privilegiada gerao dos anos 60.
Esse pblico tinha liberdade de avaliar de imediato a nova cano,
influenciado ou no pelas platias. Liberdade de avaliar era um direito
de cada cidado, num pas em que a liberdade de pensar vinha sendo
tolhida pouco a pouco havia quase um ano.
Quem iria colher os frutos desse novo formato? Poucas semanas depois,
Paulinho Machado de Carvalho provou ter percebido que valia a pena
investir pesado. Alis, valia a pena investir pesadssimo. Elis Regina
era um fenmeno.
Captulo 3.
"PORTA ESTANDARTE"
(II FESTIVAL DA TV EXCELSIOR, 1966)
Dias antes do Natal de 1965, Solano Ribeiro, que havia pedido demisso
do cargo de produtor de Bibi Sempre Aos Domingos em julho, entrou na
sala de Edson Leite, diretor da TV Excelsior, para lhe desejar boas
festas:
- Ento, como est nosso festival? Vai ter em 66? - perguntou.
- No s vai ter como j temos at o contrato do patrocinador assinado -
respondeu Edson, satisfeito.
- Assinado? - espantou-se Solano.
- E com o mesmo patrocinador, a Rhodia. Vai ser em So Paulo, Porto
Alegre, Rio e Ouro Preto. Vamos ter mais eliminatrias, em vrias
cidades.
Esse era um ponto que contrariava em cheio o plano original de Solano.
Ainda que no primeiro festival tivesse concordado com a realizao das
trs eliminatrias em diferentes cidades, ele fazia questo de que a
sede do festival fosse uma cidade pequena e charmosa, um balnerio onde,
 medida que as eliminatrias fossem acontecendo, haveria um crescendo
at o dia da final, o que traria muitas vantagens para o marketing do
evento. Com a presena de jornalistas e artistas, a cidade viveria em
funo da msica, gerando um noticirio constante, provocando ainda
muita badalao nos bares e boates em torno do evento. A televiso, os
concorrentes, a prpria cidade seriam beneficiados, sendo notcia ao
longo de um ms. Da a escolha do Guaruj.
Solano se sentiu no mnimo trado e o sangue subiu-lhe  cabea.
- E quem vai dirigir esse festival? - quis saber.
- Ora, voc vai dirigir.
Solano sacou tudo. Era preciso endurecer.
- Eu? Eu, no.
Solano no titubeou, tomando a deciso rapidamente.
- Esse no  o meu festival, esse  o festival do Livio Rangan. Eu vou
embora.
E no perdeu tempo: saindo da sala, sentou-se  frente da mquina de
escrever da secretria de Edson, dona Nina, e ali mesmo bateu seu pedido
de demisso. Tchau, canal 9.
Para a TV Excelsior, que se propunha a manter boas relaes com um
cliente como a Rhodia, essa demisso caiu do cu. O segundo festival
seguiria o padro Rhodia.
A postura do jri e o resultado final do primeiro festival haviam ficado
entalados na garganta de Livio. Como patrocinador, ele se sentia no
direito de direcionar o tipo de msica que beneficiasse seu projeto na
Rhodia. E sua esttica musical era a dos shows da Rhodia. Mas o que ele
nem desconfiava  que a esttica da msica popular brasileira j vinha
sendo transformada nas profundezas de seus pores. E o mais importante:
justamente o primeiro festival  que tinha determinado o padro dessa
nova esttica.
O novo diretor designado para o II Festival Nacional de Msica Popular
Brasileira foi Roberto Palmari, cineasta e amigo de Livio Rangan. Este
seria o nico festival dirigido por Palmari.
Nesse final do ano de 1965, a situao da TV Excelsior era bem diferente
da de 1963, quando a emissora vinha numa escalada avassaladora, com a
expanso da rede atravs da abertura da TV Excelsior Rio, canal 2. Foi
quando estreou o Show de Notcias, o pai do Jornal Nacional da Globo,
que antecedia diariamente shows musicais, como os de Moacyr Franco e de
Lus Vieira, o Cynar Show, A Grande Revista, as atraes internacionais
Gilbert Becaud e Ray Charles, alm do que vinha sendo introduzido com um
esmero inigualvel para os padres de televiso no Brasil. Era uma
verdadeira mquina de divertimento de primeira linha, levando a
Excelsior a dividir a liderana com a Record nos ltimos meses de 1963.
Mas, desde meados de 1964, a cena vinha mudando.
A 31 de maro, instaurara-se no pas um movimento militar com o
propsito declarado de livrar o Brasil do comunismo, que estaria
supostamente sendo implementado no pas pelas atitudes e reformas
efetuadas at ento pelo presidente Joo Goulart. O perodo de 19 a 31
de maro fora marcado por marchas, prises, demisses de ministros,
mobilizaes, movimentos de tropas e, finalmente, o golpe. Para atingir
seus desgnios, os novos donos do poder promulgaram decretos conhecidos
como Atos Institucionais, os "AI", que tinham o objetivo, entre outros,
de reduzir o poder do Congresso, embora este se mantivesse funcionando.
O AI-1 preparara o terreno para os inquritos policial-militares,
possibilitando perseguies, prises e torturas dos inimigos do novo
regime, entre os quais os estudantes, que tiveram a sede da UNE
incendiada, juzes e parlamentares, que foram cassados, e participantes
das Ligas Camponesas. A classe artstica foi atingida desde logo, com a
priso de Carlos Lyra, Dias Gomes e Mrio Lago em abril de 1964. O AI-1
permitiu a eleio indireta do general Castelo Branco, que presidiria o
pas at 31 de janeiro de 1966. Seus poderes foram ampliados pelo AI-2,
decretado a 17 de outubro de 1965, que extinguiu os partidos polticos e
forou uma situao de bipartidarismo, composto por Arena (da situao)
e MDB (da oposio).
Diante da ditadura, apelidada no meio artstico de "redentora", as
posies assumidas por Mrio Wallace Simonsen, o cabea do grupo
Comal/Panair/Excelsior etc., a favor de Joo Goulart antes da ascenso
dos militares ao poder, apoiando inclusive um plebiscito, iriam
determinar o incio do fim de seu poderoso imprio. O tremendo baque
acarretado por sua morte, em Paris, a 24 de maro de 1965, dias depois
de ter seus bens seqestrados, iria desencadear um longo mas
irreversvel processo de perdas, com aes de despejo, atrasos de
salrios, controle das aes da TV Excelsior Rio pelo Estado, cassao,
mudana da diretoria e outros passos que conduziriam a emissora a um
final inexorvel, o desligamento definitivo das cmeras de televiso,
que ocorreria cinco anos depois, em abril de 1970.
Essa lamentvel derrocada era disfarada na medida do possvel, como no
dia do quarto aniversrio da emissora, quando, durante o Moacyr Franco
Show, foi distribudo entre os funcionrios um gigantesco bolo de 3
metros. O rumo que o destino reservava ao canal 9 e o mal-estar que se
pressentia na classe artstica contra o domnio militar pareciam no
interferir na transbordante msica de So Paulo dos anos 1965 e 1966.
Enquanto, no Rio, comentava-se sobre uma crise na vida noturna com o
fechamento do Rio 1.800, do Poro 73, do Top Club, do Arpge e at do
Golden Room do Copacabana Palace, em So Paulo os bares com msica ao
vivo continuavam lotados: Cave, Dobro (o novo bar de Hlio Souto),
Saloon e Serenata (ambos na rua Augusta), os trs da praa Roosevelt -
Djalma, Baica e Stardust -, Ela Cravo e Canela, Juo Sebastio Bar,
Candlelight (aberto defronte ao Juo), L Club, Rosa Amarela, Delval, o
Champanhota, o Zelo, o L Barbare de Lus Carlos Paran, o Quitandinha
e seus shows folclricos de macumba, o Pierrot da rua Vieira de
Carvalho, o Sambalano, a boate Osis, o Toalha da Mesa e o Garoa. A
cidade se firmava como a meca dos artistas da msica popular brasileira.
Era da capital paulista que emanavam os principais shows da televiso
com presena de pblico.
Quase todos os grandes nomes que surgiram na msica em 1965 e 1966
estavam contratados com exclusividade pela TV Record para abastecer seus
programas, que formavam um verdadeiro leque de gneros e estilos da
msica popular brasileira. Esses artistas eram essenciais para cantar as
canes inditas que viessem a ser inscritas no II Festival Nacional da
Msica Popular Brasileira da TV Excelsior. Elis Regina, Jair Rodrigues,
Chico Buarque, Elizeth Cardoso, Roberto Carlos, Edu Lobo, Wilson
Simonal, Hebe Camargo, Claudete Soares e Alade Costa eram exclusivos da
Record, que fez um rapa na msica popular, deixando s as beiradas para
a concorrente que lhe havia roubado a liderana.
Conseguindo manter o patrocnio da Rhodia em 1966, a TV Excelsior, como
no primeiro festival do ano anterior, se aliava  revista Manchete e ao
jornal Folha de S. Paulo para a promoo do segundo.
A festa de gala do lanamento seria a 24 de abril de 1966, mas era
preciso um avalista. Quem melhor que Elis Regina? Afinal, ela era uma
cria da Excelsior desde sua vitria com "Arrasto". S que, a essa
altura, Elis era contratada da Record e comandava O Fino da Bossa havia
quase um ano. Nem passava pela vizinhana da Nestor Pestana. No mximo,
saa de seu apartamento na esquina da avenida Ipiranga com a Rio Branco,
subia a Consolao e entrava no Teatro Record, onde era a estrela. Como
os Machado de Carvalho no admitiam que seus artistas sequer passassem
pela frente dos canais rivais, foi preciso uma autorizao especial para
que ela comparecesse nesse domingo ao auditrio do canal 9 para o
lanamento oficial do Festival. Elis compareceu, foi fotografada e
televisionada, mas no dia seguinte estava gravando mais um Fino da Bossa
na Record.
Em seu novo formato, as eliminatrias agora seriam em cidades
diferentes: Guaruj (29 de abril), Porto Alegre (6 de maio), Recife (13
de maio), Ouro Preto (20 de maio) e Rio de Janeiro (27 de maio). Seriam
apresentadas 50 msicas, dez em cada praa, uma verdadeira maratona.
Cada eliminatria forneceria trs msicas para a final, que ocorreria em
So Paulo, com 15 canes disputando prmios no valor de 40 milhes de
cruzeiros: 20 milhes para a primeira colocada e mais 20 milhes
divididos entre as quatro seguintes, alm dos trofus Berimbau de Ouro,
Prata e Bronze. Os acompanhamentos ficariam a cargo da Orquestra da TV
Excelsior, comandada por Slvio Mazzuca, alm dos grupos de Pedrinho
Mattar, Trio Trs D, de Antnio Adolfo, e um certo grupo Barra Trs.
Naturalmente, alguns dos astros que cantariam no Festival deram o ar de
sua graa na festa dessa noite. Astro de festival no era, nem podia
ser, compositor, em geral ilustres desconhecidos do pblico. Um deles,
por exemplo, com uma cano escolhida para a eliminatria do Rio de
Janeiro, poderia ir ao clube mais gr-fino de So Paulo na poca, a
Sociedade Harmonia de Tnis - como de fato foi, meses mais tarde, com
seu amigo Zuza, que o apresentou a meio mundo - e passar completamente
despercebido. Ningum deu a menor pelota para aquele baianinho magro e
queixudo de cabelo encaracolado. Caetano Veloso no era nem cantor.
Os cantores que estiveram no lanamento pertenciam ao que se pode chamar
de atraes assduas na noite paulistana, participando eventualmente dos
shows de teatro, reunies musicais e at programas de televiso fora do
chamado horrio nobre: Srgio Augusto, Yvete, Roberta, Tuca, Antnio
Borba eram alguns dos candidatos a um lugar ao sol na msica popular
brasileira. Convenhamos, no era um time que pudesse segurar a barra de
um grandioso programa de televiso recheado de msicas desconhecidas.
Mas era o que se tinha. Era o que a TV Excelsior podia ter. Numa atitude
louvvel, a direo do festival desejava revelar tambm um grande
intprete para a msica popular brasileira, que poderia estar entre as
mais visadas pelos olheiros nessa noite: Doroty, Maria Odete ou
Silvinha. As trs eram de So Paulo, pois do Rio viera apenas uma
cantora de nome: a terceira colocada no concurso A Voz de Ouro, cujo
primeiro LP, A Voz Adorvel de Clara Nunes, seria lanado em junho.
Das 2779 msicas inscritas em todo o Brasil, 50 haviam sido selecionadas
para as eliminatrias, que se iniciariam no Guaruj.
A TV Excelsior cometeu um pecado capital na primeira eliminatria,
realizada na sexta-feira, 29 de abril: no transmiti-la ao vivo. Quem
quisesse saber o que acontecera no Guaruj deveria ligar a televiso no
canal 9, a partir do meio-dia do domingo, quando seria apresentada a
gravao da primeira eliminatria. Em termos de festival pela televiso,
algum na Excelsior pisou na bola. A direo do festival era de Kalil
Filho (um dos apresentadores), Waldemar de Morais (produtor do programa
de Bibi Ferreira) e Roberto Palmari.
O jri tinha nomes expressivos e competentes: o poeta Paulo Mendes
Campos, o crtico Lcio Rangel e os maestros Eduardo de Guarnieri, Diogo
Pacheco, Guerra Peixe e Radams Gnattali. O cronista Rubem Braga tambm
era do jri, mas no estava no Guaruj.
Alm das dez msicas apresentadas, houve um show com Elza Soares, Lennie
Dale e o Bossa Trs, bem no estilo "show da Rhodia". O evento foi
realizado no Clube da Orla e pelo menos uma daquelas cantoras
desconhecidas se tornaria famosa nos anos 70: Clara Nunes, que
apresentou "Cano do Amor Que Se Foi". Entre os relativamente
conhecidos, estavam Djalma Dias, um mulato"sestroso, boa-pinta, que
tambm fazia o gnero "show da Rhodia", emplacando "Bem Bom no Tom", e
Flora, que no conseguiu emplacar "Pra Que Mentir". Evidentemente, no
era o samba-cano homnimo de Noel Rosa. A Flora, sim, era quem esto
pensando, a futura Flora Purim. Ao final, com a apresentao de Kalil e
Carlos Zara, o jri classificou ainda "Motivos", com o cantor de So
Paulo Slvio Aleixo, e "Joga a Tristeza no Mar", com Germano Batista.
Coincidncia ou no, os cantores das trs classificadas estavam de
branco.
A eliminatria de Porto Alegre, realizada no Teatro da Reitoria da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 6 de maio, teve o
privilgio de apresentar um novo cantor, que faria histria, cantando
com um pulver de gola rul, tambm branco. Um "mineiro" por adoo,
nascido no Rio, de 23 anos, esperanoso, que se candidatou quando leu no
jornal uma oferta de vagas para intrpretes no festival. Em Belo
Horizonte, era o solista do quarteto vocal Sambacana, cantando msicas
americanas e brasileiras. Inscreveu-se e foi convocado para ir a So
Paulo a fim de conhecer a msica a ser defendida.
Os candidatos estavam reunidos numa sala onde aprendiam as msicas
acompanhados por um conjunto. Entrou sem ser percebido, comeou a
remexer as partituras, sem identificao de autoria, e se sentiu atrado
por uma delas que, pelas suas noes musicais, acreditava ser de Baden
Powell. Uma vez escolhida a cano, retornou com a partitura para Belo
Horizonte, deixando a organizao desesperada, pois ela devia ser
destinada a outra pessoa. No fim, a cano era mesmo de Baden e Lula
Freire, e foi defendida e classificada por ele sob aplausos dos gachos.
O ttulo era "Cidade Vazia"; o nome do cantor: Milton Nascimento.
Quem tambm foi aplaudidssima em Porto Alegre, empolgando a gauchada,
foi uma cantora de 17 anos que viera de So Paulo. Ela j tinha
participado do programa O Fino da Bossa, deixando boquiabertos todos os
que estavam no Teatro Record, artistas e pblico. O trompetista Waldir,
da Orquestra Record,  que trouxera cuidadosamente pela mo aquela
tmida "mineirinha" nascida no Rio e dona de uma voz estonteante. Quando
ensaiou com a orquestra,  tarde, soltou o gog e da em diante ningum
mais falava em outra coisa antes do programa, que seria gravado nessa
mesma noite, 16 de agosto de 1965. Cantou como gente grande. Seu nome
era Maria das Graas, a msica era "Amor Demais". Como naquela poca
tambm despontava uma outra Maria da Graa, que depois ficaria conhecida
como Gal Costa, essa Maria das Graas trocou seu nome artstico para
Cludia. A mesma Cludia que Elis Regina logo tratou de chutar para
escanteio, fuzilando-a com seu temido olhar estrbico e evitando que
fosse contratada pela Record. E no foi mesmo: tornou-se freelancer
depois de atuar no programa BO- 65, da TV Tupi.
Cludia arrasou na eliminatria de Porto Alegre, classificando
"Mensagem" perante 2 mil pessoas que, ao final, pediam bis de p com
tanta insistncia, que Kalil Filho teve que dar uma justificativa: "O
distinto pblico que perdoe esta atitude antiptica, mas Cludia no
pode bisar seu nmero pois este  um festival de compositores e no de
cantores". Entusiasmado com Cludia, o maestro Diogo Pacheco, um dos
jurados, prometeu convid-la para uma pera infantil que regeria. Em
compensao, outra cantora de So Paulo, Silvinha, foi mal recebida
quando se anunciou que "Se A Gente Morresse de Amor" tambm ia para a
final.
O pblico paulista assistiu pelo canal 9  eliminatria de Porto Alegre,
no dia 8 de maio, dois dias depois de sua realizao. Nessa mesma poca,
estavam abertas as inscries para o Festival da TV Record, que seria
realizado em setembro.
O show do intervalo na eliminatria do Recife teria Lennie Dale, Geraldo
Vandr, Trio 3 D e o conjunto Voz do Morro com Z Kti. Elza Soares j
no atuara em Porto Alegre. Havia armado um escarcu dos diabos antes do
embarque para o Sul: queria porque queria embarcar no Caravelle das
16h30 e ainda levar um acompanhante. Consta que a imposio teria
partido do jogador Garrincha. O diretor da Rhodia no admitiu. Elza
teria que ir no vo da Vasp e de manh. No foi e foi expelida dos shows
da Rhodia da em diante. Os astros do show do intervalo eram agora
Lennie e Vandr.
Por falta de energia, a eliminatria acabou sendo transferida do Esporte
Clube do Recife para o auditrio da TV Jornal do Comrcio.
Classificaram-se as seguintes canes: "Acalanto", com a suave Ivete e o
piano de Pedrinho Mattar imitando uma cano de ninar; "Ina", com
Nilson, um dos Cantores de bano; e "Perdo", com uma das mais cotadas
intrpretes, Maria Odete.
Numa noite fria, diante da fachada barroca do Museu dos Inconfidentes,
na praa Tiradentes de Ouro Preto, intensamente iluminada, um pblico de
mais de 5 mil pessoas assistiu, sem arredar p, a despeito da
temperatura de 10 graus,  quarta eliminatria do II Festival da
Excelsior. Msicos e cantores utilizaram o prprio museu como vestirio,
os jurados ficaram tiritando de frio numa mesa defronte ao palco,
enquanto o pblico, em sua maioria estudantes da prpria cidade e de
Belo Horizonte, entusiasmou-se mais com o ator Carlos Zara, um dos
apresentadores, do que com o show da Rhodia ou com as dez msicas que
disputavam trs novas vagas para a final. Fazia tanto frio que o
bailarino Lennie Dale nem pde danar com sua camiseta regata. Depois do
show, o outro apresentador, Kalil Filho, anunciou as trs classificadas:
"Irremediavelmente", com Silvinha, que cantou e tocou violo sentada; um
samba cujo ttulo forava a galhofa, "Cano Para um Maio Azul com
Bolinhas Brancas", defendido por Jair Campos, paulista de Tup; e "Porta
Estandarte", que foi muito aplaudida e includa na lista das favoritas.
"Porta Estandarte" foi a nica msica desse festival defendida por dois
cantores: Airto Moreira, percussionista da noite paulistana,
ex-integrante do Sambalano Trio (ao lado do pianista Csar Mariano e do
baixista Claiber), e a gordota Tuca, conhecida dos meios musicais
universitrios de So Paulo. Uma marcha-rancho com uma dupla mista de
cantores podia ser novidade naquele festival, mas no na msica
brasileira. Um dos autores de "Porta Estandarte", Geraldo Vandr, que
tambm integrava o show da Rhodia com Lennie Dale, vibrou com a
classificao, sentindose parcialmente recompensado pela
desclassificao de "Hora de Lutar" no festival do ano anterior.
A noitada em que alguns cantores foram esquentar a goela nos botecos da
histrica cidade mineira confirmou o sucesso de "Porta Estandarte". Tuca
cantou a msica vrias vezes para a estudantada mineira. Outra cantora,
Roberta, com seus belos olhos verdes mas desolada por no classificar
"Se o Sol Falasse", encheu a cara na boate Calabouo. Mas no deu
vexame.
A ltima eliminatria seria realizada no auditrio da TV Excelsior em
Ipanema, o mesmo da final do festival anterior. A Excelsior carioca
caprichou na parte que lhe coube: tascou uma banda de msica defronte ao
teatro, conseguiu trazer o governador Negro de Lima, que como bom
poltico declarou no haver msica mais encantadora que a brasileira, e
ainda convidou para o jri Dorival Caymmi, Eumir Deodato, Lcio Rangel e
Paulo Tapajs.
Aps a apresentao das dez msicas, a grande surpresa foi a presena de
Elis Regina, cedida pela Record, no show ao lado de Lennie e Vandr.
Depois, a deciso dos jurados. Foram para a final "Chora Cu", mais uma
de Cludia, a valsa "Tic Tac", com Doroty acompanhada por Pedrinho
Mattar, e "Boa Palavra", em que Maria Odete conquistou a platia
soltando a voz com vontade nos versos finais, "Boa palavra rapaz...".
Quem se desse ao trabalho de observar a lista das 15 finalistas veria
que trs cantoras tinham classificado duas msicas cada uma: Silvinha,
Maria Odete e Cludia, que por sinal j havia at gravado as suas duas,
"Chora Cu" e "Mensagem".
Foi o motivo para gerar um tremendo bafaf. Com o xito de Elis Regina
no ano anterior, alguns cantores estavam certos que o festival iria
detonar suas carreiras, mas para isso era indispensvel ir  final. Se
fossem desclassificados, bye-bye. Da por que surgiram fofocas de que
ningum poderia cantar duas msicas na final. Deveriam ser chamados
novos cantores para as trs msicas e as tais cantoras teriam que
escolher uma s. Armou-se o maior barraco. Surgiram rumores de que se
Cludia no cantasse suas duas classificadas, cairia fora. Nas
entrelinhas, podia-se entender que os novos cantores a serem escolhidos
seriam favorecidos, chegando a uma final sem merecer.
Assim mesmo, o jri, usando de sua soberania, tomou a deciso: quem
tinha classificado duas msicas teria de optar por uma delas. As trs
meninas foram ento obrigadas a escolher, se quisessem participar.
Silvinha preferiu "Se A Gente Morresse de Amor", Maria Odete, "Boa
Palavra", e Cludia, "Chora Cu". As outras trs canes teriam mesmo
novos intpretes: "Irremediavelmente" ficaria com uma outra novata,
Erica Norimar, "Perdo" com Clara Nunes e "Mensagem" seria cantada por
Djalma Dias, enquanto "Bem Bom no Tom", que ele classificara no Guaruj,
passava para a mulata Carmen Silva. Nas conversas de cocheira, dizia-se
que a Rhodia estava de olho em Djalma Dias para seu show itinerante, e
que para isso ele precisava estar na final com uma boa cano. O diretor
Roberto Palmari saiu em defesa da deciso, alegando que aquilo no era
um concurso de cantores, mas de msicas. "Estamos preocupados, primeiro,
em revelar msicas, no em revelar cantores, embora isto esteja dentro
de nossos planos, pois do contrrio no teramos dado oportunidade a
tantos estreantes e semi-estreantes." Quem quisesse assim, muito bem,
seno, que se virasse. "A Rhodia no mais patrocinaria seus shows
itinerantes, e portanto o argumento a favor de Djalma Dias no se
justificava", completava Palmari, colocando um ponto final no
diz-que-diz-que.
Tudo grupo. Trs meses depois do festival, a Rhodia montaria um novo
show para excursionar pelo Nordeste do Brasil com o recm-formado Trio
Novo (Tho, Heraldo e Airto) e Geraldo Vandr. Na verdade, o grupo
instrumental montado por Airto a pedido de Vandr era um quarteto, mas
Livio Rangan achava Hermeto Paschoal muito feio e o quarteto foi
reduzido a trio. Sem comentrios.
Para bagunar ainda mais o coreto, o jri tambm tomou outra deciso
importante. Em 2 de junho, decidiu promover uma repescagem, incluindo
mais quatro msicas ao lado das 15 j selecionadas nas eliminatrias.
Foram elas: "Comunho", com Edgar Pozer, apresentada no Rio, "Fim de
Tristeza", com Doroty, apresentada em Ouro Preto, "Preldio para um Amor
que Comeou", com Snia Lemos, apresentada no Rio, e "Balana a
Roseira", que tambm fora desclassificada no Rio com Flora, namorada de
Airto. O maestro Guerra Peixe saiu em defesa da medida adotada, alegando
que as quatro tambm tinham condies de concorrer em p de igualdade
com as 15 finalistas. "Tm boas letras e melodias agradveis",
complementou o cronista Rubem Braga, tambm do jri. Ser que ainda
sobrava espao para outra mudana? Nunca se sabe.
Enquanto o governador de So Paulo, Adhemar de Barros, era cassado em
decorrncia da Autofagia dos processos que atingiram lderes do golpe de
1964, abandonando o Palcio dos Campos Elsios com um chapu branco bem
ao estilo de um fazendeiro de So Manoel, cantores e msicos ensaiavam 
tarde, no auditrio da TV Excelsior da rua Nestor Pestana. A
finalssima, que seria s 20 horas desse domingo, 5 de junho, deveria
ter 19 msicas: as 15 classificadas e as quatro favorecidas. De fato, na
sexta-feira eram "19 cantores jovens interpretando as msicas que sero
o sucesso do ano", segundo a divulgao da TV Excelsior. Entretanto,
ocupando uma pgina inteira da Folha de S. Paulo, a emissora anunciava
no domingo que concorriam ao trofu Berimbau de Ouro 18 msicas. Faltava
"Joga a Tristeza no Mar", classificada no Guaruj. Onde teria sido
jogada a msica cantada por Germano Batista?
Alm dos seis componentes fixos das eliminatrias, o jri teria a
participao extra do chargista Millr Fernandes, do paranaense Tlio de
Lemos (um homenzarro com voz de baixo profundo, grande produtor  de
rdio e TV e autor das perguntas do programa da Tupi O Cu  o Limite,
nos anos 50), do crtico de msica erudita Alberto Soares de Almeida e
do correspondente da Cash Box no Brasil, Lus Guedes.
Desta vez, o Festival foi ao vivo, comeando pontualmente s 20 horas,
dentro das rgidas normas de horrio do canal 9. Com toda a pompa e
circunstncia que o evento merecia, os dois apresentadores, Zara e
Kalil, trajados a rigor, foram anunciando uma a uma as 18 finalistas,
acompanhadas, em meio  natural ansiedade dos concorrentes, ora pela
orquestra regida por Slvio Mazzuca, ora por um grupo instrumental.
"Porta Estandarte", "Boa Palavra" e "Chora Cu" foram vibrantemente
defendidas por seus intrpretes e, consequentemente, as mais aplaudidas
pelo pblico paulista que lotava o auditrio do canal 9.
Depois de um intervalo, foram anunciados os vencedores. Inicialmente, o
melhor intrprete, que receberia um automvel Gordini: Djalma Dias,
eleito aps uma difcil deciso em que havia cinco cantores empatados.
Entre eles, Maria Odete, ovacionada entusiasticamente ao interpretar a
curiosa melodia de Caetano Veloso, no arranjo de Antnio Adolfo, com uma
garra impressionante, exagerada at sob certos aspectos, mas que fez
vibrar a assistncia quando soltou sua voz potente na frase final: "Boa
palavra rapaz...". Era a figura mais bonita do festival, uma atraente
mulher de olhos verdes e cabelos alourados que quando soltos lhe davam
um ar de vamp. Namorava o baixista Tho, de quem ficaria noiva uma
semana depois, no dia dos namorados, numa festa no Juo Sebastio Bar.
Os demais contemplados, anunciados segundo a praxe na ordem inversa,
foram "Boa Palavra", de Caetano Veloso, em quinto, "Cidade Vazia", de
Baden Powell e Lula Freire, em quarto, "Chora Cu", de Adilson Godoy e
Luiz Roberto, em terceiro, "Ina", de Vera Brasil e Maricene Costa, em
segundo, e "Porta Estandarte", de Geraldo Vandr e Fernando Lona: a
campe do II Festival da TV Excelsior.
Milton Nascimento no impressionou tanto quanto em Porto Alegre e a
cano "Cidade Vazia" nunca entrou para o seu repertrio. Quem acabou
gravando esse lindo samba foi Elizeth Cardoso, em seu LP Muito Ehzeth,
lanado pela Copacabana no mesmo ano. Os autores ganharam como prmio
uma passagem para os Estados Unidos.
Quem mais vibrou com o segundo lugar foi a letrista Maricene Costa, mais
conhecida como cantora dos shows universitrios denominados na poca de
"bossa nova paulista". Sua parceira na msica, Vera Brasil, era naquela
altura a mais veterana compositora de festivais, pois participara  do
primeiro da Record, em 1960. Desiludida com os jurados cariocas do
festival de "Arrasto", nem fez questo de assistir a essa final.
Excelente violonista e autora de composies ricas e bem mais complexas
do que aparentam  primeira vista, teve seu maior sucesso em 1964, o
"Tema do Boneco de Palha", que ela mesma gravara. O timo intrprete de
"Ina", Nilson Prado, tinha sido solista tenor do conjunto Nilo Amaro e
seus Cantores de bano, famoso por "Leva Eu Sodade", no qual o destaque
era a voz grave de Noriel Vilela, a essa altura j falecido. Nilson
tinha uma linda voz e representava no grupo o mesmo que Tony Williams
nos The Platters.
O primeiro lugar foi muito bem recebido pelo pblico e festejado pelos
intrpretes. A talentosa e vibrante Tuca, Vanelisa Zagni da Silva, era
uma cantora paulista, participante assdua do programa Primeira Audio,
da TV Record, desde outubro de 1964, onde tambm comearam Chico
Buarque, Taiguara e outros. Gravara seu primeiro LP, Meu Eu, na
Chantecler, antes do Festival, mas sua fama cresceu mesmo depois da
vitria. Ela participaria de outros festivais, permanecendo alguns anos
na Europa antes de retornar e falecer, em 1978, vtima de uma parada
cardaca aos 33 anos. Tuca era gorda e tentava emagrecer com um violento
regime alimentar. Pode ser considerada a personagem da msica brasileira
que mais se aproximou da cantora Mama Cass, do Mamas and The Papas, na
voz, no fsico e at na breve vida agitada.
Seu companheiro de palco, o catarinense Airto Moreira, era um dos mais
competentes bateristas da noite paulista, embora fosse percussionista e,
desde o incio de sua carreira no Paran, desejasse ser cantor. Quando
menino, tocava pandeiro em Ponta Grossa. Tornara-se baterista por acaso,
aos 13 anos, quando o titular da orquestra num baile de carnaval faltou.
Tocou em Curitiba, em inferninhos de So Paulo, at formar o Sambalano
Trio com Csar Mariano e Claiber. Mas, aps o festival, quando esperava
detonar a carreira de cantor que almejava, quem gravou "Porta
Estandarte" com Tuca foi Geraldo Vandr, no selo Chantecler. Airto
parecia ter urucubaca como cantor. Em compensao, logo depois do
festival ele montaria, a pedido de Vandr, um grupo com Hermeto, Tho e
Heraldo para o show da Rhodia, que, reduzido a trio pela tal cisma de
Livio Rangan, excursionaria pelo Brasil. Depois de uns tempos em que
teve que se contentar em ser Trio Novo, o Quarteto Novo seria finalmente
constitudo, fazendo histria. No final de 1967, Airto foi aos Estados
Unidos determinado a trazer de volta sua companheira Flora Purim, com a
passagem paga por Lennie Dale e 800 dlares que Chico Buarque lhe dera.
No falava uma palavra de ingls, tocou num restaurante com o pianista
Cedar Walton em troca do jantar e do dlar do bilhete de subway, ralando
por mais de dois anos at receber um convite de Miles Davis. Nos Estados
Unidos, Airto veria seu talento ser reconhecido, abrindo as portas para
a percusso brasileira no mundo, mais at que alguns cubanos j
estabelecidos no jazz. Na sua esteira, diante da crescente onda de
percussionistas, a revista Down Beat se viu obrigada a criar a categoria
"Percussionists" na sua eleio anual, para os que antes eram
embaralhados no item "Instrumentos Diversos". Airto Moreira tornou-se um
dos artistas brasileiros mais admirados no exterior, com uma carreira
repleta de atividades e momentos fulgurantes.
O paraibano Geraldo Pedrosa de Arajo Dias adotou o nome artstico
Geraldo Vandr em homenagem a seu pai Jos, cujo prenome era
Vandregsilo. Era mais conhecido como cantor do que como compositor,
embora desde 1962 tivesse parcerias com Carlos Lyra ("Quem Quiser
Encontra o Amor") e com Baden Powell ("Samba de Mudar" e "Rosa Flor"),
alm de canes de cunho nordestino, em que fez letra e msica, como
"Fica Mal Com Deus". At 1966, seu maior sucesso havia sido como cantor,
em dupla com Ana Lcia, numa composio de Baden Powell e Vinicius de
Moraes, o "Samba em Preldio", que tinha a novidade do contraponto.
Quando Vandr foi passar o carnaval de 1966 em Penpolis com seu amigo
Fernando Lona, encontrou o sossego que procurava para compor. Ele j
sabia que o contraponto cantado em duo funcionava. O sambacano
chopiniano "Samba em Preldio", gravado por Geraldo e Ana Lcia
acompanhados pelo piano de Walter Wanderley, vendera to bem que a
gravadora Audio Fidelity havia proposto lanar um LP inteiro com o
casal. Geraldo recusou, embora concordasse que poderia alcanar grande
sucesso comercial. Em Penpolis, ele e Fernando resolveram ento fazer
uma marcha-rancho que pudesse aproveitar a idia do contraponto, j
testada e aprovada, para tambm ser cantada por um homem e uma mulher.
Assim nasceu "Porta Estandarte", com msica de seu novo parceiro, o
baiano de Feira de Santana Fernando Lona, compositor e ator na boa
terra, companheiro do grupo baiano de Gil, Caetano & Cia., mas
desagrupado desde que estes vieram para So Paulo. Fernando viera para o
Sul a convite de Lus Vieira e ficou morando de favor no seu escritrio
 rua Joo Adolfo. Morando  fora de expresso: chegava na hora de
dormir e de manh cedinho tinha que dar o pira antes que os empregados
aparecessem.
O engenhoso esquema da cano que fizeram consiste em ter a mesma
seqncia harmnica para duas melodias diferentes, a primeira cantada
pelo homem, a segunda pela mulher. Ambos cantam sozinhos e depois
repetem suas partes encaixadas uma na outra, pois no cantam juntos ao
mesmo tempo.  o que se chama de cnone. Apenas a frase final, com a
mesma melodia,  cantada em unssono pelos dois, causando grande efeito,
que pode se multiplicar se repetido vrias vezes.
Assim, em "Porta Estandarte" ele canta "Olha que a vida  to linda/ E
se perde em tristezas assim/ Desce teu rancho cantando..." na primeira
parte. Depois ela canta a segunda parte "Eu vou cantando a minha vida
enfim/ Cantando, e canto sim...". Na repetio vem o cnone: "Olha que a
vida  to linda/ E se perde em tristezas assim/ Eu vou cantando a minha
vida enfiml Desce teu rancho cantando/ Cantando, e canto assim...". O
final acaba se tornando uma apoteose, com ambos em "Na avenida girando/
Estandarte na mo pra anunciar" repetido vrias vezes.
O ponto crucial da msica estava no contraponto, que fazia o pblico
aplaudir antes do final, como acontecera antes com "Arrasto". No deu
outra. A msica ganhou, deixando Vandr eufrico, por sentir que pela
primeira vez seu talento era reconhecido em pblico. Ele chegou a chorar
de emoo, entre cumprimentos e abraos de Deus e o mundo no auditrio
da Nestor Pestana.
Fernando nem viu o resultado. Como tinha que levantar muito cedo, saiu
da TV Excelsior direto para o seu "moc" ali pertinho, na rua Joo
Adolfo. Mas foi acordado por um festivo Vandr e por alguns jornalistas
amigos que vieram celebrar a vitria no acanhado escritrio.
A inteno de Vandr era abrir uma gravadora com sua metade dos 20
milhes, o que no aconteceu. Tampouco vingou a dupla Vandr/ Lona. Como
vencedor do festival, o baiano de Feira de Santana ficaria de vez em So
Paulo, para onde tinha vindo quatro meses antes. Fernando Lona
participou de peas, retornou  Bahia em 1972, l ficando por cinco
anos, sempre em atividades teatrais. Retornou a So Paulo para gravar o
LP Cidado do Mundo pela Tapecar, no qual cantou "Porta Estandarte". Sua
derradeira atuao foi no show De Cordel a Bordel, em novembro de 1977.
Logo depois morreu num desastre na BR 116, a caminho de Curitiba. Tinha
40 anos.
Vandr sumiu por uma semana e voltou  cena logo depois para gravar
"Porta Estandarte" com Tuca, que seria lanada no prprio ms de junho
pela gravadora Chantecler. Foi uma imposio da gravadora para que Tuca
pudesse ser liberada para o seu LP. Em novembro, Geraldo  gravou pela
segunda vez sua marcha-rancho com Tho, Heraldo (dois violes) e coro,
em outro compacto que seria a primeira faixa de seu terceiro LP, Cinco
Anos de Cano. O disco saiu pela Som/Maior, o selo nacional que
substitua a Audio Fidelity de Sidney Frey, e que depois seria vendido 
RGE, de Jos Scatena.
"Porta Estandarte" foi ainda gravada em 1966 por Dalva de Oliveira, num
compacto da Odeon que tinha no lado A seu grande sucesso, "Mscara
Negra". Em 1969, a cantora Helena de Lima, acompanhada pela Banda da
Polcia Militar do Estado da Guanabara, tambm gravou "Porta
Estandarte", num LP da Premire.
De todos os participantes do II Festival da Excelsior, quem mais se
beneficiou foi inegavelmente Geraldo Vandr. Seu desejo de fazer canes
identificadas com os anseios e os valores culturais do povo de seu pas
passou a ser vivel e, principalmente, reconhecido. A vitria foi uma
injeo de nimo como ele nunca sentira antes. Vandr passou a se
dedicar sozinho a uma obra que se alinhava com uma nova forma de arte no
Brasil, as msicas de festival. Em suma, Vandr passou a encarnar, por
um perodo, o compositor dos festivais, aquele que dizia o que as
torcidas queriam ouvir. Vandr cantou e o povo cantou com ele.
A partir de "Porta Estandarte", Geraldo Vandr iniciou sua caminhada
para se tornar, anos depois, um dos grandes mitos de sua gerao na
msica popular brasileira.
A partir de janeiro de 1966, a direo da TV Excelsior foi dividida
entre Edson Leite, Alberto Saad, Otvio Frias de Oliveira e Carlos
Caldeira Filho, numa tentativa do Grupo Folha de resolver uma situao
que vinha se agravando desde abril de 1964.
Se a relao com o novo governo comeou a se deteriorar quando o
Departamento de Jornalismo se negou a noticiar a vitria do golpe
militar, os problemas financeiros iniciaram-se de fato quando o diretor
superintendente Wallinho Simonsen, representante do esplio de seu pai,
falecido em 1965, resolveu arrendar os estdios da Companhia
Cinematogrfica Vera Cruz, em 1966, numa tentativa de expanso para a
gravao das novelas. Aps dez meses de aluguis atrasados, houve uma
ao de despejo e, logo em seguida, os salrios comearam a atrasar. Em
janeiro de 1967, vieram as primeiras demisses, seis meses antes de um
incndio no prdio da rua da Consolao, 279, onde estavam os arquivos
de reportagens, contabilidade e do Departamento de Pessoal.
A derrocada da TV Excelsior: o auditrio do Rio de Janeiro, antigo Cme
Astona,  lacrado pela polcia.
l
Como as aes da TV Excelsior So Paulo no podiam ser negociadas, pois
as emissoras de televiso dependiam de concesso do governo militar,
foram dadas  penhora na ao promovida pelo Banco do Brasil contra a
empresa que dera origem ao grupo, a Comal, exportadora de caf. O cerco
foi se fechando: as aes da TV Excelsior Rio foram seqestradas,
passando para o controle estatal e caindo nas mos do governador Carlos
Lacerda, nomeado depositrio por ser o presidente do Banco do Estado da
Guanabara.
A cassao das TVs Excelsior So Paulo e Rio foi, conforme um comunicado
sem muitas explicaes do Dentei, motivada por infraes que feriam
normas do Cdigo Brasileiro de Telecomunicaes. Houve movimentos dos
tcnicos e artistas, reunies, tudo em vo. Era uma questo de tempo.
Em abril de 1970, Wallace Simonsen declarou ter vendido a TV Excelsior a
Dorival Mascide de Abreu, mas o negcio no poderia ser fechado segundo
as autoridades federais. No mesmo ms, apagaram-se as cmeras da
Excelsior na rua Nestor Pestana, 196, aps 39 horas de uma viglia
promovida para arrecadar fundos para a Campanha da Esperana. Os fundos
destinavam-se aos funcionrios que estavam sem receber.
Captulo 4
"A BANDA" E "DISPARADA"
(II FESTIVAL DA TV RECORD, 1966) "A BANDA" E "DISPARADA"
(II FESTIVAL DA TV RECORD, 1966)
Quem passa pela rua da Consolao no quarteiro entre a Fernando
Albuquerque e a Matias Aires, no pode imaginar que ali, justamente onde
hoje a vasta fachada da loja de lustres Yamamura domina quase todo o
lado par, tenha sido o maior foco do show business e da msica popular
brasileira nos anos 60. Ali ficava o Teatro Record, inaugurado em 17 de
janeiro de 1959. O endereo era rua da Consolao, 1.992.
Antes, o local sediava o Cine Rio, com sua entrada e bilheteria
revestidas de pastilhas azuis em paredes onduladas, ambas desativadas
quando o prdio foi negociado com a Record. O pblico passou a ingressar
no teatro pelo edifcio ao lado, que abrigava a nova bilheteria, de
vidro, sem o estilo da antiga, com apenas uma janelinha retangular.
O Cine Rio fazia parte do circuito da Metro e fora inaugurado com o
filme Lili nos anos 50. Sua freqncia era muito parecida com a dos
cinemas Majestic e Paulista - ambos na rua Augusta, de um e outro lado
do espigo da Paulista -, isto , garotas e rapazes dos Jardins e
Higienpolis, gente bem, como se dizia na poca. Nos anos 30, o Cine Rio
chamava-se Cine Amrica, e na dcada seguinte foi adaptado para um
rinque de patinao.
Vizinho ao teatro, no sentido da avenida Paulista, havia um edifcio
cinza de trs andares, feioso e sem graa, que acabou sendo incorporado
 Record em junho de 1961, quando as instalaes originais no davam
mais conta do recado. L foram montados escritrios, salas de ensaio, de
costura, guarda-roupas e um nico apartamento, em que morava o j citado
Paulo Charuto. O endereo desse prediozinho medonho era rua da
Consolao, 2002.
A Consolao continua sendo rua at hoje, embora pudesse ser promovida a
avenida com todos os mritos. Naquela poca, sim, merecia ser rua, pois
ainda no tinha sido alargada, e por ela subiam os bondes "camaro" da
linha para Pinheiros. O camaro era um bonde fechado, espaoso, com
bancos de madeira em diferentes posies e piso de ripas de madeira
paralelas; tinha esse nome porque era de cor vermelha. Sua parada  mais
prxima do teatro era um pouco alm, na esquina da rua Macei, mas certa
noite havia to pouca gente para assistir ao Jos Vasconcelos que o
gerente, Gacho, mandou o porteiro Benedito parar os bondes um pouco
antes, bem na frente do teatro, e convidar quem quisesse assistir de
graa Eu Show o Espetculo. Por incrvel que parea, os motorneiros o
obedeceram e pararam os bondes antes do ponto, mas quase ningum se
interessou em ver Jos Vasconcelos "na faixa". Isso foi na primeira
semana, porque na segunda, inexplicavelmente, comeou uma enchente que
foi at o fim da temporada.  o que se pode chamar de divulgao boca a
boca. O Z viera do Rio com uma mo na frente e outra atrs, num Romi
Isetta caindo aos pedaos, e quase implorou para conseguir o teatro.
Poucos meses depois, j tinha comprado uns cinco carros. Ganhou os
tubos, lotando a casa sozinho durante vrios meses.
Assim eram as coisas na Record, poca de grandes shows internacionais,
comeo dos anos 60. Pensam vocs que j existia aquela orgia de loja de
iluminao na Consolao? Qual o qu! Havia apenas a lustres Bobadilha,
com trs lojas, uma na esquina com a Matias Aires, outras duas mais
acima. O comrcio era bem diferente. Defronte ao teatro, no nmero 2011,
ficava o restaurante A Pizzaiola, onde aps os ensaios amos comer de
vez em quando. Lembro-me que quando entramos l com Vittorio Gassman,
todo mundo ficou esttico, olhando aquele homenzarro espetacular que
parecia ter um m instalado nos olhos. Mais abaixo, no nmero 1916,
ficava o Walter, que alugava pianos, e ao lado do teatro, no sentido do
cemitrio, o Lanches Stromboli, um bar sem atrativo de qualquer espcie
onde voc poderia encontrar os maiores astros da msica brasileira
tomando caf de p ou comendo um sanduche. Ainda do lado par, havia,
mais acima, o Banco Auxiliar, onde se depositava a fria da bilheteria,
a loja de mveis Atoji, a doceira Vendme e, na esquina da avenida
Paulista, talvez o nico remanescente da poca at hoje, o famoso Bar
Riviera, estabelecido em 1949, ponto de encontro de jornalistas. Bem na
frente do Riviera, nmero 2043, ficava o Cine Ritz Consolao, que mais
tarde a TV Tupi alugou para apresentar suas atraes internacionais, ou
seja, uma rplica do Teatro Record.
O cantor Roy Hamilton, que viveu um romance trrido com Elizeth Cardoso,
levado a efeito num dos apartamentos do Othon Palace Hotel da rua Libero
Badar, foi a primeira atrao internacional do Teatro Record naquele
incio de 1959, quando se concretizou a idia da emissora de ter um
teatro para seus programas com presena de pblico. Mas ento o Teatro
Record ainda no estava totalmente equipado.
Em 1958, quando Paulinho Machado de Carvalho era o diretor da Rdio
Record e seu irmo Alfredo, da TV Record, a transmisso de programas com
presena de pblico, tanto na Rdio como na TV, era feita precariamente,
do pequeno auditrio da sede da Federao Paulista de Futebol, na
avenida Brigadeiro Lus Antnio, um pouco maior que o antigo auditrio
da rdio, no centro velho da cidade, rua Quintino Bocaiva, 22. O pai de
ambos, Paulo Machado de Carvalho, figura de proa no futebol,
relacionava-se muito bem com Jos Ermrio de Morais, presidente da
federao e diretor da Votorantim, um dos anunciantes que patrocinavam
programas de televiso na Record. Os dois haviam acertado que programas
ao vivo como os de ngela Maria, Maysa e Agostinho dos Santos seriam
realizados nesse auditrio, que, todavia, mostrou-se cada vez mais
inadequado. Foi a oportunidade para o doutor Paulo concretizar o velho
plano de comprar uma sala maior e um teatro, nomeando Paulinho como
diretor. Assim, Paulinho, nascido em 1924, mesmo sem ser diretor da TV
Record, acabou podendo ingressar na televiso sem provocar ressentimento
no irmo Alfredo, realizando um sonho que seu pai acalentava havia
muitos anos.
Alm de Marechal da Vitria, o dr. Paulo Machado de Carvalho tinha uma
alcunha familiar que provavelmente no lhe causava tanto prazer, mas que
era uma descrio perfeita do seu trao fisionmico mais marcante:
Cabea de Manga. De fato, com a careca reluzente e os olhos pequenos
atrs dos culos, sua cabea era idntica a uma manga em p. Paulinho
herdou-lhe o formato da cabea, os olhos puxados e midos, a miopia e a
careca precoce. Alm de uma fabulosa memria visual, possui uma simpatia
cativante, um forte poder de persuaso atravs de uma retrica
treinadssima e uma dico de causar inveja at  mais conhecida
professora da matria na So Paulo daqueles dias, dona Madalena Lebeis.
Em 1946, com pouco mais de 18 anos, estava certa vez no Uruguai
acompanhando o time do So Paulo Futebol Clube, quando recebeu um
telegrama do pai, na poca diretor do clube: "Comprei a Rdio
Panamericana. Volte para tomar conta". Assim, Paulinho, que tinha
trabalhado na Rdio Record em tarefas diversas, como a de auxiliar de
discotecrio na sua poca de ginsio no Colgio So Luiz, foi guindado a
diretor da mais nova componente da cadeia, transformando-a na Emissora
dos Esportes e conquistando expressiva audincia. Voltou  Rdio Record
em 1950, mas numa posio muito mais slida: para comandar o seu setor
artstico. A, conseguiu repetir o xito da Panamericana, promovendo uma
dinmica programao ao vivo com os maiores artistas da msica popular
brasileira, grande parte vinda da Rdio Nacional do Rio de Janeiro.
Quando foi inaugurada a TV Record, em 27 de setembro de 1953, e seu
irmo Alfredo transferido da direo comercial da Rdio So Paulo para a
TV, Paulinho permaneceu na Rdio, mas o pai j lhe reservava uma funo
para quando a TV se desenvolvesse. A aquisio do Teatro Record permitiu
a realizao desse seu velho sonho. Um belo espao para a transmisso de
programas ao vivo de rdio e televiso e o ingresso do filho Paulinho no
canal 7. Sem ferir Alfredinho.
Paulo Machado de Carvalho Filho era talhado para o show business e
possua uma viso artstica mais forte que a ambio ostensiva de lucro,
apesar de no ser nada generoso nos acertos da empresa. Embora no fosse
muito dado a viajar para assistir a espetculos no exterior, pois tinha
pavor de avio, sua intuio do que ia dar certo, ou do que deveria ser
corrigido para acertar o que no estava indo bem, era impressionante.
Tinha a firme convico de que a melhor maneira de aproximar o artista e
o pblico era o palco, o contato direto entre ambos, a reao imediata
que se estabelece numa platia, ao contrrio do que ocorre num estdio
de televiso. Se precisasse provar sua teoria, j bastava o xito
extraordinrio das temporadas internacionais de Bill Haley e seus
Cometas, Louis Armstrong (no ginsio do Ibirapuera), da orquestra de
Woody Herman (no Teatro Paramount) e de Johnny Ray (no Cine Arlequim),
por ele realizadas antes do Teatro Record.
Aps o xito retumbante de Nat King Cole em abril de 1959 no Teatro
Paramount, que fora alugado pela Record para a temporada de uma semana e
tivera lotao esgotada em todos os shows, o Teatro Record estava pronto
para atraes mais exigentes que a inaugural, Roy Hamilton. Ele fora
equipado com um fosso para orquestra, indispensvel para dar conta da
intensa programao internacional da TV, que duraria mais de trs anos.
 medida que os programas com pblico presente da TV Record passaram a
ser transmitidos do Teatro Record, a maioria com entradas pagas, as
transmisses do estdio prximo ao Aeroporto de Congonhas foram pouco a
pouco perdendo importncia. A TV Record passou a ter um novo cenrio,
indito em qualquer emissora brasileira: a cara de seus artistas. E a
comunicao que se estabeleceu entre os artistas e o pblico o qual
tambm era mostrado na tela por iniciativa do editor de imagens, na
poca chamado diretor de TV, o terceiro irmo Machado de Carvalho,
Antnio Augusto, o Tuta - levou a TV Record a uma situao de liderana
nunca atingida at ento.
O Teatro Record tinha autonomia total em relao  Televiso: possua
uma equipe tcnica completa, incluindo cenaristas, guarda-roupa,
iluminadores, sonorizadores, contra-regras etc. Alm disso, herdara a
grande orquestra da Rdio, em que se destacavam, nas cordas, a viola do
futuro maestro Benito Juarez; um naipe de palhetas com o caprichoso
obosta Salvador, s vezes o sax tenor Adolar, dono de um belo som  Ia
Coleman Hawkins, com quem alis se parecia; o naipe de metais com o
esplndido trompetista Stimo Paioletti e o trombonista Arlindo; e ainda
a sesso rtmica, comandada pelo pianista Duda, com o baterista Xoror,
o bongoseiro Sabu (grande papador das mulatas que circulavam pelo
auditrio) e o pandeirista Pato Preto, cujo rosto reluzia at no escuro.
Em compensao, o baixista argentino Salinas, pai do conhecido
arranjador Daniel Salinas, dava para o gasto. Digamos que quase sempre
acertava. Duda ficou uma ona e nunca se conformou quando o piano teve
que ser pintado de branco para a temporada de Nat King Cole: o som nunca
mais foi o mesmo. Para dirigir a orquestra, a Record contava com uma
pliade inacreditvel de maestros e orquestradores: Herv Cordovil, Luiz
Csar, Zico Mazago, Ciro Pereira e Gabriel Migliori, um time da pesada.
Na orquestra da Televiso, que atuava nos estdios da avenida Miruna, o
maestro era Renato de Oliveira. Havia no Teatro um corpo de baile fixo,
do qual participaram, nessa primeira metade dos anos 60, Ruth Rachou,
Iracity Segretto, Yoko Okada, Vilma Vernon, Betty Faria, Jaqueline Myrna
e Leda Troyka, dentre as que se notabilizariam mais tarde. Para
transmitir a programao, bastava encostar defronte  calada do teatro
o caminho de externas, usado nos jogos de futebol, montar as cmeras e
entrar no ar, invariavelmente sob a direo de TV de Tuta, que anos
depois iria desenvolver a Rdio Jovem Pan.
Do ponto de vista comercial, a TV Record prosperou enormemente quando
conseguiu atrair verbas de publicidade, antes destinadas  imprensa
escrita. Sua audincia atingiu ento os 58%, contra 25% da Tupi e 8% da
Excelsior, inaugurada em julho de 1960. Para chegar a esse predomnio
impressionante, era preciso haver uma combinao muito bem amarrada
entre os Departamentos de Publicidade (dirigido por Alfredo Amaral de
Carvalho) e Artstico. Alm de programas de estdio com grande
penetrao popular, como o Circo do Arrelia e a Ginkana Kibon, a
programao vitoriosa tinha como destaques as transmisses de futebol
com a narrao de Raul Tabajara, comentrios de Lenidas da Silva, "o
que esteve l", e dois solertes reprteres de campo, Slvio Luiz e mais
tarde Reali Jnior. O outro destaque da TV Record eram os shows
internacionais transmitidos do Teatro Record, numa seqncia jamais
igualada por qualquer teatro do pas, nem mesmo no perodo dos cassinos
brasileiros.
Entre 1959 e meados de 1962, a Record fez uma verdadeira devassa na rea
do show business internacional, contratando cantoras como Ella
Fitzgerald e Sarah Vaughn, entertainers como Sammy Davis Jnior e
Caterina Valente, orquestras como Benny Goodman e Harry James, expoentes
do jazz como Dizzy Gillespie e Buddy Rich, astros italianos como
Domenico Modugno, Pepino di Capri, Nico Fidenco e Srgio Endrigo,
franceses como Charles Aznavour, Dalida e Sacha Distei, atraes no pico
de suas carreiras como Gene Barry, o heri Bat Masterson, Brenda Lee e
Rita Pavone, shows completos de grande elenco como o Holiday in Japan de
Steve Parker e o Cotton Club Revue, comandado por Cab Calloway, estrelas
e astros do cinema como Jane Russell, Dorothy Lamour, Yvonne de Cario e
Tony Curtis, bailarinos como Harold Nicholas, divas como Marlene
Dietrich e Yma Sumac, monstros sagrados como Vittorio Gassman e Maurice
Chevalier, novos dolos da juventude como Frankie Lymon e Frankie
Avalon, grupos nostlgicos como os Ink Spots, cantores renomados como
Frankie Laine, Tony Bennett e Billy Eckstine, e at variedades na linha
do Ed Sullivan Show, como o Jamboree Circus ou o surpreendente American
Ice Show Revue, para o qual se armou um rinque de patinao no ptio do
estdio prximo ao Aeroporto. Todo esse povo, que vinha pela primeira
vez ao Brasil, passou pelo canal 7, para encanto do pblico freqentador
do Teatro Record da rua da Consolao. Grande parte apresentou-se tambm
no Rio, geralmente no Fred"s de Carlos Machado ou no Golden Room do
Copacabana Palace, cuja direo artstica era dinamicamente conduzida
por Oskar Ornstein. Com uma programao dessas, s vezes duas atraes
num s ms, no  de admirar que sua rival, a TV Tupi, ficasse s com a
rebarba, embora se devam destacar algumas atraes das Associadas, como
Julie London, o guitarrista Ls Paul, a cantora Delia Reese e a caravana
do marcante American Jazz Festival, em julho de 1961, com Coleman
Hawkins, Chris Connor, Roy Eldridge, Tommy Flanagan e o genial baterista
Jo Jones, entre outros.

Com a experincia anterior e um invulgar olho clnico para detectar
talentos, Paulinho Machado de Carvalho, diretor do Teatro Record,
transformou-se no mais poderoso empresrio do show business brasileiro
de todos os tempos.
Embora, a partir do advento do videoteipe, alguns programas do Teatro
Record passassem a ser gravados, eles no eram editados. Mesmo quando os
nmeros musicais no saam perfeitos - o que, diga-se de passagem, era
muito raro - ainda assim no eram interrompidos e repetidos diante da
platia pagante. Isso dava ao pblico de casa a sensao de que at os
vdeos gravados no Teatro eram transmitidos ao vivo, e foi esse o
segredo da impressionante comunicao que se estabeleceu entre a TV
Record e o pblico brasileiro. A edio de programas musicais com
presena de pblico - verdadeiro processo de retalhao que lhes d uma
assepsia que se tornaria anos depois padro na TV Globo - pode ser
considerada uma das principais causas da queda de audincia dos
programas musicais na televiso.
As atraes internacionais na Record comearam a escassear em virtude da
rpida valorizao do dlar. O patrocnio dos artistas, contratados em
dlar, tinha que ser negociado em cruzeiros com meses de antecedncia -
mas quem podia assegurar a quanto estaria o dlar quando o artista
chegasse ao Brasil? Uma das ltimas temporadas dessa fase urea foi a da
orquestra de Ls Brown, em maro de 1962, pois em setembro j havia uma
sensvel retrao na contratao de grandes cartazes internacionais.
A programao do Teatro Record foi enveredando por outro caminho,
concentrando-se em temporadas mais longas de espetculos brasileiros
dentro do conceito do teatro de revista. Skind, montado originalmente
por Abro Medina no Rio de Janeiro, Oba, de Carlos Machado, e Tio Samba
(com a mesma equipe de Skind: a coregrafa Snia Shaw, seu marido, o
arranjador Bill Hitchcock, e o produtor e autor dos textos Aloysio de
Oliveira), foram algumas das produes do primeiro semestre de 1962,
inadequadas para a programao do canal 7. Atraes desse tipo, que
atraam pblico pagante ao Teatro Record, no obtinham o mesmo
resultado, em termos de audincia, quando na televiso. Ou seja, no
conseguiam sustentar a grade da programao. Essa foi uma das brechas
que permitiu  TV Excelsior disputar a liderana.
A p de cal ocorreu em maro de 1963. O agente da General Artists
Corporation de Nova York, Eddie Elkort, ofereceu  Record um artista
que, alm de cantar como Frank Sinatra, era quase seu ssia. Um prato
cheio para os filhos do doutor Paulo exercitarem a veia de folgazes que
herdaram do lado materno, os Amaral, conhecidos na sociedade paulistana
como "os Borors" por causa de sua tez morena e boca larga. Sentindo a
concorrncia da Excelsior, Paulinho contratou Duke Hazlett para uma
nica apresentao em estdio e deu incio a uma campanha anunciando "o
grande astro que finalmente viria ao Brasil" em maro de 1963.
Gradativamente, foi-se criando um alvoroo incontrolvel na imprensa,
que usava de todos os recursos para desvendar a charada apregoada pela
Record: quem seria "o astro que voc espera h dez anos"? Frank Sinatra?
Ou Yves Montand, como no furo que Moracy do Vai julgou ter dado em sua
coluna da ltima Hora! O sigilo permanecia absoluto.
Dias antes da estria, anunciada para 31 de maro, fui ao Aeroporto do
Galeo recepcionar o cantor Duke Hazlett. Tratava-se de um americano
careca, com jeito de executivo, cuja identidade era guardada a sete
chaves. Recebi-o com a maior discrio possvel, levei-o ao meu
Volkswagen e rumamos para Campos do Jordo.
Depois de subir a Serra das Araras, no consegui mais resistir vendo
aquele gringo narigudo e careca do meu lado, que no tinha nada que
lembrasse a fua do Frank Sinatra. Achei que tnhamos sido engrupidos.
Parei o carro no acostamento, encarei-o de frente e disse: "Mas como 
que voc se parece com o Sinatra?". "Just a moment, sir", respondeume
calmamente. Abriu sua mala, retirou uma peruca, ajeitou-a, fitou-me
firmemente com um ar blas e comeou a cantar "When somebody loves you/
it"s no good unless she loves you/ ali the way...". No acreditei no que
vi. Estava diante de Frank Sinatra, cantando s para mim, ali,  beira
da Via Dutra. Ficamos trs dias no Hotel Toriba, de Campos do Jordo,
comendo do bom e do melhor, passeando a cavalo e matando o tempo. E eu,
apavorado com a possibilidade de que algum desconfiasse quem era o
colega.
Em So Paulo, a imprensa fazia das tripas corao para adivinhar a
identidade do cantor-surpresa. Cada reprter tentava de tudo para dar o
furo, numa ansiedade que beirava o paroxismo e que se transmitia em
progresso geomtrica  populao. Na tarde do dia 31 de maro, desci
com o cantor para So Paulo, escondendo-o na chcara do dr. Paulo, ao
lado dos estdios da TV, perto do Aeroporto de Congonhas. Depois,
levei-o para ensaiar alguns nmeros com a orquestra e,  noite,
driblando dezenas de jornalistas que cercavam o prdio da avenida
Miruna, entramos desabaladamente pela segunda vez no estdio, onde
alguns msicos ainda estavam firmemente convencidos de que o homem era
realmente Frank Sinatra. Pouco antes da meia-noite, o apresentador Blota
Jnior anunciou que a Record iria finalmente desfazer o mistrio,
mostrando a atrao to anunciada. A silhueta de Duke Hazlett era
idntica  de Sinatra, e quando ele comeou a cantar, muitos juraram que
era "The Voice". Ao final da msica, a revelao: j passava de
meia-noite, era 1 de abril,
desfez-se a farsa, e o pblico cativo da Record sentiu-se frustrado,
revoltando-se com o engodo. A imprensa desceu o malho. S na ltima
Hora, Ricardo Amaral, Moracy do Vai e Jorge Ileli caram de pau. Com
toda razo. O tiro sara pela culatra. Dava Excelsior na cabea.
Atraes internacionais deixavam de ser o grande trunfo para levantar
audincias, como comprovaram os frustrantes resultados das temporadas de
Gilbert Bcaud na Excelsior, em junho de 1963 (a despeito da badalao
exagerada de Ricardo Amaral em sua coluna da ltima Hora; de Maurice
Chevalier, em agosto, para a Record; e at de Ray Charles, em setembro,
para o canal 9. Nessa poca, o dlar batia em 1.005 cruzeiros.
Com seus programas nacionais ao longo de 1963 e 1964, a Excelsior foi
conquistando gradativamente a simpatia do povo paulistano, uma rea em
que os Machado de Carvalho eram considerados imbatveis. O nvel das
temporadas internacionais da Record em 1964 foi incrivelmente inferior
ao de anos anteriores: Srgio Endrigo em maro, Rita Pavone (que
conquistara o pas com "Datemi un Martello" e teve um romance com o
baterista Netinho, do conjunto The Clevers, rebatizado Os Incrveis) em
junho e Trini Lopez em outubro (no auge, com seu "La barnba") foram os
mais notveis. Em compensao, vieram bagulhos como o grosseiro arremedo
dos Beatles, chamado The American Beetles, a decadente Carmen Sevilla e
a desconhecida Stella Dizzi, cada um mais decepcionante que o outro.
Numa tentativa de reconquistar a audincia que perdia ms a ms, em
junho o canal 7 lanou uma campanha que beirava o desespero, simbolizada
pelo "tigrinho do canal 7" que "vai engolir todo mundo". Em novembro,
enquanto a Tupi lanava o Spot Light com Wilson Simonal e convidados
como Elis Regina, a Record sofria um considervel desfalque com a morte
de Silveira Sampaio, que vinha lhe assegurando a liderana absoluta nas
noites de sexta-feira com o seu, at hoje insubstituvel, S. S. Show.
Nesse ms, as pesquisas de audincia do Ibope apontavam implacavelmente:
TV Excelsior com 43,3%, TV Record com 25,7%. Em fevereiro de 1965, a
Record caa para 24,6%, ficando em terceiro, atrs da TV Tupi. O canal 7
parecia sem rumo ao apregoar que iria investir em novelas humorsticas e
policiais. Nem mesmo nos corredores da emissora sabiam dizer o que
estava acontecendo. E os prezados telespectadores no entendiam nada.
Quando o canal 9, TV Excelsior, anunciou em maro seu I Festival
Nacional de Msica Popular Brasileira, o canal 7 tentou revidar
apresentando  no Teatro Record um ridculo Festival de Msica Italiana,
com seis cantores de segunda linha que ningum sabia a que vinham, de
onde eram e o que cantavam. Um vexame atrs do outro.
Essa era a situao das trs principais emissoras de televiso,
Excelsior, Tupi e Record, em maro e abril de 1965, quando Elis Regina
venceu o Festival cantando "Arrasto". Assim que assistiu  cantora pela
televiso, os neurnios ligados ao show business de Paulinho Machado de
Carvalho entraram em funcionamento a todo vapor. "Essa ningum tasca",
pensou ele com seus botes.
A entrada do empresrio Marcos Lzaro no cenrio do show business
brasileiro deu  atividade de contratao de cantores um indito carter
de profissionalismo, muito diferente do que se estava acostumado. Marcos
reunia qualidades raras e fundamentais para essa carreira: era um
verdadeiro fantico em fuar artistas dentro ou fora do mercado. Alm
disso, tinha um flego de sete gatos para trabalhar e quase conseguir o
milagre de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Marcos tinha uma
formao matemtica, refletida na organizao, posta a servio de sua
atividade. Foi ele quem deu a Elis Regina um tratamento digno de uma
futura grande estrela, levando-a logo no incio de sua carreira ao
melhor contrato que qualquer artista j havia assinado com uma emissora
de televiso no Brasil. Por seu lado, ao interpretar "Arrasto", Elis
Regina mostrara ao Brasil como uma cantora podia carregar uma cano e
lev-la aonde nem os autores imaginaram. Elis praticamente cunhou uma
expresso que passou a ser incorporada  linguagem dos festivais:
"defender uma cano".
Ainda mais: Elis foi a cantora que comandou o programa musical que
desencadeou uma poca gloriosa da msica popular na televiso. Ao
conquistar o pblico como cantora, Elis estava investida de autoridade
para dar aval aos novos cantores e compositores que surgiriam no Brasil
a partir de ento. Mas, para isso, ela precisava estar onde estava, no
comando de um grande programa de televiso. Com sua viso
artsticoempresarial, foi Marcos Lzaro quem conseguiu esse grande
trunfo para sua artista predileta. O incio de sua carreira como
empresrio ilustra sua intuio e agilidade para o mundo do espetculo.
Marcos, argentino nascido na Polnia, era um engenheiro especialista em
clculo de concreto que viera para o Brasil, ainda sem a mulher, em
fevereiro de 1963 e, para passar o tempo aps o trabalho, comeara
a freqentar a boate Osis, onde o proprietrio Eduardo Antonelli,
sozinho aps a sada de Jimmie Christie da sociedade, vivia se queixando
de artistas que no cumpriam o prometido. Um dia, Marcos viu na TV Tupi
um nmero de variets de conhecidos seus da argentina, um casal de
bailarinos sobre patins, e, aps o programa, convidou-os para jantar e
permanecer no Brasil. "Impossvel", responderam, "s temos dois dias de
hotel pagos pela televiso". Marcos se despediu, foi  boate e sugeriu o
nmero para Eduardo, que estranhou a idia de apresentar bailarinos
acrobticos para um pblico acostumado com cantores como Helena de Lima.
Mas aceitou fazer um teste s 4 da manh, depois que a boate fechasse.
A bailarina tinha cabelos compridos atados num rabo de cavalo com uma
argola de metal e, quando virava o corpo, o rabo batia contra as colunas
da pista, dando a impresso de que ela iria quebrar a cabea, o que
deixou Eduardo ainda mais inseguro em contrat-los. " isso que vai ser
o sucesso, o pblico vai querer assistir ao show para ver quando a
bailarina vai se matar", argumentou o vendedor Marcos. Uma semana de
experincia foi o suficiente para que o boca-a-boca atrasse um pblico
que queria ver "quando a bailarina iria se matar". O casal de
patinadores ficou um ms, recebendo 10 mil cruzeiros por dia, e,
obviamente, ningum morreu. Os 20% da comisso a que Marcos tinha
direito (sobre os 300 mil por ms) cobriam com folga seu aluguel. O
contrato foi renovado por mais seis meses e ao final Eduardo pediu-lhe
novos nmeros. Marcos foi atrs de um malabarista caracterizado de
chins que vira num circo, o gacho conhecido como William Wu, que
imitava um nmero do filme da moda, Europa  Noite. Em setembro de 1964,
Marcos ofereceu-lhe o dobro do que tirava por semana e garantiu mais
seis meses do aluguel.
Mordido pela mosca, Marcos comeou a ir atrs de nmeros de circo para
negoci-los. Enturmou-se com os argentinos que trabalhavam na TV
Excelsior e conseguiu colocar artistas de circo nos programas de Bibi
Ferreira e no Hebe, Cynar e Simpatia da TV Paulista, onde, certo dia, o
diretor Walter Forster, durante a apresentao de uma mocinha,
perguntou-lhe:
- Gostou da cantora?  muito boa e precisa de um empresrio como voc,
algum que trabalhe.
- Sim, me interessa - respondeu no seu jeito seco e firme, sendo logo
apresentado ao pai da mocinha.
Marcos convenceu seu Romeu de que Elis Regina poderia morar em seu
apartamento na esquina das avenidas Rio Branco com Ipiranga, Edifcio
Agulhas Negras, 21 andar, com sua mulher e filhos.
Com um contrato verbal, Elis tornou-se exclusiva de Marcos, que pediu
licena da firma de engenharia, pois ainda conseguia faturar em cima de
cachs de outros artistas que conseguia no Rio para o Astros do Disco,
da Record, atravs de seu amigo, o jornalista e duble de empresrio Max
Gold.
No sbado 10 de abril de 1965, foi realizada mais uma vez a festa de
entrega do ambicionado trofu da televiso brasileira, o prmio Roquete
Pinto, institudo pelas Emissoras Unidas e apresentado anualmente numa
cerimnia de gala pela TV Record. Alm da premiao, tradicionalmente
anunciada pelo insupervel Blota Jnior, com suas boutades cheias de
verve, e por sua elegante esposa Snia Ribeiro, as apresentadoras da TV
Record abafavam em seus trajes de gala: a impecvel Idalina de Oliveira,
a suave loura Wilma Chandler, alm de Mrcia Maria e Selmi Barbosa. Como
na entrega do Oscar, a premiao era entremeada por uma sucesso de
quadros musicais, bale e humorismo, num show monumental. Os contemplados
ficavam no balco do teatro, aguardando para receber seus prmios e,
quando anunciados por Blota, desciam por uma passarela com escadas que
dava acesso ao palco pela lateral, como no Radio City Music Hall, de
onde a idia foi copiada.
Uma das premiadas, Bibi Ferreira, foi a nica a quebrar o protocolo,
dizendo algumas palavras sobre a difcil situao por que passava o
canal 9 naqueles dias, a despeito da liderana. Nesse ano, a revelao
de cantor foi Jair Rodrigues e de cantora, Elis Regina. Quando seu nome
foi anunciado, o pblico prorrompeu numa ovao impressionante, e ela
veio l de cima, percorrendo a passarela num vestidinho sem mangas,
pouco acima dos joelhos, com um cintilante par de meias prateadas que,
para o pblico que estava na platia, destacava ainda mais suas pernas.
Uma ousadia surpreendente. Elis e Jair foram os grandes dolos daquela
noite, e o pblico foi ao delrio quando ela cantou "Arrasto". Os
empresrios de Elis e Jair, respectivamente Marcos e Corumb,
acompanhavam o show da coxia quando se aproximou um senhor e disse a
Marcos: "Preciso falar com voc". Era o diretor da Record, Paulo Machado
de Carvalho Filho, que ele no conhecia pessoalmente. Depois de muito
hesitar, com medo de ser barrado na porta, Marcos teve a confirmao do
convite no restaurante Giordano atravs de Manoel Carlos, que produzia o
Astros do Disco desde dezembro de 1963. Resolveu ento ir conversar com
Paulinho.
- Quero contratar a Elis Regina. Te dou 6 milhes de cruzeiros por ms e
voc vai ser meu brao direito na Record - disse-lhe o diretor no
encontro que tiveram.
Eram mais de US$ 15 mil por ms. Com os 20%, dava 1,2 milho de
cruzeiros. Marcos Lzaro diria adeus  dureza.
- No posso, porque j tenho um contrato assinado com a TV Tupi -
respondeu Marcos.
No era exatamente assim, mas Marcos no estava blefando de todo.
Enquanto Manoel Carlos insistia com Paulinho para contratar Elis, o
produtor Abelardo Figueiredo, que dirigia o programa Spot Light com
Wilson Simonal, tambm tinha pedido ao diretor Cassiano Gabus Mendes
para contratar a cantora. Marcos havia elaborado e assinado um contrato
para que Cassiano o levasse ao escritrio da rua Sete de Abril, onde os
diretores das Associadas Armando Oliveira e Edmundo Monteiro deveriam
firm-lo como contratantes. Como a quantia era menor que os 6 milhes
oferecidos pela Record, Marcos resolveu pedir a Cassiano o contrato de
volta, justificando-se com a oferta de Paulinho, dada por escrito.
- No posso devolver porque j foi para a diretoria - respondeu
Cassiano. - Mas hoje eu vou  Sete de Abril e, se no estiver assinado,
eu trago de volta.
Marcos ficou aguardando, ansioso. Quando retornou, Cassiano entregou-lhe
o envelope dizendo:
- Tenho uma m notcia para voc.
Marcos gelou. Certamente o contrato devia estar assinado. Abrindo o
envelope, viu que estava em branco.
- Por que no foi assinado?
-  que os diretores no admitiam que uma cantora ganhasse mais que eles
- respondeu Cassiano.
Marcos respirou aliviado, apanhou o envelope e saiu voando para se
encontrar com Paulinho no Teatro Record.
O contrato de Elis Regina com a TV Record foi firmado enquanto ela
estava em turn pelo Peru, no dia 21 de abril de 1965, por Marcos Lzaro
e Manoel Carlos, que assinava em nome de Paulinho. Da em diante, tanto
Marcos como Maneco - o primeiro como o agente que sabia ir atrs e
negociar, e o segundo como o representante da TV Record e um dos que
sugeriam artistas - tornaram-se peas fundamentais no processo de
contratao dos cantores brasileiros para a fase urea da msica popular
que nascia na televiso. A comisso de Marcos Lzaro seria a mesma que
ganhava desde os tempos do circo: 20% sobre o cach de cada artista
solicitado.
Elis estava contratada por 6 milhes de cruzeiros por ms, uma fbula.
Paulinho Machado de Carvalho, que se deixou guiar pelo mesmo faro que o
levara a ser o mais poderoso empresrio do show business brasileiro,
talvez nem soubesse exatamente o que o impulsionara a arriscar tanto
dinheiro. Mas tinha dado a maior cartada de sua vida.
A idia de como aproveitar Elis na televiso estava mais ou menos
embutida nos trs espetculos produzidos por Walter Silva no Teatro
Paramount logo aps o festival de "Arrasto". Elis, em dupla com Jair
Rodrigues e acompanhada pelo Zimbo Trio (Cido no piano, Sab no baixo e
Toninho Pinheiro na bateria), havia causado furor. Originalmente, o
espetculo seria composto por Baden Powell e o Zimbo Trio, mas como
Baden estava em temporada na boate Cave, Jair fora escolhido na ltima
hora. S faltava adapt-la para o programa de televiso: uma cantora
branca, baixinha, que sambava com o corpo e girava os braos e que,
quando abria a boca, deixava a platia a seus ps; um cantor mulato,
simptico e empolgadssimo, que entrava no palco sorrindo de leste a
oeste, gingando e jogando os longos braos sem nenhuma direo. Ambos
cantando e apresentando convidados, dando at a impresso, a alguns
ingnuos, de manter um romance platnico que nem de leve existia. A
dupla era acompanhada por um trio que era unha e carne com Elis, o Zimbo
Trio, formado pelo baixista Lus Chaves, em quem ela confiava cegamente,
Rubinho, o mais badalado baterista de So Paulo, e um pianista de ouvido
absoluto e formao clssica com uma queda para Oscar Peterson no samba,
Amilton Godoy. Essa frmula seria a coluna vertebral do programa O Fino
da Bossa, nada mais que um reflexo do show do Teatro Paramount.
A Record tinha ainda no seu staffo produtor Joo Evangelista Leo, que
fora da equipe do show de Silveira Sampaio. Por fora dessa atividade, o
gordo, simptico, competente e sensvel Joo Leo, que alm de ter bom
faro para novidades na msica, conhecia Deus e o mundo, podia produzir
com facilidade um programa musical relativamente modesto mas que teria
grande importncia, o Primeira Audio, que esteve no ar entre 27 de
outubro de 1964 e 3 de fevereiro de 1965. O programa de 25 minutos era
gravado no estdio da avenida Miruna, com presena de uma pequena
platia, e apresentava msicos e cantores ainda desconhecidos, a
garotada a caminho do profissionalismo: Chico Buarque, Taiguara,
Toquinho, Tuca e outros.
Atravs de Joo Leo, a Record convocou ainda Horcio Berlinck Neto,
jovem estudante de Direito, ativo e fantico por msica popular, que
produzira com Eduardo Muylaert, em 25 de maio de 1964, para o Centro
Acadmico XI de Agosto da Faculdade de Direito do Largo de So
Francisco, do qual era diretor, um show de muita repercusso no meio
estudantil, com o Zimbo Trio, Alade Costa, Rosinha de Valena, Srgio
Mendes, Jorge Ben, Os Cariocas, Luiz Henrique, Walter Wanderley,
Claudete Soares, Oscar Castro Neves, Ana Lcia e Wanda S, que por sinal
saiu consagrada. O show foi um sucesso e seu ttulo, um achado. Tanto
que Horcio o registrou: "O Fino da Bossa", mantido tambm na pioneira e
histrica gravao, lanada pela RGE.
Dessa maneira, Paulinho Machado de Carvalho tinha reunido em pouco tempo
a equipe mais capacitada do Brasil para realizar programas musicais pela
televiso. Agora, era s acionar os complementos para fechar o crculo.
Com sua preciosa agenda, recheada de nomes e valores de cachs, o
empresrio Marcos Lzaro foi alojado numa salinha do prdio do teatro,
equipada com monitor de televiso, para contratar quem quer que fosse
solicitado pela equipe de experts em msica popular do passado, presente
e futuro. A TV Record tinha portanto a cantora e o cantor, os msicos, o
intermedirio para contratar, os produtores e ainda um ttulo com luz
prpria, O Fino da Bossa. Era tudo de que necessitava para marcar poca
na televiso brasileira, embora pouca gente imaginasse que fosse atingir
tais dimenses.
O Fino da Bossa fez um sucesso fulminante, a dupla Elis & Jair,
heterognea na msica mas harmoniosa para a televiso, funcionou melhor
que o esperado: enquanto ela conquistava os fs de bossa nova, ele se
encarregava dos que eram contra. A Orquestra da Record - dirigida pelo
competente e respeitado maestro e arranjador Ciro Pereira - e mais dois
grupos que foram contratados para acompanhar a nata da msica popular
brasileira, o Quinteto de Luiz Loy (inicialmente um trio) e o Regional
do Caulinha, completavam o time fixo. As atraes variavam
semanalmente.
Em pouco tempo, suas gravaes - um espetculo sem interrupo, com
entradas a 5 cruzeiros que ainda davam direito a assistir ao desfile de
aquecimento, uma preliminar no gravada mostrando gente nova e
inexperiente, os juniores do Fino da Bossa - passaram a ser programa
obrigatrio para quem gostasse de msica na cidade. O Fino da Bossa era
gravado s segundas-feiras e transmitido s quartas, inicialmente s
22H10 e depois s 19H40. O histrico primeiro programa, que foi ao ar no
dia 19 de maio, gravado dois dias antes, tinha como convidados Nara
Leo, Baden Powell, Cyro Monteiro, Edu Lobo, Manfredo Fest Trio e Maria
Odete. Em menos de dois meses tornou-se o cerne de uma nova linha de
programao para a TV Record, os programas de msica popular brasileira,
onde se concentraram os artistas do fabuloso cast que rapidamente foi
sendo montado. Na primeira rodada, foram contratados com exclusividade
Edu Lobo, Alade Costa, Claudete Soares, Orlando Silva e Nara Leo. Logo
depois eram incorporados Lennie Dale, Rosinha de Valena, Baden Powell,
Chico Buarque, Peri Ribeiro, Maria Bethnia, Agnaldo Rayol, Trio Tamba,
Os Cariocas, Cyro Monteiro, Nelson Gonalves, Francisco Petrnio,
Paulinho Nogueira e Jorge Ben, todos eles antes do final de 1965.
No havia nada mais "in" do que encaixar a palavra "bossa" em tudo
quanto fosse atividade musical, resultando alguns trouvailles infames
como o show Sovina  Bossa ou o Bar Bossinha; outros beirando o ridculo
como Bossa  Banespa ou Cine Bossa Show, e ainda os mais bvios e menos
inspirados como Tarde de Bossa, Noite de Bossa, Domingo de Bossa, o
humorstico Bossa Riso no canal 5, alm do programa Ca-Nova Bossa, de
Fausto Canova, na Rdio Tupi, ou a nova srie da TV Tupi B O 65
aproveitando mais um dos shows no Paramount. E os trios? Bossa Trs,
Bossa Jazz Trio e Bossa Rio. Estava na hora de aproveitar a onda.
Em junho, as temporadas internacionais de Frank Sinatra Jnior na TV
Record (com a orquestra de Tommy Dorsey dirigida pelo saxofonista Sam
Donahue, uma vez que o trombonista j era falecido) e de Johnny Mathis
na TV Excelsior figuram entre as derradeiras de um ciclo em fase
agonizante ante a crescente pujana da msica brasileira, que suscitava
um entusiasmo nunca visto na juventude, correspondendo a seus anseios de
liberdade, que iam aumentando  medida que a Censura fechava o cerco. Em
maio, os espetculos Opinio e Arena Conta Zumbi foram atingidos na
carne com o corte ou a obrigao de substituio de trechos alusivos 
situao poltica do pas. Imediatamente, as bilheterias foram afetadas:
o interesse pelos dois espetculos dobrou. Zumbi iria bater o recorde de
nove meses em cartaz.
O inquestionvel sucesso de O fino da Bossa, exibido no Rio atravs de
videoteipes (transportados por via area numa pesada maleta), estimulou
a criao de outro programa para abrigar os veteranos, j que a nata da
msica brasileira do passado, a velha guarda, estava quase toda viva, de
Vicente Celestino a Jacob do Bandolim, de Aurora Miranda a Carolina
Cardoso de Menezes. O produtor da TV Excelsior Glauro Couto procurou
Paulinho de Carvalho para sugerir um programa direcionado para o pblico
desses artistas, e a direo da Record percebeu que tinha outro poo de
petrleo a ser explorado, no podia desprezar a oportunidade de criar um
segundo espetculo musical, que inicialmente seria chamado Gente Bamba e
depois foi batizado de Bossaudade, tambm por sugesto de Glauro. O nome
era horrvel, mas se o contedo fosse bom o programa poderia pegar, o
ttulo que se danasse... Glauro foi contratado mas teve uma molstia
fatal, morrendo logo depois. A produo foi entregue a Manoel Carlos,
que dominava a matria com o p nas costas, auxiliado pela mesma equipe
de O Fino da Bossa, completada por Tuta e Nilton Travesso.
Para apresentar o novo programa, ao lado de Cyro Monteiro, foi convidada
outra grande cantora brasileira, Elizeth Cardoso, cuja carreira era
conduzida pelo dr. Augusto Mesquita, com quem Paulinho j negociara em
ocasies anteriores. Dar-se-ia assim continuidade a uma tradio da
Rdio Record, que trouxera Carmen Miranda do Rio nos anos 30, e da TV
Record, que na dcada de 50 criara programas de televiso exclusivos
para Maysa e ngela Maria, e agora apostava fichas polpudas na mais nova
componente desse time de estrelas, Elis Regina. Ainda por cima, um
programa com Elizeth evitava os possveis encontros com Elis, resolvendo
certas quizilas da baixinha com as cantoras para as quais torcia o
nariz, e Elizeth era uma delas. O primeiro Bossaudade foi gravado no
Teatro Record em 14 de julho, com a "Divina" muito insegura como
apresentadora, Cyro Monteiro perfeitamente  vontade, o Regional do
Caulinha, que estreava na TV Record, a mesma orquestra do Teatro, porm
regida pelo maestro Gabriel Migliori, e os seguintes convidados da faixa
de coroas da msica popular: Aracy de Almeida, Dalva de Oliveira,
Orlando Silva, Joo Dias e Jacob do Bandolim. Elis Regina tambm
participou, cantando "Arrasto", e todos, em coro, encerraram o programa
com o samba de Noel "Com Que Roupa?". O Bossaudade ia ao ar na
quarta-feira, s 22h, com reprise aos domingos.
No domingo, dia 22 de agosto, pouco mais de um ms depois, enquanto o
lder do Campeonato Paulista, o Santos Futebol Club, vencia a Portuguesa
por 4 a 0 com trs gols de Pel, ia ao ar pela TV Record o primeiro
programa da srie Jovem Guarda. Por uma deciso da Federao Paulista de
Futebol, o canal 7 acabava de perder um grande filo de sua programao,
as transmisses dos jogos de futebol ao vivo, e, para preencher as
tardes de domingo, decidira investir num terceiro programa musical,
desta vez destinado a outra faixa etria: a juventude do i-i-i. O
Jovem Guarda era comandado por Roberto Carlos, j ento um dos cantores
mais populares do Brasil, em fase de pleno sucesso com "O Calhambeque" e
emplacando mais dois, "Histria de um Homem Mau" e "No Quero Ver Voc
Triste". Roberto havia sido contratado no incio de agosto e nessa tarde
estavam com ele Tony Campelo, Roni Cord, Rosemary, os grupos Jet Blacks,
The Rebels, Os Incrveis e seus dois companheiros na apresentao, o
parceiro Erasmo Carlos, o "Tremendo", e a "Ternurinha" Wanderla.
Originalmente, havia-se pensado em Celly Campelo, porm seu marido vetou
a idia e as opes seguintes foram Rosemary e Wanderla.
Esses trs programas atendiam praticamente a todas as tendncias da
msica popular brasileira, genericamente rotuladas como bossa nova,
velha guarda e Jovem Guarda. Os principais cantores desses trs grupos,
e no os compositores, seriam os astros dos futuros festivais.
Em virtude do sucesso crescente dos trs primeiros musicais da TV
Record, novos programas seriam criados. Com a sada de Joo Leo e
Horcio Berlinck Neto, em setembro, levando consigo o ttulo "O Fino da
Bossa", os produtores, que vinham fazendo mais ou menos separadamente
cada um daqueles programas, foram reunidos sob um nome comum, embora em
diferentes combinaes. Esse grupo passou a ser conhecido como "Equipe
A", e juntava trs homens de televiso. Antnio Augusto Amaral de
Carvalho, o Tuta, encarregado da seleo de imagens de TV, que, sendo
filho caula do dr. Paulo, era o lder natural. (O nome da equipe
provinha, alis, dos trs "A" com que seu nome aparecia nos slides como
diretor de TV, "A. A. A. de Carvalho".) O segundo membro era o
respeitado Nilton Travesso, dono de apurado senso esttico, que, vindo
dos estdios da avenida Miruna, onde era produtor e diretor de TV em
outros programas, cuidava da dinmica do acabamento plstico dos
espetculos. O terceiro era Manoel Carlos, que tambm escrevia os
textos, sugeria convidados e se revezava com Nilton na direo de palco.
Sua primeira tarefa foi produzir um grandioso show, com a presena de
todos os contratados das reas musical e de humor, no dia 27 de
setembro, para comemorar os 13 anos do canal 7. O xito foi tamanho que
a emissora instituiu um programa mensal, transmitido ao vivo todo dia 7,
plenamente de acordo com a tendncia cabalstica da qual os Machado de
Carvalho no abriam mo. Era o Show do Dia 7,
O quarto componente da Equipe A, anexado depois, procedia do rdio,
sendo tambm homem de confiana dos Machado de Carvalho. Discretssimo,
com o clssico bigodinho fino e os cabelos lisos repartidos, adornado
com uma echarpe de seda no pescoo e praticante de golfe, era um dndi e
uma verdadeira eminncia parda nas Emissoras Unidas, como sugeria seu
apelido, "Fiel da Balana". Chamava-se Raul Duarte.
Raul seria uma figura to importante nos jris de seleo prvia e de
julgamento dos festivais, que vale a pena fazer um retrospecto de sua
carreira radiofnica.
A Rdio Record tinha esse nome porque seu primeiro proprietrio, lvaro
Liberato de Macedo, aproveitara o mesmo nome de sua loja de discos para
a rdio que fundou em 1928, a PRAR, instalada na praa da Repblica,
nmero 17. Em 1931, j com o prefixo PRB 9 e sob a direo de seu
segundo proprietrio, Paulo Machado de Carvalho, a Rdio Record teve
trs clebres speakers: Csar Ladeira, Nicolau Tuma e Renato Macedo,
cujas vozes se tornaram famosas irradiando boletins durante a Revoluo
de 1932. Quando Ladeira, "A Voz da Revoluo", foi para o Rio, Raul
Duarte entrou em sua vaga. Sua importncia aumentou consideravelmente
quando o dr. Paulo e seu cunhado, Joo Baptista do Amaral, reataram as
relaes que estavam rompidas para constiturem juntos a cadeia das
Emissoras Unidas, nos anos 40. O propsito desse acordo, que durou pouco
tempo, era juntar cinco estaes - Record, So Paulo, Bandeirantes,
Panamericana e Cultura - para enfrentar as Emissoras Associadas de
Chateaubriand, Tupi e Difusora. Na composio societria entre os dois
cunhados majoritrios, o dr. Paulo presenteou com 2% de aes uma pessoa
de sua inteira confiana, Raul Duarte. Desde ento, embora fosse um
acionista minoritrio, tornou-se o fiel da balana entre os dois grupos
dominantes, os Carvalho e os Amaral, e, muitos anos mais tarde, entre os
Carvalho e Slvio Santos.
Na sua poca de rdio, Raul passou de locutor a produtor de programas.
Num deles, os competidores eram convidados a formar uma frase com a
palavra fornecida pela produo. As engraadssimas situaes
decorrentes - como a do candidato que, diante da palavra "colquio",
saiu-se com a frase "Coloque o chapu no cabide" - foram o embrio do
programa que Raul sugeriria a Tuta mais de vinte anos depois. Era uma
maneira diferente de aproveitar a disponibilidade do fabuloso elenco
artstico que a TV Record tinha sob contrato. O programa foi batizado
Esta Noite Se Improvisa, e nele os candidatos tinham que se lembrar da
letra de alguma msica que contivesse a palavra-chave anunciada pelo
apresentador Blota Jnior, aps o bordo que se consagraria a ponto de
substituir o ttulo original do programa: "A palavra ...". A imaginao
frtil e uma memria de elefante fizeram do fidalgo Raul Duarte um
membro fundamental da Equipe A. Seguramente, era o mais discreto de
todos, at mesmo que o Tuta, que fazia qualquer negcio para no ter de
ir ao mais comezinho acontecimento social. O programa Esta Noite Se
Improvisa estrearia em abril de 1967, depois de uma bem-sucedida
experincia no Show do Dia 7, e consagraria Chico Buarque e Caetano
Veloso como os maiores conhecedores das canes brasileiras.
Ainda em 1965, a TV Record decidiu criar outro programa, aprincpio para
ser apresentado por Agnaldo Rayol, Angela Maria e um humorista. Gravado
pela primeira vez no dia 9 de novembro, acabou sendo comandado por
Agnaldo e pelo comediante Renato Corte Real, que assim abandonava a
srie Papai Sabe Nada. No formato do musical/humorstico, Agnaldo e
Renato pretendiam ser rivais, desafiando-se freqentemente em dilogos e
situaes semelhantes s vividas por Dean Martin e Jerry Lewis no
cinema, um servindo de escada para o outro. Nesse programa, o Corte
Rayol Show, cujo prefixo era uma verso de "Ma Vie", havia um quadro
musical montado por Lcio Alves, a Roda de Samba, em que quatro cantores
que jamais haviam cantado juntos preparavam,  tarde, um nmero vocal
indito para ser apresentado na mesma noite, pela primeira e ltima vez.
Um quarteto por programa, como o que juntou de certa feita Lcio,
Agostinho dos Santos, Elis e Elza Soares.
Em 20 de dezembro, Elis gravou o ltimo Fino da Bossa do ano, embarcando
em vilegiatura para a Europa, em companhia de sua secretria Cenira e da
esposa de Marcos Lzaro. O programa, j com a denominao simplificada
de O Fino, seria comandado nos primeiros meses de 1966 por Peri Ribeiro
e depois por Wilson Simonal, que deixava o Spot Light da TV Tupi.
Simonal foi tambm contratado para comandar mais um musical, que
entraria no ar em junho de 1966, o Show em Si... monal, possivelmente o
mais inventivo deles todos, com uma receita que combinava trs
ingredientes principais: a proposta musical sofisticada e jazzstica
desse cantor soberbo (tanto no sentido de magnfico como de presunoso)
e seu criativo grupo Som Trs, liderado por Csar Camargo Mariano; a
msica de balano, que receberia a denominao de "pilantragem" e o
levaria ao topo da carreira; e as situaes inslitas engendradas para
deixar o pblico sem saber ao certo o que era verdadeiro ou falso, srio
ou cmico. Vale at recordar uma das mais hilariantes, quando um
figurante ficou to empolgado com a misso de simular uma discusso, que
partiu para valer, nocauteando em pleno palco o pobre do contra-regra
Armando Mirabelli, que, estarrecido, ficou sem entender nada enquanto a
patulia abismada aplaudia freneticamente tamanho empenho dos atores.
Naquele vero de 1966, ao mesmo tempo que Elis passeava pelo Velho
Mundo, a audincia do Jovem Guarda crescia assustadoramente, alavancada
pelo novo sucesso de Roberto Carlos, "Quero Que V Tudo Pr Inferno". A
garotada iconoclasta superlotava o Teatro Record nas tardes de domingo,
identificando-se com os cabeludos de roupas extravagantes, acolhendo o
alheamento como forma de revolta contra as preocupaes e formalidades,
adotando as novas grias como a linguagem de sua preferncia e
entregando-se  espontaneidade ingnua das letras e  alegria do ritmo
para cantar e danar livremente. O i-i-i comeava a dominar a bossa.
No dia 29 de janeiro, durante a entrega dos trofus Chico Viola, a TV
Record anunciou que promoveria o seu II Festival da Msica Popular
Brasileira, com 20 milhes em prmios. Muitos acharam que aquele seria o
segundo porque a TV Excelsior j havia feito um em 1965, mas poucos se
lembravam que seis anos antes houvera o primeiro, no Guaruj. Essa, a
razo de ser o segundo. E mais, seu ttulo oficial no continha o
vocbulo "Nacional", para diferenci-lo do evento da Excelsior. Havia,
no entanto, um ponto em comum que faria a diferena: seu produtor
chamava-se Solano Ribeiro, o homem que sabia fazer festivais.
Dias depois de pedir demisso da TV Excelsior, Solano fora direto ao
Teatro Record e, atravs de Marcos Lzaro, procurara Paulinho Machado de
Carvalho para sondar se ele toparia realizar o festival. De incio, ele
no se entusiasmou com a idia. O Festival da Excelsior no tinha sido
um grande sucesso de audincia. Mas, ainda assim, Paulinho confiou na
possibilidade de um novo caminho e respondeu: "Tudo bem, Solano, s que
aqui  um pouco diferente: a gente gosta de olhar tudo, no podemos dar
liberdade total". Solano concordou, pedindo para formar a comisso
selecionadora das msicas que fossem inscritas.
A direo do festival determinaria quem seriam os intrpretes, apesar
dos compositores gozarem da liberdade de fazer sugestes na inscrio.
Para isso, contariam com o fabuloso cast de cantores e cantoras dos
programas musicais que estavam semanalmente na tela da Record, mostrando
a impressionante faceta criativa da msica popular na televiso
brasileira.
Na rua Nestor Pestana, o II Festival da TV Excelsior, cuja realizao
fora confirmada dois dias antes, a 27 de janeiro, no tinha a estrela
que a emissora projetara em sua primeira edio. Com todo o seu
devastador desempenho nas contrataes, o canal 9 deixara escapar
justamente quem mais precisava, aquela que tinha detonado o processo de
reverso na liderana de audincia, Elis Regina. Desde o momento em que
os dois certames foram anunciados, ficou no ar a ntida sensao de que
o da Record iria sobrepujar o da Excelsior, que muitos acreditavam ter
sido a criadora dos festivais.
O ano de 1966 ainda prometia novidades. Quando Elis retornou da Europa,
a 5 de maro, encontrou um ambiente completamente diferente do que
deixara em dezembro. O Fino perdia feio para o Jovem Guarda. Em termos
de audincia, a juventude da bossa era dominada pela garotada do
i-i-i. A avalanche das jovens tardes de domingo era tal, que a TV
Excelsior tratou de colocar no ar uma carta de baralho para concorrer.
Contratou Wanderley Cardoso e Rosemary para encabear o Festival da
Juventude, que estreou no dia 6 com a participao de Marcos Roberto,
Demetrius, Os Vips, Prini Lorez, Rinaldo Calheiros e The Jordans. O novo
programa entrava no horrio de Bibi, que saa do ar definitivamente, e
foi rebatizado de Juventude e Ternura. A Tupi tambm prometia um
programa aos sbados, Na Onda do I-I-I, com gravaes de dolos
internacionais como Rita Pavone, Neil Sedaka e outros.
Era preciso levantar O Fino. Com sabor de ordem do dia, foi afixada nos
bastidores do Teatro Record uma proclamao de pasmar: "Ateno,
pessoal, O Fino no pode cair! De sua sobrevivncia depende a
sobrevivncia da prpria msica moderna brasileira. Esqueam quaisquer
rusgas pessoais, ponham de lado todas as vaidades e unam-se todos contra
o inimigo comum: o i-i-i". Assim mesmo, com todos os efes e erres.
A conclamao em nada afetou o Jovem Guarda. Elis precisou desmentir sua
declarao  revista Intervalo, a rplica brasileira do TV Guide,  qual
teria dito que "esse tal de i-i-i  uma droga, seus intrpretes so
uns debilides"; precisou fazer sala para Roberto e, para provar que era
tudo inveno, alm de abra-lo nos bastidores, prometeu que iria
cantar no seu programa. Ao final desse surpreendente ms de maro, a
Record anunciou sua mais nova contratada, Hebe Camargo, a perene estrela
da TV, que teria um programa de entrevistas aos domingos. Ela estreou a
6 de abril, cantando, ao final, um dueto com Agnaldo Rayol para deixar
os coraes da macia audincia vibrando de emoo. Mesmo sendo um
programa de entrevistas, um talk show - como se diria anos depois -, o
programa Hebe tambm fazia parte da ofensiva musical que levava a TV
Record a uma posio de supremacia na televiso brasileira, tendo a
msica como arma. "De que maneira?", perguntar o leitor. Por um caminho
indireto: como Hebe Camargo era originalmente cantora, os contratados do
elenco da Record, quando convidados, eram inevitavelmente induzidos a
cantar. Para emocionar o telespectador e tornar certas entrevistas
inesquecveis, podiam comparecer ainda a me ou o pai dos cantores, como
foi o caso de dona Ercy, com seu sorriso alvo e aberto, me de Elis
Regina. "A cara de uma  o focinho da outra" - comentou quem assistiu ao
programa. O objetivo fora atingido.
Para incentivar as inscries no festival, agendado para setembro,
entrou no ar s teras-feiras, 19h30, um programete produzido pelo time
de Solano Ribeiro. A pequena equipe, instalada num dos apartamentos do
prdio vizinho ao Teatro Record, inclua a secretria Marilu Martinelli,
o assistente Renato Corra de Castro e Alberto Helena Jnior. Foi Helena
quem sugeriu acrescentar s chamadas pequenos documentrios sobre
gneros, compositores ou temas do passado da msica brasileira, a fim de
torn-las mais atraentes. Um deles tratava das origens do samba de
breque e reunia Cyro Monteiro e Dilermando Pinheiro; outro abordou o
samba branco, com Paulo Vanzolini, Adoniran Barbosa e Chico Buarque; um
terceiro focalizou o sambista Vassourinha. Com direo de TV de Slvio
Luiz, a srie acabou recebendo o prmio Governador do Estado, alm de
cumprir o objetivo de divulgar o festival. A entrada de Helena na equipe
ocorreu depois que este pediu demisso do recm-criado Jornal da Tarde
(onde era crtico musical), em um encontro com Solano no Ferro"s Bar.
Solano convidou-o para trabalhar no festival como redator dos tais
programetes, que estrearam em abril.
Abril foi tambm um ms particularmente significativo para Roberto
Carlos, que aniversariava no dia 19. Foi capa da revista Cash Box e
comandou um Jovem Guarda especial, no imenso Cine Universo, no bairro do
Brs, com a presena de todo o elenco regular e mais Simonal e Elis, que
cumpria sua promessa. Ao final desse programa inesquecvel, dois dias
antes de completar 23 anos, Roberto foi levado praticamente nos braos
dos fs at o carro que o esperava, seguindo direto para o aero- porto,
de onde embarcaria para uma curta temporada em Lisboa. Nada de tirar
frias de trs meses como Elis. O i-i-i, considerado alienado,
ganhava a batalha sobre a bossa, considerada participante.
O governo militar, que j tinha cismado com os espetculos de msica
engajada tipo Opinio, comeou a prestar ateno cada vez maior aos
novos dolos da msica popular. Alguns deles j incomodavam com suas
posturas pblicas. Nara Leo, recm-chegada da Europa, entrou na mira de
juristas do Ministrio da Guerra aps suas declaraes ao Dirio de
Notcias, por eles consideradas ofensivas s Foras Armadas e de carter
nitidamente subversivo. "Nara  de opinio: esse exrcito no vale
nada", foi a manchete que fez subir o sangue dos militares mais
aferrados. Chegando a So Paulo para participar do programa O Fino do
dia 23 de maio, leu num jornal do hotel que poderia ser presa a qualquer
momento. Foi um fuzu, comentado at no exterior. Por fim, o ministro da
Justia, Mem de S, abandonou a idia de abrir um processo e Nara foi
endeusada at por Drummond, que lhe dedicou uma crnica sob a forma de
poesia com 17 quadras, dirigida a Castelo Branco. Uma delas exprimia bem
o que a juventude participativa sentia naquele momento: "De msica
precisamos/ para pegar o rojo,/ para viver e sorrir,/ que no est mole
no". E arrematava: "Meu ilustre general/ dirigente da nao,/ no
deixe, nem de brinquedo,/ que prendam Nara Leo".
Complementando o esquema de promoo do cast da TV Record, a Rdio
Panamericana foi renomeada Rdio Jovem Pan, e contratou os principais
cantores da TV para programas exclusivos que, cada um a seu modo,
dirigiam-se a um pblico especfico dos musicais da televiso. Elizeth,
Roberto, Agnaldo, Wanderla, Erasmo, Elis e Simonal tinham seus
programas de rdio, eventualmente gravados em suas casas para lhes
facilitar a vida, nos quais podiam comunicar-se fora da televiso,
propiciando aquela intimidade que faz a delcia dos fs, tocando e
promovendo suas prprias gravaes e conduzindo a desprezada Rdio
Panamericana a uma rpida e competitiva ascenso. Com esse novo reforo,
a audincia da TV Record, formada por quem se interessava por msica
brasileira, ia gradativamente se transformando numa nao.
Essa nao foi despertada no dia 29 de julho de 1966 com uma notcia
equivalente  exploso de um torpedo no bojo da embarcao: os estdios
da TV Record e das Rdios Record, So Paulo e Panamericana, na avenida
Miruna, estavam em chamas. Na cidade, ningum conseguiu ficar
indiferente ao saber que, alm dos equipamentos, perderam-se preciosos
vdeos dos gols de Pel e de programas musicais. Numa tacada de mestre,
a msica que estava no ar quando a programao da Jovem Pan foi
interrompida, passou a ser executada sem parar aps o retorno das
transmisses, convertendo-se em verdadeiro canto de louvor  esperana
da gente. Os versos de Torquato Neto para "Louvao", de Gilberto Gil,
cantada por Elis Regina no disco gravado no Teatro Record em 16 de maio,
pareciam ter sido compostos para a ocasio. S faltou o herico corpo de
bombeiros adotar "Louvao" como seu novo hino. A juventude se
identificou com aquele chamamento que mexia com seus brios, juntando
mais um poderoso ingrediente ao ponto de convergncia que tinha "um
destino certo e preciso": uma forma lcita de protestar e fazer valer
sua voz contra a mordaa da ditadura militar.
Em sua coluna na ltima Hora do dia 1 de setembro, Walter Negro
mencionava um decreto que teria sido publicado nos ltimos dias de
agosto, pelo qual versos como "Quero que voc me aquea neste inverno"
ou "Voc me acende com teu beijo... hui, hui, hui", com esses rudos
sensuais, seriam censurados. E ainda, segundo Walter, as letras de tom
subversivo, supostamente as de Chico Buarque. Verdade ou no, a msica
caminhava cada vez mais para ser o meio de expresso da juventude.
Os 800 estudantes da Faculdade de Filosofia da USP que se reuniram no
dia 20 de setembro decidiram realizar uma passeata que assumiu
propores insuspeitadas. As manifestaes relmpagos que ocorreram no
dia seguinte em diferentes pontos da cidade mostravam um movimento bem
organizado contra a ditadura, pela democracia, a favor de eleies
livres. Cada estudante recebeu um estilingue, bolinhas de vidro, tubos
de plstico e rolos de papel higinico e, munidos desses armamentos,
detonaram protestos que, estrategicamente, duravam dez minutos,
pipocando aqui e acol em movimentaes rpidas, na rua Maria Antonia,
na ladeira General Carneiro, na rua da Liberdade e em outros pontos.
Acusados de ligaes subversivas, os centros acadmicos eram tidos como
focos de intentos antinacionais. Os protestos levaram a polcia a
bloquear a entrada do cruzamento das ruas Maria Antonia e Itamb, ao
lado do Mackenzie, onde se realizava uma viglia da classe estudantil,
que desde 1 de abril de 1964 vinha se convertendo num antema para o
governo militar. Muitos estudantes foram presos no Dops e libertados no
dia seguinte. O movimento foi apoiado por um manifesto assinado, entre
outros, por Nara Leo, Elis Regina, Agnaldo Rayol, Ronnie Von e Chico
Buarque. Uma semana depois, acontecia, com a participao de vrios
desses artistas e a presena de muitos daqueles estudantes, no teatro da
rua da Consolao, a primeira eliminatria do II Festival da TV Record.
Era dia 27 de setembro, dcimo terceiro aniversrio da emissora.
A distribuio das 36 concorrentes para as trs eliminatrias fora feita
por sorteio s 22 horas de 10 de setembro no Teatro Record. Os cantores
escalados para o festival retiravam os envelopes onde, alm do nome da
cano e de seus autores, estava o de quem iria defend-la. Apenas
Elizeth Cardoso, melindrada pelo corte de seu Bossaudade em virtude da
queda de audincia, no estava entre os que iriam cantar no festival. E
quais eram essas 36 canes cujos intrpretes podiam ser sugeridos pelos
autores, mas que efetivamente foram indicados pela direo do festival?
Quando se encerrou o prazo de inscrio, a 30 de julho, foi montado um
grupo de trabalho para realizar a triagem das concorrentes num local que
fosse afastado tanto da TV como do Teatro. Escolheu-se um salo na
Escola Santa Helena, de dona Irene, me de Alberto Helena, que tambm
tocava piano e conhecia bem o ambiente musical. Nessa escola da esquina
da avenida Brasil com praa David Campista, durante o ms de agosto,
reuniram-se sigilosamente o maestro Jlio Medaglia, Raul Duarte, o
produtor Roberto Corte Real e o psicanalista/jornalista Roberto Freire
para ouvir Csar Camargo Mariano passar ao piano 2635 msicas, cujas
letras eram anexadas nas fichas de inscrio, sem a identificao dos
autores. As letras serviam como primeira forma de eliminao: se
tivessem rimas do tipo "Brasil varonil" com "pas to viril", as msicas
eram cortadas imediatamente. A seguir, iam para o grupo A as canes
visivelmente superiores, consideradas fortes candidatas. No grupo B,
ficavam as que tinham boas chances nas eliminatrias, e o C era
destinado s que mereciam uma repescagem. O quarto grupo era o lixo, as
descartadas depois de ouvidas. Idntico processo, com o mesmo sigilo,
foi adotado nos festivais em que Solano se envolveu da em diante.
Assim, a seleo foi pautada pelo maior escrpulo. Tanto que, para no
prejudicar ou favorecer ningum, nenhum dos membros sabia quem eram os
autores das msicas. Durante esse ms, Adoniran Barbosa cruzou com Raul
nos corredores da Record e lhe disse o ttulo de sua msica. Raul
respondeu: "No me faa isso. Era possvel que eu votasse na sua msica
de boa vontade, mas voc me dizendo, vou alegar suspeio e no vou
votar". E no votou mesmo, justificando o porqu. Quando saiu a relao
das concorrentes, a msica de Adoniran no estava entre as 36. Tambm
ficaram de fora as de Joo do Vale, Joo Roberto Kelly, Ataulfo Alves,
Capiba, Toquinho e Dori Caymmi. Z Kti inscreveu 16 canes e s uma
foi includa.
Terminada a seleo, seria montado o jri do festival. A diferena de
gosto musical entre Solano e Alberto Helena foi uma das razes do
equilbrio entre seus membros. Solano tinha sua histria com o rock e
era ligado s propostas mais modernas; j Helena era fixado nas
tradies do passado. Foi um bom contraponto, que impediu o jri por
eles montado de tender para uma linha s.
Foram requisitados os cinco participantes do grupo de seleo, Jlio,
Raul, os dois Robertos - Corte Real e Freire - e o pianista Csar
Mariano. Do Rio vieram os jornalistas Slvio Tlio Cardoso e Lus Guedes
com o compositor Mrio Lago. De So Paulo, o jornalista Franco Paulino,
o compositor Paulo Vanzolini, o jornalista e compositor Denis Brean e o
jornalista Alberto Medauar, da revista Intervalo, que entrou na promoo
com a TV Globo. Era um jri bem balanceado: tinha gente nova como Csar
e Franco, gente do disco como Corte Real, Vanzolini era bem tradicional,
Denis era briguento, Roberto Freire, um intelectual, e Jlio, um
maestro. Por outro lado, alguns eram francamente de direita, outros
sabidamente de esquerda. Os 12 iriam decidir o destino das 36
concorrentes ao II Festival da TV Record sob o patrocnio do sabo Viva.
Em funo dos musicais de televiso, So Paulo era o centro para o qual
convergiam os maiores nomes da msica popular brasileira. A turma de
compositores se reunia para trocar idias ou mostrar suas novas
composies em trs bares da Galeria Metrpole, na avenida So Luiz: o
Ponto de Encontro, o Jogral, de Carlos Paran, e o Sand Churra.
Freqentavam tambm o Pari Bar atrs da biblioteca Mrio de Andrade, o
Zelo da Nestor Pestana, o Redondo ao lado do Arena e o Ferro"s da rua
Martinho Prado. Num deles, poderiam estar Gilberto Gil, Vandr, Chico
Buarque, Paulinho da Viola, Srgio Ricardo, os jornalistas Alberto
Helena, Franco Paulino, Chico de Assis e outros. Antes mesmo do
festival, os habitues j conheciam vrias das msicas inscritas, que
eram cantadas pelos autores, ansiosos em sentir a reao de um
microcosmo do que seria a platia no Teatro Record. Essa ansiedade era
compartilhada com jornalistas ou com futuros adversrios. Certa noite,
Geraldo Vandr, que tinha um Fusquinha, saiu com Alberto Helena e o
produtor Luiz Vergueiro. De repente, parou o carro e disse: "Eu vou
cantar para vocs a msica que vai ganhar o festival.  a maior
revoluo, porque  o sertanejo moderno com Guimares Rosa; vocs no
tem a menor idia do que vai ser". E cantou "Disparada". Os dois ficaram
se olhando abismados.  Foi uma porrada, era uma msica revolucionria,
coisa de um visionrio.
Alm de "Disparada", havia entre as concorrentes ttulos que sugeriam
sutis abordagens polticas e outros de ntido cunho romntico: "L Vem o
Bloco", de Guarnieri e Lyra, "Ensaio Geral", de Gil, "Cano para
Maria", de Capinan e Paulinho da Viola (que se conheceram em reunies no
Teatro Jovem do Rio), "De Amor Ou Paz", de Luiz Carlos Paran e Adauto
Santos, "Cano de No Cantar", de Srgio Bittencourt, "Jogo de Roda",
de Ruy Guerra e Edu Lobo, "Um Dia", de Caetano Veloso, e "A Banda", de
Chico. Ia comear a corrida atrs da Viola de Ouro, um trofu com menos
de um palmo de altura, desenhado por Flvio Imprio, e de 20 milhes de
cruzeiros para a primeira colocada, 10 milhes para a segunda, 5 milhes
para a terceira, 3 milhes para a quarta, 2 milhes para a quinta e uma
viagem  Itlia para a melhor letra.
A msica mais aplaudida na primeira eliminatria, na tera-feira, 27 de
setembro, foi "Disparada". Ao final da apresentao, a cantora Maria
Odete, que defendera "Um Dia", no se conteve e entrou no palco para
beijar o noivo Tho de Barros, parceiro de Vandr. O espetculo comeou
s 22h e terminou depois de meia-noite e meia, num palco repleto de
flores, para uma platia que no lotava o auditrio, mostrando-se fria
com Roberto Carlos, que cantou "Anoiteceu", bem-humorada ao rir da
interpretao de Isaurinha Garcia para "Conformao" e animada com o
entusiasmo de Leny Eversong em "L Vem o Bloco". A platia tambm podia
votar numa das quatro classificadas, que foram reapresentadas ao final:
"Disparada", "Um Dia", cuja melodia parecia uma homenagem a Luiz Gonzaga
atravs de uma citao de "Vem Morena", a impetuosa "L Vem o Bloco" e
"Cano de No Cantar" com o MPB 4. Os apresentadores, como sempre
acontecia nos grandes eventos da Record, eram o casal mais chique da
emissora, Snia Ribeiro e Blota Jnior. Terminada a repetio das
quatro, todos os cantores voltaram ao palco, menos Roberto Carlos, que
ficou decepcionado por no classificar a romntica composio de Francis
Hime e Vinicius de Moraes.
"Disparada" foi cantada por Jair Rodrigues acompanhado pelo Trio Maray
(Hilton Acioly, Behring e Marconi) e pelo Trio Novo, com uma
instrumentao estranha: viola caipira tocada por Heraldo do Monte, uma
queixada de burro tocada por Airto Moreira e violo tocado pelo autor da
msica, Tho de Barros. Antes do resultado, Vandr circulava nervoso
pelos bastidores, rebatendo e xingando quem o chamava de quadrado pelo
uso da viola, mas ficou feliz quando ouviu algum dizer "Bobagem,
Geraldo, sua msica j ganhou disparado". At Elis ficara impressionada
ao sapear o ensaio numa das salinhas. A concentrao de Jair surpreendeu
a todos, habituados a v-lo despachado e dispersivo em seus sambas.
Porm os mais intensos comentrios se fixaram nos surpreendentes
estalidos que ecoavam pelo teatro cada vez que Airto castigava as
mandbulas do mais estrambtico e vigoroso instrumento que jamais
repercutiu no Teatro Record. Ningum imaginava que uma queixada de burro
pudesse ser aproveitada como instrumento de percusso com resultado to
poderoso, como se nele estivessem embutidos um amplificador e uma cmara
de eco. "Disparada" provocou uma vibrao generalizada, francamente
superior a qualquer outra concorrente daquela noite. No restaurante El
Potro, onde se reuniram depois vrios participantes, o emotivo Vandr
chegou a chorar com a receptividade  sua msica.
Para a segunda eliminatria, no dia seguinte, havia uma certa
expectativa das msicas defendidas pelas cantoras Maysa e Elis Regina,
mas a maior ansiedade era para a apresentao de Nara Leo em "A Banda",
de Chico Buarque. Nara deveria cantar  frente de uma bandinha de coreto
do interior, com tuba e bumbo, num arranjo de Geny Marcondes. Foi a
primeira concorrente e mal ouvida, pois a voz dbil de Nara era
encoberta pelo som da banda, postada atrs, que penetrava pelo microfone
da cantora. No conseguiu impressionar tanto quanto "Disparada", embora
fosse de longe a mais aplaudida, em especial por um grupo que podia ser
uma torcida organizada. Roberto Carlos conseguiu classificar "Flor
Maior" (Clio Borges Pereira) e Jair emplacou mais uma, "Cano Para
Maria", de Paulinho da Viola e Capinan. Entre os demais cantores, nem
Maysa com a tristonha "Renascena" (Cludio Varella e Jos Pereira), nem
Orlando Silva suspirando em "Amor de Mentira" (Z Kti e Silvio
Tancredi), nem Cludia, que acabou chorando depois de "O Sonhador" (Lus
Roberto e Ruth Salles), nem Maria Odete, cuja m dico prejudicou
"Levante" (Geraldo Vandr), foram aprovadas pelo jri. Classificaram-se
ainda "Ensaio Geral" (Gilberto Gil) com Elis e, como era esperado, "A
Banda", apesar dos problemas que prejudicaram o entendimento da letra.
Aps a eliminatria, Chico se mandou para a Galeria Metrpole e passou a
madrugada cantando a marcha com os amigos, reforando a perspectiva de
ganhar o festival.
No sbado, dia 1 de outubro, no houve o Astros do Disco pela TV Record.
A apresentao do terceiro lote de 12 canes j programadas, e mais
"Adarrum" (Roberto Nascimento), que no pudera entrar no segundo em
virtude de problemas nas cordas vocais da cantora Doroty, completaria as
36 concorrentes ao Festival. Antes mesmo da eliminatria, "Disparada" e
"A Banda" j se destacavam como as duas francas favoritas, o que se
confirmou aps a apresentao das 13 novas msicas, consideradas as mais
fracas das trs noites.
Elza Soares, bem aplaudida, classificou "De Amor Ou Paz" (Adauto Santos
e Paran). Maysa, apesar do pblico no se entusiasmar, levou seu "Amor,
Paz" em parceria com Vera Brasil para a final. Elis empenhou-se e
conseguiu colocar sua segunda msica, "Jogo de Roda", o mesmo
acontecendo com Nara e o conjunto Barrafunda em "O Homem" (Millr
Fernandes), cuja melodia desagradou o jurado Raul Duarte. O jri parecia
mesmo convencido de que as melhores canes estavam entre as escolhidas
antes. O pblico pensava o mesmo: houve at vaias quando Maysa e Elis
repetiram suas classificadas na terceira eliminatria. Ao perceber que
"Ensaio Geral" teria mais chances que "Jogo de Roda", Elis tratou de dar
nfase ao protesto da letra de Gil, a fim de ganhar a ala esquerdista da
platia.
Gilberto Gil tinha chegado a So Paulo para trabalhar na Gessy Lever
precisamente na fase inicial de O Fino da Bossa, e ganhara um convite
para assistir a um dos primeiros programas da srie, na noite em que Ary
Toledo se apresentou cantando "Pau de Arara", tambm conhecida como "O
Comedor de Gillete". Assim como outros compositores que viviam em So
Paulo, Gil encontrava na televiso o meio de exposio das msicas
engajadas, cujas letras levantavam os problemas da luta de classes e da
m distribuio de renda que sensibilizavam a classe estudantil. Tendo
participado da efervescncia dos grmios universitrios, da UNE e do
CPC, que abrigavam as atividades artsticas das esquerdas, Gil, ao lado
de Caetano, Vandr, Chico Buarque e Edu, vivenciara as escaramuas do
golpe de 1964, enfrentado cachorros nas ruas durante a greve da
legalidade e atravessando noites de viglia nos centros acadmicos.
Havia portanto entre eles esse trao de unio na militncia pela
resistncia democrtica durante a primeira fase do regime ditatorial,
bem como um repertrio de slogans e palavras de ordem que eram
facilmente transformados em temas de letras. Havia uma disposio muito
forte entre esses novos compositores, egressos da vida universitria, em
colocar a msica a servio da luta poltica do momento. Como uma
postura, como uma demanda. "Ensaio Geral" tinha a alegoria das escolas
de samba, "do rancho do novo dia" e "do cordo da mocidade", mas a
metfora era a do bloco popular com suas foras de resistncia contra o
regime, e Elis foi escolhida como intrprete por ser uma representante
dessa linha. Mais um motivo para se empenhar mais por "Ensaio Geral" que
por "Jogo de Roda".
Na reapresentao de "A Banda" nessa noite da terceira eliminatria
houve uma novidade: a fim de resolver o problema de som que prejudicara
a primeira apresentao, o produtor Manoel Carlos sugeriu que Chico
Buarque, mesmo a contragosto, entrasse no palco com seu violo para
cantar a msica inteira, antes de Nara repeti-la com a bandinha atrs,
pouco importando se continuasse sendo mal ouvida, pois Chico j teria
dado o recado. A manobra deu certo e agradou em cheio, ampliando a
torcida de "A Banda", pois Chico e Nara, alm de muito queridos,
formavam um par jovial. Os que queriam ouvir a repetio da outra
favorita  que ficaram decepcionados, vaiando Blota Jnior quando
anunciou que Jair estava em Curitiba e no cantaria "Disparada". Ainda
assim, ficou claro, tanto para o jri quanto para o pblico, que apenas
duas msicas disputariam a Viola de Ouro: a marchinha "A Banda", que
revivia a pureza de esprito das cidades do interior nos anos 30, e a
moderna moda de viola "Disparada", que pintava com cores nunca antes
percebidas a vida de um boiadeiro que era rei. Coincidentemente, duas
letras longas, contrariando a mxima de que grandes sucessos populares
devem ter letras curtas. As demais concorrentes, inclusive as duas de
Elis, estavam praticamente fora do preo, eram pano de fundo para a
cena.
Nos dez dias seguintes, a cidade de So Paulo passou a viver em funo
do grande duelo marcado para a final do II Festival da Record. Nas rodas
e reunies, a discusso sempre desembocava nas preferncias entre as
duas msicas. Como as transmisses diretas do Festival chegavam a quase
todo o pas, o tema ganhou amplitude nacional. Nunca o Brasil vivera uma
discusso cultural to empolgante como aquela. "A Banda" contra
"Disparada" era como Palmeiras x Corinthians, como Vasco x Flamengo em
deciso de campeonato. Inmeros cronistas escreveram sobre o assunto nos
principais jornais. O Estado de S. Paulo resumiu: "Desde o finzinho de
setembro, s duas torcidas contam: a da Associao Atltica Disparada e
a da Banda Futebol Clube". Nenhum tema artstico ganhou to rapidamente
as ruas, sendo discutido por freqentadores de bares e botequins, por
motoristas e passageiros nos txis, pela aluna e o professor, a dona de
casa e a empregada. Faziam-se apostas nos elevadores, todo mundo tinha
um palpite, cada um preferia um ritmo. Acontecia uma discusso sobre
esttica na rua, o gari e o jornaleiro argumentavam  o que era mais
bonito, o que era mais moderno, o que era mais antigo, qual letra era
melhor... O Brasil inteiro viu pela primeira vez que msica popular era
coisa muito sria.
Naquela semana, Hebe Camargo recebeu em seu programa os jurados Franco
Paulino, Roberto Freire, Paulo Vanzolini, Raul Duarte e Denis Brean para
tentar arrancar deles o que pensavam do Festival. Roberto Freire, com
sua respeitada autoridade na anlise das letras, era um dos que sentiam
que o jurado devia lutar por aquilo que houvesse de melhor na msica
popular brasileira, defender gente nova, atentando para a importncia
que teria uma msica vencedora na carreira dos compositores que estavam
se lanando. No chegou todavia a revelar que percebia existir na
juventude uma esperana de que os concorrentes tivessem alguma ligao
poltica com o movimento estudantil. Denis, o autor de "Bahia com H" e
crtico ferrenho da bossa nova, lancetou: o Festival havia destrudo
dois mitos, a bossa nova e Vincius de Moraes. Nenhuma das concluses
estava correta. Mas disseram tambm a Hebe que a disputa entre
"Disparada" e "A Banda" virar assunto de rua. Franco Paulino foi fundo
ao avaliar que o Festival tinha reconduzido a cano brasileira "ao
nico lugar de onde pode sair e para onde deve ir: o povo, a rua".
Estava certssimo. Era disso que estavam impregnadas as duas favoritas.
Tho de Barros, contrabaixista de trios das boates de So Paulo,
conhecera Vandr numa daquelas reunies de sbado entre cantores e
compositores, promovidas por Moracy do Vai e Franco Paulino em casas
particulares no final de 1962. Na casa de Maricene Costa, Tho mostrou o
"Menino das Laranjas" e Vandr foi o primeiro a grav-lo com o quinteto
do saxofonista Meireles, mas sem a desdobrada que estaria na gravao
posterior de Elis Regina, em arranjo de Paulo Moura.
Em 1966, no espetculo Mulher, Este Super-Homem, montado para a Rhodia,
Livio Rangan queria enriquecer o show com um som tipicamente brasileiro,
para contrastar com o mais que batido trio de piano, baixo e bateria.
Assim nasceu a idia de um grupo mais regional, arregimentado por Airto
Moreira, que exploraria percusso sem bateria, viola caipira com Heraldo
do Monte e violo com Tho. Livio batizou-os de Trio Novo, para tocar
temas folclricos com um tratamento mais sofisticado.
Nas viagens do show, enquanto estavam abertas as inscries para o
Festival da Record, Tho e Vandr, o cantor do espetculo, tiveram a
idia de compor uma msica que fosse um perfeito reflexo do que o Trio
Novo tocava nos shows da Rhodia. Quando a trupe atingiu So Paulo,
Vandr ouviu de Solano Ribeiro: "Por que voc no faz uma moda de
viola?". Convicto de que em cano popular a msica devia ser uma
funcionria despudorada do texto, Vandr criou ento, numa viagem em que
retornava de Catanduva, uma letra quilomtrica de tom regional, mas sem
se prender a uma zona determinada. Dias depois, mostrou-a a Tho e lhe
pediu que fizesse a msica, que foi feita em duas ou trs noites. Mesmo
cortando algumas frases, a cano ficou bem comprida e ganhou o
subttulo "Moda Para Viola e Lao".
Tendo sido uma das ltimas inscritas, os compositores ficaram sem muita
opo na escolha do intrprete, quando Solano interveio novamente e
sugeriu Jair Rodrigues, que sabia ter sido criado no interior e portanto
poderia se identificar com aquele tipo de msica. De fato, os convidados
para o aniversrio do produtor Joo Evangelista Leo, em julho de 1965,
na sua casa da rua Cuba, tinham ficado espantados quando, na cantoria
que se formou aps o jantar, Jair atacou uma seqncia de modas de
viola. Nenhum dos presentes, nem Elis Regina, suspeitava daquela sua
faceta, que at poderia ser aproveitada no Fino da Bossa. Mas seria um
sacrilgio. "Disparada"  que lhe daria a chance de cantar a msica de
sua infncia em Igarapava, interior de So Paulo. Paradoxalmente, foi
uma msica regional que deu ao sambista Jair Rodrigues sua grande
projeo.
Seguindo o conselho de Solano, Vandr foi com Hilton Acioly, do Trio
Maray, ao apartamento de Jair na esquina da rua Aurora com avenida So
Joo, onde morava com a me, para convid-lo a defender "Disparada".
Vandr quis certificar-se de que ele no faria as brincadeiras
costumeiras de O Fino da Bossa. "Olha, nego", disse ele, "no brinca
muito quando voc for cantar minha msica, porque ela  coisa sria".
Jair entendeu perfeitamente o esprito da coisa.
Durante os ensaios na casa de um casal venezuelano no bairro das
Perdizes, foi feito o arranjo com a participao do Trio Maray nos
vocais e as novidades que transformaram a apresentao de "Disparada" na
mais chocante exibio musical da Era dos Festivais. Indita no Brasil,
a queixada de burro estalada pelo percussionista Airto Moreira foi
conseguida em Santo Andr. Vandr queria o som de uma chicotada para
combinar com a letra e Airto tentou primeiro batendo dois tamancos,
depois, blocos de madeira, os wood blocks. Nenhum agradou. Lembrou-se
ento das orquestras espanholas, como a Casino de Sevilla, que vira em
Curitiba, onde, nas pausas dos cantores flamencos, o percussionista
esmurrava uma queixada produzindo um som de grande efeito. Urgia
conseguir uma queixada em So Paulo. Soube que um baterista de nome Pita
tinha uma e l foi ele com Geraldo para Santo Andr atrs do homem.
Propuseram alug-la, mas Pita no concordou.
- S se eu for tocando no conjunto.
- Ento voc quer me vender a queixada?
Acertaram o valor, Vandr puxou as notas do bolso e o "instrumento" foi
incorporado. A queixada era perfeita, os dentes ficavam meio soltos e
estremeciam na mandbula prolongando o estampido do impacto, como um
eco. Era exatamente o som da chicotada que Vandr queria. Alm disso, o
som da viola caipira, numa poca em que os trios de bossa nova ainda
dominavam, criou uma sonoridade musical que caiu como uma luva para a
expectativa da platia mais politizada.
A atuao de Jair teve sugestes de Vandr, que, mesmo no conhecendo
teoria musical, tinha a sensibilidade para criar o clima, aquilo que faz
a diferena entre uma pea tecnicamente perfeita e uma pea excepcional,
mesmo que imperfeita.
Quando Jair entrou no palco pela primeira vez para cantar "Disparada", a
platia foi pega de surpresa. Era outro Jair Rodrigues. Ao atingir o
meio do palco, parou diante do microfone, manteve a perna esquerda 
frente, a direita para trs, ficou de perfil, apenas com o tronco
voltado para o pblico, amarrou a cara e atacou: "Prepare o seu corao/
pras coisas que vou contar/ eu venho l do serto/ eu venho l do
serto/ eu venho l do serto/ e posso no lhe agradar...". O pblico
manteve um silncio sepulcral. Apelidado de "Cachorro", Jair, um cantor
bulioso que provocava gargalhadas com o espalhafato com que apresentava
sambas, cantou a msica inteira sem dar um sorriso. Foi um impacto
inesquecvel, e, aquele, o momento mais importante de sua vida
artstica. Quando atingiu a nota mais aguda nos versos "Na boiada j fui
boi/ boiadeiro j fui rei/ no por mim nem por ningum/ que junto comigo
houvesse", o pblico prorrompeu em aplausos. "Disparada" se imps graas
a Jair Rodrigues. Para Tho, o final da primeira apresentao, aquele
segundo de silncio entre a ltima nota e os aplausos, foi o mais longo
da sua vida. Ele ainda no sabia qual seria a reao a uma msica to
diferente. Porm, depois daquela apresentao inicial, ele passou a
confiar na msica que Vandr previa que iria ganhar o Festival.
No dia seguinte, Tho, Airto, Heraldo e Vandr teriam de viajar com a
Rhodia. Tiveram que montar outro trio, com os violonistas Edgar Gianullo
e Ayres de Arruda e o percussionista Manini, que tocava no Arena, para
as reapresentaes e a final.
Enquanto a platia mais politizada torcia por "Disparada", na outra
ponta estavam os que s queriam saber de "A Banda".
Chico Buarque de Hollanda tinha gravado seu primeiro compacto - de um
lado "Pedro Pedreiro" e do outro "Sonho de um Carnaval", do I Festival
da Excelsior - e j fazia seus showzinhos, quando foi contratado pela TV
Record e teve trs msicas suas - "Pedro Pedreiro", "Ol Ol" e
"Madalena Foi Pr Mar" - gravadas por Nara Leo no LP Nara Pede
Passagem. Com as duas ltimas, ela procurava escapar, pelo vis do
lirismo, da quase obrigao de cantar apenas temas sociais, as chamadas
"msicas de protesto", com que ficara estigmatizada por sua atuao no
show Opinio.
Ser gravado por Nara era o passaporte para o Olimpo da msica popular
brasileira, e assim Chico passou a ser mais conhecido como compositor do
que como cantor. Costumava reunir-se com outros compositores num dos
botequins da Galeria Metrpole, o Sand Churra, e, certa noite, Gilberto
Gil, que Chico apelidara de "Todo Redondo", mostrou uma msica que tinha
feito para o Festival da TV Record: "O rancho do novo dia/ o cordo da
liberdade/ e o bloco da mocidade/ vo sair no carnaval...". Dizia que
iria ganhar o festival com aquela msica e, caoando de Chico, que ainda
no estava seguro se seria mesmo compositor, desafiava-o a tambm
inscrever uma. Animado com as msicas gravadas por Nara, alm de "Pedro
Pedreiro" com o Quarteto em Cy e ainda seu segundo compacto com "Ol
Ol" e "Meu Refro", ele comeou a acreditar que poderia ser mesmo
compositor, animando-se a fazer msicas com mais freqncia. Embora j
tivesse feito canes de forte conotao social em Morte e Vida
Severina, Chico tinha conversado com Nara sobre um certo fastio que
sentia em relao  msica de protesto, exatamente a moda de que ela
queria se livrar. Assim nasceu a idia de fazer uma msica mais ingnua,
que fugisse dessa rea.
"A Banda" foi composta por volta de maro ou abril de 1966, num violo
apelidado de Julieta, substituto do anterior, o espanhol El Cordobs,
roubado de seu carro na porta do Teatro Record. Chico resolveu
inscrev-la no Festival para ganhar da msica de Gilberto Gil e foi para
o Rio de Janeiro, onde passou trs meses em seu primeiro show para
valer, com Odete Lara e o MPB 4, na boate Arpege. A, contudo, no podia
cantar "A Banda", o que s fazia entre os amigos ntimos, como certa vez
num restaurante de Cocapacabana, sem reparar que numa mesa prxima
estava a cantora Linda Batista, que veio beij-lo depois. Ainda no Rio,
o cantor Mario Reis tambm o ouviu cant-la depois do show da boate
Arpege, e lhe pediu para grav-la, mas Chico tinha reservado a msica
para o Festival da Record, oferecendo-a a Nara Leo. Pediu a Geni
Marcondes para fazer um arranjo de bandinha de coreto e, assim, "A
Banda" foi apresentada por Nara na segunda eliminatria, depois tambm
por Chico na reapresentao de 1 de outubro e, na final, novamente pelos
dois.
Como o disco de Nara cantando "A Banda" tocava nas rdios, Chico
Buarque, um joo ningum no I Festival da Excelsior, comeava a ficar
conhecido e sua msica, a levar vantagem com a intensa divulgao nos
dez dias que antecederam o prlio musical, marcado para 10 de outubro.
Torcedor ou no de uma das duas, quem quer que fosse tinha que se
definir e defender a sua preferida. Aproximava-se o dia da final,
cercado da ansiedade que transformou a peleja num acontecimento nico na
histria da arte brasileira: "A Banda" versus "Disparada".
A expectativa era to grande que alguns cinemas e teatros chegaram a
suspender suas sesses acreditando que no haveria viva alma para
assisti-las naquela segunda-feira. Quem no conseguisse lugar no Teatro
Record, certamente estaria em casa torcendo diante da televiso.
Quando foi convidado para apresentar o Festival, Blota Jnior j sabia
de antemo que no poderia participar da finalssima, que coincidiria
com o perodo proibitivo de quarentena obrigatria aos radialistas com
candidatura poltica. Na noite de 10 de outubro, ele foi substitudo por
Randal Juliano, que, ao lado de Snia Ribeiro, teria a difcil misso de
proclamar o resultado pelo qual tanta gente aguardava roendo as unhas e
mordendo os lbios, tamanha era a aflio.
A disputa era to equilibrada que na imprensa circulou o boato da
possibilidade de um empate. "Caso haja empate, j se pensa numa soluo
para a entrega dos prmios", escreveu no dia da final o ento colunista
de TV da ltima Hora Walter Negro, que se tornaria depois conhecido
autor de novelas.
Na tarde da final, enquanto os cantores ensaiavam no Teatro Record,
realizou-se uma reunio entre os 12 membros do jri e Solano Ribeiro, na
qual se discutiu abertamente sobre as msicas que tinham mais chances de
vencer. Paulinho Machado de Carvalho no participou desse encontro,
preferindo assistir ao ensaio do Teatro, o que raramente fazia.  Atravs
de Raul, ficou sabendo do que foi discutido na reunio, e talvez a
tenha brotado inconscientemente a idia do empate, que todavia jamais
poderia ser cogitado pois no tinha cabimento propor empate antes do
resultado.
O ensaio, que durou das 15h30 s 19h30, era dominado pela alegria de
Jair Rodrigues, que plantava bananeira e fazia ginstica enquanto Maysa
ensaiava. Roberto Carlos ensaiou de culos escuros; Elis chegou s 6 da
tarde, sem pintura e tambm de culos. Na platia, Gil aplaudia
afirmando: "Perfeito,  isso mesmo que eu queria". Nara foi a que mais
ensaiou: cantou "A Banda" nove vezes e "O Homem", trs.
As opinies sobre o vencedor dividiam at mesmo os funcionrios do
Teatro Record, que chegaram a fazer um bolo. A imprensa estava dividida,
a opinio pblica estava dividida, os participantes estavam divididos.
Quem tinha seu ingresso para a grande final daquela noite era um
privilegiado, podia assistir e torcer abertamente. Alguns vieram com
cartazes que seriam levantados quando as msicas fossem cantadas. Na
platia lotada, as toaletes das senhoras e os palazzo-pijama das moas
da sociedade paulista faziam contraponto s calas Lee e bluses dos
universitrios lado a lado com o governador Carvalho Pinto, tambm
presente.
A ordem de apresentao era decidida por sorteio realizado a cada msica
por uma pessoa da platia. A primeira sorteada, anunciada por Snia
Ribeiro, era "Disparada". Jair cantou com um blazer vermelho e a mesma
seriedade das vezes anteriores, acompanhado pelo Trio Maray. A
competncia de Aires  viola, Edgard ao violo e Manini com a aguardada
queixada de burro permitiu passar quase despercebido que eram msicos
substitutos. Eles saram do palco sob os gritos entusiasmados de "J
ganhou!". O Trio Novo (Tho, Airto e Heraldo) estava com Vandr em
Natal.
A segunda apresentada foi "Cano de No Cantar", com o MPB 4, vindo a
seguir Elza Soares com "De Amor Ou Paz", e Jair novamente em "Cano
Para Maria", tendo que ouvir pedidos de "A Banda" quando terminou. Leny
Eversong cantou "L Vem O Bloco", mas a platia insistia querendo ouvir
"A Banda". A estudante que se ofereceu em seguida para o sorteio
perguntou a Snia: "Cad a do Chico?". Quando o envelope foi aberto, nem
ela acreditou: era a papeleta de "A Banda". Danuza Leo viera do Rio
para ver a irm, que foi considerada a mais elegante do Festival. Nara
usava uma blusa de seda brilhante com gola rul, saia de lam prateada e
sapatos baixos tambm prateados. Chico entrou antes, sorridente, de
smoking, foi recebido com flores de suas colegas da Faculdade de
Arquitetura e, nem bem comeou a cantar, foi acompanhado por um grande
coro dos que torciam e sabiam letra e msica de cor: "Pra ver a banda
passar/ cantando coisas de amor...". No auditrio, pulava-se como se
comemorasse um gol. Maysa  que pegou um rabo-de-foguete para cantar
"Amor, Paz" aps uma introduo de violo solo. As vaias cresceram
quando Elis entrou para defender "Ensaio Geral". Ela abaixou a cabea,
levantou-a encarando quem vaiava, apanhou uma flor e atirou-lhes,
revertendo a situao e entrando imediatamente em sintonia com os que
ansiavam por versos inflamados, que pudessem ser interpretados como de
contedo poltico, no caso, "T na hora vamos l/ Carnaval  pra valer/
nossa turma  da verdade/ e a verdade vai vencer". Em seguida, Elis foi
aplaudida novamente na brilhante interpretao de "Jogo de Roda".
Finalmente, cantaram Roberto Carlos, mais inseguro que o habitual, Maria
Odete com sua postura de Joana D"Arc em "Um Dia" e Nara na mais
criticada das 12 finalistas, "O Homem".
Randal Juliano anunciou que, devido s dvidas, algumas msicas seriam
reapresentadas, aumentando a tenso do pblico que no mudava sua
preferncia por "A Banda" ou por "Disparada". Era preciso dar tempo para
que o corpo de jurados, que durante a apresentao estivera postado na
primeira fila do balco, pudesse decidir na sala do prdio ao lado, que
se comunicava com o Teatro. Na reunio, foi feita uma primeira
classificao. Alguns jurados sentiam que "Disparada" era a melhor
msica mas votaram em "A Banda". O que se percebeu  que havia uma
absoluta diviso do jri. Os votos foram contados. "A Banda" tinha sete
votos, "Disparada" tinha cinco. Seria essa a deciso final. Roberto
Freire entregou o resultado a Paulinho Machado de Carvalho do lado de
fora e ouviu:
- Roberto, houve um impasse terrvel. O Chico se nega a receber o
prmio.
- Mas por qu?
- Ele se nega. Disse que se for votada "A Banda" ele devolve o prmio em
pblico.
Ambos entraram na sala dos jurados. O que teria acontecido?
Enquanto o jri estava decidindo, Chico Buarque, j desconfiado de que
iria ganhar, ouviu algum afirmar: "Voc ganhou". Parecia uma grande
notcia, mas Chico foi para perto de Paulinho Carvalho e disse:
- Olha aqui, no deixa eu ganhar de "Disparada". Eu no posso levar esse
prmio sozinho.
- Como? O jri  que decide.
- O jri pode decidir o que quiser. Eu no quero levar esse prmio
sozinho. Se "A Banda" for a primeira, eu devolvo o prmio em pblico.
Era uma deciso irrevogvel. Paulinho viu que era srio, subiu correndo
ao terceiro andar do predinho onde o jri estava reunido e, quando
entrou na sala, disse:
- Tenho uma novidade pra vocs. O Chico acaba de me comunicar que de
jeito nenhum leva esse prmio sozinho.
A surpresa gerou um tremendo alvoroo. Os jurados j tinham dado suas
notas, havia uma deciso j entregue. Paulinho ponderou que a platia
estava dividida e as duas msicas estavam to perto, que o melhor era
mesmo o empate, pois qualquer um que perdesse seria um desastre para a
empresa: metade ia achar maravilhoso e a outra metade ia achar pssimo.
O melhor seria arrumar o empate: o objetivo do festival era fazer com
que as msicas crescessem e virassem sucesso. Finalmente, decidiu-se
ento pelo empate e pela diviso do prmio entre os compositores das
duas msicas.
Quando todos j haviam praticamente aceitado a deciso que no estava no
regulamento, Mrio Lago fez uma exigncia: concordaria com o empate
desde que a msica de Gilberto Gil, que no estava classificada, fosse
para quinto lugar. "Ensaio Geral", cantada por Elis Regina, tinha um
forte sentido poltico. Os outros concordaram e a msica passou para
quinto.
Paulinho desceu e props a Chico dividir o prmio. Chico topou. Nenhum
compositor soube desse acerto naquela hora. A todos eles foi dito que
houve um empate de seis a seis.
Chico pediu que pelo amor de Deus no se contasse como fora o final da
apurao: tinha conscincia de que "Disparada" era melhor.
Os vencedores seriam anunciados por Randal Juliano e Snia Ribeiro.
Antes da proclamao, Jair ouvia nos corredores os comentrios: "Nego,
voc vai ganhar com "Disparada"". Mas, quando foi anunciado o terceiro
lugar para a outra msica que ele cantara, "Cano para Maria", deduziu
que no teria mais chance alguma. Recebeu o prmio, agradeceu, saiu e j
se preparava para ir embora: "Vou tomar uma no bar e vou pra casa".
Algum da produo segurou Jair pelo brao e disse: "No, espera a,
parece que tem um problema,  melhor voc ficar". Jair desistiu de sair
e esperou.
Quando Randal anunciou o resultado do empate, uma parte da platia
gritava "Jair! Jair!", enquanto outra gritava "Chico! Chico!", mostrando
os cartazes com os nomes das duas msicas. Houve aplausos, houve vaias,
mas quando Chico, Nara e Jair vieram juntos ao palco, foi um delrio sob
chuva de papel picado, ptalas de flores dos balces e acenos de lenos
brancos. O pblico eufrico fazia um carnaval fora de poca, pedindo bis
para as duas vencedoras.
Jair representava os autores, que no estavam em So Paulo e s souberam
da vitria dois dias depois pelo telegrama enviado por Paulinho. Chico
Buarque entrou com um boneco nas mos. Era o Mug, o talism de sorte
criado por Horcio Berlinck, uma jogada de marketing que no aconteceu a
contento.
Entre os presentes, um dos nicos a se declarar insatisfeito era Caetano
Veloso, que dizia abertamente para quem quisesse ouvir: " ridculo que
um festival termine com a msica de Gil em quinto lugar! Foi a coisa
mais importante feita at hoje na arte popular brasileira".
Aps o Festival, a polcia foi chamada para desimpedir o trnsito em
frente ao Teatro Record, pois, apesar da noite fria e chuvosa, havia um
verdadeiro carnaval de comemorao da vitria.
Chico comeou a festejar no bar ao lado do Teatro Record. Depois, seguiu
para a casa dos pais na rua Buri, bairro do Pacaembu, com seus amigos
todos cantando e bebendo at a madrugada. Roberto Carlos saiu do teatro
dizendo que tinha um compromisso muito importante. Nara foi  casa de
Chico com sua roupa de mulher medieval, saindo mais tarde acompanhada de
Flvio Rangel, diretor de Liberdade Liberdade. Jair comemorou no bar
Jogral, onde houve boca livre pois Luiz Carlos Paran, o proprietrio,
ganharia 10 milhes com seu segundo lugar, "De Amor ou Paz".
O jurado Roberto Freire foi jantar no Gigetto e, vendo Caetano Veloso
numa das mesas, aproximou-se para lhe dar os parabns pelo prmio de
melhor letra. Eis o que ouviu: "No precisa me dar parabns. S quero
parabns quando ganhar o primeiro lugar".
O disco com a gravao de "A Banda" por Nara Leo, da Philips, j estava
nas ruas; era um compacto simples com "Ladainha" (Gilberto Gil e
Capinan) no lado B. Vinte e quatro horas depois do Festival haviam sido
vendidas 10 mil cpias. Em outubro, trs gravaes disputavam a
preferncia dos fs de "A Banda": a de Nara, que atingiu 100 mil cpias
no final do ms, a de Chico pela RGE e a do Quarteto em Cy. Logo depois,
saiu uma enxurrada de "Bandas", com corais e bandinhas, com Mrio Zan, o
palhao Carequinha e Wilson Simonal. Ainda foi gravada por Milton Banana
Trio, Agostinho dos Santos, Srgio Mendes, Lady Zu. No exterior, por
Herb Alpert, Paul Mauriat e at na trilha da propaganda dos cigarros
Peter Stuyvesand "A Banda" esteve presente. A mais cativante, porm,
aconteceria bem depois, em 1971: a do veterano Mario Reis, apaixonado
pela msica antes mesmo do Festival.
"Disparada" foi gravada por Jair Rodrigues pela Philips, mas o disco
saiu atrasado devido a uma pendncia com a RCA, que, tendo contrato com
Vandr, queria pular na frente. Geraldo cederia os direitos desde que
Jair gravasse tambm outra msica sua, por isso o compacto de
"Disparada" teve "Fica Mal Com Deus" no lado B e no "Cano Para
Maria", como seria natural. A gravao de Vandr na RCA ficou pronta em
outubro. "Disparada" foi gravada tambm por Paulinho Nogueira, Adauto
Santos, Srgio Reis, Tnico e Tinoco e at Ornella Vanoni. "Cano Para
Maria" foi gravada por Paulinho da Viola com o Regional do Canhoto, num
compacto com "Momento de Fraqueza" no lado B.
Dois LPs com msicas de festival foram lanados. O Festival dos
Festivais era um disco da Philips que reunia as principais canes do da
Record e do FIC, j que ambos aconteceram colados um ao outro. A TV
Record tratou de aproveitar o momento, instituindo um novo selo,
Artistas Unidos (AU), sob a direo de quem mais entendia de discos na
emissora, Roberto Corte Real. Em combinao com a Rozenblit de Recife,
foi lanado o primeiro disco da gravadora (que no duraria muito tempo),
o de nmero 70.000, intitulado Viva o Festival da Msica Popular, com
uma capa de Minoru em vermelho-escuro e azul, que comeava com o
tema-prefixo do Festival pela orquestra e coral e continha gravaes ao
vivo misturadas com outras de estdio, mas montadas como se tudo tivesse
sido colhido em pleno festival, numa produo grosseira para os dias
atuais. Da mesma maneira que a Philips no tinha todos os intrpretes
originais, a AU tambm teve que usar alguns substitutos: em vez de Nara
e Roberto Carlos, um coral infantil, em vez do MPB 4, Hebe Camargo.
Neste LP, a platia canta e bate palmas entusiasticamente com Chico
Buarque, Elis d tudo na msica de Gil, ao passo que as manifestaes do
pblico em "Disparada" com Vandr so montadas. Desejouse o melhor mas
fez-se o que se podia. No deixa de ser um documento vivo do primeiro
grande festival de cunho nacional.
No final de outubro, o disc jockey carioca Celso Teixeira levantou pela
Rdio Mundial uma questo menor, tpica de quem desconhece msica: a
segunda parte de "Disparada" seria plgio de uma composio do
violonista Dilermando Reis, "Oi de Rosinha". Dilermando, que havia
feito a msica em 1958 depois de ouvir uns violeiros em Montes Claros,
norte de Minas Gerais, admitiu ser at possvel mas afirmou que nunca
entraria na justia contra Tho de Barros. Tho e Vandr negaram
veementemente que conhecessem tal composio e vrias personalidades da
msica, como Almirante e Maria Bethnia, negaram a existncia de plgio.
Com autoridade.
No sbado, dia 29 de outubro, foram entregues os prmios do Festival
numa festa de gala. A Record mandou confeccionar um outro trofu para
ser entregue aos autores. Gil cantou "Ensaio Geral" depois de Elis,
Caetano cantou "Um Dia", Vandr cantou "Disparada" antes de Jair. Chico
embolsou metade do primeiro prmio, que acabou sendo de 30 milhes,
divididos entre os trs compositores, 15 milhes para ele e 15 milhes
para a dupla Tho e Vandr. Com a sua parte, Tho comprou um carro Simca
Chambord. Jair, um dos grandes beneficiados, ganhou a Viola de Prata
como melhor cantor.
As comemoraes se estendiam a setores jamais imaginados: o pintor
Clvis Graciano, inspirado na msica de Chico, fez uma srie de quadros,
inclusive um painel intitulado "A Banda"; e Carlos Drummond de Andrade
dedicou um poema a Chico Buarque.
Meses mais tarde, Paulinho Machado de Carvalho convidou Chico e Nara
para comandarem um programa produzido pela Equipe A, Para Ver a Banda
Passar. O programa no emplacou pois, embora graciosos, os dois no
funcionavam como ncoras, chegando a ser apelidados por Manoel Carlos de
"os desanimadores de auditrio". Tempos depois, Nara se apavorou com a
onda de shows, o assdio da imprensa e do pblico. No queria nada disso
em sua carreira. Resolveu passar uns tempos fora e foi morar na Frana.
Essa era uma poca em que os cantores ainda lutavam para defender uma
msica em festival e os autores no demonstravam abertamente seu desejo
de ocuparem o espao onde o foco de luz fosse mais intenso. Para
Paulinho de Carvalho, o festival era um espetculo que produzia um
confronto entre as vrias correntes. Independentemente do aspecto
musical, ele via aqueles cantores como personagens do espetculo jogando
uns contra os outros, simbolizando posies definidas onde cada um
representava um papel: o do bandido, do mocinho, do pai da moa, do
forto, do coitadinho. A disputa entre intrpretes deu uma grande fora
ao segundo Festival como ainda daria ao terceiro. Esses fatores
envolviam o espectador como num espetculo. Era o que a Record pretendia
fazer.
De outro lado, alguns compositores sentiram que, com a penetrao na TV,
o Festival sedimentara a msica brasileira popularmente, criando-se a
idia de usar a msica como instrumento para uma revoluo socialista.
A atitude de Chico Buarque, da qual ele nunca se vangloriou, nem sequer
comentou nas centenas de entrevistas e depoimentos que concedeu ao longo
da vida - inclusive para este livro -, revela, em primeiro lugar, a
nobreza de seu carter. Em segundo, o seu reconhecimento da qualidade de
"Disparada", o que o competente corpo de jurados no demonstrou
claramente. Ou melhor (ou pior), admitiu mas no expressou, pois houve
jurado que, mesmo admirando mais "Disparada", votou em "A Banda". E por
isso "A Banda" venceu na votao.
Na sua estrutura harmnica A BandA, dotada de uma melodia simples e
intuitiva, seus versos descrevem a fugaz mas animada passagem de uma
banda pela cidadezinha, um momento feliz dentro da situao que
prevalece, da gente sofrida que se despede da dor por alguns momentos.
Era a favorita do pblico por ser uma marcha fcil de cantar, festiva e
contagiante, em que se batem palmas ingenuamente acompanhando o ritmo
binrio, numa conjuntura gregria indiscutvel. O jovial par Chico e
Nara formava um casal dos sonhos, a bandinha ambientava o cenrio e
assim "A Banda" foi consagrada. Francisco Buarque de Hollanda entrava
para a msica brasileira como o mais querido compositor do sculo,
fecundo, inteligentemente simples, popularmente culto, ilimitadamente
criativo, e, pouco tempo depois, tremendamente sedutor ao desvendar a
alma feminina.
Contudo, "A Banda" no era uma obra-prima. "Disparada"  uma obra-prima
no trabalho de Vandr, de Tho, da msica sertaneja, assim como "Luar do
Serto" e poucas mais. Sua construo  irretocvel na letra e na
msica. Aps uma introduo instrumental vigorosa com viola e violo,
que se incorpora  cano toda vez que repetida, a melodia  exposta em
andamento lento no esquema A-A-B, at o primeiro retorno da introduo.
Nesse momento, estala a queixada de burro anunciando a nova exposio a
ritmo, num andamento prximo ao de um rasqueado. O esquema  alterado, o
motivo A  repetido quatro vezes antes de B, seguido novamente do breve
instrumental antes de partir para o final, arrematado com o
Ia-la-i-la-ra-la-l... Ao longo dessa construo musical  arrebatadora,
a letra se abre como uma cortina para uma narrativa, que at pode no
agradar, concentrada no "boi" (o boiadeiro que veste a pele do boi lder
depois que este morre, induzindo a boiada a segui-lo), que por
necessidade foi boiadeiro e rei. A seqncia se faz num verso inspirado,
em que v o mundo rodar nas patas de seu cavalo. A o grande achado, a
transio de gado - que se marca, tange, ferra, engorda e mata - para
gente. Com gente  diferente. O boiadeiro que j foi boi, rei,
lugar-tenente de gado e de gente, agora  cavaleiro de um reino que no
tem rei. Uma cano pica que detonou os ouvidos brasileiros mais
sensveis para a desprestigiada msica sertaneja, com a fora de um
compositor visionrio que, metaforicamente, induzia o cdigo
revolucionrio que a classe estudantil queria ouvir, a mensagem pela
qual aguardava.
Com essas duas msicas, a buclica "A Banda" e a telrica "Disparada", o
II Festival da TV Record mostrou para os brasileiros de todas as classes
sociais a grandeza da sua msica popular, um bem dotado do mais alto
valor artstico do qual tinham por que se orgulhar.
Captulo 5
"SAVEIROS"
(I FIC/TV RIO, 1966)
Numa de suas vindas ao Rio de Janeiro (pois tem domiclio na cidade do
Mxico, alm de residncias em Nova York e Londres), Augusto Marzago,
de shorts e sem camisa, enfrentava um calor insuportvel em seu amplo
apartamento, com vista para o mar e a espetacular piscina do Copacabana
Palace, quando o telefone tocou. Dessa vez era o presidente do Brasil.
Um telefonema do presidente  motivo para escovar o ego de qualquer
indivduo fora da esfera poltica. Para Marzago,  fato corriqueiro.
Fernando Henrique Cardoso desejava consult-lo sobre o que o afligia: o
caso entre a Embraer e a Bombardier ameaava transformar-se num problema
capaz de afetar acordos entre os dois pases, Brasil e Canad. Com a
lucidez de seu raciocnio rpido, o cauteloso Augusto Marzago foi
tecendo consideraes sobre um caminho que poderia ser seguido pelo
presidente. Mais uma vez, como j acontecera com Jnio Quadros, Jos
Sarney e Itamar Franco, ele era solicitado a prestar sua sbia
assessoria a uma deciso governamental.
Essa  uma das facetas do "Homem do FIC", como ficou conhecido desde
1966 quando criou o Festival Internacional da Cano, que teve sete
edies na cidade do Rio de Janeiro, de 1966 a 1972, seis das quais
dirigidas por ele. "Ter aberto essa clareira privilegiada ao talento, em
situao particularmente adversa, constituiu, por si s, uma realizao
pessoal de projeo suficiente para abrir a Augusto Marzago uma pgina
na nossa histria cultural", escreveu Fernando Henrique Cardoso no
prefcio ao livro Memorial do presente. Marzago, o discreto e ultra bem
informado personagem dos bastidores da vida poltica brasileira durante
anos,  um mestre na arte de conversar e, de quebra, um emrito contador
de casos e anedotas.
Marzago nasceu em 1929, na cidade de Barretes, na hinterlndia
paulista, conhecida pela criao de gado zebu e, mais recentemente,
pelas Festas do Peo Boiadeiro. O ex-seminarista, que vendia doces
quando menino, veio para So Paulo aos 18 anos, empregando-se como caixa
no bar Olimpicus, tarefa insignificante para o grau de cultura que j
vinha acumulando desde o seminrio. Pouco depois, como reprter policial
do extinto dirio O Tempo, conheceu Jnio Quadros, que o convidou para
ocupar o cargo de secretrio particular, nascendo da uma slida amizade
que lhe propiciaria a tarefa de organizar a vitoriosa campanha para
presidente, alm de um respeito duradouro, abreviado nesta frase:
"Augusto  to habilidoso e surpreendente que, se ele um dia encontrar a
morte, vai olh-la dos ps  cabea e dizer: "Nunca pensei que a senhora
fosse to magrinha e elegante".".
Um ms antes da renncia de Jnio, ocorrida em agosto de 1961, Marzago
tinha solicitado sua demisso, pedindo para ser transferido para o IBC
como responsvel pela promoo do caf brasileiro na Itlia. De seu
posto no escritrio do Instituto Brasileiro do Caf em Milo, montou um
centro de degustao na rea do Festival de San Remo, aproveitando para
assistir anualmente ao desfile das novas canes italianas e fazer
amizade com empresrios artsticos de todo o mundo. Desde jovem,
Marzago tinha uma ligao umbilical com a msica.
Quando voltou para o Brasil, em setembro de 1965, foi solicitado por
Jnio Quadros para dar uma mozinha na campanha de Negro de Lima para
governador do estado da Guanabara, o qual, depois de eleito e querendo
recompensar seu esforo, perguntou-lhe o que desejava. Marzago
respondeu simplesmente que gostaria de fazer um festival de msica
internacional, justificando que poderia ser benfico  juventude
brasileira, que atravessava, no seu entender, uma profunda crise de
esperana com o regime militar. Surpreso, Negro de Lima solicitou-lhe
no comentar com ningum tal reflexo, mas pediu um oramento. Para
todos os efeitos, o Rio de Janeiro  que estava carente de atraes
tursticas. O oramento seria aprovado.
A novidade do FIC foi reunir dois festivais num s. A fase nacional, com
eliminatrias e uma final, j era um festival completo. E a fase
internacional, com canes interpretadas por artistas convidados
concorrendo com a vencedora brasileira, era praticamente um segundo
certame.
Com o apoio do secretrio de Turismo, ministro Joo Paulo do Rio Branco,
Marzago, que j estava na Secretaria desde novembro de 1965, arregaou
as mangas e saiu atrs de uma emissora de TV para a indispensvel
cobertura. Levou o projeto inicialmente para a TV Globo, mas como Walter
Clark no demonstrasse grande interesse, foi bater s portas da TV Rio,
onde foi bem recebido pelo diretor musical Erlon Chaves e pelo dr.
Delamare, o diretor geral. A resposta foi positiva e a TV Rio decidiu
apoiar o FIC.
Aquele poderia ser um grande lance para o canal 13, que acumulava baixos
ndices no Ibope. E, de fato, ningum na emissora se arrependeu da
deciso: o FIC lhe daria 45 pontos de audincia na primeira eliminatria
e 62 na final nacional, em 24 de outubro. A Globo caiu na real e mudou
de idia, tentando ento participar da fase internacional, marcada para
se iniciar no dia 27. S que a essa altura o satisfeitssimo dr.
Delamare no concordava de maneira nenhuma em repartir a transmisso.
Num tour de force, sob grande presso do prprio governador Negro de
Lima, Marzago foi se reunir novamente com Walter Clark (Boni s
entraria na Globo em maro de 1967) e, depois de ouvir a proposta de
interesse, argumentou:
- Se a Globo tivesse o Festival nas mos e a TV Rio quisesse transmitir
a final, voc estaria de acordo?
Walter respondeu que agiria como o dr. Delamare, isto , resistiria.
- Mas, por outro lado - acrescentou com sua habilidade de negociador -,
a entrada da Globo pode dar uma cobertura ainda maior ao Festival.
Marzago retrucou:
- Com os 62 pontos alcanados na final nacional, o que a Globo poderia
acrescentar? Talvez uns 5%. Nada feito.
A reunio terminou e a TV Globo ficou fora do I FIC. A transmisso ao
vivo da fase internacional, no dia 30 de outubro de 1966, atingiria 72%
na cidade. A TV Rio lavou a gua. No ano seguinte, a TV Globo
transmitiria o II FIC.
O percurso para a concretizao do I FIC foi um festival de complicaes
e dificuldades: ningum acreditava na idia maluca de trazer uma
montanha de artistas famosos para a fase internacional. A fim de
garantir a presena de vrios deles sem cobrar cach, Augusto Marzago
foi costurando contatos durante meses, atravs de suas amizades no
exterior, usando como isca o sonho de conhecer a bossa nova no Rio de
Janeiro.
Inicialmente, pensou-se no Teatro Municipal como palco do Festival;
melhor seria nem ter tentado. A resposta da direo foi taxativa:
"Festival de msica popular? Nem pensar". A segunda opo era o Teatro
Carlos Gomes, na praa Tiradentes, que estava ocupado com um espetculo
cuja temporada no poderia ser interrompida. Foi quando o diretor
artstico do Festival, o ponderado Paulo Tapajs, grande seresteiro e
ex-diretor da Rdio Nacional, saiu-se com esta surpreendente proposta de
doido:
- Por que no fazemos o Festival no Maracanzinho?
Marzago quase caiu de costas. O Ginsio de Esportes Gilberto Cardoso,
inaugurado em setembro de 1954, fora palco de torneios esportivos, como
o campeonato mundial de basquete, e at de concurso de miss, mas nunca
de um espetculo musical. Com aquela abboda que deixava qualquer um
zonzo, sem entender patavina do que diziam os locutores nas competies
esportivas? Simplesmente, no tinha condies tcnicas para aquilo.
Festival da Cano no Maracanzinho era uma demncia total.
Marzago resolveu visitar o ginsio. Reuniu uma equipe da TV Rio, um
cenografista, tcnicos de som e o maestro Erlon Chaves para vistoriar
tudo. Bateram palmas, gritaram de vrios pontos e, como era esperado,
ningum compreendia uma s palavra. O som ecoava para l e para c como
uma bola de pingue-pongue. Foram feitas experincias com altofalantes,
testes de reverberao acstica, e o resultado foi desalentador. A
concluso dos tcnicos  que era de assustar. Para se ter uma absoro
razovel do tremendo eco que rebatia de baixo para cima e rodopiava nas
paredes laterais, s havia uma soluo: o Maracanzinho teria de ficar
completamente lotado e o pblico absorveria o som. Capacidade do
ginsio: 13.163 espectadores, sem as cadeiras de pista. Detalhe:
obviamente, no se poderia lotar o ginsio para um teste de som,
agradecer e mandar todo mundo para casa. Assim, como nas corridas de
cavalos, quando no h mais jeito e o confirmador  retirado, "haveria
uma s partida e a todo risco".
Para garantir a lotao completa do Maracanzinho na primeira
eliminatria, parte dos 15 mil ingressos de cada espetculo da fase
nacional teria de ser oferecida gratuitamente e s depois, na fase
internacional, seria possvel pensar em venda para valer. As vendas
seriam feitas em postos da ADEG, na Estao das Barcas, no Mercadinho
Azul ou atravs da Secretaria de Turismo, da TV Rio e de agncias de
viagem. Da para a frente, era rezar para que o pblico comparecesse. As
arquibancadas custavam 1,5 mil cruzeiros e as cadeiras de pista prximas
do palco, 5 mil.
A solenidade de lanamento do FIC foi realizada no salo nobre do
Palcio Guanabara em 31 de agosto de 1966, quando o secretrio de
Turismo  anunciou as 36 selecionadas entre 1956 inscritas. A comisso
que escolhera as canes fora presidida pelo professor Marques Rebelo e
formada pelos admirados maestros Guerra Peixe e Lindolpho Gaya, pela
compositora Geny Marcondes, pianista de Taubat que estudou com
Magdalena Tagliaferro e foi casada com o maestro Koellreuter, e pelo
compositor Nelson de Lins e Barros, que morreria de enfarte poucos dias
depois da final, em 3 de novembro de 1966, deixando um vcuo na msica
popular brasileira.
Entre as 36 concorrentes, havia nada menos que trs msicas de Capiba,
apontado por Guerra Peixe como o maior compositor do Nordeste; uma de
Geraldo Vandr e Tuca ("O Cavaleiro"); outra dos baianos Alcivando Luz e
Carlos Coqueijo (" Preciso Perdoar"); e tambm de Lus Bonf e Maria
Helena Toledo ("Dia das Rosas"), Gilberto Gil e Caetano Veloso ("Beira
Mar"), Gilberto Gil e Torquato Neto ("Minha Senhora"), Billy Blanco ("Se
a Gente Grande Soubesse"), Edu Lobo e Vincius de Moraes ("Canto
Triste"), Baden e Vincius ("Chora Corao") e Dori Caymmi e Nelson
Motta ("Saveiros").
Os intrpretes foram anunciados em 22 de setembro: Maysa, Elis, MPB 4,
Agnaldo Rayol, Slvio Csar, Dris Monteiro, Maria Bethnia, entre
outros. As 36 msicas foram divididas em dois grupos de 18. Naquela
altura, o II Festival da Record estava na boca dos jornalistas, do
pblico carioca e o vitorioso Chico Buarque, com a corda toda. O
compacto de "A Banda" vendera 15 mil cpias em um s dia, uma loja
chegou a garantir que vendia, em mdia, 50 discos por hora. Da a razo
de Chico Buarque ter sido escolhido para presidente do jri
internacional, sendo ainda o artista brasileiro mais procurado pelos
estrangeiros que chegavam ao Rio. O outro intrprete vencedor da Record
era Jair Rodrigues, tambm requisitado para defender uma msica no FIC.
Porm, na vspera do Festival, a boate Osis de So Paulo, onde ele
estava em temporada, comunicou que s o liberaria em troca de um
pagamento de 1,89 milho de cruzeiros. Por isso, o prprio compositor,
Luiz Carlos S, foi escalado para cantar sua msica, "Inai".
No final de setembro, aps a divulgao das concorrentes e intrpretes,
quando os artistas estrangeiros de mais de 20 pases j estavam
confirmados, o secretrio de Finanas Mrcio Alves detectou uma violenta
queda na receita do estado e comunicou ao governador que o Festival
poderia gorar. De incio, cogitou-se transferir a fase internacional
para o ano seguinte, o que teria pssima repercusso, causando imenso
descrdito interna e externamente. Alegou-se que o estado no tinha
condies de gastar milhes, que a presena de personalidades do
exterior poderia dar margem a manifestaes de hostilidade ao Governo
Federal e que o Festival tinha carter poltico. Enfim, os 300 milhes
de cruzeiros do oramento aprovado tiveram que ser reduzidos a menos da
metade. No af de reduzir despesas, a equipe do Festival teve de fazer
ginstica para diminuir as dirias dos hotis, conseguir um desconto de
50% nas passagens da Varig, deixar o custo da orquestra por conta da TV
Rio em troca da transmisso, pedir um desconto nos trofus. O prmio do
vencedor caiu de 20 milhes para 11 milhes de cruzeiros, conseguiu-se
um patrocnio da Souza Cruz e o trofu Galo de Ouro para o vencedor -
com crista de rubis, cauda de turmalinas e dois brilhantes nos olhos -
teve um desconto de 50% da H. Stern.
Ainda assim, foi preciso que o secretrio de Turismo Joo Paulo do Rio
Branco (oficial de gabinete: Carlos de Laet) convencesse o governador de
que haveria retorno com a venda de ingressos da parte internacional,
pois a nacional daria um imenso prejuzo. Negro de Lima foi dobrado com
a argumentao e no dia 6 de outubro de 1966 bateu o martelo: o Festival
comearia no dia 20.
Quatro dias antes do incio, sortearam-se os 18 concorrentes que
participariam da primeira eliminatria, ficando os demais
automaticamente escalados para o dia 23 de outubro.
O cenarista Fernando Pamplona criou trs plataformas suspensas em forma
de disco, com piso imitando mrmore: uma para os apresentadores, outra
para os cantores, a dois metros do cho e um pouco acima da orquestra, e
a terceira para o coral.
Os ensaios foram iniciados na quinta-feira, dois dias antes, no
auditrio da TV Rio, com a imprensa circulando entre msicos e cantores
 cata de informaes. Alguns compositores estavam presentes, procurando
antecipar quais seriam seus mais fortes concorrentes. Tanto Dori como
Nelson Motta, os autores de "Saveiros", perceberam nesse primeiro ensaio
que o preo seria com a msica defendida por Elis Regina. De sapatos sem
salto e culos, ela ensaiou, meio invocada e sem dar muita ateno aos
que circulavam  sua volta, o "Canto Triste" de Edu e Vinicius,
acompanhada do mesmo trio de "Arrasto", na belssima orquestrao do
maestro Guerra Peixe. Bastaram alguns minutos para ficar satisfeita com
o ensaio. Dois cantores que viriam de So Paulo no apareceram nessa
tarde: Claudete Soares, que defenderia "Cantar e Chorar" (Vera Brasil),
e Wilson Simonal, que estava escalado para cantar "Maria". Os autores,
Vincius e Francis Hime, no escondiam sua preocupao com as firulas
com que o cantor poderia incrementar a interpretao, tanto que, quando
ele chegou ao Rio para o segundo ensaio, recebeu recomendaes expressas
de no inventar absolutamente nada, apenas cantar a msica como fora
feita. Vincius tinha outro motivo para se preocupar: ainda no
encontrara um intrprete para "Chora Corao", que afinal seria
Taiguara. Nesse ensaio, Simonal cruzou com Dori e deu seu prognstico:
"Voc j ganhou. Sua msica  linda". Cantores e compositores ficaram
ainda mais nervosos.
Se o ambiente j estava tenso durante os ensaios na TV Rio, ficou ainda
pior no dia da eliminatria no Maracanzinho: nessa tarde, uma parte do
cenrio ruiu. Foi um corre-corre alucinado para consertar tudo antes do
incio do espetculo, marcado para as 8 da noite
Finalmente, com as cmeras da TV Rio a postos, sob a direo geral de
Carlos Manga na gravao, que depois seria distribuda no Brasil pela TV
Record e suas afiliadas, e com a presena do governador Negro de Lima,
teve incio o I FIC. A orquestra atacou um pot-pourri de vrias msicas
sobre o Rio de Janeiro e, logo em seguida, a "Cano do Festival",
composta por Ronaldo Bscoli e Erlon Chaves, cantada por um coro. Os
apresentadores Murilo Neri e Adalgisa Colombo, a ex-Miss Brasil,
convidaram os 23 componentes do numeroso jri a ocuparem seus assentos:
as cantoras Elizeth Cardoso e Eliana Pittman, os crticos Juvenal
Portela (do JB), Joo Maurcio Nabuco, Slvio Tlio Cardoso (do Globo),
limar Carvalho (substituindo o colunista Zzimo Barroso do Amaral) e
Mauro Ivan (do Correio da Manh), os jornalistas Sandro Moreira, Justino
Martins (de O Cruzeiro e vice-presidente do jri), Lus Fernando Guedes
(da Cash Box), Hugo Dupin, o "Mister Eco" (do Dirio de Notcias) e
Arnaldo Niskier, a colunista Gilka Serzedelo Machado, os compositores
Hermnio Bello de Carvalho, Roberto Menescal e Chico Buarque de Hollanda
(o nico aplaudido), o radialista Almirante, os musiclogos Edgard de
Alencar, Mozart de Arajo (presidente) e Alosio de Alencar Pinto, o
diretor do MIS Ricardo Cravo Albin, o apresentador Flvio Cavalcanti e o
escritor e cronista Henrique Pongetti, todos eles do Rio de Janeiro.
Marzago justificou que o jri era numeroso a fim de representar
correntes musicais variadas, o que evitaria uma vencedora sem sabor
popular. Por sugesto de Juvenal Portela, a deciso das 14 finalistas
entre as 36 msicas seria tomada somente aps as duas eliminatrias, no
domingo  noite, evitando-se dessa maneira a obrigatoriedade de escolher
sete indicaes em cada uma delas.
Os jurados sentavam-se diante de uma mesa em semicrculo, entre a
plataforma dos intrpretes e a platia, de tal maneira que pudessem
assistir s apresentaes "de camarote" e serem vistos ao menos
parcialmente pelo pblico. Para entrar no recinto, tinham que atravessar
um tnel, e, quando se viram diante daquela agitadssima multido,
calculada em 8 mil pessoas, tiveram que ouvir gritos de "Bicha! Bicha!",
contra alguns deles, uma novidade aterradora. Menescal virou-se para
Chico e disse: "Qualquer coisa voc me empurra para debaixo dessa mesa,
porque estou apavorado com essa torcida". A recepo para os jurados era
uma prvia do que poderia vir a acontecer aos intrpretes e compositores
em festivais da em diante.
Com arranjo de Guerra Peixe, a orquestra atacou a primeira msica,
"Guerra e Paz", de uma autora pouco conhecida, Vilma Camargo, com uma
intrprete ainda mais desconhecida, Penha Maria. Nenhum entusiasmo no
pblico ou entre os jurados. A terceira cano  que iria despertar
ambos: foi cantada por Nana Caymmi, irm do jovem compositor Dori
Caymmi, que tocava violo a seu lado com a orquestra dirigida pelo
maestro Lindolpho Gaya, autor tambm do belssimo arranjo que
aproveitava a linha de baixos imitando sons do movimento do mar, criada
pelo autor da msica. "Saveiros", com letra de Nelson Motta, foi bem
recebida pelo pblico, despontando como forte candidata. Logo em
seguida, entrou Elis Regina para defender com dignidade a quarta cano
dessa noite, "Canto Triste", de Edu Lobo. Cantou corajosamente,
enfrentando o pblico do ginsio do Maracanzinho com uma cano lenta,
provavelmente o oposto do que se esperava. Seguiram-se, entre outras, "O
Amor  Chama", dos irmos Valle, com Cludia, e " Preciso Perdoar", do
juiz do TRT da Bahia e professor universitrio Carlos Coqueijo e
Alcivando Luz, com o grupo vocal MPB 4. Era a nica concorrente da Bahia
e foi a antepenltima da noite, j que a ltima foi "Amada", com
Estelinha Egg, esposa do maestro-arranjador Lindolpho Gaya, que conduzia
a orquestra.
Os estrangeiros que estavam assistindo comentaram que esperavam msicas
mais agitadas, sentindo falta do ritmo mais alegre do samba. De maneira
geral, acharam as msicas muito tristes, uma avaliao inevitavelmente
reforada em funo do ttulo de uma delas, "Canto Triste".
Alguns jurados ficaram impressionados com "Saveiros". Menescal perguntou
para Chico o que estava achando, e ouviu:
- Adorei a msica do Dori, adorei.
- Eu tambm. Mas a turma no est gostando, no. Eu fiz uma enquete e
acho que a msica vai ser desclassificada. Acho que a gente tem que
fazer as pessoas prestarem ateno, porque a msica  muito legal.
Os dois conversaram a respeito com vrios jurados, exaltando as
qualidades da cano de Dori, que era grande amigo de Edu Lobo, autor da
outra concorrente de harmonia mais elaborada, "Canto Triste".
Era uma cano muito bem trabalhada e dificlima de cantar, motivo pelo
qual a taxaram de complicada, sendo mais prpria, talvez, para um
ambiente pequeno. Fora composta para fechar a pea Zumbi, Rei dos
Palmares, mas o diretor Augusto Boal no gostou, achou triste demais e
cortou-a antes mesmo de ser concluda. Depois, Edu mostrou a cano
incompleta a Vincius, que ficou animadssimo, obrigando-o a terminar a
melodia para depois fazer a letra. Ao contrrio de "Arrasto", no
obedecia aos padres que j se delineavam como tpicos de festival,
sendo muito aplaudida na primeira noite. Elis, que cantou lendo a letra,
dizia estar satisfeitssima: ""Canto Triste"  a msica mais linda que
j cantei at hoje". Elis apregoava para quem quisesse ouvir que estava
noiva de Edu Lobo, com anel no dedo e tudo. O autor de "Canto Triste"
nem no Brasil estava, fazia uma turn pela Alemanha, apesar de um jornal
carioca ter noticiado que os dois saram do Maracanzinho aos abraos e
beijos, como dois pombinhos.
O presidente do jri, Mozart de Arajo, fazia de tudo para promover
"Cano do Negro Amor", de Capiba, que considerava uma glria nacional,
enquanto Almirante, decepcionado, tambm se queixou da tristeza
reinante, esperando msicas mais alegres para o dia seguinte. Elizeth
fez as mesmas restries e ambos no estavam nada satisfeitos com a
qualidade do som.
O "som do Maracanzinho" era um drama. Tanto os jurados como os artistas
estrangeiros criticaram severamente, lamentando que o Festival no
tivesse sido no Teatro Municipal. Alm dos problemas acsticos, dois
amplificadores apresentaram defeito. O jri recusou-se a conceder notas
para as msicas que no conseguiu ouvir, deixando para ouvir as
gravaes no domingo, antes de eleger as 14 msicas que iriam disputar a
final.
O ensaio para a segunda eliminatria do FIC foi realizado no prprio
domingo, com a orquestra de Severino Arajo conduzida pelos maestros
Gaia, Erlon Chaves e o prprio Severino, cada qual regendo seis msicas.
Como foi marcado para as 17 horas, no prprio ginsio, era preciso que
os intrpretes estivessem prontinhos s 16h30, o que provocou protestos
principalmente das cantoras. "Um absurdo", reclamavam, pois na hora do
espetculo estariam uns cacos, com os vestidos amarrotados e a maquiagem
derretendo naquele calor. Acabaram ensaiando como estavam.
A preocupao maior era novamente o som. Como os tcnicos montaram
caixas de alto-falantes no teto, houve uma pequena melhora, mas ainda
assim jurados, jornalistas, cantores, msicos e pblico continuavam se
queixando. As msicas do domingo foram consideradas um pouco mais
alegres, com mais vibrao, contrastando com as de sbado.
A primeira foi "Inai", que, segundo alguns, poderia disputar os
primeiros lugares se fosse defendida por Jair Rodrigues. Seu intrprete,
Luiz Carlos S, seria mais tarde um dos componentes do trio S, Rodrix e
Guarabira.
A quarta foi "Beira Mar", de Caetano Veloso e Gilberto Gil, cantada por
Maria Bethnia na sua primeira e ltima apresentao em festivais
durante toda a sua carreira. Caetano estava no Maracanzinho para ver a
irm Bethnia, j ento uma cantora de nome desde que substitura Nara
Leo no show Opinio, em fevereiro do ano anterior.
"O Cavaleiro" com Tuca, vestindo um palazzo-pijama azul com lantejoulas,
a sexta msica dessa noite, foi uma das que conquistaram o pblico.
Comentava-se que Tuca era a autora da msica toda, tendo Vandr
colaborado apenas com alguns versos.
A stima foi "Minha Senhora", de Gilberto Gil e Torquato Neto, com Gal
Costa, uma nova cantora que acabara de chegar da Bahia. Ela nem tinha
roupa adequada para se apresentar. Cantou envolvida por uns paninhos e,
segundo um dos jurados, parecia uma figurante da Mangueira. Era to
tmida que nem ajeitou o pedestal do microfone, cantando semicurvada,
mas com uma afinao que impressionou fortemente os conhecedores.
Menescal virou-se para Mister Eco, a seu lado, e perguntou:
- Voc est gostando? Voc est entendendo? Ouviu a seguinte resposta:
- No estou entendendo muito, e no estamos gostando desse negcio.
Menescal ficou surpreso, pois estava siderado pela cantora, mais at que
pela prpria cano.
- Mas ela  o mximo! No sei quem  essa menina... Algum me falou que
se chama Gracinha, quero conhec-la agora mesmo - retrucou Menescal,
sentindo que estava diante de um Joo Gilberto de saia.
Estava convicto de que a melhor surpresa do Festival era o aparecimento
daquela cantora baiana que, com a delicadeza de sua afinao, deu a
muitos a impresso de estarem diante de uma grande cano.
A dcima primeira foi "Dia das Rosas", defendida por uma nova Maysa,
loura, magra e feliz em cantar uma marcha-rancho, desmentindo que s se
dava bem no gnero "dor de cotovelo". Sua interpretao foi das mais
comentadas e a msica do casal Lus Bonf e Maria Helena Toledo, em
arranjo de Eumir Deodato, destacou-se como uma possvel finalista. Em
seu vestido de gala, Maysa cantava "Hoje  dia das rosas/ que enfeitam
formosas/ amores se unindo/ num lindo jardim...".
As queixas pela escolha do Maracanzinho para o FIC no pararam aps as
18 msicas. At o maestro Erlon Chaves lamentou que um espetculo de
msica fosse realizado num local onde se joga basquete. Os cantores do
exterior chegaram a temer uma desclassificao causada pela audio
precria de suas interpretaes.
Depois de reunidos, os jurados definiram as 14 finalistas, das quais
apenas cinco, segundo o polmico crtico do Jornal do Brasil e
historiador musical Jos Ramos Tinhoro, tinham condies de salvar o
certame. Uma delas era "Canto Triste". Tambm lamentou que os
compositores tivessem dado preferncia a temas tristes, concluindo:
"Essa tristeza foi obra da bossa nova ... pelo fato de haver crescido em
ambientes fechados, na intimidade das boates e apartamentos...".
Destacou, contudo, que "havia fatores positivos: o amadurecimento do
pblico e a eliminao de juizes despreparados, como se vira pelo
resultado do Festival da Record".
Srgio Cabral tambm lamentou a tristeza, destacando que o povo queria
alegria, como em "A Banda". Entre as intrpretes, duas delas no ficaram
nada satisfeitas com as 14 escolhidas: Bethnia no gostou de ver a
msica de seu irmo desclassificada e Cludia se achou injustiada. No
houve tempo para choro nem vela, pois no dia seguinte as 14 msicas
estariam disputando trs prmios e a vaga para a fase internacional.
Na noite de 24 de outubro, final nacional do I FIC, a estimativa do
pblico presente foi de 5 mil pessoas, menos que em qualquer das duas
eliminatrias de sbado e domingo. Em compensao, houve participao
muito maior, traduzida tanto nos aplausos como nas vaias.
Se o pblico foi mais entusiasmado, a qualidade do som continuava muito
ruim, criticada abertamente pelos jurados e por quem estava nas
cadeiras. Para tentar pelo menos melhorar a situao, tomou-se uma
medida das mais extravagantes: os fotgrafos no podiam chegar muito
perto do palco, nem deviam falar alto durante a apresentao das 14
classificadas.
Devidamente industriados por Chico Buarque e Menescal, os demais jurados
prestaram ateno redobrada  primeira e  segunda concorrentes,
"Saveiros" e "Canto Triste", cantadas respectivamente por Nana Caymmi,
que saiu do palco chorando, e Elis Regina, que no mostrou os dentes em
momento algum. Depois de "Cano Brasileira" (Heckel Tavares e Luiz
Peixoto), foi a vez de "Chorar e Cantar" (Vera Brasil e Sivan Neto),
bastante aplaudida, com Claudete Soares em arranjo de Eumir. As
seguintes foram "No Se Morre de Mal de Amor", de Reginaldo Bessa, bem
cotada desde a primeira eliminatria, " Preciso Perdoar", "Inai" (Luiz
Carlos S), que tinha torcida organizada, "O Cavaleiro", novamente muito
aplaudida, com Tuca ao violo em arranjo de Radams Gnattali, e "Se a
Gente Grande Soubesse", defendida por Billinho, de 10 anos (filho de
Billy Blanco), e o Quarteto em Cy em arranjo de Oscar Castro Neves. "Dia
das Rosas", com Maysa, sob muitos aplausos em seu lindo e comentadssimo
vestido de renda guipure sem mangas, com decote redondo e um cinturo de
tafet de seda, antecedeu "Cano do Medo" (Srgio Bittencourt), outra
com torcida organizada. "Apoteose do Samba" (Herivelto Martins e Klecius
Caldas), com Miltinho e um grupo de passistas e ritmistas de escola de
samba, foi vaiada: sua incluso entre as 14 finalistas tinha sido
considerada um deboche diante da desclassificao de "Minha Senhora".
Comentou-se que a msica estava na final para compensar a falta de
sambas no Festival. "Festa de Cores" (Capiba) foi a ltima, quando ficou
claro que a preferncia do pblico dividia-se entre "Dia das Rosas" e "O
Cavaleiro". Maysa e Tuca precisaram de atendimento mdico, de tanto
nervosismo.
Enquanto o jri escolhia as trs primeiras, o pblico, ansioso, vaiava
exigindo o resultado sem dar a devida ateno ao nmero musical
preparado para o intervalo. Severino Arajo regeu a orquestra na
protofonia do Guarani de Carlos Gomes, antecedendo um desfile de
atraes: o alemo Helmut Zacharias, que ficara bem impressionado com
"Dia das Rosas", tocou violino, o mexicano Roberto Cantoral cantou
boleros "y otras cositas ms", num microfone empunhado pelo apresentador
Murilo Neri. Aquele show de espera, uma amostra do que seria a parte
internacional, no era o que o pblico queria. Os cariocas estavam
apaixonados por "A Banda" e pelos olhos verdes de seu autor. Vaiavam e
gritavam "A Banda! A Banda!". No houve jeito. Chico Buarque teve que
arranjar um violo emprestado, sair de seu posto de jurado, subir ao
palco e atacar "Estava  toa na vida/ o meu amor me chamou...". Alegre e
entusiasmado, o pblico cantou ento em coro com Chico. Nenhuma cano
daquela noite fora to bem recebida. Assim, em pleno Maracanzinho, a
msica que mais agradou no foi nenhuma das concorrentes do FIC e sim
uma vencedora do Festival da TV Record. O entusiasmo era tanto que o
alemo Zacharias ficou louco para grav-la quando voltasse para seu
pas, achando que ela poderia se transformar no novo hino nacional.
Depois de Chico, o Quarteto em Cy voltou ao palco para tambm cantar "A
Banda".
Ao serem proclamados os vencedores, j bem tarde da noite de
segunda-feira, voltaram as vaias, desta vez mais prolongadas,
demonstrando que o pblico no concordava com a deciso do jri. O
terceiro lugar para "Dia das Rosas" foi recebido com vaias intensas para
o jri e uma ovao para Maysa, a predileta na platia. "O Cavaleiro"
ficou em segundo. Tuca e Maysa repetiram suas msicas com mais segurana
e mais aliviadas da tenso, pois j eram segunda e terceira colocadas.
Quando "Saveiros" foi anunciada vencedora, o pblico fez um breve
silncio, seguido de algumas palmas e uma vaia estrepitosa. O tempo se
encarregaria de demonstrar que a maioria do jri estava certa ao premiar
aquela cano lindssima. A escolha foi feita aps uma diviso que se
estabeleceu entre os jurados. Almirante, favorvel  "Cano Brasileira"
de Heckel Tavares, tratou de arrebanhar os mais velhos para o seu time,
enquanto o jurado Juvenal Portela, do Jornal do Brasil, combinou com seu
grupo dar notas mximas para "Saveiros", criando uma oposio aos que
dela no gostavam. Um deles, Mozart de Arajo, chegou a declarar
posteriormente que Dori tinha roubado a msica do compositor clssico
ingls Edward Elgar. Em sua coluna no Jornal do Brasil, Portela
justificaria seu voto, reconhecendo ser um "trabalho meldico aceitvel,
a letra bastante razovel e o tema encontrado, quase uma exceo no
comum dos candidatos ... acessvel a qualquer ouvido ... Se houve uma
ala no estdio que vaiou essa classificao, isto  perfeitamente
explicvel: "os compositores no so os da moda". Apontou ainda uma
falha do jri por no classificar "Minha Senhora" entre as 14
finalistas. Na realidade, o que havia era uma grande cantora, Gal Costa,
que conseguiu dar a muitos a impresso de defender uma grande msica,
com arranjo de Francis Hime. Dias depois do Festival, Menescal, que
havia se apaixonado pela sua voz, comeou a fazer campanha a seu favor
na gravadora Philips. No demorou muito para que Gal e Caetano fossem
contratados para fazer seu primeiro disco, Domingo.
Outro baiano, Carlos Coqueijo, revoltou-se tanto com o resultado que
subiu ao palco mesmo sem ser chamado. Mal imaginava ele que " Preciso
Perdoar", de sua autoria, essa sim uma estupenda cano, faria uma bela
carreira, sendo gravada por Joo Gilberto num de seus melhores discos.
De maneira geral e em diferentes gradaes, as trs primeiras colocadas
receberam vaias, claramente concentradas na cano vencedora, e assim
Nana Caymmi acabou ficando injustamente marcada, durante vrios anos,
como a cantora da primeira grande vaia em festival, o que no a impediu
de levar a srio sua carreira, mostrando ser uma pessoa forte e
preparada. O reconhecimento definitivo se deu quando gravou "Medo de
Amar", de Vincius de Moraes.
A filha de Dorival Caymmi voltara ao Brasil separada e com trs filhos,
depois de residir por quatro anos na Venezuela, onde no colocara o p
num palco, pois seu marido no permitia que cantasse. At ento, sua
carreira se limitara a uma participao com o pai em "Acalanto", num
disco da Odeon, a convite do diretor Aloysio de Oliveira, e ao LP Nana
(1963), em que deu as primeiras mostras de seu refinado bom gosto na
escolha de repertrio. Quando seu casamento com o mdico Gilberto Paoli,
em Caracas, chegou ao fim, em dezembro de 1965, pegou as trouxas e, com
o filho Joo Gilberto na barriga, voltou para o Rio, onde tentou retomar
sua atividade de cantora. No teve muita sorte: precisando sustentar a
famlia, foi barrada no programa O Fino da Bossa. Desiludida, recebeu do
irmo a misso de defender "Saveiros", que fora selecionada na gravao
pelo Quarteto em Cy. Nelson Motta preferia que Elis fosse a intrprete,
mas acabou prevalecendo a escolha de Dori. Nana quase no ensaiou a
msica, pois alm de ter abandonado a carreira anos antes, s pensava
nos filhos e em como se manter no Brasil. No dia da final, no teve como
voltar para Copacabana a fim de amamentar o filho. Ficou no
Maracanzinho a tarde toda para ensaiar, teve febre e foi atendida pelo
mdico de planto.  noite, com os cabelos presos num coque, e
nervosssima durante a apresentao, teve um choque de leite. Sem que o
pblico percebesse, gotas de leite materno brotavam de seus seios,
molhando seu belssimo vestido prateado, que "ficou manchado para
sempre. Depois de proclamada vitoriosa, soube enfrentar os protestos com
coragem, repetiu a cano, mal conseguindo se ouvir, sob vaias que
encobriam a orquestra, enquanto Maysa, que a hostilizara nos ensaios,
aplaudia de p, gritando: "Agora  hora de aplausos, vamos!". Dori era
abraado emocionadamente por seu amigo Marcos Valle, quando Nana saiu do
Maracanzinho escoltada por batedores, apavorada com a reao do pblico
que vaiara a deciso do jri.
"Saveiros" fora inscrita por Dori Caymmi pouco antes do encerramento do
prazo, recebendo o nmero 1.597. A partitura estava guardada na primeira
gaveta de sua escrivaninha, de onde foi retirada para concorrer. Dori,
que vinha tentando havia seis anos cortar o cordo umbilical que o
ligava ao pai, inspirou-se na Bahia, onde morou algum tempo, para compor
a cano. Vendo os saveiros e os pescadores do alto de um morro em
Salvador, resolveu fazer uma melodia baseada na vida daqueles homens. A
msica nasceu pouco depois, numa reunio de famlia, um ano antes do
Festival, na casa de seu ento sogro, ao lado de sua primeira mulher,
Ana Beatriz, Nelson Motta e namorada. Fez toda a melodia nessa noite e
pediu uma letra ao parceiro, que tinha 21 anos, ainda estudava e
pretendia ser reprter. Nelsinho no conhecia a Bahia e nem sabia muito
bem o que era um saveiro. Dori explicou-lhe o que eram os saveiros e os
barqueiros. Assim nasceu, em 1965, a letra "Nem bem a noite terminou/
vo os saveiros para o mar/ levam no dia que amanhecem/ as mesmas
esperanas do dia que passou..." para a cano, que j fora inscrita no
I Festival da TV Excelsior, mas desprezada no cesto das concorrentes,
deixando ambos frustrados.
Sem refro e sem segunda parte, a composio  um depurado
desenvolvimento do motivo meldico inicial de oito notas (as do verso
"Nem bem a noite terminou"), com tnues mudanas de modo menor para
maior e vice-versa, como o acorde inicial de r maior com sexta e nona
sob o f sustenido do incio da primeira frase (na palavra "Nem"), ou o
mi menor com stima e nona sob o l do incio da segunda (no "Vo" de
"Vo os saveiros para o mar"). Um momento precioso  a bemolizao do si
que recai sobre a slaba "-nhe" de "amanhece", no terceiro
desenvolvimento do motivo, contrastando com o retorno ao maior na
primeira resoluo, a do verso "do dia que passou". Uma composio de
msico para msico, que exige um intrprete rigoroso com a afinao para
no cometer enganos comprometedores em alteraes to sutilmente
elaboradas.
Para Dori, recm-chegado dos Estados Unidos, onde atuara no sexteto do
saxofonista Paul Winter, "Saveiros" representou a primeira oportunidade,
amplamente reconhecida entre os connaisseurs, de mostrar a competncia e
refinamento de uma obra que seria desenvolvida com uma coerncia
invejvel, a despeito de levianamente qualificada como "difcil"  por
quem no se dava ao trabalho de ouvi-la como devia. Por seu turno,
Nelson Motta logo passou de estagirio para reprter taxado de menino
prodgio no Jornal do Brasil, desenvolvendo sua carreira como um
jornalista atento e participante de inmeros momentos importantes na
histria da msica brasileira. Os dois ainda se encontrariam em outros
festivais, uma vez que, paralelamente  carreira de produtor e
empresrio, Nelson dedicou-se tambm  atividade de letrista.
"Canto Triste" no ficara sequer entre as trs primeiras, embora at
Dori Caymmi a elogiasse como a mais bonita das 36 concorrentes. No
Maracanzinho, alguns jornalistas estrangeiros, bem como o compositor e
arranjador Johnny Mandei ("The Shadow of Your Smile"), haviam gostado
mais de "Dia das Rosas", ao passo que David Raksin (compositor de
"Laura") elogiou Taiguara, e Jay Livingston (de "Mona Lisa") foi outro
que se empolgou com "A Banda", do festival passado. Como se v, em pleno
FIC, a personalidade masculina mais badalada era o vencedor do Festival
da Record, Chico Buarque, que pela primeira vez se via na condio de
dolo nacional e, logo, internacional. Entre as mulheres, Maysa com seus
olhos verdes e Elis como cantora eram as que mais chamavam a ateno dos
artistas estrangeiros, por sua vez os mais procurados e fotografados
pela imprensa.
Tuca, abraada por Vanja Orico e por Amlia Rodrigues, ficou muito
satisfeita com o segundo lugar, afirmando que "O Cavaleiro" era sua
melhor composio. No dia seguinte, foi ao Copacabana Palace cantar suas
msicas para as delegaes estrangeiras, terminando seu showzinho para
os gringos na areia da praia, acompanhada por Paulinho Nogueira ao
violo. O elenco de compositores e msicos estrangeiros que Marzago
havia conseguido arrebanhar para o Rio de Janeiro era de tirar o chapu.
Entre eles, os cantores Pedro Vargas, Yma Sumac, Amlia Rodrigues e Jean
Sablon; da Frana vieram ainda Maurice Jarre e Michel Legrand; da
Argentina, Horacio Malvicino (guitarrista) e o compositor Jlio de Caro
(autor de "Boedo"), e do Paraguai, Mauricio Cardoso Ocampo, autor de
"Galopera". A delegao americana contava ainda com os compositores
Jimmy Van Heusen ("Ali the Way"), Ray Evans, o parceiro de Jay
Livingston, os arranjadores Nelson Riddle, Lex Baxter, Herb Alpert e
Henri Mancini, de todos o mais procurado, pois estava no auge do
sucesso. Eram tempos romnticos e todo esse povo veio sem receber cach,
apenas para gozar das delcias da praia e da piscina do Copa, conhecer a
bossa nova, o Rio e eventualmente as estonteantes curvas das mulheres
brasileiras. Vrios deles integraram o jri da parte internacional do
Festival. Para conseguir um time desse naipe, Marzago contou tambm com
o apoio do Itamaraty, atravs do consulado brasileiro em Los Angeles.
Aps a final nacional, houve uma grande festa na casa do pai de Nelson
Motta, onde Nana, logo depois da vitria, foi comemorar na companhia de
seus melhores amigos: Ronaldo Bscoli, Silvinha Vinhas e Wanda S.
Nenhum deles esperava que "Saveiros" ganhasse. S l  que ela pde
relaxar, apesar de ainda magoada, nem tanto com as vaias, mas com a
fofoca que circulou de que Dorival Caymmi havia comprado o jri para a
vitria dos filhos. Caymmi estava com a presso alta, mal conseguindo
assistir ao FIC pela televiso.
Enquanto o trio dos vencedores, os dois irmos Caymmi e Nelson Motta,
festejavam, outros participantes foram comemorar na boate 706, tomando
conta da noite. Maysa bebeu todas e no meio daquela alegria comeou a
provocar Elis, que estava na mesma mesa:
- Sua gauchinha de merda, voc no canta nada. Elis retrucou:
- No me provoca, no.
Com o caco cheio, Maysa continuou mandando ver, at pegar uma garrafa e
arremess-la contra Elis. Pressentindo o que j estava para acontecer,
Menescal conseguiu agarrar a garrafa antes que atingisse o alvo,
salvando Elis de um acidente de srias conseqncias e deixando Maysa
sem entender nada. No meio da festa, ainda persistia uma disputa
ferrenha entre as cantoras.
A pinimba entre as duas tinha antecedentes. Um ano antes, na campanha
beneficente do canal 9 "Quanto Vale uma Criana", Maysa, que doara uma
pulseira de ouro, estava distribuindo autgrafos quando dela se
aproximou timidamente uma moa baixinha:
- Eu sou Elis Regina e gostaria que voc cantasse no meu programa. O
programa do canal 7 atravessava uma fase auspiciosa em outubro de 1965.
Maysa afastou os cabelos dos olhos, encarou-a firmemente, e fulminou:
- No.
Dias antes, Maysa havia anunciado que iria parar de cantar, mas dizia-se
que estava blefando para testar sua popularidade.  possvel que
estivesse mesmo, pois voltou em grande estilo na boate Urso Branco, em
So Paulo, com a orquestra regida por Chiquinho de Morais, lotando os
1500 lugares. Mas O Fino da Bossa de fato nunca teve Maysa entre os
convidados.
Com a vitria, "Saveiros" foi designada para representar o Brasil na
parte internacional do I FIC, que se iniciaria no dia 27 de outubro e
terminaria no domingo, dia 30. A msica ficou em segundo lugar, perdendo
para a inspida "Frag den Wind" ("Pergunte ao Vento"), de Helmut
Zacharias e Cari J. Schaubler, interpretada por Inge Brueck e
sobrepujando a preferida da platia, a insossa cano francesa "L"Amour
Toujours 1"Amour". Os prmios para os vencedores da fase nacional foram
entregues nesse domingo: Lus Bonf estava nos Estados Unidos e quem
recebeu o prmio de terceiro lugar foi sua mulher e parceira Maria
Helena Toledo, ao lado de Maysa. Os compositores Dori e Nelson dividiram
os 20 milhes de cruzeiros; Nana ganhou 5 milhes e uma passagem para os
Estados Unidos, que vendeu assim que recebeu. Precisava faturar para
defender o leite das crianas. Depois do FIC, Nana Caymmi retirou-se por
um tempo e fez uma rentre num show que definiria seu perfil de cantora.
Aps o Festival, Nana no pde esconder uma grande mgoa que passou a
ter de Elis Regina. Em setembro de 1966, Elis j tinha gravado pela
Philips as msicas para seu disco seguinte, o lbum Elis, com arranjos
de Chiquinho de Morais no estdio da Gravodisc, em So Paulo. Aps o
lanamento, a gravadora colocou na praa um compacto com a msica que
ela cantara no festival, "Canto Triste", e que, astuciosamente, tinha do
outro lado nada menos que a msica defendida por Nana. Isso mesmo, a
prpria "Saveiros", numa interpretao lenta que decepcionou Nelson
Motta e Dori Caymmi, presentes no estdio durante a gravao. Esse
compacto no tinha nenhum vnculo com o lbum Elis, como normalmente as
gravadoras procediam para incrementar a venda dos LPs. A estratgia era
outra. Como a Philips queria repetir o sucesso de "A Banda" com Nara
Leo e do compacto de Chico Buarque pela RGE, apressou-se em lanar o
seu compacto do FIC. Tratou de produzir a todo vapor uma nova arma para
a batalha que se travava entre as gravadoras, o compacto com Elis tambm
com arranjos de Chiquinho de Morais. Nessa guerra valiam at esses
golpes baixos, como uma cantora cantar a msica da outra. Institua-se
oficialmente um nova fase entre as gravadoras, que da em diante
estariam sempre fazendo figa, e at mais, para surgir um gnero
diferente ou um novo movimento que, transformado em modismo, possa
embalar as vendas. Como se deu com a bossa nova. Naqueles meses de
outubro e novembro de 1966, as gravadoras brasileiras estavam
descobrindo uma nova rea de atuao, a dos discos de festival, que
atingiriam picos a partir desse ano. Os grficos de vendas, que
costumavam subir ligeiramente em maro e estabilizar at o final do ano,
passaram a se elevar substancialmente em setembro e outubro, meses dos
festivais, que assim passaram a ter grande importncia no mercado
brasileiro.
Nana tambm lanou "Saveiros" logo aps o Festival. Era um compacto da
Elenco gravado em estdio, tendo "Velho Pescador" do lado B e com seu
nome grafado simplesmente Nana (provavelmente para evitar que se
pronunciasse Nan), sem o Caymmi. Somente em 1980 Dori gravaria a cano
como gostava, com a introduo de outra cano sua, "O Mar  Meu Cho",
pois tinha a convico de que, se tivesse sido cantada assim no
Festival, teria sido ainda mais vaiada.
No era difcil explicar por que nenhuma das trs vencedoras da fase
nacional, tampouco "Canto Triste", que ficara de fora, ou "Minha
Senhora", j eliminada das 14 finalistas, havia empolgado o pblico como
se esperava. Ainda que "Canto Triste" e "Saveiros" sejam
indiscutivelmente superiores  valsa "Dia das Rosas" e a "O Cavaleiro",
estas, quando muito, razoveis, havia um problema fundamental: nenhuma
delas tinha o perfil que j vinha se delineando desde os primeiros
festivais e que permitiria identificar as chamadas "msica de festival".
Havia, contudo, entre essas mesmas cinco msicas, uma coincidncia que
deu margem a uma frente de batalha muito mais marcante nesse Festival do
que a to lamentada tristeza da grande maioria das canes. A
coincidncia  que as cinco eram cantadas por mulheres, cantoras que
tinham histrias diferentes e acabaram se cruzando numa competio de
canes. Sem que o pblico percebesse, embora participasse
inconscientemente com seus aplausos e vaias, o que de fato marcou a fase
nacional desse Festival foi o confronto entre as cantoras. Por trs do
palco do I FIC travou-se uma batalha que no estava no programa. Os
bastidores eram arena de uma guerra surda, a ponto de Stella Caymmi, que
j era esquentada, resolver entrar em cena. Quando soube que sua filha
estava sofrendo uma tremenda presso de Elis e Maysa, a ponto de ter
desmaiado, no se conformou: foi ao camarim feminino, discutiu com um
segurana, abriu caminho no grito e fechou o tempo defendendo Nana e
exigindo respeito. Dori, com sua cara enfezada de capito da PM, chegou
a ameaar Elis. A temperatura ferveu no Maracanzinho.
J nas arquibancadas, o pblico aprendeu, e muito bem, algo que
praticaria da em diante em todos os festivais, at chegar a uma catarse
de inacreditveis propores. Foi no I FIC que o pblico aprendeu a
vaiar. E, sem se dar conta, a cometer injustias.
Captulo 6
"PONTEIO"
(III FESTIVAL DA TV RECORD, 1967)
No dia 29 de abril de 1929, inaugurava-se em So Paulo um novo cinema,
localizado fora do chamado Centro Velho, o tringulo das ruas Direita,
XV de Novembro e So Bento. Com um investimento de 400 contos de ris, a
Paramount Studios dotou a cidade de uma sala de classe, com arquitetura
estilo "neoclssico afrancesado", no mesmo local que j havia abrigado
uma praa de touros: avenida Brigadeiro Lus Antnio, 79. O novo cinema,
dotado de equipamentos Movietone e Vitaphone, teve o privilgio de
exibir o cinema falado pela primeira vez na Amrica do Sul, um "super
filme da Paramount", Alta Traio (The Patriot), "classificado como a
obra mxima do ano", estrelado por Emil Jannings e com direo de Ernest
Lubitsch, "o maior gnio de cinema". A intelectualidade e a nata da
sociedade paulistana se reuniram alvoroadas para assistir ao programa
de gala, a exibio do filme antecedida de uma ouverture da Orquestra
Sinfnica, dirigida pelo maestro Leo Renard. A orquestra ficava no poo,
como em qualquer espetculo de variedades. Sim, porque o Paramount, ao
contrrio do chique Cine Rosrio da rua So Bento, que seria inaugurado
em outubro, era mais que um cinema, era um Cine Teatro. Alm de um vasto
palco, possua camarins, urdimento, gambiarras, luzes de ribalta, poo
de orquestra, alapo de ponto, enfim: todo o necessrio para a montagem
de um espetculo de teatro musicado. As acomodaes do pblico estavam 
altura: depois de descer de seus automveis Packard ou La Salle, os
espectadores podiam abrigarse sob a marquise, ingressando, pelas grandes
portas de ferro e vidro, no foyer, com seu piso de mrmore quadriculado
em preto-e-branco, de cujas laterais partiam as escadas rumo ao balco
e,  frente, os poucos degraus que, atravs de portas de madeira com
grandes visores redondos de vidro azul-escuro, davam acesso  platia.
Ligeiramente em declive e em forma de ferradura, com poltronas
estofadas, esta era rodeada de camarotes em nvel um pouco mais elevado,
dela separados por um gradil de alvenaria com acabamento fresado. Por
cima dos camarotes, a face externa do parapeito do balco era recoberta
de vitrais retangulares  coloridos, com lmpadas por trs. Antes do
incio de uma sesso, quando as luzes principais da sala se apagavam,
sobravam acesos apenas os vitrais  volta toda, criando um clima de
magia que envolvia o pblico durante um a dois minutos, enquanto as
cortinas de veludo azulmarinho se abriam lentamente, estimulando a
ansiedade pelo comeo do espetculo.
Essa ouverture visual de luzes coloridas tambm fazia parte do ritual
que precedia as sesses em cinemas do centro de So Paulo, como o
Broadway, o Ritz So Joo e o Bandeirantes. Nestes, havia trs ou quatro
carreiras de lmpadas ocultas contornando a cortina. Soava um gongo
majestoso e o ambiente era iluminado ora por um vermelho intenso, ora
por um verde sombrio, ora por um amarelo berrante, ora por um azul
misterioso. O glamour fazia parte da tradio em espetculos
cinematogrficos numa poca em que ir ao cinema requeria o mesmo aparato
de quando se ia a um concerto.
Quase 30 anos mais tarde, em 1958, a TV Record alugou o Cine Teatro
Paramount para a temporada da orquestra do clarinetista Woody Herman,
cujo maior astro era o contrabaixista Major Holley, que causava sensao
quando vinha para a frente solar, tocando com arco e cantando a mesma
nota uma oitava acima. Produzia um som inusitado, que a maioria
desconhecia, embora os jazzistas bem informados soubessem que fora Slam
Stewart o criador dessa combinao de voz e baixo com arco. Antes da
temporada de Woody Herman, So Paulo j recebera e aplaudira outras
notveis orquestras americanas: a do trombonista Tommy Dorsey, que tocou
no Lorde Hotel e no Hotel Excelsior da avenida Ipiranga, a de Xavier
Cougat, que tocou na sala vermelha do Cine Odeon, na rua da Consolao,
e a de Dizzy Gillespie, em inesquecveis exibies de bebop no Teatro
Santana,  rua 24 de Maio.
O Paramount foi novamente arrendado pela TV Record para a temporada de
Nat King Cole em abril de 1959 e, meses mais tarde, para o espetculo
estrelado pelo entertainer Cab Calloway, Cotton Club Revue. No primeiro
caso, havia duas razes determinantes para o aluguel: o Teatro Record da
Consolao estava em obras para a construo do poo de orquestra e o
Paramount tinha o triplo da capacidade, cerca de 2 mil lugares. No caso
da espetacular revista de negros, a caixa de palco precisava de altura
para a troca de cenrios, indispensvel num show de variedades desse
tipo.
Em agosto de 1963, a fim de dotar o Teatro Record de recursos
semelhantes, seu palco sofreu uma grande reforma em que se elevou o
urdimento,  uma idia pela qual o gerente Gacho, cujo passado era
ligado ao teatro de revistas da Companhia Walter Pinto, sempre
batalhara. Com o prolongamento para seis metros de altura, aumentaram as
facilidades de troca de cenrio, possibilitando a realizao de
produes teatrais mais complexas, o que de fato aconteceu.
Todavia, aps o incndio dos estdios de Congonhas em julho de 1966, as
atividades do Teatro ficaram prejudicadas, pois quase toda a programao
do canal 7 foi transferida para l. Os escritrios, salas de ensaio e
guarda-roupa, instalados nos antigos apartamentos do prediozinho ao lado
do Teatro, tiveram que ser espremidos durante o perodo de emergncia. O
camarote privativo da famlia Carvalho foi transformado num pequeno
estdio, a loja do trreo virou a central do videoteipe e o carro de
reportagens ficou estacionado durante meses diante da entrada como sala
de switch, ou direo de TV, de tudo que dali fosse gerado, da manh 
noite.
O Paramount poderia vir a calhar novamente para abrigar o III Festival
da TV Record. Sua capacidade era bem maior que a do Teatro Record, o que
provavelmente seria necessrio em vista do sucesso do Festival anterior,
podendo-se prever grande repercusso em vista da cobertura que a
imprensa j lhe dava antes mesmo de seu incio. A deciso se mostraria
correta,  medida que novos programas, sobretudo musicais, fossem
incorporados  programao do canal 7 em 1967, Famlia Trapo, Pra Ver a
Banda Passar, Esta Noite Se Improvisa e outros mais, pois o Teatro
Record no teria condies de suportar tamanha carga de atividades.
Assim, a TV Record arrendou o Teatro Paramount por longo tempo,
repartindo-se a programao com presena de pblico entre os dois
locais: o Teatro Record Consolao e, com o triplo da capacidade, o
Teatro Record Centro, nova denominao do Paramount.
Enquanto a Record se expandia, a TV Excelsior encolhia. Mas no podia
dar bandeira. Era preciso fazer alguma coisa. Diante do avano dos
musicais do canal 7, Roberto Palmari convocou Moracy do Vai, Luiz
Vergueiro, Franco Paulino e Chico de Assis para criarem uma srie de
programas musicais. E assim nasceu, no final de 1966, o supershow Ensaio
Geral, aproveitando o ttulo da msica de Gil, um dos contratados para o
numeroso elenco de 40 artistas, que inclua uma orquestra sob a regncia
de Radams Gnattali, outra sob a batuta de Chiquinho de Morais, dois
conjuntos, o Tamba Trio e o trio de Edson Machado, e mais uma cacetada
de cantores, como Caetano Veloso, Geraldo Vandr, Srgio Ricardo, Tuca,
Sidney Miller, alm de figuras de proa da poca de Ouro, como Jacob do
Bandolim, Ismael Silva, Cyro Monteiro e outros. Mas durou pouco essa
festana. A TV Excelsior no tinha mesmo flego, os pagamentos comearam
a atrasar e, aps a concordncia de todos os contratados numa reunio no
Hotel Danbio, Chico de Assis foi oferecer o programa  Record. Para sua
surpresa, Paulinho de Carvalho j sabia dos atrasos, pois havia
presenteado Cyro Monteiro com a quantia que a Excelsior lhe devia. Mas,
devido a uma atitude hipcrita de Srgio Bittencourt, filho de Jacob, o
projeto de mudana de canal abortou. Na reunio seguinte, decisiva para
se bater o martelo, ele conseguiu convencer o grupo de que a
transferncia seria uma traio  TV Excelsior. Nada feito. Em lugar de
ir para o canal 7, o Ensaio Geral foi para o brejo e o elenco ficou a
ver navios. Exceto Srgio, que havia assinado com a TV Record na vspera
dessa segunda reunio.
Vandr j tinha abandonado o barco aps o segundo programa da Excelsior
e, por interveno de Alberto Helena - que, desconfiado do temperamento
de Paulinho, insistiu para que Marcos Lzaro o dobrasse -, foi
contratado pela TV Record para comandar um novo programa, o Disparada,
voltado para as razes sertanejas da msica brasileira e dirigido pelo
cineasta Roberto Santos. Com a grana preta que passou a receber, teve
cacife para patrocinar o grupo instrumental dos sonhos de Airto Moreira,
com a ampliao do trio para quarteto, o Quarteto Novo. A entrada de
Hermeto Paschoal acrescentava praticamente mais dois instrumentos, a
flauta na formao mais leve e o piano numa formao mais encorpada.
Nesta, Tho passava para o contrabaixo e Heraldo para a guitarra. Apesar
dos timbres resultantes serem diferentes, o esprito de cano sertaneja
predominava nas duas formaes.
A idia do Quarteto Novo comeara a nascer no dia em que Csar Mariano,
pianista do Sambalano Trio, comunicou a seus dois companheiros, Airto e
Cleiber, que iria deixar o conjunto para se casar com Marisa Gata Mansa.
Decididos a continuar com o trio, os dois convidaram o pianista Hermeto
Paschoal, que disse que aceitaria desde que se mudasse o nome do grupo.
Surgiu assim o Sambrasa Trio, que gravou um disco. Quando Livio Rangan
desejou formar um grupo instrumental para os shows da Rhodia, encomendou
a tarefa a Geraldo Vandr, que por sua vez encarregou Airto de mont-lo.
Com dois teros do Sambrasa Trio (ele e Hermeto) e mais Tho e Heraldo,
o Quarteto Novo era exclusivo de Geraldo e ensaiava diariamente. Foi o
grupo fixo do programa Disparada, gravado no Teatro Record Consolao a
partir de meia-noite, avanando madrugada adentro e com presena de
pequeno pblico que entrava  de graa e podia ficar quanto tempo
quisesse. Em vista disso, era esse o nico musical da TV Record em que
as tomadas no aprovadas deviam ser repetidas, o que prolongava as
gravaes at o raiar do dia, fator determinante para o seu cancelamento
em junho de 1967, menos de trs meses depois. O Quarteto Novo no teve
condies de se manter e, assim, o grupo que, ao lado do Trio Surdina
dos anos 50,  classificado como dos mais originais da msica
instrumental brasileira, deixou registrado apenas um disco com alguns
dos belos momentos de sua breve existncia.
O ms de junho marcaria tambm o adeus do Fino, na fase em que a
produo estava entregue  dupla Miele & Bscoli. O programa vinha
capengando apesar dos esforos feitos para levant-lo: mudou-se o
horrio de sua apresentao, trocou-se o prefixo para o tema "Imagem",
de Luizmho Ea, gravou-se o volume 3 da srie Dois na Bossa, seguramente
o menos inspirado, mas nada surtia efeito. O mesmo Paramount, onde Elis
se consagrara dois anos antes, era agora o cenrio de um martrio
semanal para os que participavam de cada gravao. Estava no ar que a
chama se extinguira. Melancolicamente, aps dois anos e um ms de
audies semanais, das quais restaram somente algumas fitas de udio
recuperadas em uma caixa de trs CDs, Elis Regina no Fino da Bossa, em
19 de junho de 1967 foi gravado o ltimo programa da srie O Fino, antes
O Fino da Bossa, que mudou o conceito de programa musical na televiso
brasileira, abriu espao para compositores e composies, intrpretes e
msicos, contribuindo decisivamente para a formao da invejvel cultura
musical de toda uma gerao.
Espumando por dentro com a sensao de derrota, Elis atravessava uma
fase braba. Dias antes, no show do dia 7 desse ms, no qual veteranos
interpretavam o repertrio de jovens e vice-versa, a baixinha entrou no
palco logo aps um aplaudido nmero de Roberto Carlos e, por sua prpria
conta, exagerou no que deveria ser um simples comunicado: "No dia 19, O
Fino ser apresentado no Paramount com a presena de Vandr, Jair, Gil e
outros. Ser a nossa redeno. Vamos ver quem vai ficar, quem vai sair".
Dos cmeras ao contra-regra, todo mundo na televiso ficou paralisado.
Vandr sumiu do Teatro, apavorado. Depois de cantar, Elis ainda repicou
na bucha: "Quem estiver do nosso lado, muito bem, quem no estiver que
se cuide". A baixinha empunhava a bandeira de um motim que refletia a
alta temperatura reinante entre os astros da msica popular brasileira,
uma nova frente que unia inimigos dispostos a vencer o i-i-i.
Gilberto Gil voltou do Recife dando conta de que "nossa msica nunca
esteve to na fossa como agora". Roberto Carlos & Cia. i-i-i no
estavam nem a. Erasmo declarava que "a brasa no est se apagando, quem
quiser  s chegar perto e tenha cuidado para no se queimar". Os
programas de mais sucesso da Record eram Jovem Guarda, dirigido pelo
exigente Carlos Manga, e o jogo de memria musical Esta Noite Se
Improvisa, em seu segundo ms de sucesso, tendo como heri um Chico
Buarque simptico, enciclopdico e rpido no gatilho e, como anti-heri,
o compositor Carlos Imperial, que provocava a ira dos espectadores com
suas intervenes planejadamente cafajestes. Os ingressos para as
quintas-feiras no Teatro Record Consolao esgotavam-se semanalmente,
Chico era alvo de pedidos de concorrentes para no mais participar, tal
a sua superioridade. Mas como nem tudo so flores, seu programa com Nara
Leo, Pra Ver a Banda Passar, no deu certo e tambm saiu do ar.
A direo da Record tinha decidido tapar o sol poente do Fino com uma
peneira, ou melhor, um programa de nome pomposo, aproveitando o chavo
poltico da Frente Ampla entre Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e
Jango: Frente nica - Noite da Msica Popular Brasileira. Paulinho
Machado de Carvalho convocara uma reunio com os principais contratados
da emissora, Elis, Jair, Vandr, Simonal, Chico Buarque, Nara e Gil, que
levou Caetano a tiracolo. Ficou decidido que alguns elementos do grupo
se revezariam na apresentao do novo programa, uma tentativa
escamoteada de reconduzir Elis aos ndices de audincia que j tivera.
Precedendo o incio da nova srie, a produo da Record montou um
superelenco no especial da transio de O Fino, que se extinguira no dia
19, para o Noite da Msica Popular, que estrearia no ms seguinte.
Transmitido ao vivo na segunda-feira, 26 de junho, seu sucesso pode ser
avaliado pelo nmero de pessoas que no conseguiram ingressar no Teatro
Record Centro e pelos dois minutos de aplausos na entrada de Elis
Regina. Eram indcios que faziam renascer as esperanas no esquema
musical originado em O Fino da Bossa. Os tempos, porm, haviam mudado: a
srie Noite da Msica Popular ou Frente nica no teve flego para
sequer completar trs meses. Por mais que se esforasse, Elis
atravessava uma fase de mar baixa.
Em compensao, Wilson Simonal subia como rojo, apurando seus
predicados como showman, que lhe asseguraram a fase mais auspiciosa da
carreira. No domingo, 25 de junho, comemorou o primeiro aniversrio de
seu Show em Si... monal com dois grandiosos espetculos, um  primeiro
aniversrio do Show em Si... monal no Teatro Record Centro, em tarde, de
graa, para a meninada, e outro  noite (gravado em lbum duplo) no
qual, sozinho, diante de uma platia de 2 mil pessoas, incluindo Elizeth
e Nara num dos camarotes, fez um show arrebatador, com direito a
imitaes de Roberto Carlos, Hebe Camargo, Wanderla e Frank Sinatra,
esta na pardia caipira de "Somethin" Stupid" ("Rocinha Estpida") com o
baixista Sab imitando Nancy Sinatra. Com o grupo Som Trs e os Metais
com Champignon, Simonal fez os presentes delirarem cantando "Meu Limo
Meu Limoeiro" e recebeu uma ovao com todos de p no "Tributo a Martin
Luther King". Nessa noite, chorando de emoo e felicidade, ele teve uma
prvia do que viveria no Maracanzinho meses depois. Derramando charme,
disseminando expresses como "Que tranqilidade!", em seu estilo alegre
e descontrado, denominado "pilantragem" (a mesma roupagem danante do
cantor americano Chris Montez, que viria ao Brasil em julho desse ano),
Simonal era um sucesso impressionante, embora freqentemente combatido
pela crtica, que o julgava pedante, antiptico, metido a besta,
americanfilo e entreguista. Nessa noite, ficou evidente que, mesmo que
fosse tudo isso, ele era o mais completo showman do Brasil.
Dois dias antes do derradeiro O Fino, realizara-se na Terrazza Martini
da avenida Paulista o coquetel de apresentao do III Festival da Msica
Popular Brasileira da TV Record, sob o comando de Solano Ribeiro, que
continuava instalado no segundo andar do prediozinho da Record com sua
nova equipe: o coordenador geral, Renato Corra de Castro, dois
assistentes e o assessor de imprensa Milton Faria. As inscries se
encerrariam no dia 10 de agosto, e o escritrio era freqentado pelos
interessados e cantores, que circulavam nos programas da TV Record 
procura das novidades.
Numa certa tarde de julho de 1967, Solano foi convidado pelo tcnico de
som para ouvir um novo disco na cabine do Teatro, levando consigo
Caetano Veloso, que estava no escritrio do Festival. Nessa tarde, ambos
ouviram pela primeira vez um disco chamado Sgt. Peppers Lonely Hearts
Club Band, que Zuza lhes mostrou. Era o disco dos Beatles que iria
deflagrar uma nova atitude em Caetano e outros compositores. Quando os
dois desceram, ainda sob a forte impresso do que tinham ouvido, Solano
comentou:
- Voc viu que aquele cara ainda bota LSD numa das msicas?
- Puxa vida, no tinha reparado.
Caetano Veloso no escondia um entusiasmo incomum pelo disco dos
Beatles, chegando a traduzir todas as letras, verso por verso, semanas
depois, quando mostrou o disco a Tom Z no apartamento de Guilherme
Arajo.
Gilberto Gil tambm ficara chapado com Sgt. Peppers. O disco dos Beatles
provocou uma leitura diferente, a de que o rock no era uma coisa to
chula, to descartvel. Havia uma msica inteligente naquilo que estava
vindo de fora, talvez a soluo para que sua msica pudesse atingir o
grande pblico, o que ele julgava no haver acontecido ainda. O i-ii
podia ser banalzinho, como se dizia, mas na concepo de Gil e Caetano,
aquele disco mostrava uma maneira de incorpor-lo  msica popular
brasileira que ambos vinham fazendo.
O noticirio de 18 de julho sobre o acidente em que morreu o general
Castelo Branco eclipsou o destaque das matrias sobre um ato pblico,
com ares cvicos, organizado na vspera para divulgar o terceiro
programa da Frente nica, que seria apresentado por Chico, Nara e
Simonal. Antes, Jair e Elis haviam apresentado o primeiro e Vandr, o
segundo, tendo como convidados Lennie Dale e Clementina de Jesus. Porm,
tanto Chico como Simonal desistiram de participar da manifestao, indo
direto para onde seria gravado o programa, o Teatro Record Centro, de
onde observavam de uma janela o banz que acontecia na Brigadeiro. Atrs
de uma banda da Fora Pblica e da faixa "Frente nica - Msica Popular
Brasileira", o grupo formado por Elis Regina, Gilberto Gil, Jair
Rodrigues, Edu Lobo, Geraldo Vandr, Z Kti e os componentes do MPB 4
liderava centenas de populares, que partiram do largo So Francisco
agitando bandeirinhas brasileiras, caminhando em ruidosa passeata rumo
ao Teatro da Brigadeiro Lus Antnio. L dentro, os fs de Elis
estenderam uma faixa para a "Rainha da Msica Popular Brasileira"
durante o espetculo, que foi encerrado com os cantores, entre os quais
Juc Chaves e Ataulfo Alves, cantando com o pblico o hino da Frente
nica: "Moada querida/ cantar  a pedida/ cantando a cano/ da ptria
querida/ cantando o que  nosso/ com o corao".
 sada do Teatro, ainda havia policiais e aglomeraes de manifestantes
que no tinham conseguido entrar aps a passeata, supostamente um
protesto na tentativa de conscientizao da invaso da msica
estrangeira, mas que acabou assumindo propores insuspeitadas, sendo
depois celebrizada exageradamente como a "Passeata contra as guitarras
eltricas". L estava Elis, bradando pela necessidade de defender as
canes brasileiras, que haviam alcanado um nvel de qualidade muito
superior ao alienado e danante i-i-i, que, no Ibope da TV,
sobrepujava-as a olhos vistos; Vandr, com seu incontido e sincero
patriotismo emocional, vociferando em favor das razes do regionalismo
brasileiro que o levara a estabelecer um marco com "Disparada"; e
Gilberto Gil vivendo um dilema: o conflito entre a causa de origem
poltica, em que sua msica se envolvia declaradamente, e o rompimento
com o establishment, que se afigurava nas reflexes geradas pelo contato
com a msica estrangeira personificada pelos Beatles; entre a gratido
que tinha por Elis e o desejo de orientar sua obra na direo que ela
combatia com todas as foras. A opresso que comeou a viver aumentaria
a ponto de se transformar num tormento durante o Festival que se
aproximava. Ela pode ser percebida nas entrelinhas de um depoimento ao
crtico do JT Dirceu Soares, antes da passeata: "Acho que h, em alguns,
um certo medo de mostrar o que fazem... Chico tem produzido muito.
Vandr, Veloso e eu tambm. Mas ns no damos conta de abastecer o
mercado. Meu repertrio esgotou-se completamente e s agora estou
pensando em compor para apresentar alguma coisa no prximo Festival da
Record". Gil estava decidido a seguir o caminho que o disco dos Beatles
lhe descortinara, e, quando foi sua vez de comandar o quarto Frente
nica, dia 24, dirigido por Goulart de Andrade, houve uma tentativa de
abrir o jogo de vez, ao ler textos que elogiavam Roberto Carlos e ao
colocar Bethnia com uma guitarra eltrica trajando botas e minissaia.
Mas tais atitudes, insufladas por Caetano e Torquato Neto, foram
aplacadas a comear pela reao de indignao de Geraldo Vandr,
extravasada numa entrevista que lhe custou o bilhete azul como
contratado da TV Record.
Essa batalha da "verdadeira msica popular brasileira" contra o ii-i,
que culminou naquela passeata, cujo objetivo era no fundo a salvao do
modelo do programa O Fino da Bossa, no impediu que os compositores que
gravitavam em torno da Record - tornando-se gradativamente familiares ao
pblico - se convencessem da oportunidade de cantar suas composies no
prximo festival a fim de se projetarem definitivamente. E a receita
para isso era seguir a trilha de Chico Buarque, ento um cantor
requisitadssimo em shows pelo Brasil por conta de "A Banda".
Para eles, que tinham participado ao menos em um dos quatro festivais
at ento realizados (os dois da Excelsior, o da Record e o I FIC),
ficava cada vez mais claro que os intrpretes continuavam sendo os mais
visados pelo pblico, embora correndo risco de serem vaiados. De maneira
geral, valia o que era visto no palco e na TV; a msica ainda era
identificada por quem a cantasse. Era o "Arrasto" da Elis, a cano da
Maysa, a msica da Nana Caymmi: poucos sabiam quem eram os autores. A
atividade de compositor era totalmente isolada, e os que no mostravam a
cara continuavam ignorados pelo grande pblico. Alm disso, sentiram na
pele que seu ganho com direitos autorais era muito menor que os cachs
de shows resultantes da exposio logo aps um festival, embora bastasse
estar entre as finalistas para se ter um aumento na renda atravs da
venda de discos, direitos de autor e at do pequeno cach que era pago
nas entrevistas em rdio, o que seria inconcebvel anos depois. Os
festivais proporcionavam esses corolrios. Foi ento que vrios
compositores decidiram ir para o palco defender suas prprias msicas,
em vez de indicarem um cantor, como acontecera no segundo festival.
Afinal, a maioria deles - Vandr, Gil, Edu e mais recentemente Caetano -
tinha discos gravados como cantores, alguns at vendendo muito bem. O
raciocnio tinha lgica e a inteno era lcita.
Como se no bastasse, os compositores tinham uma devoo  sua msica
que compensava a falta de extenso vocal e os demais artifcios dos
canrios. Nos festivais anteriores, os intrpretes haviam entrado por
baixo e sado por cima, na medida em que comearam como convidados dos
compositores e terminaram atuando sobre os mesmos ao demandarem msicas
de festival. Chegou-se ao ponto dos grandes cantores no aceitarem mais
perder, considerando-se derrotados mesmo com o segundo lugar. Houve quem
chegasse ao cmulo de admitir que s participaria se tivesse garantia de
ganhar.
Desde as 9 da manh de 26 de julho, ltimo dia das inscries, que se
encerrariam  meia-noite, a fachada do Teatro Record Consolao estava
tomada por uma fila de rapazes e meninos, padres, freiras e tocadores de
viola que serpenteava pelas escadas do prediozinho, se alongando pela
calada  frente do teatro. Naturalmente, os compositores conhecidos
podiam subir direto ao escritrio, entre eles Chico Buarque e Edu Lobo,
que deixaram para se inscrever na tarde do ltimo dia. Mais de 4 mil
msicas foram recebidas para a disputa de 25 milhes de cruzeiros e do
trofu Viola de Ouro para o primeiro colocado, 10 milhes para o
segundo, 7 milhes para o terceiro, 5 milhes para o quarto e 3 milhes
para o quinto. O melhor intrprete receberia a Viola de Prata.
Durante o ms de agosto, o time de selecionadores se reuniu no QG
secreto do Festival, desta vez localizado na Lapa, na casa ao lado de
uma igreja protestante,  rua Antnio Mariz, 145, onde morava o pai de
um dos membros do grupo, o maestro Jlio Medaglia. Municiados com
caipirinhas e salgadinhos, ele e seus companheiros Sandino Hohagen,
tambm maestro, os pianistas Amilton Godoy e Csar Mariano, o poeta
Ferreira Gullar, Roberto Corte Real e, como sempre, Raul Duarte
atravessaram aquelas tardes, no raro tambm as noites, ouvindo centenas
de msicas inditas. Conquanto as gravaes e os gravadores ainda
deixassem muito a desejar, prejudicando a reproduo, o nvel das
composies superava o do Festival anterior, com letras sobre assuntos
diversos, como jangadeiros, que aparecia em 62 das msicas vindas de So
Paulo. Da Bahia mesmo, terra de Caymmi, ningum se lembrou do tema de
"Arrasto".
Entre os compositores das 30 canes anunciadas no dia 6 de setembro,
estavam a dupla vencedora do I FIC, Dori Caymmi e Nelsinho Motta (com "O
Cantador"), Lus Carlos Paran (com "Maria, Carnaval e Cinzas"),
Pixinguinha e Hermnio Bello de Carvalho ("Isso No Se Faz"), Johnny Alf
("Eu e a Brisa"), Geraldo Vandr e Hilton Acioly (com "Ventania", que
Vandr preferia intitular "De Como Um Homem Perdeu Seu Cavalo e
Continuou Andando"), Chico Buarque ("Roda Viva"), Edu Lobo ("Ponteio"),
Gilberto Gil ("Domingo no Parque"), novamente Gil em parceria com sua
mulher Nana Caymmi ("Bom Dia") e Srgio Ricardo ("Beto Bom de Bola").
Entre os novatos, Renato Teixeira com "Dada Maria", Toquinho e Vitor
Martins com "Belinha", Sidney Miller ("A Estrada e o Violeiro"), o
baiano Antnio Marques Pinto ("Festa no Terreiro de Alaketu") e um certo
Martinho Jos Ferreira, por vezes grafado Pereira, com "Menina Moa".
Este ltimo era Martinho da Vila, ao passo que o baiano seria depois
conhecido como Antnio Carlos, formando dupla com Jocafi. Foi quem mais
atazanou a organizao do Festival, discordando do sorteio para a ordem
de apresentao, alm de criticar Marcos Lzaro, por achar que tambm
deveria ser contratado com a cantora Maria Creusa, sua namorada. Alis,
Marcos no contratou nenhum dos dois, nem antes nem depois do Festival.
A imprensa, que abria um espao incomparavelmente superior ao de
qualquer festival anterior, divulgou no Dia da Independncia as ltimas
seis concorrentes, entre elas "O Combatente" (de Walter Santos e Tereza
Souza) e "A Moreninha" (de Tom Z).
Durante o ms de setembro, os competidores afiavam suas armas, ajustando
msicos e cantores e cuidando dos arranjos, que sabiam ser
importantssimos para ajudar a levantar uma cano. Declarou-se
oficialmente que vrios compositores iriam defender suas msicas,
abrindo mo dos cantores da Record ou dos que se ofereciam para
participar do Festival, que na verdade era um monumental programa de TV,
equivalente aos coast to coast da televiso americana. No dia 13 de
setembro, foram anunciados os intrpretes. Dez deles eram compositores:
Edu Lobo, Srgio Ricardo, Caetano Veloso, Demetrius, Erasmo Carlos,
Sidney Miller, Adilson Godoy, Geraldo Vandr, Chico Buarque e Gilberto
Gil. Com exceo de Chico, era a primeira vez que os demais pisavam o
palco para defender suas msicas num festival. Entre os cantores,
Roberto Carlos, Elis, Claudete Soares, Jair, o MPB 4, Ronnie Von, Wilson
Simonal, Elza Soares, Slvio Csar, Gal Costa, Mrcia, Jamelo, Agnaldo
Rayol, Maria Creusa e at Hebe Camargo estariam no Teatro Record Centro
nas eliminatrias do III Festival.
Diante da crescente expectativa, as gravadoras pretendiam atingir marcas
to expressivas como as 220 mil cpias de "Disparada" com Jair ou as 125
mil de "A Banda" com Nara Leo. Nesse ms de setembro, o produtor de
discos da RGE em So Paulo, Manoel Barenbein, foi contratado pela
Philips e sua primeira misso foi participar de uma reunio de
produtores no Rio com o presidente da companhia, o ex-livreiro Alain
Cohen Troussat, um visionrio. Como Jos Scatena da RGE, Emilio Vitale
da Copacabana ou Sebastio Bastos da Audio Fidelity, Alain via com
clareza o futuro da msica popular brasileira, tendo se deparado, ao
chegar, com a espantosa quantidade de 160 artistas contratados, que
pouco a pouco foi sendo reduzida. O senhor Troussat, antecessor de Andr
Midani, iniciou a reunio com estas palavras:
- Senhores, estamos com 18 artistas, compositores ou cantores, com
msicas classificadas no Festival da Record. Isso significa que temos
metade do Festival aqui na Philips. Imaginem o poder desta companhia. As
eliminatrias sero definidas nestes dias. Ento, faam o seguinte: trs
LPs com as 36 msicas, cada disco com as 12 de cada eliminatria. Em vez
de fazermos 18 compactos simples com nossos artistas, vamos fazer trs
LPs, cada um com as msicas de cada noite, usando outros artistas da
nossa gravadora para as 18 msicas restantes.
Dessa maneira, Armando Pittigliani e seus produtores ficaram
encarregados das gravaes no Rio e Barenbein, de 23 das 36 msicas em
So Paulo, onde morava a maioria dos artistas. Misso impossvel para um
estreante na companhia, mas no para o azougue Barenbein, que manobrava
com a maior facilidade na rea jovem e na bossa nova. Manoel partiu com
fora total. As gravaes foram feitas no estdio da RGE 
rua Paula Souza, com concorrentes como Gil, Caetano, Jair, Elis, Mrcia,
e contratados como Gal Costa (cantando "Bom Dia") e MPB 4 ("Roda Viva").
No Rio, gravavam Nara e Sidney Miller, Edu e Marlia, entre outros,
completando assim as 36 faixas para os trs discos que deveriam ser
postos  venda no dias seguintes a cada eliminatria. Um plano indito,
capaz de fazer inveja aos produtores do Festival de San Remo. Alm
dessas gravaes oficiais, cantores de outras gravadoras tambm gravavam
previamente, e assim os compactos simples a 2,5 cruzeiros novos estariam
igualmente  venda.
As matrias nos jornais aguavam a expectativa na cidade ao tecer
consideraes sobre as chances de cada um. De maneira geral, a msica de
Gil era uma das mais cotadas, a de Edu era bem falada, enquanto a de
Caetano permanecia uma incgnita. Dizia-se que o grupo baiano estava
muito forte e o empresrio de Gil, Caetano e Bethnia, Guilherme Arajo,
antecipava: os baianos vo abafar ao introduzir na msica popular
brasileira sons eletrnicos s conhecidos na msica clssica.
No dia 24 de setembro, foi definida a formao dos grupos de 12 para
cada eliminatria e, conforme o esperado, a cobertura da imprensa foi
macia. Jamais um evento na msica popular brasileira tinha sido alvo de
tamanho alvoroo. Desse dia em diante, os principais jornais de So
Paulo estampavam diariamente matrias esmiuando fofocas, arriscando
palpites e analisando cada cano. A Folha de S. Paulo incumbiu para as
suas anlises o mais experiente jornalista do assunto, j que era o
nico a cobrir festivais desde o primeiro da Excelsior, Adones de
Oliveira, auxiliado por Orlando Fassoni; a dupla da ltima Hora era
formada por Chico de Assis, brilhante nas avaliaes e prognsticos, e o
gil reprter Silvio Di Nardo nos bastidores; o Jornal da Tarde destacou
o saudoso Dirceu Soares para comentar, alm dos reprteres Fernando
Morais e Jos Maria de Aquino para cobrir detalhes, e at o Estado
abriu grande espao, complementado pelas consideraes do editor Nilo
Scalzo. Pudera! A nata da msica popular, de Pixinguinha ao novato
Martinho da Vila, estava concorrendo. Era um verdadeiro Grande Prmio,
com 36 canes alinhando-se na fita de partida, pilotadas pela fina flor
dos intrpretes brasileiros que, pela primeira vez, corriam lado a lado
com compositores, defendendo sua obra. O III Festival da Record
prometia, e a largada seria no sbado, 30 de setembro.
Na vspera, estreou em So Paulo a pea indita O Rei da Vela, escrita
34 anos antes por Oswald de Andrade, e dirigida com grande estardalhao
por Jos Celso Martinez Corra. Nessa tarde, houve o primeiro ensaio das
12 msicas do dia seguinte, ao mesmo tempo em que a composio do jri
foi definida e anunciada.
Os critrios para a escolha do corpo de jurados do Festival eram uma
questo delicada, pois alm da capacidade tcnica reconhecida e da
confiabilidade, havia um outro aspecto de vital importncia, que nenhuma
das matrias de jornal abordava. Por razes mais do que bvias, como se
ver. Antes da formao desse jri, Paulinho Machado de Carvalho j
estava bastante preocupado com possveis dificuldades junto  Censura,
ento chefiada por uma mulher, dona Judith. A fim de conseguir um
trnsito mais eficiente, especialmente de msicas consideradas muito
fortes, ele chegou at a empregar seu filho Srgio na televiso que
dirigia. Ainda assim houve problemas.
Para que pudessem ser liberadas, as letras das msicas eram enviadas
para a apreciao da Polcia Federal, que, depois de estud-las,
convocava o prprio Paulinho para indicar o que deveria ser modificado.
Por exemplo, os censores comentavam que certa frase tinha um duplo
sentido e lhe pediam para tentar convencer o compositor a modific-la,
evitando um problema maior, como o que teria se precisassem tomar
medidas contra a msica. A Record procurava ento mostrar ao compositor
que a modificao poderia ser feita sem se deturpar a obra, como ocorreu
com algumas msicas desse Festival. Alguns relutavam, mas acabavam
aceitando diante do argumento de que a troca de uma ou duas palavras no
iria deformar o contedo da letra. s vezes, era o prprio Paulinho quem
falava com o compositor, outras era Raul Duarte ou at mesmo um membro
do comit de seleo. Nas circunstncias vigentes, esse era um
procedimento normal para a direo da TV Record, a fim de se evitar o
escndalo de uma msica ser barrada. Srgio Ricardo e Mrio Lago foram
dois que reagiram  idia de mudar algum verso por sugesto da Censura,
mas depois de uma reunio com Srgio, lder dos compositores de
esquerda, chegou-se a um consenso.
Eis por que a formao do grupo de jurados exigia um cuidado todo
especial. Seus membros eram escolhidos de comum acordo pela organizao
do Festival, representada por Solano Ribeiro, Raul Duarte e pelo prprio
Paulinho Machado de Carvalho, buscando-se equilibrar as tendncias de
esquerdistas e direitistas, para que, num momento poltico to
perturbado como o que atravessava o Brasil, nenhum dos lados pudesse
desfrutar de uma vantagem indevida atravs do jri. A diviso segundo
tendncias polticas existia abertamente no cinema, nos jornais, na
televiso, na msica e no teatro: o TBC era ligado s linhas
tradicionais, opostas s do Teatro de Arena ou do Opinio. Um jri da
faco direitista certamente despertaria a oposio da imprensa, onde a
maioria de esquerda poderia causar um rombo no Festival se o
considerasse um jogo de cartas marcadas. Logo, se no grupo de
especialistas em letra e msica que fazia a seleo prvia contavam,
alm da intuio, o conhecimento musical e potico, no jri das
eliminatrias era preciso manter o equilbrio tcnico e obter o
equilbrio poltico. Tratava-se de resolver uma equao com trs
variveis: o conhecimento para a avaliao, a credibilidade junto 
empresa e ao meio musical e a posio poltica. Este  um dos aspectos
fundamentais que distinguiam os festivais desse perodo dos que seriam
promovidos posteriormente.
Para o III Festival da Record, os jurados seriam: o comediante Chico
Ansio, os maestros Jlio Medaglia e Sandino Hohagen, Roberto Corte Real
e Raul Duarte pelo canal 7, o poeta Ferreira Gullar e sua mulher Tereza
Arago, jornalista, Carlos Manga pela TV Rio (canal 13), o escritor e
jornalista Roberto Freire, Carlos Vergueiro representando o jornal O
Estado de S. Paulo, Salomo Schwartzman representando a revista
Manchete, os crticos musicais Franco Paulino e Srgio Cabral, Lus
Guedes da revista Cash Box e Sebastio Bastos, indicado pela Associao
Brasileira de Produtores de Discos.
No dia 30 de setembro, todos os ingressos para a primeira eliminatria
haviam sido vendidos. Na platia, as torcidas organizadas - pela
primeira vez com lderes declarados - dominavam os 2 mil lugares do
Teatro. O produtor Luiz Vergueiro comandava os torcedores de "Ponteio";
"Roda Viva" era puxada por uma ex-namorada de Chico Buarque, Caetano
Veloso (que no cantava nessa noite) e Pitty incentivavam Gil e Nana;
Roberto Carlos era o dolo da moadinha da Jovem Guarda; havia uma turma
do TUCA, outra da Arquitetura, mas o grupo mais organizado torcia
abertamente por "O Combatente", sob a liderana de Jacar, amigo de
Chico Buarque. Organizado demais, para o gosto de alguns. Dava at para
desconfiar.
Enquanto nos bastidores, repletos de artistas, jornalistas, compositores
e namoradas, o conhaque rolava  vontade para acalmar os mais nervosos,
no palco, decorado com uma grande viola estilizada revestida de papel
amarelo brilhante, a orquestra, postada ao fundo sob o comando do
maestro Ciro Pereira, atacou o tema de abertura. Snia Ribeiro e Blota
Jnior apresentaram a seguir, pela primeira vez, o LP com as 12 msicas
que seriam ouvidas, demonstrando o sucesso de uma das mais espetaculares
cartadas de marketing da histria do disco no Brasil. Conforme o plano
de Alain Troussat, estava tudo gravado e o disco da Philips estaria 
venda na segunda-feira. Faltavam dez minutos para as 22 horas quando a
primeira concorrente foi anunciada: "O Combatente", com o Quarteto Novo,
Jair Rodrigues e o prprio Walter Santos ao violo. Aps a interpretao
vigorosa de Jair, lembrando "Disparada", com o respaldo da torcida de
linha poltica definida, tinha-se a impresso de que esta seria uma das
quatro finalistas. Em seguida, Gal Costa, de minissaia vermelha, e
Slvio Csar cantaram a marcha-rancho "Dada Maria", acompanhados pelo
conjunto de Lus Loy. O autor era o estreante Renato Teixeira, que
naquele dia veio de Taubat, onde morava, comprou um ingresso na
bilheteria, assistiu  apresentao de "Dada Maria" felicssimo e voltou
para sua cidade, recompensado por sua composio estar entre as
finalistas. Anos depois, ele seria consagrado ao compor "Romaria".
Depois da engraadinha "E Fim", com a autora Snia Rosa, viria um dos
mais fortes concorrentes: foi s Blota anunciar Chico Buarque para que o
pblico prorrompesse em aplausos. Ele entrou de smoking, calmo e feliz,
depois do Som Trs e do MPB 4, para cantar "Roda Viva", que, conforme o
plano de vo no brilhante arranjo de Magro, provocou intensos aplausos
no momento certo: na ltima repetio do refro, que comea lenta e vai
apressando: "Roda mundo, roda gigante/ roda moinho, roda pio/ o tempo
rodou num instante/ nas voltas do meu corao". Houve um intervalo
providencial, que ajudou o pblico a se aquietar para receber a doce e
singela cano "A Moreninha" na voz de Djalma Dias. Era uma das
primeiras composies de Tom Z, que a inscrevera induzido por Gilberto
Gil.
Uma apresentao irrepreensvel do Festival foi a de "Ponteio", com Edu
Lobo, o Quarteto Novo, o conjunto vocal Momento Quatro (Maurcio
Maestro, Z Rodrix, David Tygel e Ricardo S) e uma cantora linda, de
fulgurante presena, cabelos curtos, num longo vestido tomaraque-caia,
dourado e vermelho: Marlia Medalha. A platia vibrou tanto quanto os
que j conheciam a msica de Edu e Capinan, convencida de que "Ponteio"
seria uma finalista peso-pesado. De fato, ela seria apontada como a
melhor da noite por Dirceu Soares no jornal da Tarde.
A msica seguinte tivera uma receptividade inusitada antes da
apresentao daquela noite. Durante a tarde, quando Ciro Pereira baixou
as mos para a orquestra atacar o arranjo do jovem Jos Briamonte, todos
os que acompanhavam o ensaio ficaram num silncio sepulcral,
emocionados. Foi a primeira vez num ensaio de festival que uma cano
foi aplaudida de p pelos msicos, cantores e tcnicos presentes. Era
bem uma cano de msico, numa interpretao afetiva na voz grave de
Mrcia.  noite, quando, vestida de azul, ela terminou de cantar como
stima concorrente da primeira eliminatria, no houve nem aplausos nem
vaias. A romntica composio de Johnny Alf no suscitou nenhum tipo de
reao daquela platia agitada, agora esttica e incapaz de compreender.
Tinham acabado de ouvir pela primeira vez uma das mais belas canes da
Era dos Festivais, a obra-prima de Johnny Alf "Eu e a Brisa", que ele
compusera sob encomendada para um casamento de amigos. Seu destino
imediato seria a desclassificao, lamentada intimamente at por Solano
Ribeiro, mas com o tempo se tornou uma das msicas que Johnny nunca mais
pode deixar de cantar em qualquer show de sua vida.
O agito voltou em seguida com vaias na entrada de Demetrius,
substitudas por aplausos ao final de sua marcha-rancho "Minha Gente".
Quando soube da desclassificao, ficou inconsolvel, chorando sozinho
no banheiro por mais de dez minutos. As duas seguintes no animaram o
pblico, nem Claudete Soares em "Ela, Felicidade", nem Wilson Simonal,
trajando sandlias e uma blusa branca de gola rul, com uma cruz de
madeira pendente de um colar: "O Milagre" no aconteceu. Em compensao,
o dolo Roberto Carlos fez seus fs se levantarem para abafar as vaias
dos que eram contra o i-i-i, os representantes da linha dura que o
julgavam alienado, quem sabe at a servio dos militares. Acompanhado
pelo conjunto carioca O Grupo, Roberto no se perturbou. Mesmo lendo a
letra que no tinha tido tempo de decorar, cantou com classe e com o
peculiar toque romntico que atingia em cheio seu pblico, dominando os
descontentes. O samba "Maria, Carnaval e Cinzas", de Luiz Carlos Paran,
foi dos mais aplaudidos e os jurados, com fones de ouvido e posicionados
no poo da orquestra, perceberam. A ltima msica da noite suscitou duas
reaes distintas: aplausos na apresentao e vaias quando foi anunciada
como a quarta classificada da noite. Era "Bom Dia", com Nana Caymmi
acompanhada do parceiro Gilberto Gil ao violo e, por razes
perfeitamente explicveis, de um pequeno naipe de cordas. A explicao
estava no octeto de cordas da segunda faixa do lado A do disco Revolver,
dos Beatles: "Eleanor Rigby". Ao gravla, Paul McCartney havia sugerido
ao produtor George Martin um arranjo no estilo de Vivaldi, mas na
verdade ele foi baseado na trilha de Bernard Hermann para o filme de
Truffaut Fahrenheit 451. "Bom Dia"
tirou o lugar de "O Combatente" entre as classificadas, e assim Nana
Caymmi teve que suportar mais uma sonora vaia em sua carreira de
festival, alm de praticamente no ser ouvida na reapresentao de sua
msica. Foi a primeira grande vaia nos festivais da Record. As outras
trs classificadas da noite foram "Ponteio", "Roda Viva" e "Maria,
Carnaval e Cinzas". Houve quem quisesse tirar satisfao dos jurados,
mas nada aconteceu.
Nos dias que antecederam a segunda eliminatria, a torcida de "O
Combatente", liderada pelo Jacar, apelido do sobrinho do deputado
Cantdio Sampaio, se fez ouvir. Elaboraram um abaixo-assinado, foram 
redao da ltima Hora, fizeram passeata e protestaram. O grupo formava
a torcida mais bem organizada do Festival, tinha uma ideologia poltica
definida e participava ativamente, ao lado dos artistas do Teatro de
Arena, do movimento contra os militares desde 1964. Reuniam-se em
restaurantes ou bares paulistanos, como o Eduardo da rua Nestor Pestana
ou o Sand Churra, da Galeria Metrpole, onde ouviam as msicas antes
mesmo de serem inscritas nos festivais. Eram mais ou menos 30 jovens, na
faixa dos 20 anos, entre eles Alpio Correia, Regina Guimares, Joo
Roberto Batata, Manoel Muniz de Souza, Carlos Zaidan e uma moa
baixinha, nariguda e entrona, com uma propenso natural para a liderana
e a tremenda capacidade de conseguir o que parecia impossvel, Tel
Cardim. S para dar uma idia, quando a pea Skind estava no Teatro
Record, ela conseguira enganar o porteiro Benedito fazendo-se de
surda-muda e, num momento de vacilo, abrira a porta para sua turma
entrar no peito. No Festival, Tel fez amizade com o porteiro Babalu e
conseguiu entrar com seu bando novamente, para vaiar Roberto Carlos e
torcer como fanticos por "O Combatente", cuja letra da amiga Tereza
Souza tinha a ver com sua posio poltica: "Tem liberdade me esperando,
eu vou/ Tem esperana me acenando, eu vou/ tem verdade me levando, eu
vou". Um tanto demaggica, como se v, sobre uma melodia que destoava do
resto da obra de Walter Santos, bossa-novista declarado. Situados no
centro da platia, eles levantavam cartolinas com dizeres de apoio  sua
concorrente, chamando tanta ateno que criaram um clima antagnico,
pois as demais torcidas desconfiaram de um esquema montado. Todo o
esforo resultou em nada, porque a msica de Walter e Tereza ficou mesmo
de fora. Jair chegou a chorar, inconformado, e consta que a gravadora
RCA, onde a msica j estava gravada por Walter, havia comprado grande
quantidade de entradas bem no meio do Teatro, um indcio da outra grande
batalha que se travava nos bastidores.
Desde segunda-feira, j estava nas lojas, ao preo de 8,50 cruzeiros
novos e bem antes da RGE e da Odeon, o LP da Philips com as 12 msicas
da primeira eliminatria.
Nessa mesma semana, Chico Buarque deixaria Blota Jnior e os demais
concorrentes do Esta Noite Se Improvisa surpresos pela velocidade com
que apertou o boto quando ouviu que a expresso era "No interessa".
Incontinenti, pediu a Caulinha o tom de d maior, deu uma tragada,
jogou fora o cigarro e atacou uma msica inteira, com versos rimados,
declarando o autor, o cantor e at o ano da gravao, 1952. Os
concorrentes se entreolharam desconfiados e Blota perguntou: "Que nota
voc merece, Chico?". Puxando outro cigarro, pensou bem e respondeu:
"Mereo menos seis. Eu fiz essa msica agora mesmo". Foi uma gargalhada
geral, seguida de uma ovao seguramente maior do que se ele tivesse
lembrado de algum samba com "no interessa". Desde agosto, Chico
Buarque, o maior dolo do Esta Noite Se Improvisa, tinha um rival
respeitvel, o qual, nessa noite, tambm ficou boquiaberto mas acabou
ganhando o automvel Gordini. Era Caetano Veloso, que se tornava mais
conhecido a cada apario na TV e ainda iria concorrer no Festival.
Ao som de marchinhas executadas por uma banda, o pblico entrou no
Teatro Record Centro pouco antes das 21 horas de 6 de outubro, com a
turma da linha esquerdista, que alguns bacanas desprezavam como um bando
de arruaceiros, se atropelando na subida para o balco e tomando posse
de seus lugares. Mais do que na primeira noite, havia um agito
diferente, e alguns grupos estavam muito mais interessados em torcer
destampadamente por certas msicas do que em ouvir as concorrentes.
Passava das 21h30. Ainda com alguns claros, a princpio a platia no se
empolgou com a primeira concorrente da noite: cantada pelo grupo vocal O
Quarteto (Carlos Vianna, Paulino Corra, Waltinho Gozzo e Hermes dos
Reis), a bossa nova romntica "Rua Antiga", de Roberto Menescal, s foi
aplaudida no final. O mesmo aconteceu com a segunda msica, "Brinquedo":
indiferena durante a apresentao e, ao final, palmas da torcida do
TUCA dirigidas a Claudete Soares, que saiu do palco emocionada. Os
aplausos esquentaram mesmo com a entrada de Simonal para defender
"Belinha", de Toquinho (que tocava violo a seu lado) e Vitor Martins. O
cantor foi aplaudido vrias vezes durante a msica, cujo refro era
cantado em coro, pois o editor Corisco, fazendo jus ao apelido, havia
distribudo cpias da letra para o pblico. Houve at pedidos de bis
para Simonal, que tinha sacrificado a marcha-rancho ao increment-la com
muito "champignon", bem a seu estilo.
Palmas e vaias, gritos e bater de ps, flores e serpentinas eram as
armas que a platia ainda guardava para soltar quando fosse o momento.
Mas no seria para a quarta concorrente, "Por Causa de Maria", com
Slvio Csar e os seis cegos do grupo vocal Titulares do Ritmo. At ali,
nada tinha provocado fundamente as torcidas naquela segunda noite do
Festival.
O pblico se manifestaria com entusiasmo na cano seguinte, "Domingo no
Parque", a mais esperada de todas. Dizia-se que Gil faria uma
experincia misturando erudito com i-i-i e popular. De fato, havia um
pouco de cada, mas o que se viu naquela primeira apresentao  que ele
injetara, antes de tudo, o ritmo da capoeira, para depois orientar
Rogrio Duprat, autor do clebre arranjo, no sentido de acrescentar
contornos do erudito e do rock, como George Martin fizera no disco dos
Beatles que o fascinava. Dessa maneira, soaria natural a aparente
incoerncia da participao de um berimbau - principal instrumento na
capoeira - ao lado do som que caracterizava a nova proposta musical, o
da guitarra eltrica, considerada um insulto pela torcida da linha
esquerdista. O impressionante arranjo de Rogrio Duprat permitiu que
tamanho vcuo proveniente das diferentes genealogias musicais entre
berimbau e guitarra pudesse desaparecer, fundindo-se ambos para se
integrarem harmoniosamente com a orquestra. Gil, de cavanhaque bem
aparado e com um blazer traspassado de botes metlicos, foi recebido
com algumas vaias da galeria, e em resposta apenas olhou e sorriu.
Diante de sua tranqilidade, certamente ningum na platia podia
imaginar o que acontecera pouco antes.
Faltavam umas quatro horas para comear a segunda eliminatria quando
Paulinho de Carvalho foi avisado:
- O Gilberto Gil no vem cantar.
- Como no vem cantar?
- No, no vem.
Paulinho viu que o caso era srio e no pestanejou. Saiu do Teatro
direto para o Hotel Danbio, algumas quadras acima na Brigadeiro Lus
Antnio, onde ele estava hospedado com Nana Caymmi, sua segunda mulher.
Quando entrou no apartamento, Paulinho no acreditou no que viu: Gil
estava de cama, envolto em cobertores, tremendo de frio. Parecia um
bicho acuado. A situao dramtica que vivia naqueles dias, aquele
conflito que o remoa desde julho, chegara ao auge; e Gil entrara em
pnico na hora de competir, amarelando como um jogador de futebol em dia
de deciso. Estava sem condies de defender sua cano. Com a ajuda de
Nana, deram-lhe um banho. Paulinho ajudou at a vestir suas meias.
Caetano chegou a for-lo a apresentar-se e afinal conseguiram que ele
prometesse que iria ao Teatro cantar.
Agora ele entrava no palco aparentemente  vontade, embora no mximo da
tenso, constrangido e apavorado. Olhou e sorriu diante das tmidas
vaias que se repetiram na entrada dos Mutantes, com Rita batendo pratos
de percusso, Serginho e Arnaldo tocando guitarra e baixo eltricos 
sua esquerda, e Dirceu "Xuxu" Medeiros no berimbau,  direita. Quando a
orquestra atacou a grandiosa introduo de Rogrio Duprat, a vibrao
tomou conta do pblico: "O rei da brincadeira,  Jos/ o rei da
confuso,  Joo/ um trabalha na feira,  Jos/ outro na construo, 
Joo...". Foi um susto. Ningum abriu o bico para vaiar. Gil ganhou o
pblico. Ao final, sentiu-se que "Ponteio" tinha mesmo uma rival de
respeito.
Quando Blota Jnior anunciou o nome de Carlos Imperial, autor da
marcha-rancho "Uma Dzia de Rosas", houve uma vaia generalizada, que
aumentou quando descobriram o autor vestindo smoking prximo a um
camarote.
Preparado para mais vaias, o estreante em festivais Ronnie Von entrou de
verde, sendo recebido com rosas amarelas de fs. Mas a maioria assobiava
e berrava estrepitosamente contra o i-i-i e seus smbolos, guitarras
e cantores. Nos camarins, o fragilizado Gil ficou inconformado com a
manifestao contra Ronnie Von, chegando a cogitar abandonar o Festival,
s se acalmando aps a interferncia de Nana e Dori. Depois da
eliminatria, Imperial cunhou mais uma mxima para seu repertrio de
gozador que adorava passar por cafajeste: "Prefiro ser vaiado no meu
Mercury Cougar a ser aplaudido dentro de um nibus".
Por conta do i-i-i, os simpticos e competentes Golden Boys tambm
foram apupados ao acompanharem Adilson Godoy no samba "Manh de
Primavera", que antecedeu a estreante em festival De Kalafe, que mais
parecia uma noiva com maquiagem da feiticeira do Mgico de Oz. Cantou
"Cantiga de Jesuno", de Capiba e Ariano Suassuna e... desapareceu nas
terras astecas.. Em compensao, Marlia Medalha, uma das presenas
femininas mais comentadas na primeira eliminatria, foi aplaudidssima
antes de comear a cantar com o grupo Momento Quatro o frevo "Diana
Pastora", mas com respeito  msica, nada aconteceu.
Quando Elis entrou, por volta das 22h30, foi recebida com flores e
serpentinas atiradas ao palco e com gritos de "Elis, Elis". Trajava um
vestido branco acima dos joelhos, sem manga, e depois de cantar com
afinao impecvel "O Cantador", com as modulaes para cima e para
baixo em "Ai, eu canto a dor/ de uma vida perdida sem amar", ficou
radiante com a recepo. Extravasou depois: "Desta vez lavei a gua, meu
pblico ainda existe".
"Sou violeiro caminhando s/ por uma estrada caminhando s/ Sou uma
estrada procurando s/ levar o povo pra cidade s" eram os versos
iniciais do extenso baio "A Estrada e o Violeiro", que Nara e o tmido
Sidney Miller cantaram hesitantes para um pblico que se cansou dos seus
70 versos, despertando depois, com a entrada de Jair, recebido com
gritos de "O Combatente!" vindos da mesma torcida frustrada, aquela do
balco. Como se pudesse voltar atrs. As manifestaes eram to fortes
que Blota interveio, dizendo: "Jair Rodrigues, assim, no pode cantar. E
no sabemos se estes gritos so de desagravo ao cantor ou se so para
prejudicar o Festival. Se no forem para atrapalhar a festa, faam
silncio". S a foi que ele cantou "Samba de Maria", de Francis Hime,
um rosrio de, acreditem, 29 Marias numa letra pouco inspirada de
Vincius, que no agradou.
As quatro classificadas foram anunciadas aps um intervalo em que tambm
se procedeu ao sorteio da ordem de apresentao para a terceira
eliminatria. A primeira anunciada foi "Domingo no Parque", que Gil e
praticamente todos os jornalistas tinham certeza que entraria. Depois de
reinterpret-la, saiu chorando, emocionado com os aplausos. A segunda
anunciada foi "O Cantador", que deixou Elis pulando de felicidade,
tambm recebida com aplausos imediatamente transformados em sonoras
vaias para a classificao de "A Estrada e o Violeiro", uma msica
inteligentemente elaborada, mas que naquele momento era o exemplo tpico
de concorrente antifestival. Quando anunciaram "Samba de Maria", Jair,
um dos mais queridos cantores da Record, teve que pagar o pato e
agentar vaias estrepitosas dirigidas ao jri. Ficou desorientado,
tentou cantar em vo e, quando conseguiu, no foi ouvido. Elis no se
conformou e entrou no palco decidida a apoi-lo, sendo seguida por Gil,
Nara, Dori e Nana. Ao sair, Jair declarou: "Estou como Pncio Pilatos
nesta histria, no tenho nada com isto, a voz do povo  a voz de Deus".
As cortinas se fecharam dando por encerrada mais uma etapa, mas um bando
de torcedores no queria saber de nada, mostrando abertamente seu
descontentamento e berrando repetidamente "Marmelada!". No dava para
acreditar, mas um dos mais revoltados queria jogar gasolina no fosso
onde estavam os jurados. Nessa noite ficou absolutamente certo que
aquele seria o Festival da Vaia. Benza Deus!
Parecia que Paulinho e Solano estavam adivinhando problemas quando
montaram o jri. Trs dias depois da segunda eliminatria, fazendo-se
porta-voz do pblico, Chico de Assis escreveu quase uma pgina inteira
na Ultima Hora, tecendo consideraes e resumindo os problemas com as
classificaes: segundo autores, msicos e cantores, "A TV Record
pressionou o jri a classificar as canes cantadas por Elis Regina e
Jair Rodrigues ... porque so contratados da Record ... A TV Record est
com o resultado no bolso do colete e o Festival est sendo pr forma", e
os do jri "so paus-mandados da TV Record". Pintou sujeira.
Paulinho Machado de Carvalho replicou em entrevista ao Estado: quem
assim pensava devia perguntar a cada membro do jri, pois "dos 15 apenas
trs so ligados  TV Record. Todos eles so bem conhecidos e no tm
interesse nenhum no Festival; so todos profissionais independentes".
Aproveitou para lamentar as torcidas compradas por candidatos  Viola de
Ouro e ressaltar que o grupo que classificara as 36 s tivera
conhecimento dos nomes dos autores aps o julgamento. No dia seguinte,
Chico de Assis recuou, escrevendo: "No pensei que a matria pudesse
ferir tanto as sensibilidades ... no que diz respeito  apreciao do
processo geral do Festival, no houve problema algum ... meu comentrio
terminou com uma apreciao serena". E, entre elogios ao Festival, fez
uma afirmao proftica: "Nossa poca ser lembrada pelos que viro como
ns lembramos da dcada de 30 a 40, poca de Ouro". Dois dias depois, os
dois fumaram o cachimbo da paz numa foto da ltima Hora e esclareceu-se
o caso "O Combatente", em que Tereza Souza se considerava prejudicada
por ter sido a primeira msica da noite. Os 15 jurados deram a nota
intermediria de O a 40, ou seja, 20, totalizando 300 pontos. Da em
diante, as melhores ganhavam mais e as piores, menos. Na tabulao
final, houve seis msicas com mais de 300 pontos, e as quatro melhores
dentre elas entraram. As acusaes caram todas no vazio.
Durante a semana, a crtica se desfez em elogios para "Domingo no
Parque", dissecando a letra de Gil e prenunciando um novo caminho para a
msica brasileira, enquanto os comentrios paralelos destacavam a
procura pelo compacto de "Roda Viva" com Chico e do LP da primeira
eliminatria, por causa de "Ponteio" e da "msica do Roberto". As
reportagens contavam detalhes da carreira dos Mutantes na tentativa de
aproximar o i-i-i da msica popular brasileira e entrevistavam a
forte candidata  a melhor intrprete, Marlia Medalha, casada com o ator
do Arena Isaas Almada. Na Folha de S. Paulo, Adones afirmou que o
Festival era o atestado de bito da bossa nova, que perdia o lugar para
a Bahia e o Nordeste. A nova inspirao, segundo o empresrio dos
baianos Guilherme Arajo, era o som universal.
As entradas para a terceira eliminatria e para a final haviam se
esgotado uma semana antes, e a organizao do Festival estava pulando
como sapo para conseguir lugares para as famlias do governador Abreu
Sodr e do prefeito Faria Lima. Ningum queria perder. Por iniciativa
deste ltimo, a premiao foi reforada com mais alguns milhares de
cruzeiros novos.
Nos bastidores do Teatro, cantores e compositores no cabiam em si de
ansiedade e temor. Alguns estavam mesmo apavorados, sabendo que as vaias
eram certas. A questo era adivinhar quem seria o mais vaiado da noite.
Erasmo e Caetano eram os mais provveis, mas Hebe e Agnaldo tambm eram
fortes candidatos nessa ingrata disputa.
No obstante, o espetculo comeou com fartos aplausos para Geraldo
Vandr, recebido com flores e um cartaz pendente da geral: "Vandr,
ainda confiamos no jri". Como um dos candidatos mais esperados, ele
entrou lentamente, dramatizando sua condio de favorito, para cantar,
com o Quarteto Novo, "Ventania", na qual o boiadeiro de "Disparada"
largava o cavalo para virar chofer de caminho. A msica comeava com
uma buzina altissonante, foi aplaudida e ao final Geraldo retirou-se
emocionado, quase chorando, ansioso por saber como se sara. De jeito
nenhum estava-se diante de uma obra do nvel prometido. "Disparada II"
poderia at se classificar, mas estava fora do preo.
Simonal, vestido com uma tnica na linha militar, perdeu sua terceira
chance com a mais fraca das trs que defendeu, a marchinha/valsa "Balada
do Vietn". Tampouco Agnaldo Rayol se deu bem com o baio "Anda Que Te
Anda": foi vaiado antes mesmo de comear. Mais uma injustia que os
cantores criticavam nos corredores. Eles at aceitavam vaias aps a
msica, mas, calma a, antes de comear? Inadmissvel. Bastava uma
olhada pela platia para entender: viam-se focos definidos de torcedores
organizados, com serpentinas, cartazes explcitos e outros artefatos
para serem desferidos ou empunhados, dependendo das circunstncias: eram
grupos j decididos a prestigiar ou derrubar. A vaia se
institucionalizava e a ingenuidade das torcidas desaparecia.
Nesse clima quase aterrador, o grupo MPB 4 entrou alegre no palco para
mais uma vez defender uma msica em festival. Os cariocas eram mais
conhecidos em So Paulo, onde tinham vindo passar frias em julho de
1965. Dois anos antes, ao decidirem formar um grupo vocal, os rapazes de
Niteri - Rui, formado em Advocacia, Miltinho e Magro, estudantes de
Engenharia, e Aquiles, que fazia o segundo grau -, admiradores de Os
Cariocas, tinham que encontrar um som diferente para a linha de canes
de cunho social de seu repertrio, propositadamente com pouca
harmonizao, herdadas de quando ainda se chamavam Quarteto do CPC.
Chegando a So Paulo, Rui procurara Chico de Assis, que os apresentou a
Chico Buarque no bar Cravo e Canela, da nascendo uma grande amizade.
Chico de Assis apresentou-lhes tambm o Quarteto em Cy e os aconselhou a
formarem, juntos, um octeto, levando-os depois a Nilton Travesso, um dos
produtores do Fino da Bossa. Foram includos no programa e decidiram
continuar a carreira em So Paulo. Fizeram um show no L Club da avenida
So Luiz e o produtor, Aloysio de Oliveira, convidou-os a gravar seu
primeiro disco na Elenco. Aps defenderem "Cano de No Cantar" no II
Festival da Record, foram contratados para fazer cinco programas por ms
no canal 7. Os arranjos vocais sempre foram de Magro. Na distribuio de
vozes, Rui  o tenor e os outros trs so bartonos; Magro faz a segunda
voz, Aquiles a terceira e Miltinho, a quarta.
Acompanhados pela fanfarra da orquestra regida por Ciro Pereira, os
quatro conseguiram em instantes reverter a disposio belicosa da
platia, cantando o frevo "Gabriela" com a ajuda,  certo, do happening
armado pela turma da FAU, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP,
onde o autor, Chico Maranho, estudava. Agitando sombrinhas, sua torcida
entusiasmada danava e cantava "S pra te ver Gabriela/ que eu vinha s
pra te ver Gabriela/ s pra te ver Gabriela", contagiando a platia do
Teatro como num baile de carnaval do Recife. O MPB 4 estava na bica de
emplacar mais uma para a final.
A quinta concorrente era um lindo samba do glorioso Pixinguinha, "Isso
No Se Faz", com letra do poeta Hermnio Bello de Carvalho e cantado por
Elza Soares, e a sexta, outro samba de partido-alto, esse de Martinho da
Vila, com Jamelo, o Regional do Caulinha e um grupo de pastoras,
preconizando o modelo de composio que mais tarde consagraria o autor.
Nenhuma das duas foi classificada. Martinho, um desconhecido em So
Paulo, que trabalhava na Intendncia do Ministrio da Guerra, se
hospedara na casa do radialista Walter Silva, voltando para o Rio sem
conseguir nenhuma repercusso para seu "Menina Moa", a no ser os
elogios de Augusto de Campos  letra. Elza, por seu turno, aps a
desclassificao, foi comemorar com Garrincha e amigos o enterro do
samba num apartamento do Hotel Normandie.
Srgio Ricardo iria desencadear muita polmica com o seu
bem-intencionado lance de cruzar duas paixes do povo brasileiro, msica
popular e futebol. "Beto Bom de Bola" era um samba-choro sobre a
histria de um jogador claramente sobreposta  vida de Garrincha.
Acompanhado pela orquestra, o Quarteto Novo e um coro de operrios da
Willys que tambm batucava, usou at apito de juiz na hora do "Goooool",
a fim de criar o clima adequado  narrativa. Foi recebido com simpatia
mas, a exemplo de Vandr, o entusiasmo foi se desfazendo no decorrer das
mudanas rtmicas e modulaes, que mais dificultavam do que ajudavam a
exposio da cano.
Maria Odete passou em brancas nuvens com a "Cano do Cangaceiro",
possivelmente a menos atraente da noite, enquanto Erasmo Carlos tambm
teve que suportar uma biaba por conta dos inimigos do i-i-i. Sua
"Capoeirada" foi mal compreendida at pelos adolescentes da Jovem
Guarda, que cismaram com aquele berimbau. No entanto, essa msica, bom
exemplar de um procedimento harmnico bastante freqente em sua obra,
especialmente na inventiva melodia (primeira parte em modo menor
concluda na segunda em maior), atraiu o afamado arranjador canadense
Percy Faith a grav-la com sua orquestra e coral em 1971 com o ttulo de
"Easy Days - Easy Nights", numa verso de Cari Sigman, o mesmo que
tambm verteu "Manh de Carnaval" e "Et Maintenant". Nada a ver com um
i-i-i.
A baiana Maria Creusa, que iniciava sua carreira no Sul, cantou com
mritos o candombl de seu namorado Antnio Carlos "Festa no Terreiro de
Alaketu", mas a msica no passou no teste, apesar da difuso prvia
exagerada. A grande vaia dessa noite foi para Hebe Camargo, ao
interpretar a penltima cano, "Volta Amanh", uma melodia previsvel e
sem consistncia. Hebe teve que enfrentar aquela situao constrangedora
- os assobios reboantes e os berros de "b" e de "Chega!" - durante
todo o tempo em que cantou. Hirta e olhando para a frente, permaneceu
com um sorriso no rosto at o final, as mos para trs comprimindo uma
medalhinha de Nossa Senhora Aparecida com tamanha fora, que a amassou.
Os que se sentiram ofendidos com as vaias incessantes durante a
apresentao protestaram, e por muito pouco o pau no quebrou feio.
Em flagrante contraste, a ltima msica foi a mais aplaudida da noite.
No no incio,  verdade, pois quando os argentinos do conjunto de rock
Beat Boys (Marcelo na bateria, Alexandre e Daniel nas guitarras, Toyu,
com cabelos longos e barba lembrando Jesus Cristo, nos teclados, e Tony
Osanah no pandeiro) estavam se posicionando, houve o princpio de uma
forte vaia - para a qual, alis, j estavam preparados, pois mesmo
tocando a msica mais frentica do mundo ficavam impassveis como
esttuas. Caetano tomou a dianteira e, antes que seu nome fosse
anunciado, surgiu com um palet xadrez marrom sobre um suter alaranjado
de gola rul, e atacou: "Caminhando contra o vento/ sem leno, sem
documento/ no sol de quase dezembro/ eu vou...". A torcida contra
guitarras eltricas teve que engolir e se render quela cano
surpreendente, que pela primeira vez era ouvida em pblico, derrubando
um preconceito e encetando uma jornada de muitos anos.
"Alegria, Alegria" fora imaginada como "um tema alegre de um cara
andando na rua de uma cidade grande, vendo revistas coloridas,
Copacabana, fotografia de Claudia Cardinale; uma msica que estivesse
habitada por um som muito atual, um som meio eltrico, meio beat, meio
pop, atual", conforme o depoimento de Caetano registrado dois meses
antes. A idia surgira certo dia enquanto passeava pelas ruas de
Copacabana. Ao retornar ao pequeno apartamento do Solar da Fossa, onde
morava, foi trabalhando a composio at a madrugada. Fez a melodia toda
e a primeira parte da letra. No dia seguinte, fez a segunda parte. A
letra era inspirada no seu "Clever Boy Samba" - feito dois anos antes
para um show na boate Anjo Azul e jamais gravado - e satirizava os
alienados de Salvador: "Pela rua Chile eu deso/ sou belo rapaz/ cabelo
na testa fecha muito mais ... as brigittes vo passando ... no Farol da
Barra/ em falta de Copacabana...". Abandonando a stira, Caetano
substituiu as referncias e nomes prprios - a Coca-Cola por exemplo
funcionava como a Rolleiflex da bossa nova - e manteve a narrativa na
primeira pessoa, pensando mais tarde em convidar o RC 7 de Roberto
Carlos para acompanh-lo no Festival. Atendendo a uma sugesto do
empresrio Guilherme Arajo, foi ouvir um conjunto que tocava na casa de
shows O Beco, sentindo imediatamente que podia encaixarse no que
concebera. Com uma melodia sem grandes invenes meldicas ou
harmnicas, como convm a uma marchinha, o maior atrativo residia na
originalidade da letra, descrevendo a vadiagem sem destino, resumida nos
"por que no?" do jovem alheio s convenes e sem muita
responsabilidade, "sem leno, sem documento/ nada no bolso ou nas
mos", que, rodeado de smbolos de seu tempo, goza de plena liberdade.
Uma letra de empatia instantnea com a juventude que assistia ao
Festival, fosse ela da linha esquerdista ou do i-i-i, induzida a
fruir da alegria desde o ttulo. Caetano chegou a cair ao final de sua
apresentao, consagrado pelos aplausos que vinham de todos os setores
do Teatro, dos concorrentes postados nas coxias e dos jornalistas que
cobriam o evento. No foi um tombo. Originalmente, ele pretendia
inscrever "Capito Virgulino", parceria com Torquato Neto, mas mudou de
idia e apostou que se "Alegria, Alegria" fizesse sucesso, cairia no
palco.
Sua msica s poderia ser, como foi, classificada. A primeira, sem
grande supresa, fora "Ventania", de Vandr, e logo depois Snia Ribeiro
anunciou "Gabriela". Na sua reapresentao, o entusiasmo foi to
contagiante que uma garota conseguiu subir ao palco para danar o frevo
com sombrinha.
Ao ser divulgada por Blota Jnior a terceira finalista, "Beto Bom de
Bola", as vaias foram tantas que Srgio Ricardo mal conseguiu cantar. A
meninada do i-i-i queria Erasmo em seu lugar, outros queriam a
"Cano do Cangaceiro". Uma dessas descontentes, Helosa Melo, conseguiu
seu intento arremessando dois ovos que estalaram na mesa de dois
jurados, que, de preocupados, passaram a ter medo.
Por mais que a turma da linha dura torcesse, Srgio, autor de "Esse
Mundo  Meu" e "Zelo", no conseguia superar uma barreira de
comunicabilidade entre ele e o pblico. Positivamente, era a msica mais
problemtica das candidatas para a ltima etapa.
As 12 msicas da final estavam ento escolhidas, as entradas esgotadas
muito antes e, durante a semana que se seguiu, prognsticos, opinies e
comentrios rolavam  vontade. As favoritas eram "Ponteio" e "Domingo no
Parque". A reprter Cidinha Campos, que apostava em "Ponteio", botava
mais lenha na fogueira com as ltimas dos bastidores. Srgio Ricardo
ficou na fossa e decidiu substituir o coral da Willys, prometendo um
novo arranjo com Jorginho e seus ritmistas. Por sua vez, o coral da
Willys culpou o tcnico de som por no ter sido ouvido. Chico Buarque
foi descansar em lugar ignorado, viajando com nome falso. Depois se
soube que fora a Recife. Elis se preocupava com o casamento em dezembro
e dizia-se que a bossa fora substituda pelo pop. Todavia, o assunto
dominante resumia-se ao espectro de uma palavrinha que todos temiam:
vaia.
Chegou o sbado, dia 21 de outubro. Sob a marquise feericamente
iluminada do Teatro Record Centro, centenas de jovens empolgados se
aglomeravam para presenciar o espetculo que seria um divisor de guas
na msica popular brasileira. A fauna ia de um extremo a outro, das
cocotinhas filhinhas de papai, descoladas em seus penteados armados como
um bolo  custa de muito laqu e at um recheio de Bom Bril, aos
estudantes indignados, flamejando virulncia e desejando participar da
luta armada contra a ditadura. A loirinha que jogara ovos nos jurados
foi barrada. Deu a volta, conseguiu passar pela porta de acesso ao
balco e j subia correndo quando foi alcanada por um dos fiscais. Foi
retirada mas no se deu por vencida. No  que quando comeou o
Festival, l estava ela, bela e formosa, na frisa junto ao palco?
Helosa era amiga de Roberto Carlos. Outra proibida de entrar foi Tel,
acusada de jogar biribinhas que especavam no palco. Para despistar, a
nova celebridade deu entrevistas durante a semana dizendo que iria ao
Rio torcer por Milton no II FIC. Conversa fiada. No sbado, entrou
disfarada com uma saia comprida de cigana, um xale no ombro, a peruca
emprestada de Nara Leo, uma bexiga inflada sob a blusa e culos do
jornalista Carlos Gilberto Alves. Conseguiu iludir o delegado Fleury,
chefe da segurana, e o gerente Gacho, assistindo  final
comportadamente, como convm a uma senhora grvida, na segunda frisa 
direita.
O jri j tinha entrado no fosso da orquestra pela portinha de acesso
sob o palco quando, s 21h40, foi dada a partida para a aguardada final
do III Festival da TV Record. O casal Blota e Snia era mais que
tarimbado para a tarefa, que deveria ser rdua diante da agitao da
platia. Mal imaginava ele que aquela seria uma das noites mais difceis
de seu mtier. Alm de sua intensa militncia poltica na Assemblia
Legislativa, da qual j fora lder durante o governo de Adhemar de
Barros, Blota Jnior (1920-1999) tinha uma atividade incessante no canal
7: substitura Silveira Sampaio no seu programa de entrevistas,
apresentava o Alianas Para o Sucesso, o Esta Noite Se Improvisa e
ainda, ao lado de sua mulher Snia Ribeiro, o trofu Chico Viola e o
prmio Roquete Pinto. Com essa considervel carga de trabalho, foi
designado para apresentar os festivais, que marcariam fortemente sua
carreira de radialista. Era uma figura muito bem-aceita pelo pblico
graas  sua elegncia, fluncia, capacidade de improvisar sobre pessoas
ou fatos com adequao e um fabuloso nvel de oratria. Alto e magro,
com um sorriso cativante por detrs dos culos, era o modelo perfeito em
seu smoking. Sua mulher, Snia Ribeiro, radioatriz cuja voz grave lhe
permitiu fazer papis de
senhoras desde mocinha, era uma companheira perfeita na sua discrio ao
lado do marido, trajando soires das melhores grifes de So Paulo nos
anos 60, como Dener, Clodovil, Jos Nunes e Ronaldo Esper. Os dois eram,
assim, os portadores das grandes atraes que os freqentadores da
Record adoravam, formando um casal glamouroso que impunha respeito.
Apesar de terem que anunciar msicas vencedoras e, indiretamente, as
perdedoras, no eram vaiados, conseguindo manter uma serenidade que se
traduzia em confiana nas mensagens com que preparavam o pblico para os
resultados.
A primeira cano apresentada, "Bom Dia", foi intensamente vaiada, mas
Nana no se deixou perturbar. Nem bem comeou, algum do balco j
gritou "Fora!". Ela cantou at o fim, pois tinha diploma conferido pelo
FIC do Maracanzinho. A segunda foi "A Estrada e o Violeiro". Nara
entrou antes do compositor Sidney Miller, vestindo calas e colete preto
sobre uma blusinha branca de gola alta e mangas compridas e bufantes.
Levantando as duas mos, como quem abenoa, com seu olhar
tranqilizador, conseguiu dominar a inquietao do pblico e se fazer
ouvir. Sua voz, por pequena que fosse, exercia um poder que muitos
cantores tarimbados no alcanavam, e conseguiu chegar ao fim daquela
longa cano, taxada de montona, recebendo aplausos e at flores.
Tambm com flores foi recebido Caetano, que entrou no palco com a mesma
roupa da eliminatria. O pblico j sabia a msica inteira e cantou com
ele, superando a barulheira que vinha do piso do balco com a pulao da
galera. Ao final, clamavam "J ganhou!".
Apresentando uma das grandes favoritas, Gil e os Mutantes foram
aplaudidos a seguir, enquanto, encostado e escondido, Rogrio Duprat
assistia de um canto s mincias do seu arranjo.
"Domingo no Parque" fora composta por Gil durante a noite seguinte  que
assistira ao ltimo programa O Fino, em seu apartamento do Hotel
Danbio, enquanto Nana Caymmi dormia, aps uma visita ao pintor Clvis
Graciano. Recordaes da Bahia e das msicas de Caymmi, lembradas por
tabela atravs de Clvis, juntaram-se para que ele sentisse o mpeto de
compor uma cano narrando um crime num parque de diverses. A histria
envolvia um tringulo amoroso: o feirante Jos, o operrio Joo e
Juliana, cobiada por ambos. Numa descrio de cenas em cortes rpidos,
como em uma seqncia cinematogrfica, o estado psicolgico de cada um 
abordado em flashbacks at o momento em que Jos, passeando no parque,
avista Juliana com Joo. A, "Foi que ele viu". H uma modulao
reforando o suspense. Como num movimento de cmera associado ao giro da
roda-gigante, numa sucesso brilhantemente equilibrada entre letra e
msica, os versos "uma rosa e um sorvete na mo ... o espinho da rosa
feriu Z", so arrematados por um inesperado acorde menor. O sorvete, a
rosa, Juliana, a roda-gigante girando na mente, "a rosa/  vermelha", o
vermelho do sangue na mo de Jos brotando das facadas cravadas em
Juliana e Joo. A ltima estrofe, lentamente evocativa, com um obo
lamuriante, descreve o que resta dos corpos inertes na pattica cena
final, como a de um West Side Story ou de uma pera. Gil havia feito um
filme numa cano.
Depois de inscrever "Domingo no Parque", Gil foi ao Camja (Club dos
Amigos do Jazz) para convidar o Quarteto Novo a acompanh-lo ao lado da
orquestrao estilo George Martin j iniciada. O arranjador Rogrio
Duprat, dotado de uma viso abrangente da corrente ps-modernista da
msica erudita e desejoso de inseri-la na msica popular, fora indicado
a Gil por Jlio Medaglia, o primeiro a trabalhar na orquestrao, tendo
se afastado depois para integrar o jri do Festival. Gil recorrera ento
a Airto Moreira, que, quando ouviu falar em Beatles, imediatamente
rejeitou o convite. Diante do impasse, Gil voltou a falar com Rogrio,
uma vez que desejava unir  orquestra um conjunto mais enxuto, mais
personalizado. Foi ento que Duprat props Os Mutantes, que na poca
participavam do programa de Ronnie Von.
- So uns meninos modernos, tocam guitarra eltrica e tm essa coisa
inglesa dos Beatles que voc est querendo.

Na segunda semana de setembro, quando gravava "Bom Dia", Gil se
entusiasmou ao ver Os Mutantes no estdio, confirmando que tinham uma
proposta declaradamente de ruptura com a viso clssica.
Na gravao feita no estdio da RGE, dois dias antes da primeira
apresentao no Festival, Gil ouviu pela primeira vez "Domingo no
Parque" tal como seria conhecida, ambientada como msica brasileira e,
ainda assim, permitindo a colagem de um berimbau com guitarras
eltricas, nem de longe um objeto no-identificado para um baiano que
acompanhava o Trio Eltrico Dod e Osmar dos carnavais de Salvador. Gil
gravou primeiro com a orquestra. Depois, tudo foi reduzido a dois canais
para nova gravao com os Mutantes nos outros dois canais. O resultado
deixou-o feliz e lisonjeado, lembrando-lhe as audies de msica
concreta e serial com o maestro Koellreuter na Bahia, que combinava o
som do piano tratado com rudos a locues de rdio. Pela primeira vez,
Gilberto Gil sentiu que aquele universo de msica moderna fazia parte de
sua prpria msica: a justaposio das vozes joviais do Mutantes  sua,
dos instrumentos da orquestra ao vozerio e ao realejo do parquinho. A
obra de Gil tomava uma nova direo.
Agora, terminava de cant-la pela terceira vez, reforando, diante
daquela platia favorvel em delrio, sua condio de favorito.
O Teatro virou um baile de carnaval, com confete e serpentina, quando os
guapos integrantes do MPB 4, vestidos de smoking, atacaram o frevo
"Gabriela". Maria do Carmo, irm de Chico Buarque, foi a primeira a
abrir uma sombrinha, seguida por dezenas de outras e por guarda-chuvas
pretos, animando a festa que antecedeu a sexta cano da noite, "O
Cantador". Elis, de vestido branco acima dos joelhos com gola alta,
recebida com gritos de "J ganhou!" e folhetos com a letra, assegurou
com sua interpretao uma provvel boa colocao.
Viria ento a stima msica da final, com a qual Srgio Ricardo mantinha
esperanas de vencer, uma certa iluso ante uma das mais fracas
composies de sua bela obra. Antevendo a possibilidade de se repetirem
as manifestaes da eliminatria, Blota Jnior fez um pequeno
narizde-cera, pediu ateno para o novo acompanhamento em "Beto Bom de
Bola" e um voto de confiana na sua apresentao. Sorridente e
confiante, Srgio, com um p sobre o banquinho, aguardava que o bulcio
do pblico se extinguisse e, diante da inquietao que existia, em vez
de comear, tentou dialogar com a platia: "Eu quero que vocs me ouam
um instante. Aqui na platia h gente inteligente". Quem estava no fosso
pressentiu uma reao desfavorvel, concitando-o a cantar em vez de
falar: "Canta! Canta!". Srgio continuou: "Vocs podem vaiar. Depois
deste festival a minha msica vai chamar "Beto Bom de Vaia"". A blague
surtiu um efeito desastroso. Em vez de se aquietar, a platia se
excitou; surgiram vaias assustadoras e grande parte do pblico ficou de
p como se ouvisse uma caoada. Na coxia, o nervosismo aumentou, e todos
o compeliam a cantar de uma vez. Srgio ainda tentou convencer o
pblico: "Ateno... um minutinho". No conseguia ser entendido, as
vaias ensurdecedoras encobriam com folga o som de sua voz. Apenas o seu
microfone Philips, duro e apropriado para captar somente a voz do
cantor, estava aberto e, ainda assim, ele mal era ouvido pelos
alto-falantes. Finalmente, Srgio comea. Levanta o brao direito e
solta um longo "Aaaaaah!" antes de iniciar a cano: "Homem no chora
por fim de glria ... , ,  ou no / Bebeto  bom de bola". Estavam
abertos para o recinto do Teatro apenas o seu microfone, o do coro dos
quatro cantores e os do Quarteto Novo. Mas aquela massa sonora vinda da
platia penetrava com mais intensidade de volume, superando a dos que
cantavam e tocavam, ainda que a centmetros de distncia. No havia
soluo. Srgio no conseguia ouvir nem Tho de Barros, que estava a uns
trs metros de distncia. Desorientado, olha para os acompanhantes sem
saber sequer em que ponto estavam. Ao entrar na terceira parte, "Beto
vai chutando pedra/ cheio de amargura/ num terreno to baldio/ quanto a
vida  dura...", Srgio diz: "No consigo nem ouvir o som". Naquela
poca, no havia monitores. Canta mais um trecho, "e foi-se a glria/
foise a copa/ e a nao esqueceu-se do maior craque da histria" e faz
uma pausa, j bastante preocupado. As vaias se intensificam. Srgio
recomea: "quando bate a nostalgia/ bate noite escura ... onde outrora
foi seu campo/ de uma aurora pura" e, finalmente, desiste de uma vez.
Arranca o microfone do pedestal e proclama: "Vocs ganharam! Vocs
ganharam! Mas isso  o Brasil no desenvolvido. Vocs so uns animais!".
E repete a ltima frase. Caminha para a lateral, quando Blota se
aproxima e tomalhe o microfone. Srgio resolve sair de vez, d mais trs
passos, pra e, visivelmente transtornado, ergue o violo e o arrebenta
contra um pedestal. Em seguida impulsiona o brao direito para trs e,
numa atitude inimaginvel, arremessa o violo quebrado  plateia. No
instante em que o violo voava sobre o poo da orquestra, naquel
atimoj, a sensao foi de que a televiso sairia do ar e o Festival
seria suspenso. Os espectadores das primeiras filas erguem-se levantando
os braos para se protegerem e o violo cai sobre algum na terceira
fila. Blota e Srgio estavam brancos. Blota, que tentara evitar o gesto
imprevisvel, ajuda-o a sair pela lateral, voltando inquieto para
verificar se algum se feriu. Pergunta: "Est tudo bem a? Aconteceu
alguma coisa?". Ningum ferido. Tho de Barros ficara to apavorado que
algum da platia mandasse o violo de volta que, furtivamente, se
protegera atrs do piano.
No camarim, Elis e Vandr foram os primeiros a consolar Srgio. "Estou
mais calmo, j desabafei." Normalmente uma pessoa tranqila e educada,
com uma postura poltica muito acentuada, ele fora violentado de tal
forma que explodiu.
Na platia, a estupefao era generalizada, ao mesmo tempo que a torcida
esquerdista aplaudia. As luzes se acenderam. O balco era uma balbrdia,
muita gente gritava deixando tensos os policiais da rea. Um rapaz
berrava: "Tem razo ele. A massa  histrica. Aplaude essas msicas pop
e vaiam um compositor consagrado feito umas bestas". Um homem gritou:
"Desrecalque coletivo! Esto loucos!". Outro dirigiu-se ao delegado
Fleury: "O senhor deve prender esse homem imediatamente. Isso  uma
afronta a uma platia que gastou dinheiro". Fleury pediu-lhe que
voltasse para seu lugar e, quando se sentou, ouviu do jovem vizinho: "O
senhor  bem o representante da platia: avalia as coisas pelo dinheiro
e nunca pelo valor moral que elas realmente tm". Quase saiu uma briga.
O diretor da TV Record tinha que tomar uma providncia rpida, ainda que
os membros do jri fossem contrrios a assumir uma posio. Na opinio
de Paulinho Machado de Carvalho, houvera um desacato aos que pagaram a
entrada. Quando disse que Srgio seria desclassificado, pelo menos dois
jurados, entre eles Ferreira Gullar, foram contra, alegando que o jri
era soberano. O diretor rebateu afirmando ser assunto de disciplina,
enquanto a atribuio do jri era na rea tcnica. Alguns concordaram,
mas demorou para que se chegasse  soluo: o cantor foi suspenso mas
sua cano continuava disputando. Ferreira Gullar e outros esbravejaram,
gesticulando contra a desclassificao. Quando Blota anunciou a deciso,
o pblico aplaudiu, enquanto vrios jurados e jornalistas foram contra.
A maioria dos artistas solidarizou-se com Srgio. Elis soltou essa:
"Cada pas tem o Sinatra que merece. O do Brasil  o Chacrinha".
Srgio, revoltado porque no conseguira cantar sua msica antes de ser
julgado, saiu direto para o Hotel Normandie, acompanhado do pai, da me
e esposa, que estavam com ele no camarim. Declarou que aquele pblico,
representante da pequena burguesia brasileira decadente, com uma
superfcie aparente de civilizao, no afetaria os que seguiam sua
carreira. Do hotel, onde no conseguiu uma televiso para assistir ao
final do programa, foi para a casa de uma tia.
Blota havia retornado para assumir o comando e anunciar a cano
seguinte, "Ponteio". Enquanto aguardava sua vez, Edu comentou com
Marlia:
- Marlia, s temos duas chances. Ou esse clima vai virar a favor da
gente, ou permanece esse horror, ningum vai prestar ateno na msica e
a gente vai se ferrar.
Marlia entrou com o mesmo vestido da eliminatria, vermelho com alas
douradas, e, enquanto cantava altiva o refro, via o pblico cantando
junto: "Quem me dera agora/ que eu tivesse a viola pra cantar". Chorou
duas vezes, mas no parou de sorrir. Capinan assistia da coxia. A
msica, a figura de Marlia ao lado do simptico Edu e o grande arranjo
funcionaram mais uma vez: o pblico adorou, vibrou e ele saiu
consagrado. Aps a apresentao, tomou um copo d"gua com acar e foi
abraar Marlia.
- Quase no conseguia cantar, perdia a voz vendo o pblico reagir com
palmas, cantando junto, foi uma emoo muito violenta. Como est o
Srgio Ricardo? O que aconteceu com ele poderia ter acontecido com
qualquer um de ns.
Faltavam ainda quatro msicas. Vandr, tranqilo por achar que no iria
ganhar, pouco se importava se houvesse vaias. Enquanto cantou
"Ventania", foi vaiado sem parar do princpio ao fim por uns e aplaudido
por outros com gritos de "Vandr! Vandr!". Chegou a parar mas, com
esforo, continuou. Depois, nos bastidores, declarou sua admirao por
Edu e por Chico Buarque, assinalando que ambos se mantinham autnticos.
Agora faltavam trs. Roberto Carlos, ainda distante do Roberto cuja fama
seria um fardo, cantou "Maria, Carnaval e Cinzas" com absoluta
tranqilidade, mais  la Joo Gilberto que  la Festival, mesmo diante
dos gritos de "Fora! Sai da" daquela ala contra a Jovem Guarda. A
penltima seria "Roda Viva". Chico foi recebido com o pblico em p,
cartazes, flores e mais carnaval. Nenhuma vaia, e ele, calmssimo. Bem
diferente da poca de "A Banda", quando os autores eram menos
conhecidos. Naquele momento, porm, no sentia que mais uma vitria
fosse mudar muito sua carreira. Nem estava muito ansioso em ganhar: o
valor do prmio no lhe subia  cabea. Como havia um s microfone para
ele e para o MPB 4, Chico postou-se no meio dos quatro e se afastava
quando era a vez do grupo solar. Magro havia armado um arranjo
excepcional para sua criao.
Chico Buarque de Hollanda comeara a escrever a pea Roda Viva inspirado
na vida que vinha levando naqueles meses, cantando pelo Brasil todo com
Toquinho e, quando o cach conseguido por seu empresrio Roberto Colossi
permitisse, tambm com o MPB 4. A pea s teria duas canes, "Roda
Viva" e "Sem Fantasia", com pardias de peras e trechos de
canezinhas. Durante o show Meu Refro, na boate Arpge do Rio, com
Odete Lara e o MPB 4, Chico entregou uma fita cassete para Magro fazer o
arranjo de sua nova composio, viajando depois para a Itlia. Sem saber
que seria usada numa pea, Magro criou uma introduo e deixou espaos
para a voz solo, elaborando uma vocalizao difcil, exaustivamente
ensaiada. Quando Chico voltou, foi ouvir o resultado no Solar da Fossa,
onde Magro vivia, emocionando-se especialmente
com o trecho da pirmide de vozes antes do quarto refro. Em So Paulo,
na casa de Simonal, foram completar com o Som Trs a parte instrumental,
na qual Csar aplicou no piano o arpejo sugerido pela pirmide vocal,
valorizando o trabalho de Magro. A introduo termina num acorde no
resolvido para a entrada de Chico, que faz o primeiro solo com apoio
vocal do quarteto, como uma cortina: "Tem dias que a gente se sente/
como quem partiu ou morreu", entregando para o grupo: "a gente quer ter
voz ativa/ no nosso destino mandar", seguindo nessas alternncias at o
refro, com Chico  frente, quando ocorre o arpejo do piano aps o verso
"o tempo rodou num instante". Na primeira repetio da estrofe, o grupo
entra em unssono: "A gente vai contra a corrente/ at no poder
resistir", prosseguindo at as duas ltimas frases, em acorde: "Mas eis
que chega a roda viva/ e carrega a roseira pra l", antes do refro,
repetido da mesma maneira. Na terceira estrofe, invertem-se as
alternncias da primeira e, na quarta, metade  de Chico e a segunda
metade do grupo. Essa ltima estrofe termina com a pirmide em
rallentando e a fermata na ltima nota do verso "e carrega a saudade pra
l". H uma pausa, o arpejo do piano, e o refro  repetido quatro vezes
num affrettando (acelerado), com contracantos entrelaados, como se a
roda girasse mais rpido a cada volta. O final era irresistivelmente
contagiante, levando o pblico a cantar junto as quatro vezes,
ajustando-se perfeitamente ao affrettando, e prorromper em aplausos ao
final. Um dos mais perfeitos arranjos de toda a Era dos Festivais fez
"Roda Viva" levar ao delrio total at mesmo quem no torcia pela
cano.
Quando Jair Rodrigues entrou para cantar, as vaias voltaram em tal
volume que mal se ouvia a orquestra. No seu estilo de sambista, com a
voz plena, estalando os dedos na marcao e gingando os ombros, acabou
revertendo a hostilidade e sendo muito aplaudido no fim. Era a ltima
concorrente.
As cortinas foram baixadas e houve um intervalo de meia hora, durante o
qual Randal Juliano e Cidinha Campos entrevistaram Chico, Maranho, Rui,
Edu, Roberto Carlos, Caetano, Gil, Nara, Arnaldo e Nana Caymmi antes do
pano se abrir para a divulgao dos premiados.
Elis Regina foi a melhor intrprete, e cantou sem ligar para as vaias.
Sidney Miller ganhou o prmio de melhor letra, cantando novamente com
Nara antes do Teatro se transformar mais uma vez em salo de baile,
puxado pelo frevo "Gabriela", a sexta colocada. Para o MPB 4, ficou
claro que emplacariam duas msicas. A quinta cano foi "Maria, Carnaval
e Cinzas", com Roberto Carlos pouco  vontade sob tantas vaias,
provavelmente as nicas em sua carreira. A quarta classificada foi
recebida sob uma gritaria generalizada de "Primeiro! Primeiro!". Era
"Alegria, Alegria", que Caetano cantou sorridente ao lado dos
impassveis argentinos do hertico conjunto de rock Beat Boys. Ao final,
no houve jeito: Caetano teve que bisar a msica, tantos eram os
pedidos. Ao ser anunciada a terceira colocada, a anrquica torcedora
Tel Cardim no se conteve de tanta felicidade: levantou-se na frisa,
arrancou a peruca e mostrou que no estava grvida coisssima nenhuma,
aplaudindo de p a entrada de seu amigo e dolo. Chico Buarque entrou
feliz e sorridente e tambm bisou sua msica com o MPB 4, atendendo aos
gritos de "Mais um!". No meio daquela festa, ningum imaginaria que
"Roda Viva" fosse entrar para a histria associada  violncia e
agressividade dos grupos anticomunistas de direita, quando inserida na
pea homnima montada por Jos Celso Martinez Corra. Aquela cano que
as mocinhas cantavam em coro, apaixonadas, tinha uma letra fatalista, o
que provavelmente nenhuma delas percebeu na alegria daquela noite
inesquecvel.
Antes de entrar mais uma vez, agora como segundo colocado, Gil foi
beijado por Nana na coxia. Recebido com manifestaes pr e contra,
inclinou-se para o poo da orquestra, de onde um dos jurados
transmitiu-lhe a resoluo de atribuir a Rogrio Duprat um prmio
especial, o de melhor arranjo. Rita Lee, com um coraozinho pintado na
ma esquerda do rosto, estava feliz ao lado dos irmos Srgio e
Arnaldo, na derradeira apresentao de "Domingo no Parque" no Festival.
Os trs iniciariam dali a caminhada auspiciosa dos Mutantes como o
primeiro grande grupo de rock da msica popular brasileira. Gil e
Caetano recebiam naquela noite o incentivo para caminhar na direo que
tinham tomado, a do som universal ou msica pop, como ambos rotulavam o
gnero que identificava suas composies e principalmente a forma como
foram apresentadas.
Edu Lobo estava nervosssimo aguardando o resultado. Quando foi
anunciado o segundo lugar, Capinan correu ao seu encontro tremendo e
falou baixinho: "Ganhamos!". Os dois se abraaram com Marlia, o
Quarteto Novo e o Momento Quatro. Finalmente, Blota Jnior anunciou a
primeira colocada: "Ponteio", com Edu Lobo, que assim conseguia vencer
mais um festival, e novamente com uma cano de cunho sertanejo.
Edu havia voltado da Europa e no pretendia concorrer ao Festival quando
Dori Caymmi lhe props fazer a letra para uma msica que acabara  de
compor. Era "O Cantador", que pretendia inscrever no Festival da Record.
Embora no fosse letrista, Edu estava encantado com a msica e ficou de
pensar. Voltando para casa no seu Fusquinha e cantarolando a melodia do
refro de Dori (o mesmo trecho para o qual depois Nelson Motta faria a
letra: "Ah, sou cantador/ canto a vida e a morte, canto o amor"), surgiu
uma idia de letra: "Ah, quem me dera agora/ que eu tivesse a viola pra
cantar". Ao chegar em casa, ligou para Dori contando que j havia
encontrado um refro e iria trabalhar na msica. Dois dias depois, foi
Dori quem ligou, tentando se desculpar pela encrenca que arrumara:
Nelsinho Motta, com quem j tinha feito outras msicas, tambm estava
escrevendo uma letra, e ele, sem jeito, no sabia como resolver o caso.
"Dori, esquece o assunto, faz a msica com ele e tudo bem", respondeu
Edu. Mas aquele refro continuava a perturb-lo, at que o desenvolveu e
criou uma nova msica, pedindo a Capinan uma letra trs dias antes do
encerramento das inscries. No ltimo momento, quando j sabia que Gil
e Chico tinham duas msicas fortssimas, entregou "Ponteio" para a
competio.
Edu convidou o Quarteto Novo e o Momento Quatro e fez um arranjo
coletivo no estilo das msicas de festival, que inclusive culminava num
affrettando. Convidou tambm Marlia Medalha. Aos 23 anos e natural de
Niteri, ela o conhecera quando trabalhava na primeira montagem da pea
Arena Conta Zumbi, a convite de Guarnieri, pela qual recebeu um prmio
como revelao de atriz. Depois de participar do programa Ensaio Geral
na TV Excelsior, voltou ao Rio atendendo a um convite de Edu Lobo para o
show no Zum Zum Esses Moos de Letra e Msica, com o Tamba Trio, onde
cantava "De Onde Vens". Quando Edu lhe mostrou a msica que fizera para
o Festival, Marilia ofereceu-se para cantar e foi convidada.
Os exaustivos ensaios de "Ponteio" foram realizados na sede do Club dos
Amigos do Jazz (Camja), uma casa que existe at hoje na esquina da rua
Estados Unidos com Haddock Lobo. A introduo criada pelo Quarteto Novo
foi a que ficou conhecida, a mesma que mais tarde seria gravada por Paul
Mauriat. O diretor Augusto Boal deu um acabamento visual na postura e
movimentos de Marlia, na posio dos grupos e mesmo de Edu, "encenando
a cano", que foi impecavelmente apresentada na primeira eliminatria
de 30 de setembro. Nessa noite, Edu sentiu que poderia ganhar o
Festival.
Sua composio  dividida em trs segmentos, A-A-B-C-C, sendo B ("Parado
no meio do mundo...") menos um arremate  primeira parte,
A, do que um preparatrio para o refro, C ("Quem me dera agora..."), o
qual  muito bem explorado  medida que a msica avana. A letra de
Capinan, de raiz sertaneja, tinha uma interao poltica bem ao gosto da
platia mais politizada, com aluses certeiras ao desejo de mudana:
"Certo dia que sei por inteiro/ eu espero, no v demorar/ este dia
estou certo que vem/ digo logo o que vim pra buscar ... vou ver o tempo
mudado/ e um novo lugar pra cantar". Era o bordo contra a ditadura
militar, o mesmo que havia em "Arrasto" e em "Disparada" e que fazia a
platia inflamar-se. Ao mesmo tempo, o arranjo, magnificamente
elaborado, teria o destino de empolgar o mais indiferente dos ouvintes.
Aps uma introduo de viola e violo com percusso e flauta, Edu e
Marlia cantam em unssono a cano completa, sendo que, na terceira vez
do refro, Tho troca o violo pelo contrabaixo, dando mais peso ao
acompanhamento. Na primeira repetio da msica, com outra letra, a
flauta de Hermeto faz um comentrio que lembra uma banda de pfanos,
iniciando um crescendo com outros componentes: a entrada do grupo vocal
no refro, os "ponteio!" ecoando nas brechas e um longo "ponte"
harmonizado que substitui a introduo. Na terceira repetio, a
contagiante percusso de Airto  ainda mais ressaltada, o quarteto vocal
faz uma cama para o casal de solistas e entram palmas no refro que,
aps um "l-la-i",  repetido modulado, com mais palmas e escalas
eficazes bem nordestinas da viola de Heraldo. O ritmo de baio 
acelerado at a culminante frase final, "Quem me dera agora/ eu tivesse
a viola pra cantar".
Quando terminaram de cantar a cano vencedora, a alegria era geral. O
pblico pedia bis, abraavam-se Airto Moreira (que iniciava "Ponteio"
com sua vigorosa percusso), Hermeto (de cabelos curtinhos), Z Rodrix
(sem bigode e de culos), Ricardo S (que seria um dos 15 presos
polticos trocados pelo embaixador Elbrick), David Tygell e um tmido
Maurcio Maestro (estes dois, metade do futuro grupo vocal Boca Livre).
Na repetio, os demais concorrentes entraram no palco, Gil ergueu o
brao de Marlia, Elis beijou Caetano, Edu era ovacionado. O bis
funcionou como o grande desfecho de uma noite to emocionante quanto uma
final de Copa do Mundo. O palco virou uma festa depois que o pano desceu
em definitivo. Edu, eufrico, procurava sua me, dona Carminha, que veio
ao seu encontro. Marlia era abraada pelo marido. Paulinho Machado de
Carvalho, para quem "Domingo no Parque" iria ganhar, ao ser solicitado
para uma entrevista pelo reprter da Jovem Pan Reali Jnior, que
ostentava um summer jacket, afirmou: "Do homem Srgio Ricardo eu
admitiria a atitude. Do profissional, no". Segundo Chico de Assis, na
ltima Hora, "no foi um violo que Srgio arrebentou no Paramount.
Foram mil canes que, aos pedaos, atirou sobre a platia que o
repudiava como se estivesse devolvendo em trapos o estandarte dela
mesma, recebido durante tantos anos de trabalho ... Uma lei do show diz
que o artista deve sempre, e em qualquer situao, respeitar o pblico,
mas no existe outra que diga que o pblico em qualquer situao deve
respeitar o artista ... enfim, se a gente tirar o Srgio do fato, nada
aconteceu de grande e de definitivo. A vaia ser esquecida pelos jovens
da platia, seguiro cantando as msicas vencedoras. Srgio  quem vai
lembrar pela vida toda deste momento, que foi principalmente seu".
Alguns assistentes tambm se manifestaram sobre Srgio Ricardo. "Ao
invs da viola, deveria usar um fuzil. Seu gesto significa um protesto
pblico contra o nosso subdesenvolvimento cultural, que a pequena
burguesia que o vaiou nada fez para superar", declarou um espectador 
sada. Outro: "O pblico o desrespeitou, est certo, mas ele deveria ter
se controlado". Mais um: "No boto a culpa nele. Somos todos gente
humana". A pessoa atingida pelo violo ficou com um galo na cabea: "Eu
tambm acho que Srgio acertou. Seu protesto e sua acusao foram um
gesto de amor gerado pela incompreenso". Um estudante declarou: "Este
pblico vaiou um homem corajoso e inteiro.  um homem que tem dedicado
at aqui a sua arte ao povo".
Vrios jurados foram ao apartamento onde Srgio Ricardo estava
hospedado. Muita discusso. Ferreira Gullar afirmou: "O jri no
desclassificou a msica, j que ela quase no foi apresentada". E
continuava gesticulando, dizendo que a vaia era uma forma de
participao vlida e necessria, que extravasava uma energia reprimida.
"A msica popular  a grande manifestao do povo brasileiro." Depois de
dizer que quebrara o violo "inconscientemente", Srgio saiu para tomar
caf no bar Comunidade, da praa Roosevelt, onde o balconista o abraou,
dizendo: "O senhor fez o que devia. Eu queria estar l pra fazer a mesma
coisa". E o convidou para um caf de graa. Srgio perguntou seu nome:
- Ricardo.
- Muito bem, xar, vamos tomar aquele caf de graa.
 sada do teatro, j havia dois carros esperando Chico, o MPB 4 e os
msicos do Som Trs (Csar, Sab e Toninho) para lev-los ao estdio da
RGE, na rua Paula Souza, onde gravariam o disco para ser lanado poucos
dias depois. Acordaram o tcnico, passaram umas duas vezes e gravaram.
Marlia, Gil, Caetano, os Beat Boys e os Mutantes comemoraram na
churrascaria Au Gran Chope, na rua Augusta, de um argentino amigo dos
roqueiros. Marlia saiu do teatro 45 minutos depois do trmino, muito
cumprimentada. Caetano foi num Volks, Gil passou primeiro no Hotel
Danbio, antes de seguir com Nana. Tambm estavam na churrascaria
Capinan, Toquinho, Gal, Solano, Guilherme Arajo e outros amigos. Quando
Caetano entrou, ouviu um coro: "Por que no? Por que no?". Marlia, com
o marido Isaas Almada, foi recebida com o refro "Quem me dera
agora...". Os Mutantes tomavam Coca-Cola. Gil chegou com o mesmo chapu
de couro dos ensaios, foi aplaudido e abraado. Falava muito, elogiou a
msica de Chico Buarque e disse que "Alegria, Alegria" deveria ter sido
a vencedora. s 3 da matina Marlia estava morrendo de sono, e ainda
tinha que participar do Jovem Guarda de domingo. Edu chegou depois que
ela saiu, mas ficou pouco. Tinha ido antes  festa de casamento da prima
Maria Helena. Antes de amanhecer, Gil ainda cantou "Domingo no Parque"
e.outras msicas suas. Todos cantaram com ele. Ainda tiveram flego para
passar no Jogral, lotado, para cumprimentar Carlos Paran. Foram dormir
s 7 da manh.
No sbado seguinte, o Teatro Record Consolao foi palco da entrega dos
prmios. Violas de Ouro e Prata, Sabis de Ouro e Prata, e muita grana:
Edu Lobo recebeu com Capinan o maior prmio da Amrica do Sul para uma
cano, 37 mil cruzeiros novos (cerca de US$ 14 mil na poca). Gil
ganhou sozinho 16 mil, Chico, 10 mil, Caetano, 5 mil, Paran, 3 mil,
Chico Maranho, 2 mil, Sidney Miller, 3 mil, Elis, uma Viola de Prata e
Rogrio Duprat, 1,5 mil cruzeiros novos.
Durante a semana, as lojas de discos do centro de So Paulo registravam
um movimento  procura dos discos nos dois formatos da poca. Os trs
LPs da Philips das 36 canes, com praticamente todos os intrpretes
originais do Festival - Jair, Elis, Gil, Edu, Caetano, MPB 4, Nara e
Sidney - eram muito procurados. Como Roberto era da CBS, o prprio Lus
Carlos Paran cantou, e muito bem, sua msica no volume 1. Entre os
compactos simples, os de Roberto Carlos, Caetano Veloso (Philips) e
Chico Buarque (RGE) eram os mais pedidos. Outros cantores e, de maneira
geral, todas as gravadoras se beneficiavam do boom de
vendas dos discos de festivais, que passaram a ser to importantes
quanto o perodo carnavalesco nas dcadas anteriores. Todavia, para
certos compositores ficou claro que o esprito esportivo que existia
antes foi afetado pela atuao das gravadoras.
Nesse Festival, a TV Record havia atingido o auge. Paulinho de Carvalho
pressentia isso claramente. Jamais haveria outro igual. Se Elis Regina
tinha sido o grande destaque no I Festival da Excelsior, estabelecendo a
forma de se defender uma msica em festival; se o sambista Jair
Rodrigues imprimira uma marca de veracidade jamais ultrapassada, que fez
de "Disparada" o marco inicial de uma nova era para a msica regional
brasileira, o Festival do Paramount, como ficou conhecido o III Festival
da Record, revelou uma nova intrprete, Marlia Medalha. Conquanto no
fosse destaque no grupo da cano vencedora, graas a sua personalidade
e a sua bela figura feminina, ela tornou-se o centro dos comentrios.
"Ponteio", por sua vez, sugeriu uma nova levada para o baio, diferente
da de Luiz Gonzaga, que era mais cadenciada. Os instrumentistas
brasileiros se afinaram com o novo padro, que seria adotado em dezenas
de temas compostos nos anos seguintes. Inegavelmente, porm, o que mais
marcou as propostas musicais apresentadas no III Festival da Record foi
a evoluo dos dois artistas baianos: Gilberto Gil e Caetano Veloso. As
letras de suas composies tinham coincidentemente a mesma forma de
slides; os arranjos soavam como uma ruptura dos padres estabelecidos,
ainda que sobre ritmos essencialmente brasileiros (baio e marcha),
dando ao resultado final o esboo de uma esttica sintonizada com o que
acontecia no mais efervescente perodo da dcada de 60.
O que o III Festival da TV Record tambm deixou claro foi a mudana de
comportamento da platia. Nos multifacetados programas musicais da
Record, abertos a praticamente todos os gneros e estilos, nascera, como
um setor, o que na verdade poderia englobar tudo aquilo, a Msica
Popular Brasileira, o grande guarda-sol dos vrios gneros que acabou
por se diferenciar da Jovem Guarda. Os festivais juntaram pblicos
diferentes, cada um com suas preferncias especficas. Da nasceram as
torcidas, que, se antes limitavam-se a aplaudir suas canes prediletas,
passaram a prejudicar as "inimigas", como uma torcida de futebol. Da as
vaias, protestos e perturbaes que ficaram to ntidas no ano de 1967.
A platia dos festivais, formada em sua maioria pela juventude
estudantil, estava sintonizada com aquele movimento musical que falava
da realidade social brasileira. To sintonizada que, ao menor sinal, era
capaz de decodificar, nas letras e msicas, aquela realidade de
insatisfao com a ditadura militar e com a impossibilidade de expressar
suas idias.
O festival abria uma tribuna. Da mesma maneira que "Carcar" no
continha, originalmente, nenhuma aluso poltica, mas passou a ter
quando Bethnia cantou-a no show Opinio, a platia dos festivais dava a
certas canes um contedo revolucionrio. A partir da, as msicas de
festival passam a ter como bordo o protesto contra a ditadura militar.
E mesmo quando no eram, a platia tratava de convert-las nesse
protesto. E, quando no podiam ser convertidas, como foi o caso da
cano de Hebe Camargo, a platia no gostava. Derrubava.
Os compositores perceberam com bastante clareza esse tipo de reao e
procuraram fazer msicas que contivessem essas mensagens. Entretanto, se
fossem explcitas, a Censura poderia cortar. Era ento preciso que a
cano parecesse to inocente a ponto da Censura no perceber, mas a
platia, sim. Da nasceu um profundo dilogo entre o msico censurado e
a platia libertria. A platia sabia o que o poeta no podia, mas
queria dizer. E sabia decodificar.
No custava esperar o ano de 1968 para ver o que viria.
Captulo 7
"MARGARIDA"
(II FIC/TV GLOBO, 1967)
Depois de defender o belo samba de Baden Powell, "Cidade Vazia", no II
Festival da TV Excelsior, Milton Nascimento ficou profundamente
decepcionado com as demonstraes de torpeza, com as brigas e
xingamentos que presenciou no dia da final. Na porfia, os competidores
tentavam golpes baixos engolindo-se uns aos outros, uma cena que em nada
lembrava o ambiente a que estavam acostumados os que viviam de msica em
Minas Gerais. Assustado e desiludido, Milton jurou nunca mais participar
de festival, estando mesmo propenso a desistir da msica, embora
decidido a permanecer em So Paulo, j que retornar a Minas seria
caminhar para trs. Morando inicialmente na Penso do Boris, em Vila
Mariana, e depois, quando as "conjumerncias" (circunstncias, no
dialeto mineiro) obrigaram, num quartinho de outra penso,  rua Marqus
de Itu, 185, comeou a cantar na noite, tocando violo e contrabaixo em
barzinhos como o Sand Churra, a freqentar redutos musicais como o
Redondo e a conhecer msicos como os irmos Godoy e cantores como a
alagoana Telma Soares. No entanto, o que fez de mais produtivo durante
um ano e dois meses naquele quartinho foi compor sozinho sem maiores
pretenses. Chegou a passar uma semana sem um tosto para comer;
sentiu-se to mal que voltou de nibus para Trs Pontas. De madrugada,
tocou a campainha e despencou diante de seu pai, que mal o reconheceu ao
abrir a porta. Recuperado, retornou a So Paulo para levar a mesma vida,
cantar e mostrar suas msicas. Novamente em vo. Malgrado muitos
gostassem, ningum se animava a grav-las. A exceo foi Elis Regina.
Milton a vira pela primeira vez em 1961, no Rio, quando foi com Pacfico
Mascarenhas e Wagner Tiso para a reunio de lanamento do disco de uma
cantora, Luisa, com arranjos de Moacyr Santos. No meio da cantoria,
encorajado por Pacfico e tendo Wagner ao piano, Milton cantou uma
composio sua, "Aconteceu". Pouca gente sabia quem era aquela cantora
sentada no cho que divulgava seu disco de estria. Milton reconheceu-a.
 sada da festa, aproximou-se e comeou a cantar "D
sorte, fazer o que eu digo/ d sorte, querer seu amor...", a primeira
faixa do disco. Ela fez que no ouviu e disse meio envergonhada:
- Cala a boca. Esquece isso.
Elis e Milton no mais se viram por um bom tempo. Quatro anos depois, no
ensaio para a final do II Festival da Excelsior em So Paulo, os dois
voltaram a se encontrar. Milton tinha passado sua msica e saa pelo
corredor quando topou de frente com a cantora, ento a mais badalada do
Brasil. Tmido como era, preferiu no falar nada, abaixou o olhar ao se
cruzarem, e teve que ouvir esta:
- Mineiro no tem educao, no? De manh se fala bom dia, de tarde se
diz boa tarde e de noite, boa noite.
- Bom, eu sei o quanto as pessoas te perturbam e no queria ser mais um.
- Isso no  desculpa, no. E outra coisa, quero que voc v  minha
casa para mostrar umas msicas, principalmente aquela que voc cantou no
Rio, chamada "Aconteceu".
E cantarolou a msica certinho. Milton quase caiu de costas. Elis ainda
olhou-o dizendo com um ar blas:
- Memria, meu caro.
No dia aprazado, Milton no cantou "Aconteceu", mostrou outras msicas,
e assim  que a sua "Cano do Sal" foi gravada no LP Elis, lanado em
outubro de 1966. Foi uma das nicas boas lembranas de Milton em So
Paulo. No dia em que se mudou para o Rio, via ao longe a cidade
desaparecendo pela janela do nibus, mas no se sentia aliviado como
quem chega ao fim de um sofrimento. Nem raiva tinha. Apenas uma estranha
sensao: a de ter vivido 20 anos naquela cidade. Estava fortalecido.
Nada mais poderia separ-lo da msica.
No Rio de Janeiro, a TV Globo avanava em busca de maior visibilidade
junto aos cariocas. Walter Clark contava agora com o grande trunfo que
tanto ambicionava em seu time, o experiente Boni, com quem tencionava
formar uma dobradinha para replantar em bases slidas a programao e o
conceito de profissionalismo que haviam revolucionado a televiso
brasileira na Excelsior.
Jos Bonifcio de Oliveira Sobrinho, nascido em Osasco, filho de um
dentista que tocava violo nos Chores de Presidente Altino, que tambm
inclua os violonistas Garoto e Z Carioca, conhecia bem a idia de
festival, pois fora o responsvel pela admisso de Solano Ribeiro como
L
coordenador de produo na TV Excelsior em 1965. Por isso e por sua
maior intimidade com a msica, teve argumentos para convencer Walter
Clark, filho de um tcnico em eletrnica, que a Globo deveria se ligar
ao Festival Internacional da Cano, ainda que tivessem dificuldades em
cobrir um investimento to elevado. Para tanto, a soluo foi lotear o
grupo de patrocinadores, normalmente quatro ou cinco, em cem cotas que
seriam beneficiadas com comerciais espalhados pelos seis programas, trs
da fase nacional e trs da internacional. A venda foi uma batalha da
rea comercial, com Jos Otvio de Castro Neves e Jos Ulisses Arce,
que, a cada nova cota, comemoravam com Boni e Walter acrescentando um
nome no mapa aos ps da imagem de Santa Clara, padroeira da televiso,
num corredor da Globo. A santa foi rebatizada de Santa Cota e Boni,
encarregado da produo dos seis programas de televiso. O FIC
permanecia uma promoo da Secretaria de Turismo do Estado, sob a
direo executiva de Augusto Marzago, e era tratado pela TV Globo como
um organismo totalmente  parte, gozando de uma independncia como
nenhum outro programa ou evento. Essa independncia foi fundamental na
sua trajetria.
A divulgao das msicas concorrentes foi cercada de adiamentos e
episdios confusos at que se chegasse a bom termo.
Antes de anunciar as 40 concorrentes que disputariam as duas
preliminares, o secretrio de Turismo da Guanabara, Carlos de Laet,
comunicou que a comisso de seleo havia escolhido as msicas, mas que
estas seriam submetidas  sua apreciao. Trocando em midos, abria-se
uma brecha para que a escolha fosse aceita na ntegra ou em parte. Foi o
bastante para gerar um clima de nervosismo entre os compositores que
sentiram a possibilidade dessa interferncia vir a prejudicar um parecer
tcnico. A data da divulgao foi adiada.
Correu um boato que o secretrio estaria pretendendo incluir uma cano
apresentada por Jandira Negro de Lima, que era simplesmente filha do
governador do estado. O diretor-executivo do Festival, Augusto Marzago,
desmentiu essa hiptese, bem como a de que um dos membros da comisso
teria boicotado uma msica de Srgio Bittencourt. No dia 5 de setembro,
Carlos de Laet, finalmente, divulgou a lista das 40 concorrentes, 20
para cada eliminatria. Havia msica de compositores conhecidos, como
Vinicius, Dori, Marcos e Paulo Srgio Valle, Capiba, Menescal,
Pixinguinha, Bonf, Joo Donato, Srgio Mendes, Edu e Capinan,  Chico
Buarque, Vandr e Tho, Carolina Cardoso de Menezes, Radams Gnattali e
Alberto Ribeiro, Gil e Vera Brasil. Entre os desconhecidos, que ainda
assinavam seus nomes completos, figuravam Antnio Mauricio Horta de
Mello e seu parceiro Mareio Borges (ambos mineiros), Antnio Adolfo
Mauriti Saboia, Paulo Tapajs Gomes Filho, Joyce Palhano de Jesus,
Gutemberg Nery Guarabira Filho, Milton Nascimento e Fernando Rocha
Brant.
Nenhuma Negro de Lima, nenhum Bittencourt. No entanto, o secretrio
havia rejeitado trs msicas da lista original: "Motivo", porque a
autora se assinava apenas Snia, e as duas outras, "Balano do Vento",
de Talita Pinto da Fonseca e "Maria Madrugada", dos irmos Horta, porque
no tinham qualidade. Era a opinio do senhor secretrio que, invocando
um artigo do regulamento, deliberara substitu-las pela de Carolina, "O
Amor  Tudo Pra Mim", a de Vanelisa Zagni da Silva (nome de batismo da
cantora Tuca), "Revolta", e a de Marilda Cavalcanti Horta, "Teu
Sorriso". Como se v, por capricho ou pela capacidade de julgamento do
senhor Carlos de Laet, numa das mudanas saram dois Horta mas entrou
outra. Teoricamente a famlia Horta no podia reclamar.
Os membros da comisso  que se manifestaram: a msica de Tuca estava
numa lista de reserva, mas era a segunda.  sua frente havia uma de Tito
Madi. Quanto s outras duas includas pelo secretrio, tinham sido
eliminadas por unanimidade entre eles.
Mas as alteraes no pararam por a. Cinco dias depois da divulgao da
lista, ao sentir um mal-estar entre os compositores, o diretor Marzago
decidiu convocar uma reunio para trocarem idias, aproveitando para
admitir ainda que a msica de Tito Madi poderia entrar no lugar de
"Serenata do Teleco-Teco", que estava para ser retirada pelo autor, o
baiano Gilberto Gil. Para resolver a questo, e um tanto desgastado,
Carlos de Laet iria propor ao governador inchar o nmero de
classificadas, de 40 para 60, criando mais oportunidades. E aproveitou
para alfinetar um componente da comisso de seleo: "S h um membro
que quer me incompatibilizar com a opinio pblica,  o cronista Ari
Vasconcelos".
A idia de aumento de vagas acabou vingando mesmo, pensou-se em 50,
talvez 60, mas atravs de uma Comisso Executiva, que faria a escolha
com total iseno e imparcialidade. O que no impediu que os mineiros
prejudicados chiassem. Talita, que estudara piano com a clebre
intrprete de Mozart Lili Kraus, Toninho Horta e Junia Horta, ambos
estudantes de msica, continuavam se sentindo injustiados e prometiam
impetrar mandado de segurana.
No dia 13 de setembro aconteceu a reunio com os compositores e a
imprensa na sede do Festival, no Pavilho Japons do Parque do Flamengo,
onde seriam divulgadas as concorrentes definitivas. Carlos de Laet abriu
a coletiva com as seguintes palavras: "Sinto-me emocionado de estar num
meio to musicado sic, que espero jamais desafine". A primeira surpresa
para os jornalistas e concorrentes presentes foi a ampliao de 40 para
50 selecionadas. Seriam as participantes das duas semifinais, agendadas
para o Ginsio do Maracanzinho na quinta-feira, dia 19, e no sbado, 21
de outubro. A segunda e maior surpresa foi a constatao de que as trs
msicas, "Balano do Vento", "Maria Madrugada" e "Motivo", originalmente
classificadas pela comisso e injustamente excludas pelo bel-prazer do
senhor secretrio, continuavam fora da lista.
Roberto Menescal estranhou e perguntou  mesa:
- H dois nomes na minha lista que no constam, Talita e Toninho Horta.
Houve alguma mudana?
Carlos de Laet respondeu:
- , ns mudamos trs msicas porque achamos que no tinham qualidade
suficiente para o Festival.
- Mas depois de terem sido selecionadas?
- , ns mudamos, achamos que no tinham qualidade, e entre as restantes
escolhemos outras trs.
- Mas fica muito estranho... Um grupo que foi escolhido por vocs, que
trabalhou... e depois vem a Secretaria e se acha com um poder de deciso
artstica maior que a prpria comisso de pessoas que lidam com msica.
- No, ns mudamos porque o Festival  da gente e a gente acha que pode
mudar.
- Ento eu tambm posso me retirar do Festival se no concordar com essa
mudana. Quero deixar claro que no conheo nenhuma dessas pessoas, mas
vou me retirar.
Menescal levantou-se e ameaou sair quando o secretrio interveio
pedindo que o problema fosse discutido noutra ocasio. Os protestos
continuaram e foi a vez de Dori Caymmi se manifestar:
- Estvamos preparados para que fossem concorrer 40 msicas, e agora
aumentaram para 50. Alm disso, qual o critrio para a Secretaria
substituir essas trs msicas da lista da comisso de seleo?
O secretrio voltou a se justificar, alegando que segundo o artigo 40 do
regulamento ele poderia modificar quaisquer dos itens.
Nesse momento, um dos beneficiados pelas alteraes feitas pela
Secretaria, o cantor Tito Madi, surpreendentemente tambm protestou
apresentando uma carta pela qual, "por uma questo de honra", desistia
do Festival. Foi aplaudido pelos compositores. Como primeiro da lista
"reserva" da comisso, sua composio foi includa depois da desistncia
formal de Gilberto Gil, que alegava ter sua "Serenata do Teleco-Teco"
sido inscrita  sua revelia.
Menescal, Dori, Nelson Motta, Gutemberg Guarabira, Macal, Mrio Telles
e Arthur Verocai ameaaram se retirar, deixando a imprensa
alvoroadssima, quando Menescal disse: "Acho que a gente deve se reunir
e conversar sobre isso".
A reunio dos compositores foi realizada no mesmo dia e por mais de trs
horas, na casa do letrista Mrio Telles, em Copacabana. Eram 15
compositores, os j mencionados, Chico Buarque, Lus Bonf e outros, que
decidiram apresentar um documento ao secretrio de Turismo Carlos de
Laet expondo suas condies para continuar no Festival. Se no fossem
atendidos, retirariam suas msicas, informariam sua deciso ao
governador Negro de Lima e ainda sugeririam o afastamento de Carlos de
Laet. "O que ns queremos  que as decises da comisso de seleo sejam
respeitadas, ou ento a coisa vira baguna", declarou Roberto Menescal
ao Jornal da Tarde.
A certa altura da reunio, houve um telefonema dos promotores do
Festival propondo um encontro para o dia seguinte na prpria Secretaria
de Turismo. Ao aceit-lo, os compositores sentiram que precisariam
munir-se de mais informaes sobre os novos concorrentes, para poder
argumentar contra a substituio. Decidiram ento contratar de imediato
um detetive particular, fazendo uma vaquinha para remuner-lo. Em menos
tempo do que esperavam, foram surpreendidos com o resultado da
investigao: dois dos novos escolhidos eram amigos pessoais do
secretrio de Turismo Carlos de Laet, um deles era seu vizinho de porta
e o outro residia no mesmo edifcio. Uma dessas pessoas era a pianista
Carolina Cardoso de Menezes, que com certeza entrou inocentemente na
nova lista.
Nessa mesma noite, Menescal recebeu um telefonema do secretrio Carlos
de Laet tentando dissuadi-lo da atitude anunciada, complementando: "Acho
que no vai ficar legal para vocs compositores, porque isso no vai
ficar assim, no , Roberto? Voc j tem uma posio conhecida como
compositor, tem filhos,  uma responsabilidade muito grande vocs agirem
assim, e pode acontecer alguma coisa". Roberto ficou louco de
l
raiva, chegou a arrancar o telefone da parede diante do olhar atnito de
sua mulher Yara. Menescal resolveu botar para quebrar.
No dia seguinte foi para a segunda reunio furioso, dizendo para um
segurana logo na entrada: "Voc, sai da minha frente, se tiver papo vai
ser com o secretrio de Turismo". A sala estava repleta de reprteres; o
diretor da TV Globo, Boni, convidou Roberto para conversar com Carlos de
Laet num recinto ao lado e perguntou como ia ficar a situao. "No
sei", respondeu olhando para o secretrio. "Mas eu tenho uns dados aqui
que acho bastante interessantes: das pessoas que entraram, uma  sua
vizinha de porta e a outra mora no mesmo prdio." Boni, que no sabia de
nada, recebeu aquilo como um soco; olhou para o secretrio e disse:
- Bom, agora ns vamos dizer para eles que voltamos atrs, no , senhor
Secretrio?
- Sim, mas... e como fica o caso dessas duas pessoas?
- No sei, o senhor vai dizer para eles que no foram classificados e
pronto.
Em seguida, diante da imprensa, o secretrio afirmou que os escolhidos
pela comisso estavam nas semifinais. Dessa forma, "Maria Madrugada", de
Toninho e Junia Horta, "Balano do Vento", de Talita Pinto Fonseca, e
"Motivo", de Snia Rosa, iriam concorrer. No havia nenhuma cano de
Tito Madi, nem de Gilberto Gil, nem de Carolina no II FIC. Carolina
solicitou a retirada de sua msica. Ficaram vinte e trs canes para
cada eliminatria. Marzago estava feliz com o fim das divergncias.
O que mais chamava a ateno na lista de 46 canes  que trs delas
eram de um mesmo compositor, o desconhecido cantor de boates que morava
em So Paulo, Milton Nascimento. Ficou to contente com essa
classificao que declarou: "Vou morar no Rio de Janeiro. L tudo d
samba".
O Rio de Janeiro vivia um clima de festa com a chegada das delegaes de
artistas dos 31 pases concorrentes para se hospedaram no hotel
Copacabana Palace, para onde haviam sido transferidos os escritrios do
FIC. A importncia do evento podia ser avaliada pelo lanamento de um
selo, alvoroando os filatelistas, ou pelo interesse despertado nos que
desejavam tirar uma lasquinha. O Conselho de Defesa dos Direitos
Autorais, integrado por Humberto Teixeira e David Nasser entre outros,
impetrou uma ao na Justia para cobrana de direitos das novas
composies, que nem editadas tinham sido. No s foi rechaada pelo
secretrio Carlos de Laet, com o argumento que o Festival no visava
lucro e nem as msicas seriam exploradas, como no obteve o menor apoio
dos compositores concorrentes.
 medida que os convidados, cantores e personalidades da msica iam
chegando do exterior, mais e mais o Rio de Janeiro se agitava. Se entre
os intrpretes concorrentes no havia nomes consideravelmente
expressivos, o mesmo no se pode dizer dos convidados. A lista era de
fazer inveja a quaisquer daquelas que, precedendo os carnavais do Rio,
tinham o poder de excitar playboys cariocas ou paulistas e "mocinhas de
fino trato" disponveis para um romance rpido e rasteiro. A delegao
francesa para o II FIC era formada pelo editor de msica Eddie Barclay,
o cantor de "Ma Vie" Alain Barrire, os autores de "Um Homem, Uma
Mulher", Francis Lai e Pierre Barouh, Paul Misraki, autor de "Vous Qui
Passez Sans Me Voir", e o empresrio do Olympia, Bruno Coquatrix. Da
Argentina veio o famoso compositor Marianito Mores, autor de "Adios
Pampa Mia" e "Uno"; da Blgica, o extraordinrio cantor Jacques Brel; da
Itlia, os cantores Nico Fidenco e Jimmy Fontana; do Chile, o rei do
bolero, Lucho Gatica; do Peru, a cantora Yma Sumac. Para variar, a
delegao americana era simplesmente arrasadora. Vieram astros e
estrelas, Kim Novak, o ator Robert Wagner, e a estonteante Jill St.
John, que iria se casar com o cantor Jack Jones, tambm no Rio. Mais
cantores e cantoras: Patty Austin, Dionne Warwick e Andy Williams. Entre
maestros e arranjadores, ningum menos que: o maestro David Rose,
compositor de "Holiday For Strings", o respeitado maestro Percy Faith,
Herb Alpert, lder da Tijuana Brass, o produtor Creed Taylor e um trio
que dispensa adjetivos, Quincy Jones, Nelson Riddle e Henri Mancini. No
era tudo: mais importantes que starlets e, por incrvel que parea, sem
muito assdio por parte da imprensa, eram os compositores, cujas
fisionomias no eram l muito conhecidas. Estavam no Rio representantes
da fina flor do American Song, o polons de origem, Bronislaw Kaper,
autor de "Hi-Lili, Hi-Lo" e "Invitation", Sammy Cahn, letrista de
"Please Be Kind", "Second Time Around", "Three Coins in The Fountain",
"Time After Time" entre dezenas de outras, Johnny Mercer, um dos maiores
letristas americanos em centenas de canes como "Fools Rush In", "One
For My Baby", "Moon River", Jimmy Van Heusen, autor de "Call Me
Irresponsible", "Imagination", "Second Time Around", Allan Bergman,
letrista de "NiceV Easy" e "You Don"t Bring Me Flowers" e, por fim,
Johnny Mandei, autor de "The Shadow of Your Smile", que, ao lado dos j
citados maestros e arranjadores, compunham um time de AU Stars da msica
popular. Nunca mais se reuniu um convescote de compositores americanos
desse porte na piscina do Copa, dando sopa para fotos e entrevistas. S
mesmo o talento e cavalheirismo de Marzago para realizar tal faanha.
O ginsio do Maracanzinho foi consideravelmente melhorado para receber
os artistas brasileiros, 170 estrangeiros, um pblico calculado entre 15
a 20 mil pessoas, cerca de 300 jornalistas brasileiros e do exterior e a
equipe da TV Globo, a emissora que arcou com os quase US$ 50 mil para a
montagem do som que, esperava-se, pudesse resolver os comentados
problemas do ano anterior. Entre as melhorias do ginsio, que estava
meio largado, os camarins foram pintados e a rea externa iluminada com
lmpadas de mercrio.
Sob o comando do engenheiro Herbert Fiza, a sonorizao interna teria,
em vez de cometas, 40 caixas de som, 15 amplificadores Mustang de 50
watts, dos quais dois para o jri. Os defletores, localizados sob um
teto falso, seriam rebaixados ao mximo para diminuir o rebatimento e
haveria tapetes nas reas vazias - apesar de todas essas providncias,
caso o Maracanzinho no lotasse, talvez no fosse possvel eliminar o
eco. O decorador Jlio Sena ajudaria a corrigir a acstica com a
colocao de toldos em vermelho e branco no anel superior. O cenrio que
projetou tinha lances de audcia: um imenso painel de plstico branco,
iluminado por trs, com a imagem do galo no meio, servia de fundo para o
palco em trs planos de piso branco. No meio do grande semicrculo
principal, sobre um disco elevado, postavam-se os cantores;  esquerda,
os apresentadores Hilton Gomes e Ilka Soares; e  direita, os eventuais
vocalistas complementares, o coro, que anos depois seria chamado no
Brasil de backing vocal. Em frente ao palco, num plano inferior, duas
passarelas circulares descendentes, rodeando a orquestra, e, num tablado
redondo, o maestro, voltado para a orquestra e os cantores. Entre as
costas do maestro e o pblico, a comprida mesa dos jurados e, atrs
destes, as 1.400 cadeiras de pista para os convidados especiais. Quem
pagava era a TV Globo, vencedora da concorrncia para transmitir com
exclusividade para o Rio, So Paulo e Belo Horizonte simultaneamente. Os
lugares mais baratos eram nas arquibancadas, a 3 cruzeiros novos,
equivalentes a US$ 1 aproximadamente, ao passo que os mais caros eram os
camarotes, a US$ 30. A TV Globo ainda dava um apoio aos inscritos,
oferecendo um pequeno estdio para os candidatos gravarem as suas
canes.
O novo palco do FIC no Maracanzinho que, com um
grande investimento da TV Globo, foi inteiramente reformado
para a realizao da segunda verso do festival, em 1967.
O alto investimento, que representava 60% dos custos totais, tinha
fundamento, pois esperava-se que o Festival firmasse a audincia da TV
Globo, dando-lhe ainda uma personalidade identificada com a populao
carioca. Alm das novelas, a Globo tinha o "talk show" de Glaucio Gil,
que apoiava muito o teatro em suas entrevistas com atores. O programa
teve um desfecho trgico e imprevisvel: Glaucio Gil morreu no estdio
durante uma entrevista. Caiu frente  cmera, o programa foi
interrompido e colocaram no ar o antigo logotipo da emissora. Logo
depois foi anunciada sua morte. Com isso a Globo ficou capenga no
horrio. A idia era que o Festival desse uma alavancada na emissora.
Depois de muito empenho, as cotas de patrocnio foram todas vendidas
antes do incio do grande evento, garantindo pelo menos o retorno do
investimento. A Globo assumiu os encargos dos prmios, de mais de 200
passagens internacionais e nacionais, dos cenrios, do sistema de som,
da orquestra e de parte dos custos da organizao.
O jri anunciado a 16 de outubro teria 17 integrantes, dois de So
Paulo, um da Bahia, um de Minas e os demais do Rio, sendo que 11 deles
eram jornalistas. Sob a presidncia do maestro Isaac Karabtchevsky, era
composto por Elizeth Cardoso, Ricardo Cravo Albin, diretor do MIS, o
humorista Ziraldo, que trabalhava na revista Viso e desenhara o galo
smbolo do festival, o poeta Paulo Mendes Campos, o embaixador Donatello
Grieco e os jornalistas Joo Marschner, de O Estado de S. Paulo, Adones
de Oliveira, da Folha de S. Paulo, Fernando Hupsel Oliveira, de A Tarde
de Salvador, Rmulo Tavares Paes, de O Estado de Minas, Justino Martins,
diretor da revista Manchete, Carlos Lemos, crtico do Jornal do Brasil,
Carlos Menezes, editor de O Globo, Mauro Ivan, crtico do Correio da
Manh, Hlio Tys, de O Dia, Laura Dantas Pinto Guimares, do Dirio de
Notcias, e Antnio Carlos Lopes, dos Dirios Associados. Vrios deles
tiveram de recorrer  Casa Rollas para alugar os smokings que deveriam
trajar quando estivessem ouvindo as msicas - e a audio, desta vez,
seria feita atravs de fones com regulagem de volume. Houve algumas
vozes dissonantes quanto  competncia de um jri, ao que tudo indicava,
mais habilmente jornalstico que idealmente musical.
Aps dois ensaios, na vspera e na prpria quinta-feira, 19 de outubro,
entrou no ar o II Festival Internacional da Cano pela TV Globo, aberto
pela grande orquestra de 75 msicos sob a batuta de Erlon Chaves, que se
revezaria com Mrio Tavares e Astor Silva. Foi executado o Hino do
Festival, a Rapsdia Brasileira de Paul Misraki e um potpourri com trs
msicas do ano anterior, "Saveiros" era uma delas. Os apresentadores
anunciaram os convidados estrangeiros, os participantes do jri nacional
e deram incio ao desfile de 23 canes com um concorrente
surpreendente: Pixinguinha, uma legenda na msica brasileira, e j com
70 anos. Seu parceiro, Hermnio Bello de Carvalho, havia feito a letra
de "Fala Baixinho", que seria cantada por Ademilde Fonseca, uma expert
em choro cantado. O terceiro concorrente foi recebido com uma ovao que
foi minguando  medida que a msica avanava. Os aplausos eram para
Geraldo Vandr e no para "De Serra, de Terra e de Mar".
A seguir, duas msicas do estreante Milton Nascimento: "Maria, Minha
F", levada no estilo suave do cantor Agostinho dos Santos, e
"Travessia", com o prprio compositor. Aos 24 anos, Milton era
considerado a grande revelao antes mesmo de comear o Festival. No
era para menos, um estreante com trs msicas classificadas era caso
raro. Como no tinha dinheiro para o smoking, que supunha ser
obrigatrio, comprou-o fiado dando como garantia suas trs composies.
Nervoso como todos os concorrentes, conseguiu se controlar com o
incentivo dos aplausos a Agostinho dos Santos, um cantor paulista muito
querido no Rio. Se gostaram de uma, deveriam gostar da outra, pensou
antes de aparecer. O artista saa de uma boca de cena e percorria uns 20
metros at chegar diante do microfone onde deveria cantar. Tinha a viso
da orquestra embaixo e de costas. Nesse percurso j se podia sentir o
comportamento do pblico do Maracanzinho. Quando Milton surgiu, o
pblico se sentiu atrado por sua presena, antes mesmo que ele
comeasse a cantar. Tinha uma fora que ia alm da msica, a aurola de
um santo, o astral de um artista predestinado  idolatria. Atacou no
violo os acordes, que seriam tantas e tantas vezes repetidos depois. O
pblico comeou a aplaudi-lo na oitava nota da msica, depois de "Quando
voc foi embora", como se ele tivesse terminado. No primeiro refro, os
aplausos voltaram, mais intensos, aps o verso "Solto a voz nas
estradas", e outra vez ainda no mesmo ponto ao ser repetido. O final do
arranjo original, de Eumir Deodato, era com um prolongado "vz" sem a
seqncia "nas estradas". Foi uma consagrao. Cantando uma toada,
avessa ao padro de msica de festival ou quela animao caracterstica
dos cariocas, Milton Nascimento praticamente se incluiu, antes mesmo de
terminar a apresentao, entre os mais fortes concorrentes, uma
revelao de compositor e de cantor. Como s de quando em quando surge
no mundo. Sua foto tocando violo foi para a primeira pgina de O Globo
no dia seguinte. Vinha de Trs Pontas, Minas Gerais, e acreditava que a
melhor das suas trs msicas era "Morro Velho".
A sexta msica, "Cano de Esperar Voc", foi interpretada pela irm do
autor Fernando Leporace. Gracinha justificou plenamente seu prenome,
sendo aplaudida at por Pixinguinha, um dos que ficaram encantados com
aquela moreninha de cabelos curtos e vestido prateado, discreta nos
doces meneios de corpo, segura na interpretao e sem a preocupao de
bajular a platia ou os jurados. Conquistou ambos e o corao de Srgio
Mendes, com quem se casou.
A oitava msica, "Carolina", fora resultado de uma barganha entre o
autor Chico Buarque e Walter Clark. Certo dia, no famoso bar do Leblon,
lvaro"s, Walter props a troca - se Chico colocasse uma msica no
Festival, seria perdoado da multa por descumprimento do contrato com o
programa da Globo Shell em Show Maior. Como Chico queria se livrar
daquele abacaxi, resolveu fazer a msica, inscreveu-a, mas no tomou
muito conhecimento. Foi quando Rui, do MPB 4, o procurou: o Quarteto em
Cy tinha se separado e Cynara, que era sua mulher, precisava de uma
fora ao formar dupla com a irm Cybele. As duas se lanaram muito bem
cantando "Carolina", foram aplaudidas duas vezes antes de terminar a
primeira apresentao, embora a letra pedisse uma interpretao
masculina.
Da nona at a dcima terceira competidora, no houve nenhum destaque. A
dcima quarta apresentada, "So os do Norte que Vm", um baio-exaltao
muito sem graa, de Capiba e Ariano Suassuna, cantado pelo pernambucano
Claudionor Germano, dolo nos carnavais do Recife, agitou o ginsio
sedento de alegria com a clssica desdobrada festivalesca ao final. Foi
preciso mais quatro msicas at que o pblico voltasse a se manifestar
animadamente. Entraram no palco os oito componentes do grupo Manifesto,
liderados pelo autor de "Margarida", o baiano Gutemberg Guarabira, com a
orquestra regida por Oscar Castro Neves. Uma cano fcil de aprender,
pois tinha um refro de cantiga de roda que o pblico pegou na hora: "E
apareceu a Margarida, ol, ol, ol/ e apareceu a Margarida, ol, seus
cavaleiros". Margarida trazia de volta a alegria que estava faltando.
Depois dessa vitoriosa apresentao, Gutemberg achou que poderia ganhar
o Festival.
Mais quatro concorrentes e o pblico se retirou com suas preferncias
declaradas por "Margarida", "Travessia" e "Carolina" -embora o jri s
fosse decidir as classificadas aps ter ouvido as 23 da segunda
eliminatria. Entre os crticos, Juvenal Portella, do Jornal do Brasil,
tambm se entusiasmou com "Margarida" e "Carolina", mas escreveu que,
alm dessas duas, havia pouco a se aproveitar. "Assistimos a um festival
de bocejo", confidenciou o secretrio de Turismo Carlos de Laet a um
assessor.
Os dois dias entre as eliminatrias no eram suficientes para que as
melhores msicas pudessem ser devidamente divulgadas nas emissoras de
rdio - um veculo importante, que o Festival da Record sabia aproveitar
muito bem.
No mesmo dia da final do Festival da TV Record, a TV Globo transmitiu a
segunda eliminatria do II FIC. Os espectadores tinham dessa maneira, 
sua disposio, duas diferentes programaes da nova msica popular.
Uma, com os artistas em vertiginosa ascenso, Chico Buarque, Caetano
Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Elis Regina, Jair Rodrigues, o MPB 4 e
Geraldo Vandr; a outra, sem nenhum grande nome, mas uma grande
revelao: Milton Nascimento. Assim se deu a briga pela audincia na
televiso no sbado, dia 21 de outubro de 1967. Dessa vez havia mais
pblico e maior animao para receber o primeiro da noite, novamente
Milton, com sua terceira cano, "Morro Velho", num arranjo do f
declarado, Eumir Deodato.
"Morro Velho" emocionava quem j ouvia Milton desde So Paulo, onde a
msica fora composta. No primeiro semestre de 1967, o empresrio
Guilherme Arajo me ligou convidando para um almoo com Elis e o noivo,
Ronaldo Bscoli, em seu apartamento na rua So Carlos do Pinhal, no
mesmo edifcio onde eu morava. Antes de ser servido, chegou um amigo
dela, que iria, a seu pedido, nos mostrar suas msicas. Durante o almoo
ficou calado, s observando. Depois da sobremesa, aquele rapaz muito
tmido, tristonho, com um ar sofrido mas um sorriso franco e aberto que
se iluminava com o sol de inverno entrando pelas vidraas enormes,
cantou "Travessia", "Cano do Sal" e, depois, "Morro Velho". Quando
terminou, Guilherme, Ronaldo, Elis e eu ficamos olhando uns para os
outros como se tivssemos ouvido um ser de outro planeta. Nossos olhos
encheram-se de lgrimas que tentamos disfarar. Sua tristeza se
desvaneceu por um tempo.
Outro momento emocionante de Milton em So Paulo teve seu comeo  certa
noite quando ele substitua o cantor de um barzinho. s tantas percebeu
que algum se sentara a seu lado. Depois de tocar vrias msicas,
ouviu-o dizer:
- Bicho! Quem  voc?
Milton nunca tinha ouvido essa expresso. Era Agostinho dos Santos, que
ele tanto admirava.
- Voc compe tambm? Toca uma msica sua.
Milton cantou "Morro Velho". A msica pegou-o desprevenido. Agostinho
resolveu apadrinhar Milton, levando-o a todos os lugares, apresentando-o
a seus conhecidos, at o dia em que lhe deu uma notcia:
- Bicho, vai ter um festival no Rio de Janeiro que  internacional, vem
gente do mundo inteiro. Vamos botar uma msica l.
- Agostinho, no vou, no.
- Como no vai?
- No, depois daquele festival da Excelsior, fiquei muito triste e no
vou mais botar msica em festival, quase que eu acabo com a msica.
Insistindo e ouvindo negativas, Agostinho chegou depois com outra
novidade  penso onde Milton morava:
- Vou gravar um disco! Arrumei um produtor, falei de suas msicas e ele
pediu para voc gravar trs que ele vai tirar uma para o disco.
- Gravar trs para voc tirar uma?
Dias depois, na casa de um amigo do cantor, Milton gravou trs msicas
para o disco de Agostinho. Algumas semanas mais tarde, estava no Teatro
Record, quando foi cumprimentado vrias vezes sem saber o que se
passava. Elis veio abra-lo num pulo, exclamando eufrica:
- Eu sabia!
- Sabia o qu?
- Voc tem msica no festival do Rio!
- Eu no botei msica no festival do Rio.
- Ento tem outro Milton Nascimento.
Milton ficou desconcertado, sem acreditar. Ouviu uma risada por trs.
Era Agostinho dos Santos, que armara tudo sem que ele desconfiasse de
nada.
- E no adianta dizer que no, porque o homem do festival est vindo
para te conhecer.
As trs msicas tinham entrado e, no Rio, os selecionadores queriam
saber quem era o compositor paulista. Em So Paulo, Marzago ouviu
Milton pela primeira vez num bar da Galeria Metrpole, comunicando logo
que ele precisava ir ao Rio.
- No  por nada no, mas eu no tenho dinheiro nem para ir de um lado
da Lapa para o outro lado.
- No tem problema, eu pago a sua passagem, dou um dinheiro e reservo um
hotel at voc conseguir se arranjar.
Milton tomou um nibus e se mudou para o Rio. Chegou ao escritrio do
Festival com a mala e o violo.
- O senhor deseja falar com quem?
- Eu queria falar com o sr. Marzago.
- Ele est numa reunio. E hoje vai ser um dia meio pesado, voc pode
voltar amanh?
- Posso. Agora, eu queria deixar um recado. Diz para ele que o Milton
Nascimento chegou e est no hotel, como ele mandou.
A moa se levantou num pulo, como a Olvia Palito quando quer ver o
Popeye. Foi um corre-corre, a porta se abriu, saram os que estavam na
reunio, Eumir Deodato, Geni Marcondes, Guerra Peixe, todos curiosos
para conhecer Milton, examinando-o como uma espcie rara. Na seqncia
foi convidado a cantar suas msicas; em "Morro Velho", alguns choraram,
outros bateram palmas pedindo mais "Morro Velho". Vrias vezes.
No Rio, Eumir apresentava Milton a todo mundo. Levou-o a sua casa
anotando acorde por acorde de "Morro Velho" e "Travessia" para a
elaborao dos arranjos. Milton, que mostrava as posies de seus dedos
em cada um deles, perguntou:
- Eumir, quem vai cantar essas msicas?
O outro olhou-o vagamente, sem responder.
- Eu queria que a Elis cantasse uma delas, mas a Record no deixa. Me d
uma idia a.
- Eu estou trabalhando com voc hoje e j comecei a fazer os arranjos. E
vou embora amanh para os Estados Unidos. E no  para voltar. Se voc
quiser que eu faa algum arranjo, voc  que vai cantar. Seno eu paro
agora.
- Meu Deus do cu! No vou enfrentar 20 mil pessoas no Maracanzinho,
no tenho coragem pra isso.
- No, voc tem que cantar. Vou fazer os arranjos para voc cantar.
Milton teve que cantar. No ensaio de "Morro Velho", o maestro
Erlon Chaves e vrios msicos choraram. Eumir deu um novo colorido 
narrativa. Era outra longa toada, desta vez contando a histria de dois
meninos de fazenda, o filho do dono e seu companheiro, um garoto da
colnia com quem brincava.
Na segunda eliminatria, Milton entrou sozinho novamente com seu violo,
apoiou-se num banquinho e cantou sua segunda msica no Festival. A
amizade era o tema da lenta cano apresentada para milhares de pessoas,
que aplaudiram mais uma vez a voz que parecia vir do den. Foi a melhor
coisa daquela noite.
Aplaudindo e vaiando moderadamente, a platia foi ouvindo mais 22
canes entremeadas de nmeros dos cantores estrangeiros, tendo se
agitado mais com "Fuga e Antifuga", do maestro Edino Krieger e Vinicius
de Moraes, com o Quarteto 004 e As Meninas. Foi, assim, uma noite morna,
que no entusiasmou os ingleses, nem Eddie Barclay, nem os jurados, que
tinham a misso de destacar 20 finalistas. Saram 11 do primeiro dia e
nove do segundo para a final nacional no dia seguinte. Guarabira, Milton
e a dupla de baianos Alcivando Luz e Carlos Coqueijo emplacaram duas
cada um entre as 20. Tambm passavam para a etapa seguinte msicas de
Vandr, Lus Bonf, Edu Lobo, Francis Hime, Dori Caymmi, Lus Ea e
Chico Buarque, que mal acreditou que sua msica fora classificada.
A alegria do pblico carioca impressionou vivamente os convidados, que
no imaginavam ver tanta animao num festival de msica. No
Maracanzinho, a torcida de "Margarida" desfraldou uma faixa com enormes
margaridas de papelo, consciente de que iria enfrentar o organizado
grupo de "Fuga e Antifuga". Alm dessas duas, "O Sim pelo No", de
Alcivando Luz e Carlos Coqueijo, "Travessia" e "Carolina", com a
presena de Chico Buarque como convidado especial, eram as mais fortes
concorrentes. Entre os cantores, o pblico tinha declarada simpatia por
Gracinha Leporace e Milton Nascimento, o que poderia influenciar a
deciso do corpo de jurados que, entre as 20, deveria premiar dez, sendo
que a primeira, como no ano anterior, seria a representante brasileira
no confronto com as internacionais.
Mais de 15 mil pessoas se agitavam no domingo, sem saber o sufoco que os
tcnicos da TV Globo tinham enfrentado horas antes, quando houve falta
de energia. Para chegar a tempo, o caminho com o gerador solicitado
teve de atravessar o tnel Rebouas ainda em construo.
Dois compositores foram massacrados com vaias impiedosas: Edu Lobo, com
o "Canto da Despedida" (em parceria com Capinan), interpretada pela
catarinense Neide Mariarrosa, e Geraldo Vandr, que, com o trio Maray,
cantou quase ao final, pois chegara atrasado. Em compensao,
"Margarida" foi consagrada. Hilton Gomes anunciou que o simptico
Gutemberg Guarabira estava rouco, mas assim mesmo defenderia sua msica,
uma comunicao que, teoricamente, beneficiava-o com um handicap de
tolerncia. "Margarida" contava ainda com a participao de Gracinha,
naquela altura, o xod da moada. No deu outra: foi de longe a msica
mais aplaudida, o povo todo cantou feliz e nem mesmo a grande novidade
desse Festival, que era Milton Nascimento, conseguiu convencer o jri.
O resultado foi anunciado depois da meia-noite. Milton foi o melhor
intrprete e abiscoitou o stimo lugar com "Morro Velho". Os pais de
Bituca, Josino e Lilia, Fernando Brant e famlia, Mrcio Borges, amigos
de Trs Pontas, novos amigos, como Gonzaguinha, todos tinham vindo
torcer por ele. Chico bicou mais uma grana naqueles dias, com os 2 mil
pelo terceiro lugar de "Carolina", e Milton ainda ficou com o segundo
lugar com sua "Travessia". Enquanto cantava, j como vice-campeo, via
na platia um assistente gesticulando e protestando em altos brados:
"Marmelada! Marmelada!". Era Augusto Marzago, diretor do FIC. Na Globo,
Boni tambm achava que Milton deveria ter ganho e todos lamentaram a
deciso do jri, ainda que reconhecessem muita alegria no grupo que
cantou "Margarida".
Apesar do favoritismo declarado da platia, houve vaia quando Hilton
Gomes anunciou o primeiro lugar. Os que torciam pelas outras msicas no
gostaram e naturalmente vaiaram Gutemberg que, no entanto, estava
preparado. Enquanto a segunda e a terceira msicas eram reapresentadas,
Gut correu pelo meio da orquestra e pediu ao celista Mrcio para tocar
um mi bemol, memorizou a nota e, quando subiu ao palco, entrou na
tonalidade certa, apesar de no conseguir ouvir nada da orquestra.
Quando o regente Oscar Castro Neves deu a sada, ele atacou na cabea.
Depois de uns oito compassos, todo mundo aplaudia "Margarida".
No Rio de Janeiro, o baiano criado em Bom Jesus da Lapa, Gutemberg
Guarabira, que havia participado, a convite de Srgio Cabral, do show de
inaugurao do Teatro Casa Grande com Sidney Miller e Lus Carlos S,
freqentava o bar do Careca da rua Gustavo Sampaio, no Leme. Foi onde
conheceu o grupo Manifesto, com Gracinha e seu irmo Fernando Leporace,
Lucinha (que depois formaria, com Luli, a dupla Luli e Lucina), Guto
Graa Mello, Amauri Tristo, Jos Renato, Junaldo, Mariozinho  Rocha e
Augusto Pinheiro. Entrou para o grupo quando foram contratados para
fazer um programa na TV Continental e um disco na Philips a convite do
arranjador Oscar Castro Neves. Gut foi forado pelos companheiros a
inscrever no II Festival da Cano sua msica "Margarida", que j fazia
parte do repertrio do grupo e estava ensaiada para o disco. Nasceu de
uma brincadeira entre ele e Sidney Miller, que o desafiou a compor uma
msica baseada em alguma cano folclrica, como "Boi da Cara Preta", de
Dorival Caymmi. Sidney Miller fez "Marr-deCy" e Gut fez "Margarida",
cuja letra falava de uma decepo amorosa nos seus 16 anos. A origem do
refro era uma cano de roda francesa, "Seche tes Larmes, Marie"
(Enxugue tuas lgrimas, Maria), que j havia sido utilizada, em 1964, na
marchinha de carnaval "Marcha do Remador" por Antnio Almeida e Oldemar
Magalhes, cantada por Emilinha Borba. Como pouco antes do FIC o grupo
Manifesto estava esfacelado, Gutemberg pediu a vrios cantores para
interpret-la, inclusive a Agnaldo Timteo, mas ningum se interessou.
No teve outra alternativa, reuniu seus amigos do Manifesto para
defender a msica com ele. A fita para sua inscrio foi feita no
estdio que a Globo oferecia aos candidatos, onde tambm foram gravadas
as de outros componentes do grupo - "Cano de Esperar Voc", de
Fernando Leporace, cantada por Gracinha, "Desencontro", de Amauri
Tristo e Mrio Telles, cantada por Gracinha em dupla com Mrio, e
"Marinheiro Ol", tambm de Gut, que seria defendida por Agostinho dos
Santos com arranjo de Guerra Peixe.
Vitoriosa na parte nacional, "Margarida" foi mais uma vez ouvida no
Maracanzinho nos dias 28, quando concorreu, na segunda eliminatria
internacional, com mais 30 canes estrangeiras, e 29 de outubro, pois
estava classificada entre as 20 finalistas. Ficou em terceiro lugar na
deciso do jri que, presidido por Henri Mancini, premiou a cano
italiana "Per una Donna", de Marcello di Martino e E. Perreta, com o
cantor Jimmy Fontana, estrondosamente vaiada quando foi anunciada
vencedora. O pblico queria a brasileira "Margarida". Kim Novak tambm,
e deu um beijo em Guarabira. Foi uma confuso dos diabos no palco, muita
gente entrou, no se conseguia ouvir a voz do locutor Hilton Gomes. Ao
sair do ginsio, o carro que conduzia Henri Mancini foi atacado por
populares aos socos e pontaps, o que poderia prejudicar os convidados
internacionais do FIC do ano seguinte. Na imprensa criticou-se a
exagerada distribuio de convites.
Na premiao da fase nacional, no intervalo da segunda eliminatria
internacional, quem acabou levando uma bela vaia foi o diretor da TV
Globo, Walter Clark, quando entregou o Galo de Ouro ao vitorioso.
Gutemberg Guarabira foi comemorar com seus amigos do Manifesto no bar do
Careca. Ganhou um bom dinheiro, 25 mil cruzeiros novos, sendo 5 mil para
dividir com o grupo Manifesto. Era muito dinheiro para quem vivia numa
pindaba de fazer gosto. Dava para comprar um apartamento. Depositou
tudo no banco e ia gastando;  medida que o mao de notas no bolso
diminua, passava pelo banco e sacava outro tanto para aproveitar a vida
que nunca tinha levado, convidando seus amigos duros, como o Joo
Medeiros Filho, para o Fiorentina, onde mandava colocar o usque
predileto na frente de cada um, queijo fino para o Luiz Carlos S e
pagava a conta com gosto.
Entre os demais premiados, o maestro Gaya recebeu um Galo de Prata pelos
melhores arranjos, escolhidos pelo presidente do jri Karabtchevsky. Com
o segundo e stimo lugares entre os compositores, alm de melhor
intrprete, o grande premiado foi mesmo Milton Nascimento.
Milton fez "Morro Velho" e "Travessia", em So Paulo, no mesmo dia. A
letra de "Morro Velho" foi inspirada numa das visitas  fazenda da av
de Wagner Tiso,  beira de uma estrada de ferro, onde moravam o filho do
dono e o filho do colono chamado Aniceto Niceto. Pela forma de
tratamento ao tema da amizade, que seria retomado em outras canes
suas, poderia ter sido trilha do filme Menino de Engenho.
Para a outra composio desse dia, inicialmente chamada "O Vendedor de
Sonhos", Milton escreveu uma letra que costumava cantar no barzinho Sand
Churra em So Paulo, e comeava assim: "Quem quer comprar meus sonhos?".
No estava contente com essa idia, tampouco sentia que Mrcio Borges,
seu parceiro mais constante na poca, pudesse fazer a letra definitiva.
Resolveu entregar a misso a outro amigo, Fernando Brant, que nem era
letrista. Foi de nibus para Belo Horizonte e pediu para Fernando fazer
a letra.
- Voc est louco? Eu nunca mexi com letra. Eu gosto de msica, mas no
sei mexer com isso.
Milton no desistiu. At que um dia Fernando se props a escrever a
letra, usando como tema o rompimento de um namoro, e ficou aguardando a
vinda de Milton a Belo Horizonte para mostrar-lhe o resultado. Nesse
dia, foi ao quarto da irm, apanhou seu violo, e foram ambos para uma
salinha cantar "Travessia" pela primeira vez. De repente, a luz se
acendeu: era Maria Clia, a irm de Fernando, dona do violo e uma das
moas mais bonitas da cidade. Tinha ouvido tudo e, entusiasmada, pediu
que Milton autografasse seu violo.
- No, que  isso? Vai estragar seu violo.
- Com essa msica vocs vo ganhar o festival. Foi o primeiro autgrafo
que Milton deu na vida.
Formada basicamente por trs segmentos, sendo um deles um curto
interldio instrumental entre os outros dois (primeira parte e refro),
eventualmente tambm usado como introduo, era a melodia da letra
descartada em "O Vendedor de Sonhos". A primeira parte desenvolvese em
frases descendentes, a maioria em busca das notas mais graves, que
Fernando habilmente fez casar com o rompimento amoroso: "Quando voc foi
embora/ fez-se noite em meu viver...". O refro, mais esperanoso, segue
um caminho oposto, de frases buscando as notas agudas, exceto a ltima,
a nica com uma melodia descendente combinando com o verso final, "Vou
querer me matar". No entanto, essa concluso trgica esconde um sonho,
significando exatamente o oposto, um alento para a vida, de tal modo
disfarado que a inteno da msica  de fato positiva, para cima, como
indicam os versos na repetio da primeira parte: "Eu no quero mais a
morte/ tenho muito que viver/ vou querer amar de novo..." sobre frases
meldicas ascendentes.
"Travessia" teve uma carreira brilhante no Brasil e no exterior, onde
foi gravada com o ttulo de "Bridges", na verso de Gene Lees, por Joe
Williams, Sarah Vaughn entre tantos. Elis e Leny Andrade tambm
gravaram, houve verses instrumentais como a de Lus Ea, o arranjador
da gravao em estdio, com Milton, para a defunta marca Codil, em seu
primeiro LP brasileiro. A contracapa desse disco contm textos de Edu
Lobo, Paulo Srgio Valle, Geni Marcondes e Ziraldo.
As carreiras discogrficas das duas primeiras canes do II FIC seguiram
caminhos opostos. A Philips apostava todas as fichas na msica de Edu
Lobo, o que tinha dado certo com "Ponteio", uma das 36 faixas dos trs
LPs do Festival da Record. Mas, no Rio, "Margarida" pegou todo mundo de
surpresa, inclusive a Philips, que no se empenhou muito com a
vencedora. Por isso, embora "Margarida" j estivesse gravada para o LP
do grupo Manifesto, s quatro meses depois do Festival  que o disco foi
lanado. Gutemberg reclamou com a gravadora, foi colocado na geladeira,
seu contrato no foi rescindido e, quando expirou, no foi renovado,
alijando-o do cenrio do disco no perodo de maior entusiasmo,  logo
aps a vitria. Um ano e meio depois, ningum mais se lembrava dele e
nenhuma gravadora quis contrat-lo. Seu rumo artstico iria se
solidificar no trio S, Rodrix e Guarabira, e sua atuao no FIC iria
ser retomada, embora em condies muito diferentes.
Enquanto isso, "Travessia" tornou-se rapidamente internacional. Um dos
convidados ao FIC, o produtor Creed Taylor, retornou aos Estados Unidos
com um contrato assinado por Milton para trs discos. Milton viajou no
ano seguinte, gravou dez msicas - inclusive "Travessia", cantada em
ingls e portugus - para o LP Courage, com arranjos de Eumir Deodato,
participou de festivais de Jazz e fez shows no Mxico. Sua carreira em
discos no Brasil demoraria a se desenvolver, e muito foi devido 
confiana que nele depositavam os persistentes diretores da Odeon, Adail
Lessa e Milton Miranda. Era tratado como um dos astros da companhia,
gravava o que quisesse e como quisesse, mas somente em 1975, aps ter
gravado cinco lbuns,  que atingiu a vendagem de discos esperada pela
gravadora. At ento, era tido como um artista de composies muito
complicadas e as gravadoras no costumam ter tanta pacincia nesses
casos. Os lucros fabulosos custaram mas chegaram em quantidades jamais
sonhadas a partir do lbum Minas, cujo ttulo era, ao mesmo tempo, o
estado onde Milton havia se criado e o anagrama com as primeiras slabas
de seu nome e sobrenome. Foi um menino, um de seus inmeros afilhados,
que descobriu a coincidncia.
Foram lanados dois LPs oficiais do Festival, ambos com capas
praticamente idnticas, o desenho do galo de Ziraldo, smbolo do FIC. A
empresa Codil lanou um LP com gravaes ao vivo no lado A, incluindo as
duas msicas com Milton e a com Agostinho dos Santos, tambm diretor
artstico do disco. O lado B, gravado no estdio da Rio Som, tinha
"Margarida" e "Carolina" cantadas por Maricene Costa.
O outro LP oficial do II Festival Internacional da Cano Popular, com
11 faixas, era da Philips, que lanou mo de seu cast em gravaes de
estdio: a vencedora "Margarida", com Guarabira e o grupo Manifesto j
contratados, "Carolina", com Nara Leo, e "Travessia", com Elis Regina,
de longe o que havia de melhor nesse disco. No tinha "Morro Velho" mas,
em compensao, Gracinha Leporace cantava em quatro faixas, sendo tambm
dela a nica foto na contracapa. A Philips praticava um lobby
escancarado em Gracinha.
Nem todos os ilustres convidados perceberam que estavam presenciando o
surgimento de uma das grandes estrelas da msica brasileira. Milton
Nascimento era o que de fato havia de novo no Festival. O contraste
entre as msicas e platias do II FIC e do III Festival da Record era
imenso. Dizia-se at que compositores como Chico, Edu, Dori, Gil, Vandr
e outros reservavam suas melhores msicas para o Festival da Record. 
bem possvel, pois  o que costumavam afirmar.
Se algum daqueles compositores, maestros e arranjadores, a fina flor da
msica americana reunida no festivo conclave do Rio, tomasse a ponte
area para So Paulo, ficaria abismado com o que veria no Teatro Record.
Pensaria estar em outro pas. Talvez nem entendesse o que acontecia, mas
seguramente ficaria muito mais prximo do estado de ebulio que iria
mandar para os ares a tampa que sufocava os pensamentos da juventude no
mundo.
Em termos de msica de festival, So Paulo e Rio estavam, naqueles dias
de outubro de 1967, centenas de quilmetros mais distantes uma da outra
do que os quase 500 que separavam as duas cidades. Com suas vaias e
aplausos, ovos podres e serpentinas, agresses e cumprimentos, a
juventude de So Paulo embarcara de corpo e alma na msica de seu tempo.
A expresso sonora do inconformismo, da verbalizao do inconsciente, da
poltica inserida na arte e at da antropofgica redescoberta de valores
nacionais, plataforma do Tropicalismo, estava no Festival da TV Record.
At ento, o grandioso FIC era um festival, pode-se dizer, turstico e
bem comportado.
Ao atribuir o primeiro lugar a "Margarida", certamente os componentes do
jri levaram em conta o eco que ainda perdurava em sua memria da
gigantesca vaia que o resultado do ano anterior tinha provocado. Dando a
vitria a uma msica em todos os aspectos inferior a "Travessia", o jri
saiu-se bem perante a opinio dos assistentes que lotavam o ginsio, mas
deixou de premiar a maior revelao dos dois FICs e, sem que pudesse
saber, de todos os que iriam se realizar. Anos mais tarde, o II FIC no
ficou conhecido como o festival de "Margarida", mas o festival de
"Travessia". No iria demorar muito tempo para que o Brasil e o mundo
soubessem que um novo artista se incorporava ao elenco dos grandes
compositores dos anos 60, os criadores da Era dos Festivais. Ao lado de
Edu Lobo, Geraldo Vandr, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e
outros que ainda viriam, como Paulinho da Viola, brilhava mais um:
Milton Nascimento.
Captulo 8
"LAPINHA"
(I BIENAL DO SAMBA DA TV RECORD, 1968)
To logo se encerrou o III Festival da TV Record, um grupo de estudantes
movimentou-se para organizar uma tentativa de repescagem com as msicas
que tinham ficado de fora das trs eliminatrias. Houve uma reunio
entre a direo da TV Record e dois lderes do movimento, Amaro Moraes e
Silva e Paulo Campos Filho, a fim de que o mesmo Teatro Record Centro,
ex-Paramount, pudesse ser cedido para a realizao desse inusitado
Festival de Excludos. Com renda a ser revertida para a Associao de
Amparo  Criana Defeituosa, o subfestival abriria espao para msicas
do nvel de "Frevo Rasgado", de Gilberto Gil, sua segunda composio
inscrita, que ficara de fora. Certamente haveria outras, defendeu Renato
Corra de Castro, coordenador do Festival de verdade, em apoio 
iniciativa. O diretor da Record Paulinho Machado de Carvalho no
concordava. Esse tal de Festival dos Recusados, ou da Bronca, como
declarou, seria um desrespeito ao grupo que selecionara as 36
concorrentes. Mas ele acabou se dando por vencido.
Foi marcada uma reunio para se decidir como seria feita a seleo, o
nome oficial do certame e se o pblico tambm poderia votar. O prmio j
estava definido: seria o trofu Roberto Splendore, que o prprio doaria.
"Roberto Splendore", perguntar o leitor. O compositor da velha guarda
Roberto Splendore, um ilustre desconhecido.
De todo modo, a Record acabou cedendo o Teatro para a realizao do
festival alternativo dos perdedores no dia 6 de novembro, que foi ao ar
como um programa de televiso. Nada digno de nota aconteceu, apenas se
confirmou que os especialistas da seleo era que estavam certos.
Contudo, uma das idias que j estava germinando no III Festival comeou
a ganhar fora: a de se introduzir o voto popular, com uma premiao
independente. Ela seria posta em prtica no IV Festival da Record, de
1968, atendendo  pretenso de alguns compositores que discordavam de
sua obra ser julgada por um grupo de jurados.
Outro desdobramento, tambm do III Festival de 1967, foi fruto da
poltica que a direo da TV Record adotava de se relacionar diretamente
com elementos da crnica do Rio, a fim de neutralizar a barreira que
vrios cariocas levantavam contra So Paulo. Figuras da noite carioca
como Srgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta), Lcio Rangel e Srgio
Cabral tinham timo trnsito no canal 7 e, em seus freqentes contatos,
argumentavam que o tipo de msica apresentado nos festivais forava a
empolgao e no era exatamente a msica brasileira de todo dia. Salvo
uma ou outra exceo, o samba tinha ficado fora do Festival. E quando
entrava, como j acontecera, era sempre nas colocaes inferiores.
Proliferou ento a idia de se produzir um outro modelo de festival, do
qual participaria apenas o ritmo brasileiro por excelncia, o samba.
Seria um certame realizado de dois em dois anos, uma Bienal do Samba,
que, alm do mais, poderia abrandar a retrao - que j se delineava -
dos cantores de nome em participar de um quarto festival nos moldes at
ento adotados. Por um motivo muito forte e compreensvel: o medo das
vaias. Num festival de samba, esse receio no se justificaria e, mesmo
que no atingisse popularidade to elevada, o evento poderia obter
grande repercusso em termos artsticos, talvez a ponto de reverter a
sensao, que Paulinho Machado de Carvalho comeava a ter, de que o
modelo at ento seguido estivesse se esgotando.
Logicamente, Solano Ribeiro assumiu o comando do evento que se
convencionou denominar I Bienal do Samba. Os jornalistas cariocas, que
tanto lamentavam a ausncia do samba no Festival, ficaram exultantes com
a boa nova. Srgio Porto tomou a dianteira em sua coluna no Jornal do
Brasil participando que "a TV Recorde sic resolveu organizar um festival
de msica diferente, onde os participantes, ao invs de se inscreverem,
so convidados por uma comisso de 15 membros que vem se encontrando
semanalmente nos escritrios da emissora, l em So Paulo". Srgio j
participara de uma das reunies, lamentava no estar presente s outras
duas, mas os 36 compositores escolhidos por honra ao mrito j estavam
praticamente definidos pelo grupo integrado por ele, Lcio Rangel, Mrio
Cabral, Guerra Peixe, Ricardo Cravo Albin, limar Carvalho, Srgio
Cabral, Ari Vasconcelos, Mauro Ivan, Alberto Helena Jnior, Dirceu
Soares, Franco Paulino, Adones de Oliveira, Raul Duarte e Chico de
Assis. Portanto, nove cariocas e seis paulistas. Os jurados elegeram,
por unanimidade, Lcio Rangel como presidente, o que valeria inclusive
durante o Festival. Cada um dos 36 compositores deveria apresentar um
samba indito para a nova modalidade de concurso. Abram alas, que o
samba vem a!
Inicialmente, foram relacionados 120 nomes, alguns sem condio, como
Slvio Caldas, compositor espordico, outros j mortos, como Geraldo
Pereira. Segundo Srgio Porto, melhor assim do que pecar pela ausncia.
A escolha privilegiava, sempre que possvel, os autores mais antigos, os
da velha guarda, que embora vivos no estavam em atividade to intensa
no mercado: Donga, Synval Silva, Bid e Walfrido Silva, Joo da Baiana,
Pixinguinha, Joo de Barro, Pedro Caetano e Claudionor Cruz, Ismael
Silva, Ataulfo Alves, Cartola, Nelson Cavaquinho, Nssara, Herivelto
Martins, Lupicnio Rodrigues, Adoniran e Vanzolini. Entre os mais novos,
foram convidados Baden, Z Kti, Marcos Valle, Chico Buarque, Tom Jobim,
Paulinho da Viola, Sidney Miller, Billy Blanco, Edu Lobo e Elton
Medeiros. Alguns membros da comisso torciam o nariz para compositores
como Marcos e Sidney, mas enfim, o samba pedia e ia ter passagem. Na
votao, Tom Jobim, Ataulfo Alves, Chico Buarque e Ismael Silva foram
escolhidos por unanimidade. O ltimo escolhido foi Jair do Cavaquinho e,
embora convidados, Carlos Lyra e Caymmi no concorreram.
Convites feitos, os sambas comearam a chegar. "Mulher, Patro e
Cachaa", por Adoniran Barbosa, "Senhor do Mundo", por Jair do
Cavaquinho, e "Samba do Suicdio", um samba de breque de Paulo
Vanzolini, foram os primeiros entregues para a disputa do trofu de
ouro, representando uma roda de samba, e de 20 mil cruzeiros novos, alm
de prmios em dinheiro at o sexto colocado.
As eliminatrias, seguindo a teoria testada e comprovada de Solano,
teriam uma semana de intervalo. Foi sendo montado o elenco de
intrpretes, no qual tambm se abria espao para cantores de escol, como
Jorge Goulart e Helena de Lima, mais que calejados para participar de
qualquer competio. De fato, no eram eles que competiam, e sim os
sacudidos coroas, que rebuscaram em seus bas de relquias alguma msica
no gravada e portanto indita. Entre eles, contavam-se o autor do
primeiro samba gravado, o Donga de "Pelo Telefone" (1917), e o baterista
Walfrido Silva, parceiro de Noel em "Vai Haver Barulho no Chato", para
citar os da primeira noite.
Foi no sbado, 11 de maio de 1968. O palco do Teatro Record, para honrar
a obra dos ilustres sambistas, estava decorado a carter, com trs
enormes pandeiros ao fundo, e, como nos espetculos de gala, a
apresentao ficava a cargo dos elegantes Blota Jnior e Snia Ribeiro.
s 10 da noite, com a casa cheia, estava no ar a I Bienal do Samba, pelo
canal 7, e a primeira msica seria cantada por Elis Regina. O sorteio da
vspera determinara que a sobremesa fosse servida antes da sopa:
acompanhada  pelos quase desconhecidos Originais do Samba, ela atacou,
em cima da cuca, pandeiro, violo e cavaquinho: "Quando eu morrer me
enterrem na Lapinha/ cala culote, palet almofadinha...". O refro de
Lapinha era tiro e queda: conquistou a platia em dois tempos. Ao final
da apresentao da primeira concorrente, j havia uma candidata 
vitria.
Depois dela, surgiu no palco a mais recordiana intrprete da emissora, a
notvel Isaurinha Garcia, nico preo para Aracy de Almeida na rea do
desbocamento, cantando uma composio do grande Ismael Silva, coluna
mestra do samba brasileiro. Chamava-se "Ingratido". Seguiuse outro
sambista de So Paulo, Germano Mathias, assduo freqentador das bocas e
malocas, onde colhia as grias que enfiava pelo meio de seu palavreado
sincopado, e que se esmerava batucando numa latinha de graxa de sapato.
Defendeu "Sandlia da Mulata", de Donga e Walfrido.
Na Bienal, aconteceu o cruzamento entre o passado e o futuro. Aps o
samba de Donga, pisava o palco a mais recente promessa da msica
brasileira, Milton Nascimento, defendendo um samba pouco significativo
dos irmos Valle, "Tio, Brao Forte", nem de longe equiparvel a "Viola
Enluarada", que ele cantava com Marcos. Outro compositor que se tornara
uma personalidade do samba, inclusive em outros festivais, foi o quinto
da noite, Z Kti. Com seu inseparvel chapeuzinho e um palet justo,
cantou com o coral Bach e a orquestra dirigida por Ciro Pereira um
bonito samba, "Foi Ela", fazendo grande sucesso.
A sexta concorrente, defendida pelos Demnios da Garoa, era "Mulher,
Patro e Cachaa", mais um produto inspirado no cenrio do programa de
rdio produzido por Oswaldo Molles, Histrias das Malocas, no qual o
personagem Charutinho era vivido pelo autor Adoniran Barbosa, presente
na platia. Depois do samba, foi intimado a subir ao palco para dividir
os aplausos com os Demnios.
Chico Buarque foi o nono, defendendo seu samba "Bom Tempo" com Toquinho
ao violo e a orquestra regida por Gaya. O pblico gostou,
principalmente da segunda parte amaxixada, "No compasso do samba eu
disfaro o cansao/ Joana debaixo do brao/ carregadinha de amor/ breque
Vou que vou".
O cantor seguinte arrasou. Noite Ilustrada foi magistral, carregando
para a classificao o animado samba, no velho estilo, "Marina", de
Synval Silva, ex-motorista de Carmen Miranda e autor de "Adeus
Batucada". Noite mostrou ser um dos mais fabulosos intrpretes do samba
brasileiro, o que continuaria sendo at muito depois dos 80 anos, um
caso raro.
O dcimo segundo samba dessa noite era de outra promessa na msica
brasileira, Paulinho da Viola. Quem o defendeu foi o cantor mais
assediado nos festivais, Jair Rodrigues, que para apresent-lo estreou
um palet e um par de sapatos pretos de verniz ainda apertados. Diante
do microfone, antes de comear, a dor nos ps era tanta que pediu a
Caulinha, que o acompanhava, para aguardar e no teve dvida: tirou os
sapatos e cantou "Coisas do Mundo, Minha Nega", descalo. Um conhecido
radialista comentou depois que Jair havia prejudicado o concorrente, mas
seu empresrio, Corumb, no admitiu a acusao e foi ao estdio
defender seu contratado. Felizmente, no chegou ao extremo de puxar a
peixeira que levava nas costas.
Um dos mais comentados acontecimentos da noite foi o intervalo antes da
reapresentao das quatro classificadas, quando Aracy de Almeida mostrou
sua categoria na homenagem prestada a Noel Rosa. Cantou trs clssicos,
"X do Problema", "Feitio da Vila" e "Com Que Roupa", e os aplausos
foram tantos que a extica figura, em vestido azul com gola de
pedrarias, teve que voltar trs vezes para sapecar mais Noel, para
gudo da distinta platia. A simples presena de Aracy j era um
acontecimento - como se dizia na poca da polaina, "do balacobaco".
O jri no contava com a presena de um dos artfices do Festival,
Srgio Porto, que tivera um edema pulmonar. O critrio seguido pelos que
l estavam no era o de atribuir notas s concorrentes e sim o de
indicar quatro msicas cada um, classificando-se as quatro mais votadas,
sem uma ordenao.
Aps o show de bola de Aracy, Blota e Snia voltaram para anunciar as
quatro classificadas. No deu outra: "Lapinha", de Baden e do estreante
Paulo Csar Pinheiro, e "Bom Tempo", de Chico, continuavam no preo.
Noite Ilustrada emplacou o samba de Synval e Z Kti fez tanto sucesso
na reapresentao da quarta classificada, "Foi Ela", que teve de bisar.
Desgraadamente, foi ela que despertou a primeira celeuma na Bienal:
dizia-se que j havia sido cantada num filme, no sendo portanto
indita, como exigia o regulamento. O assunto seria esmiuado depois,
prometeu Solano Ribeiro.
Quando o pblico se deu conta de que "Mulher, Patro e Cachaa" no
estava classificada, entrou de sola, vaiando solenemente os senhores
jurados. A sada do Teatro, ouvia-se o povo cantar o refro de "Lapinha"
e trechos de "Bom Tempo", que assim pintavam como as duas mais fortes
concorrentes. Nem todos perceberam que um estupendo samba de Paulinho da
Viola, "Coisas do Mundo, Minha Nega", estava teoricamente  fora da
final. Teoricamente. Seus versos finais resumiam uma moral digna de uma
fbula de La Fontaine: "As coisas esto no mundo/ s que eu preciso
aprender".
- O homenageado da etapa seguinte foi o pianista e compositor Sinh, o
maior nome do samba nos anos 20, alis o "Rei do Samba", como ele mesmo
se proclamava,  maneira do pianista e compositor de New Orleans Jelly
Roll Morton - que talvez nem conhecesse - assim como ele mulato, esguio,
pernstico, desconfiado, festeiro e talentoso, "The King of Jazz". Aps
a apresentao dos 12 sambas concorrentes, os maxixes de sua lavra
"Gosto Que Me Enrosco", "Jura" e outros foram cantados por um de seus
grandes admiradores, Chico Buarque.
Antes mesmo dessa segunda eliminatria, aconteceram algumas trocas de
intrpretes na Bienal. Miltinho desistiu de cantar "Cano do
Peregrino", de Denis Brean, que ficou com Jorge Goulart; Jair tambm fez
forfait no "Samba Arrasta Multido" de Luiz Reis, defendido ento por
Antnio Borba, um cantor do elenco carnavalesco da Record. Um dos sambas
dessa segunda noite teve de ser transferido para a ltima eliminatria
por motivo justo: seu autor participava, no Rio de Janeiro, de um
concerto em homenagem aos seus 70 anos. Era Pixinguinha.
Com relao s 11 msicas restantes, a tarefa dos jurados foi mais
tranqila, pois havia duas evidncias incontestes: o samba de Cartola
"Tive Sim", defendido pelo craque Cyro Monteiro, e "Quando a Polcia
Chegar", de outra eminncia da velha guarda, Joo da Baiana, defendido
pela nova velha estrela da msica negra brasileira, Clementina de Jesus.
O quadro das classificadas se completou com as msicas de dois autores
jovens, "Quem Dera", de Sidney Miller com o MPB 4, e "Luandaluar", com
Marlia Medalha, de Srgio Ricardo, que nem apareceu no Teatro,
traumatizado com o episdio das vaias. Ficaram fora da final trs
compositores de respeito: Ataulfo Alves, Bid e Braguinha.
Antes da terceira eliminatria, Z Kti recebeu a notcia: "Foi Ela"
estava desclassificada, conforme a deciso dos jurados depois de ouvirem
as msicas de Rio, Zona Norte, filme de 1957 dirigido por Nelson Pereira
dos Santos, e constatarem que parte do samba estava de fato na trilha.
Houve contestaes, pois, no tendo sido gravada, podia ser considerada
indita. Mas o fato  que sua vaga foi preenchida com o samba de
Paulinho da Viola "Coisas do Mundo, Minha Nega", cantado por Jair
Rodrigues.
Com 13 sambas, a eliminatria do sbado, 25 de maio, foi a mais animada
das trs, a despeito da qualidade das concorrentes, consideradas as mais
fracas.
Entre os desapontes, figuravam o samba de Paulo Vanzolini, o de Nelson
Cavaquinho, o de Monsueto, o de Lupicnio Rodrigues e o de Herivelto
Martins. Nada menos que cinco veteranos do primeiro time, cujos bas no
deviam estar l muito bem sortidos. Entraram os de Edu Lobo ("Rainha
Porta Bandeira"), Billy Blanco ("Canto Chorado"), Pixinguinha ("Protesto
Meu Amor") e Elton Medeiros ("Pressentimento"), num surpreendente
consenso entre jri e pblico. Consenso que, por outro lado,
provavelmente teria ido pelos ares caso "Canto Chorado" no entrasse.
Motivo: Jair Rodrigues, que tinha a manha de saber levar uma msica para
a final, independente do mrito da composio. O grande samba dessa
noite foi cantado por Marlia Medalha, num vestido de gola e punhos
brancos: "Pressentimento", de Elton Medeiros e Hermnio Bello de
Carvalho.
O homenageado da ltima eliminatria foi Ary Barroso, na voz do cantor
mais querido pelos artistas da TV Record e possivelmente por toda a
classe musical brasileira, Cyro Monteiro. Alm do samba de Elton e
Hermnio, foi o que de melhor aconteceu no ltimo sbado de maio.
O ex-Paramount viveu uma inesquecvel noite de samba em 1 de junho de
1968, data da final da I Bienal do Samba da TV Record. Com lotao
esgotada uma semana antes, o festival promoveu mais um encontro da velha
guarda e do promissor sangue novo do samba. No faltavam tambm grandes
cantores. Com as cortinas fechadas, o palco do Teatro Record Centro
ainda estava tranqilo, em contraste com a barulhenta platia, que se
dividia em duas torcidas dominantes, a de Elis e a de Jair.
Independentemente das msicas que interpretassem, era por eles que o
pblico clamava antes, durante e depois: "Elis!, Elis!" de um lado,
"Jair!, Jair!" de outro.
s 22 horas, entra no ar, pela TV Record, a final da I Bienal do Samba.
Aps a clssica apresentao de Snia e Blota, destacando que os
vencedores seriam conhecidos naquela noite,  anunciada a primeira
concorrente, "Marina", mais uma vez cantada esplendidamente por Noite
Ilustrada. Em seguida, o pblico recebe Marlia Medalha com a simpatia
que vinha conquistando desde "Ponteio". Sua interpretao no foi to
feliz, mas ficou claro que "Luandaluar" era muito superior  malfadada
"Beto Bom de Bola", restabelecendo as boas maneiras entre Srgio Ricardo
e o pblico, e ainda dando margem a que os estudantes de esquerda
tirassem um sarro ao substiturem o verso "Abaixo a desventura" por
"Abaixo a ditadura".
Quando soubera que seu samba havia sido classificado, Paulinho da Viola
superou o pavor daquelas platias inflamadas e decidiu vir a So Paulo.
Assistiu  final timidamente, atrs de uma coluna da platia, com uma
boina que o protegia do frio e da remota possibilidade de ser
reconhecido. Para sua surpresa, quando a msica foi anunciada, um
grupinho levantou uma faixa, "Coisas do Mundo, Minha Nega", que, soube
depois, era obra das irms de Chico Buarque, torcendo por sua msica.
Era apenas uma faixa no meio da platia, mas sobravam brados vindos de
todos os cantos para Jair, intrprete do samba do jovem compositor
portelense: "Hoje eu vim minha nega/ como eu venho quando posso/ na boca
a mesma palavra/ ao peito o mesmo remorso...".
De fato Deus, nesse caso zelando pelo samba, escreve certo por linhas
tortas, pois "Coisas do Mundo, Minha Nega" entrara no vcuo de outro
belo samba, "Foi Ela", mas se ficasse fora da final teria sido uma
injustia imperdovel. A letra  o relato de um personagem que chega 
sua casa contando  mulher por onde passou, e foi inspirada num episdio
que aconteceu no Morro do Salgueiro: um jovem teria sido assassinado
pelo pai da namorada, contrrio ao namoro, e Paulinho, ao passar pelo
local do velrio, viu alguns meninos brincando com o cadver. Ficou to
chocado que nem dormiu nessa noite, recontando suas impresses em versos
que fez depois: "Por fim eu achei um corpo, nega/ iluminado ao redor/
disseram que foi bobagem/ um queria ser melhor...". Mais tarde mostrou a
trs amigos, numa mesa do bar Cervantes, em Copacabana, a longa letra,
ainda sem melodia. Concordaram que estava mesmo muito grande, mas um
deles, Paulo Pontes, elogiou-a, dizendo que era muito boa. Animado,
cortou vrios trechos para chegar s trs estrofes mais justas e quatro
refres diferentes, exceto pelo primeiro verso: "Hoje eu vim, minha
nega". Dotado de harmonia bem simples, sendo a melodia das estrofes
desenvolvida a partir da penltima frase do refro, o samba ganhou o
carter de uma narrativa. A pureza de forma da composio valoriza cada
um dos trs dramas diferentes das estrofes, a contrastar com o
sentimento de afeio e devaneio dos refres. ", dos meus sambas, o que
eu mais gosto", confessaria depois o elegante Paulinho da Viola, j
autor de uma obra fecunda, marcada por vrios dos mais belos e
duradouros sambas da msica popular.
l
A msica seguinte era uma das francas favoritas. To logo anunciada por
Blota Jnior, uma faixa foi estendida: "Baden fez Lapinha. Lapinha fez
Bienal. Elis brilha neste festival". Do lado esquerdo da platia, uma
trupe de quase 50 pessoas tambm levanta sua faixa: "Caravana da Rdio
Independncia do Paran, presente na I Bienal do Samba". Nesse clima de
entusiasmo contagiante, "Lapinha" foi defendida por dois craques que se
entendiam s mil maravilhas: Elis cantando e Baden ao violo, com os
Originais do Samba reforados pela rebolante cantora Sabrina e o
excelente cavaquinho do Regional do Caulinha, Xixa, que atacava a
clssica introduo, dando legitimidade ao samba.
Depois de apresentada na primeira eliminatria, comentara-se na imprensa
que "Lapinha" possua trechos de certo refro folclrico da Bahia. Chico
de Assis, em sua coluna da ltima Hora, publicou os tais "Cantos de
Besouro", compostos de vrios refres de cantos de capoeira: ", quando
eu morre/ oi, me enterre na Lapinha/ chapu de Panam, palet
almofadinha". O outro era "Quero um berimbau tocando na porta do
cemitrio/ quero uma fita amarela/ gravada com o nome dela". Finalmente,
mais um trecho: "E zum zum zum: Besouro" (trs vezes).
Estabelecida a segunda celeuma da Bienal, um elemento da Academia de
Capoeira Ilha da Mar, da Bahia, tambm confirmou a suspeita por meio de
carta publicada na imprensa, mas nem ele nem ningum disse uma palavra
acerca de Noel Rosa, autor do samba da "fita amarela gravada com o nome
dela". No  nada impossvel que, nos anos 30, Noel tivesse freqentado
um dos redutos de samba do Rio de Janeiro e se encantado com o que
entoavam aquelas baianas de Santo Amaro da Purificao, os versos do
Besouro por exemplo.
Baden defendeu-se irritado contra a denncia de plgio, porque nunca
escondera ter se utilizado do refro popular que valorizava o legendrio
capoeirista do Cordo de Ouro. Antes da final, o quiproqu j era coisa
do passado e, como se via naquele momento, "Lapinha" fora adotada por
uma parte considervel da platia, que cantava o refro e seguia
perfeitamente no tempo o trecho final, com o andamento acelerado em "zum
zum zum, Cordo de Ouro". Depois, bradava a plenos pulmes: "J ganhou!
J ganhou!". Elis deu o recado e saiu do palco.
Cyro Monteiro, intrprete da quinta concorrente, ficou surpreso com as
vaias injustas, mas no se intimidou. "Tive Sim" no tinha a animao
que o pblico desejava e seria ainda mais vaiada com a classificao em
quinto lugar, a ponto de abater o traquejado sambista, para muitos o
maior cantor de sambas da histria. Aquela era uma das mais belas
msicas da Bienal. Semanas antes, a pedido de Flvio Porto - o "Fifuca",
irmo de Srgio Porto que morava em So Paulo -, o jornalista Arley
Pereira fora ao Rio de Janeiro para convidar Cartola, de quem era amigo
pessoal, a participar da Bienal. Numa tarde, foi ao Buraco Quente, no
Morro da Mangueira, onde ouviu o mestre cantar trs sambas inditos para
que escolhesse um. Preferiu o que dedicara a sua mulher Zica, no qual
abria seu corao, referindo-se a Donria, amor do passado por quem
chegara a largar a msica, deixando de tocar violo por uns seis anos:
"Tive sim, outro grande amor antes do teu ... mas compar-lo ao teu amor
seria o fim/ e vou calar, pois no pretendo, amor, te magoar". Esse
samba magistral, com o qual Cartola ganharia o prmio de 2 mil cruzeiros
novos pelo quinto lugar - o segundo maior de sua vida at ento -, foi
vaiado na Bienal.
Jair voltou para defender sua segunda msica, "Canto Chorado", de Billy
Blanco. A cuca gemia com o contrabaixo at ele comear lentamente, com
os braos abertos: "O que d pra rir, d pra chorar...". Depois entrava
no samba, secundado por um sexteto de flautas no arranjo de Erlon
Chaves. Uma parte da torcida que mais vibrava viera nos nibus
arrendados pela SBACEM, a sociedade arrecadadora de direitos autorais 
qual o autor pertencia. Algum soube da vinda dessa claque e passou a
ligar intermitentemente para o quarto de hotel onde Billy se hospedava,
dizendo com voz pausada: "O que d pra rir, d pra chorar!", e desligava
em seguida, deixando Billy enfurecido e desconfiado de um certo
concorrente. O fato  que nessa apresentao havia assistentes
declarando que o samba poderia vencer, arrebatados pelo refro e
iludidos com o apelo da competente interpretao de Jair.
Se a novata Neide Mariarrosa no impressionou, apesar de sua voz de
contralto, a simples presena de Clementina de Jesus foi suficiente para
levantar os nimos, mas nem "Protesto Meu Amor" nem "Quando a Polcia
Chegar" sensibilizaram suficientemente os jurados e o pblico.
Pixinguinha e Joo da Baiana despediam-se da Bienal. Tampouco agradou o
samba-quase-cano de Edu Lobo "Rainha, Porta Bandeira", feito de
encomenda para a voz grave de Mrcia, mas longe do que o pblico
desejava. Algum chegou a gritar "Queremos samba!". Edu foi aplaudido,
mas igualmente vaiado, em dose jamais experimentada antes.
A dcima concorrente disputava a vitria desde o primeiro dia. O povo
delirou novamente  entrada de Chico Buarque e cantou com ele a segunda
parte, acompanhando o ritmo bem marcado com palmas e batendo os ps.
Nenhum veterano tinha sabido aproveitar o ancestral do samba como o
jovem Chico Buarque ao compor "Bom Tempo" no Rio de Janeiro. A
referncia ao maxixe foi uma brincadeira que deu o maior pedal, com
versos bem-humorados e de esperana, numa poca em que a cara amarrada
era a tnica. Quando terminou, o clssico "J ganhou!" simplesmente
confirmava o que se dizia: era o grande rival de "Lapinha".
Havia tanta sede por msicas ou meros refres "de empolgao" nos
festivais, que grande parte do pblico no se deu conta de estar diante
de um samba magistral quando Marlia Medalha entrou, de blusa escura com
mangas compridas e saia estampada, para cantar "Pressentimento".
Ex-trombonista de gafieira, administrador pblico por formao e
principalmente um compositor de primeira linha, Elton Medeiros era um
dos freqentadores do apartamento de Hermnio Bello de Carvalho, onde,
sem compromisso algum com hora ou assunto, cantores, msicos, artistas
plsticos e intelectuais conversavam amenidades, discutiam sobre msica,
cantavam e tocavam. Num desses encontros, Hermnio, que alm de letrista
arranhava um violo, propusera uma idia musical para uma composio em
parceria, tendo como molde o desenho de "Feio No  Bonito", de Carlos
Lyra. Em sua casa, Elton retocou a estrutura inicial, construindo uma
melodia com introduo, primeira e segunda partes, para que Hermnio
escrevesse a letra. Sem se dar conta, ele foi criando versos sem rima,
deixando-se levar pela musicalidade intrnseca da poesia, abordando a
sensao que precede a chegada de um novo amor: "Ai, ardido peito/ quem
ir entender o teu segredo ... vem meu novo amor/ vou deixar a casa
aberta ... tudo faz pressentimento/ que este  o tempo ansiado/ de se
ter felicidade". Sem saber que ttulo dar ao samba, Elton mostrou-o a
Toninho Ventura (sogro do violonista Rafael Rabelo, j falecido), que
matou a charada na hora:
- O ttulo est mordendo vocs:  "Pressentimento" - disse ele.
O samba foi enviado para atender ao convite da Bienal. Elton veio a So
Paulo para encontrar-se com Carlos Castilho, que escreveu o lindo
arranjo, fazendo questo que Elton tambm estivesse no palco tocando
tamborim. As frases do samba alternam-se com perfeio entre o modo
maior e o menor, uma das marcas do estilo de Elton. A primeira parte
comea em l maior e acaba em l menor, passando para a relativa, d
maior, na segunda, que tambm retorna a d menor. Ao lado da orquestra
dirigida por Ciro Pereira, com Castilho ao violo e Elton Medeiros no
tamborim emprestado de Lelei, dos Originais do Samba, Marlia Medalha
defendeu o melhor samba da Bienal, depois gravado por ela prpria e, nos
anos seguintes, por Elizeth Cardoso, Elza Soares, Alade
Costa, Zez Gonzaga, Roberto Silva, MPB 4, Quarteto em Cy e muitos
outros, alm dos dois autores individualmente.
O ltimo samba da final foi "Quem Dera", de Sidney Miller, outro
compositor da ala jovem, para a qual jornalistas apegados  tradio,
como Srgio Porto, torciam o nariz. Foi defendido pelos mais que
tarimbados componentes do MPB 4, mas ali encerrou sua carreira.
Os jurados retiraram-se para decidir sobre os vencedores, enquanto o
foyer do Teatro se tornava a arena das discusses, ao mesmo tempo em que
o saudoso Oswaldo Sargentelli, figura de proa do samba, realizava
entrevistas para a televiso com os concorrentes.
Numa salinha apertada e enfumaada, os componentes do jri entregaram
seus votos e a contagem comeou a ser feita. As mais votadas eram
"Lapinha" e "Bom Tempo" e,  medida que se somava, ambas se destacavam.
Aps o voto do ltimo jurado, uma surpresa: numericamente, dera empate
entre Chico e Baden. Havia a necessidade de nova votao para se
determinar o vencedor. Amigo de ambos, Franco Paulino ficou num impasse.
Admirava Chico por no se curvar a fazer msica modelada para festival,
e tambm era apaixonado por "Lapinha", que considerava o mais criativo
dos afro-sambas, uma forma exemplar de homenagear a cultura baiana sem
apelar para clichs. Ao mesmo tempo, sentia-se incomodado com a atitude
de Elis Regina, que fora cabalar seu voto no Hotel Danbio, onde estava
hospedado. Logicamente, no levou isso em conta, mas escolheu Baden. E
confabulou com Alberto Helena:
- Helena, no tem nem o que pensar, vamos ficar com o crioulo. Entre um
branco e um crioulo, temos que votar no crioulo.
Foi a que os dois votaram em "Lapinha", que ganhou por quatro votos de
diferena.
Snia e Blota foram apresentando os premiados a partir do sexto
colocado, "Coisas do Mundo, Minha Nega". O samba de Paulinho no foi
muito bem recebido, mas o pior aconteceu quando Cyro Monteiro
reapresentou "Tive Sim". Teve que enfrentar a maior vaia da noite, o que
fez com grande classe. Blota convidou o maestro Erlon Chaves para
entregar o prmio  quarta colocada, "Canto Chorado", a tal que contava
com a torcida extra da SBACEM. "Essa  a primeira!", brada algum no
fundo do teatro, enquanto uma serpentina cai aos ps de Jair, adorado
pela platia. Jair se supera, a ponto de provocar um bis. Parece
inacreditvel, mas a reapresentao de "Pressentimento", terceira
colocada, foi feita sob intensas vaias, poucos aplausos e quase nenhuma
possibilidade de ouvir Marlia ao longo de toda a msica. Aplausos
mesmo, s ao final.
O resultado das duas primeiras colocadas encantou a maioria. Chico, com
palet de smoking sobre uma blusa de gola rul, cantou sob brados de
entusiasmo, e Elis, num vestido de listas tricolores horizontais, foi
recebida com flores. Dedicou o prmio a quem mais sinceramente se
manifestara favorvel  vitria de Baden, Edu Lobo, e foi acompanhada
por um coro consagrador no refro: "Quando eu morrer, me enterrem na
Lapinha...". Baden estava iluminado tocando com os Originais do Samba e
o garoto de 19 anos, autor da letra, foi chamado ao palco. O tmido
Paulo Csar Pinheiro estava que no cabia em si de felicidade.
Paulo Csar fora apresentado a Baden no bairro de So Cristvo, por seu
primo, tambm violonista e amigo do msico, Joo de Aquino, com quem
criou suas primeiras letras. Tinha 16 anos e ficou muito assustado
quando Baden, que tinha como parceiro fixo o grande poeta Vincius de
Moraes, convidou-o para fazer uma letra. A msica era "Lapinha", cujo
refro Baden conhecera no Rio atravs das meninas do Quarteto em Cy.
Durante os meses em que morara na Bahia, Baden tinha assimilado toques e
cnticos que lhe permitiram incorporar  sua forma de tocar violo a
sonoridade vigorosa do berimbau, mudando o curso da histria do violo
brasileiro. Nas suas andanas, era ciceroneado por Canjiquinha,
freqentava terreiros e candombls - do que resultaram os famosos
afro-sambas em parceria com Vincius -, e conheceu detalhes sobre
Besouro, o Cordo de Ouro, mitolgico personagem dos anos 30, tido como
o maior capoeirista de todos os tempos. Nascido em Santo Amaro da
Purificao, Besouro tinha o corpo fechado, lutava capoeira - o que era
proibido - e, quando avisado de que corria perigo, fugia pelo mar em seu
saveiro. Trado por uma mulher, foi morto pela polcia. As histrias de
Besouro chegaram a ser abordadas por Jorge Amado em um captulo do livro
Mar morto. Alm de capoeirista, Besouro era pescador, embarcadio,
violonista e compositor, creditando-se a ele mesmo alguns versos de
sambas de roda a seu respeito. Um deles era aquele que Baden cantou para
o jovem Paulo Csar Pinheiro: "Quando eu morrer, me enterrem na Lapinha/
cala culote, palet almofadinha", princpio da primeira parceria entre
os dois. Baden arrematou a primeira parte compondo uma melodia tocante,
tpica de sua inconfundvel linha meldica, com a naturalidade que tanto
prezava, e o jovem Paulinho Csar Pinheiro fez a letra: "Vai no lamento,
vai contar/ toda a tristeza de viver/ Ai, a verdade sempre di/ e s
vezes traz um no a nada...", atendo-se ao clima baiano em que Besouro
vivia.

l
Quando foi convidado para a Bienal, Baden quis inscrever "Lapinha",
composta trs anos antes com o letrista totalmente desconhecido,
contrariando a expectativa do festival, que esperava uma letra de
Vincius. Baden bateu o p, insistindo que, se no fosse daquela
maneira, ficaria fora do festival. No houve jeito, a msica foi aceita
e destinada a Elis Regina.
Agora, no palco do Teatro Record, os trs festejavam a vitria na I
Bienal, bisando o samba com a participao dos demais concorrentes, como
Cyro Monteiro, que cantou ao lado de Elis.
Os vencedores foram comemorar no Jogral, juntando-se todos numa festa
com a presena da nata do samba. Paulinho da Viola tambm festejou seu
sexto lugar at o dia clarear. Quando chegou ao Hotel Normandie,
resolveu tomar caf antes de dormir. Ao entrar no salo, j havia duas
pessoas numa mesa: Cyro Monteiro e sua mulher, Lu. "Cyro tomando cerveja
de manh cedo?", pensou Paulinho, incrdulo. Ele estava chorando.
Paulinho aproximou-se e sentou, enquanto Lu tentava consol-lo:
- , Cyro, quem est na chuva tem que se molhar! Esquece isso. Cyro
voltou-se para Paulinho, inconformado:
- Olha, eu nunca tinha sido vaiado na minha vida. E hoje eu fui vaiado
cantando um samba do Cartola!
Paulinho tambm procurou anim-lo, explicando que platia de festival
era assim mesmo, eram grupos que torciam por umas msicas e vaiavam as
outras. Na sua pureza, Cyro no conseguia entender, estava arrasado.
No dia 8 de junho, Baden recebeu o prmio de 20 mil cruzeiros e o trofu
Roda de Samba (feito em ouro sobre uma base de cristal) das mos de Elis
Regina, e Cyro Monteiro entregou o cheque de 2 mil a Cartola. A nota
triste da festa no Teatro Record Centro foi a homenagem a Wilson
Batista, que, estando doente, no pudera participar da Bienal, e viria a
falecer menos de um ms depois.
Dias mais tarde, Paulo Csar Pinheiro ouviria a primeira gravao de uma
msica sua, na voz da fada Elis Regina, que mais uma vez tocava com seu
condo um futuro grande nome da msica brasileira. "Lapinha" seria
gravada por Elis em compacto, por Baden no volume 2 da srie L Monde
Musicale de Baden Powell e por Paulo Csar Pinheiro. Tambm gravaram
"Lapinha" Srgio Mendes e o Brasil 66, Elza Soares, Wilson Miranda,
Pedrinho Rodrigues, Os Trs Morais, Os Cantores da Lapinha, o organista
Andr Penazzi, o gaitista Fred Williams e o acordeonista italiano
estabelecido no Brasil Uccio Gaeta.
O LP oficial com as 12 finalistas da Bienal foi lanado pela Philips e
contou com vrios dos intrpretes originais: Elis, MPB 4, Marlia
Medalha, Jair Rodrigues e Mrcia.
Entre os seis contemplados da I Bienal do Samba, havia trs sambas
excepcionais: "Tive Sim", "Coisas do Mundo, Minha Nega" e
"Pressentimento", uma das prolas do gnero. Bastariam esses trs para a
I Bienal do Samba ter tumprido o seu papel histrico. Os senhores
jurados contemplaram as msicas com que a platia mais se identificava,
seduzida por refres de apelo imediato, enquanto os trs sambas ficaram
nas posies inferiores. Por outro lado, o inexorvel jri do tempo
trataria de incorpor-los  galeria dos mais belos sambas brasileiros.
Alis, no seria preciso muito tempo para tal reconhecimento: no sbado
seguinte  final, o Jornal do Brasil realizou uma enquete do tipo que
era feito nos desfiles de carnaval, na qual alguns especialistas teciam
comentrios e davam notas s premiadas. A maior mdia foi para
"Pressentimento", com 9,6, tendo recebido cinco notas 10, atribudas por
Srgio Porto (que morreria em 29 de setembro), Almir Muniz, Eli Halfoun,
Franco Paulino e Moiss Fuks. Apenas um deles no deu 10: Nelson Motta
deu 8. "Lapinha" foi a segunda, com mdia 9.
Outro episdio que merece ser contado  o da grande ausncia na I Bienal
do Samba. Entre os compositores da nova gerao convidados
originalmente, Tom Jobim fora, como se viu, uma das quatro unanimidades,
no se furtando a enviar uma composio, por sinal uma das ltimas de
sua fase bossa nova. Inscrita como "Onda", a msica havia sido composta
em Los Angeles, no perodo em que estava envolvido numa gravao com
Frank Sinatra, e gravada em verso instrumental nos Estados Unidos, no
LP que tem uma girafa na capa vermelha. Desolado com as verses dos
americanos para as letras de suas msicas, o prprio Tom decidiu
escrever uma letra em ingls para "Onda", intitulando-a "Wave", e tambm
pediu a seu novo parceiro, Chico Buarque, que j tinha transformado
"Zingaro" em "Retrato em Branco e Preto", uma letra em portugus. Chico
quebrou a cabea, tentou vrias vezes, mas no conseguia ultrapassar o
primeiro verso, "Vou te contar". Aps inmeras cobranas, Tom,
desanimado, resolveu escrever ele mesmo os versos de "Onda", que depois
enviou para a Bienal. Roberto Carlos era o escalado para defendla, mas
no dia da primeira eliminatria, 12 de maio, ele desembarcava em Nova
York com Nice, sua primeira esposa, em viagem de lua-de-mel, de
onde seguiu para Las Vegas, sem tempo de se preparar para defender a
msica. No entrou na primeira eliminatria, em que estava escalado, nem
na terceira, para a qual foi transferido, e assim ficou fora da Bienal.
A histria no morreu a. Roberto tambm perdeu a chance de ser o
primeiro cantor a gravar a msica, que poderia figurar entre seus mais
consistentes sucessos. O privilgio acabou ficando com o quarteto vocal
004, liderado por Eduardo Atade, com Luiz Carlos, o Bombinha, e os
irmos Luiz Roberto e Luiz Felipe. Com o ttulo "Vou Te Contar", e o
prprio Tom incorporado s quatro vozes, abria o lado B do primeiro e
nico disco do quarteto, Retrato em Branco e Preto, lanado em junho de
1968 pela marca Codil. O lanamento desse disco foi comemorado no show
Discomunal, realizado em agosto de 1968 no Teatro Toneleros, em
Copacabana, com um elenco que inclua Millr Fernandes (apresentador),
Eumir Deodato, Hepteto (s/c) de Paulo Moura, Baden Powell, Mrcia, Chico
Buarque e Tom Jobim. Com um time desses, o espetculo tinha que ser
registrado, o que acabou acontecendo num disco do Museu da Imagem e do
Som (n 0007), no qual a msica aparece mais uma vez em duas faixas:
como "Wave", em verso instrumental com o hepteto e, no lado B, cantada
em portugus pelo grupo, tendo Tom ao piano e o novo ttulo "Vou Te
Contar". Roberto Carlos jamais gravou "Onda".
Este  mais um caso antolgico nos fortuitos caminhos da histria das
canes: o de uma msica que, alijada do festival por um motivo banal,
ainda assim incorporou-se aos clssicos da msica brasileira e
consagrouse como uma das mais belas pginas da obra de Antnio Carlos
Jobim.
A nobre inteno do grupo que, sentindo a ausncia de sambas nos
festivais anteriores, desejou resgatar o gnero por excelncia da msica
brasileira, ao homenagear grandes vultos do passado com a I Bienal do
Samba, esbarrava porm num dos principais, seno no principal elemento
de uma competio de canes: o desafio, a abertura para o novo. No  
toa que o festival promovido pela Globo em 1975 seria chamado Abertura.
As composies dos antigos sambistas convidados eram, naturalmente,
apegadas  tradio, destitudas desse excitante elemento to prprio s
competies: o imprevisvel.
Alguns no queriam concorrer. As msicas da turma da velha guarda no
poderiam ter o apelo de uma poca que no era a sua. As dos jovens
tinham, e por isso eram competitivas. Mas havia uma exceo entre os
veteranos: Cartola. A segunda fase da obra de Cartola pertencia ao
perodo de seu renascimento como compositor, embora j tivesse passado
dos 60 anos. Para ele, que possivelmente se julgava condenado ao
ostracismo,  a gravao do primeiro disco de sua vida - um
reconhecimento sublime para um msico e poeta com seu talento - agiu
como um elixir de juventude em sua veia de compositor. Cartola passou a
produzir como um jovem, um jovem sexagenrio: era o Mestre Cartola no
auge da atividade artstica. No  portanto sem razo que tenha sido ele
o nico dos veteranos a ficar entre os seis primeiros - Billy Blanco,
Paulo Csar Pinheiro, Baden Powell, Chico Buarque, Hermnio Bello de
Carvalho e Elton Medeiros - todos pertencentes  ala moa do samba.
Captulo 9
"SABI"
(III FIC/TV GLOBO, 1968)
O que se assistiu em 1968 foi espantoso. Sonhando com um novo
comportamento no mundo, os jovens se rebelaram contra o sistema
capitalista que, ao longo da histria, tinha se mostrado incapaz de
evitar destruies e guerras odiosas, como a do Vietn. A ideologia
desses jovens tinha, numa ponta, a teoria marxista e, na outra, a idia
romantizada - e, de certo modo, contraditria - segundo a qual o sistema
s cederia pela violncia. No Brasil, essa violncia seria desferida
contra o inimigo mais ostensivo, o regime militar, j que a ditadura era
o mais prximo representante desse sistema.
Os acontecimentos se precipitam numa seqncia avassaladora. Nesse
sentido, parecia haver sintonia entre as capitais brasileiras, Rio e So
Paulo principalmente, e as europias, Paris em especial. As ruas
transformam-se em praas de guerra, h confrontos entre tropas de choque
e estudantes, h cargas de cavalaria, ocupao das universidades,
embates sangrentos, tumultos, mortes, depredaes e atentados
terroristas; entram em cena armas pesadas, carros blindados, os tatus e
brucutus da polcia esto nas ruas, estudantes munem-se de cassetetes,
paus e pedras, coquetis molotov, cido, bombas, terroristas arremessam
granadas ou atiram com metralhadoras; instaura-se a insegurana, o
perigo corre solto, h mais mortes; surgem lderes estudantis como
Vladimir Palmeira, Luiz Travassos, Jos Dirceu e Jos Arantes, no
Brasil, e Daniel CohnBendit em Paris; os estudantes franceses se
insurgem contra o governo, os estudantes brasileiros tambm se insurgem
contra o governo. No Rio, no dia 26 de junho, artistas, intelectuais e o
clero realizam a Passeata dos Cem Mil, com participao de Chico
Buarque, Gil, Caetano e Milton. Em julho, o Comando de Caa aos
Comunistas invade os camarins do Teatro Ruth Escobar, em So Paulo, leva
os atores de Roda Viva para a rua, espanca-os e depreda o Teatro.
Alheio ao que acontecia nas ruas, o gordo Renato Corra de Castro,
ex-assistente de Solano Ribeiro, reunia-se com Roberto Freire, Geraldo
Case, Francisco de Assis e os maestros Erlon Chaves e Rogrio Duprat
para selecionarem 24 msicas entre as 1008 recebidas e destinadas  fase
paulista do IIIFIC, programada para meados de setembro. Era uma das
novidades da terceira edio do Festival nesse ano: So Paulo teria
direito a seis das vagas planejadas para as semifinais nacionais, Minas
teria duas, Bahia, Pernambuco, Paran e Rio Grande do Sul teriam uma
cada e o Rio, as 28 restantes para o total de 40 canes, que, a exemplo
do ano anterior, concorreriam ao Galo de Ouro no Maracanzinho no final
de setembro.
Essa fase paulista seria no TUCA, o Teatro da Universidade Catlica, no
bairro de Perdizes, com 1100 lugares que seriam vendidos a 5 cruzeiros
novos cada. Compunha-se de duas disputas para eleger 12 msicas que, por
sua vez, concorreriam numa final paulista s ditas seis vagas,
premiadas, cada uma, com 5 mil cruzeiros novos.
A outra novidade seria a montagem do jri carioca. Aquela idia do FIC
anterior, no sei quantos jornalistas de vrios estados e praticamente
ningum da msica, foi muito criticada, principalmente pela docilidade
com que os 17 componentes se deixaram levar pelo entusiasmo do pblico
por "Margarida", permitindo que Milton Nascimento ficasse em segundo.
Foi uma bobeada no premiar um compositor que no surge no mundo a trs
por dois. Seria ento constitudo um corpo de jurados mais ligado  rea
da msica, e at a opinio de quem fora concorrente seria ouvida.
Pelas duas providncias, ficava claro que a TV Globo tomava mais p no
Festival. Ao expandi-lo a outras praas de sua rede, no se limitava 
rea de ao de sua prpria emissora carioca, o Rio de Janeiro, onde
dividia a organizao com a Secretaria de Turismo da Guanabara. E mais:
abria uma frente em So Paulo, em que a TV Record dominava. Visando a
consolidao da emissora em territrio paulista, Walter Clark chegou a
deslocar Jos Otvio de Castro Neves para coordenar o departamento de
vendas e interferir na programao local.
No Brasil e no mundo os conflitos avanam, a liberdade vai sendo
arrochada: no final de agosto, a Checoslovquia  invadida pelas tropas
comunistas da Unio Sovitica; simultaneamente, h nova passeata em So
Paulo com 500 estudantes detidos. No dia seguinte, 29 de agosto, a
Universidade de Braslia  invadida por soldados e agentes do DOPS;
estudantes so feridos. A atitude violenta gera um veemente protesto do
deputado Mrcio Moreira Alves na Cmara Federal: no dia 2 de setembro,
ele prope que se boicotem as comemoraes da Independncia em repdio
s Foras Armadas. Sendo a msica popular um meio privilegiado de
representao da conscincia poltica estudantil e da sensibilidade
artstica do pas, no poderia ignorar as tenses poltico-sociais do
momento. Os festivais seriam o ambiente ideal.
Entre as 24 msicas selecionadas para a fase paulista do FIC, algumas
tinham tudo a ver com o que ocorria. Basta ver os ttulos: " Proibido
Proibir" (Caetano Veloso), "Cano do Amor Armado" (Srgio Ricardo),
"Questo de Ordem" (Gilberto Gil), "Amrica, Amrica" (Csar Roldo
Vieira) e "Para No Dizer que No Falei de Flores" (Geraldo Vandr). At
em msicas com ttulos despretensiosos, como "Flor e Pedra" (Carlos
Castilho e Vitor Martins), na qual um sujeito alienado, vendo a
juventude protestar com pedras e bombas, decide ter a mesma conduta, o
tema vinha  tona. Sob a tica estritamente musical, nenhuma delas era
uma grande cano, mas um ou outro verso poderia instigar a estudantada,
mormente numa atmosfera carregada como a daqueles dias. Se "Amrica,
Amrica" no era to acintosamente provocadora, a msica de Vandr era
um prato cheio, ia sem peias ao assunto que fazia rangerem os dentes dos
censores. Geraldo carregou nas tintas: "H soldados armados amados ou
no/ quase todos perdidos de armas na mo/ nos quartis lhes ensinam uma
antiga lio/ de morrer pela ptria e viver sem razo...". Renato ficou
apavorado por ter que arcar sozinho com a responsabilidade e, temendo
que uma msica dessas pudesse ser classificada e chegar s eliminatrias
cariocas, recorreu a seus superiores, Boni e Walter Clark. Ambos
decidiram correr o risco, achavam que a msica no seria classificada, e
Vandr foi escalado para a segunda semifinal da fase paulista, em 14 de
setembro. No mnimo, se esperavam brabas manifestaes. Ainda assim,
Renato tentou mitigar os mais desconfiados ao declarar que no esperava
vaias, pois, no momento em que a agressividade era um sintoma to
evidente no mundo, a msica seria uma forma de relaxar. Doce iluso. A
tenso era sentida at nas partculas de ar de uma brisa refrescante.
Tudo colaborava para o circo pegar fogo.
Para Rogrio Duprat, que se afigurava como o papa das orquestraes em
msica de festival, no havia mais solues de harmonia e melodia,
devia-se partir em busca de acordes dissonantes e de sons no musicais,
rudos e blocos sonoros, do tipo da zoeira que seria utilizada em
"Caminhante Noturno" dos Mutantes. O arranjador passava a ter
importncia equivalente  do prprio compositor. Foi o que se presenciou
e ouviu no ensaio de 11 de setembro, vspera da primeira eliminatria.
Com transmisso direta pelo canal 5, apresentao da atriz Norma Blum e
do locutor Oliveira Neto, que imitava com perfeio a voz do narrador de
jornais cinematogrficos da Metro, Ramos Calhelha, e a participao de
Nelson Motta e Glria Menezes nas entrevistas, seria dado o pontap
inicial de mais um Festival Internacional da Cano com a primeira noite
da fase paulista. Havia gente sentada at no cho, ansiosa para ver a
comentada roupa de plstico de Caetano. O jri inclua os jornalistas
Chico de Assis e Paulo Cotrim, Nara Leo, o poeta Paulo Bonfim, o
maestro Lirio Panicalli, o cineasta Maurice Capovilla e Jos Otvio de
Castro Neves, da TV Globo. Foram, como de praxe, os primeiros
anunciados.
Jorge Ben no teve recepo muito entusistica para sua "Congada". Por
outro lado, antes dos Mutantes entrarem, j eram erguidos os primeiros
cartazes: "Tropicalismo  crtica", "Tropicalismo  liberdade". Sua
msica foi a primeira a excitar a moada, que aplaudiu o visual de Rita,
Arnaldo e Srgio em suas roupas de urso.
Introduzida por clarinadas lembrando uma caada com latidos de cachorro,
a harmonizao vocal de "Caminhante Noturno" era nitidamente baseada nos
acordes de quartas e quintas dos Beatles, maneirismo vocal em moda. O
arranjo de Rogrio Duprat, um antropofgico nato, capacitado,
despudorado e coerente, tinha intervenes orquestrais calcadas nos
recentes discos dos Beatles: a abertura, como no final de "Good
Morning"; o dueto de trompetes ao passar para o rallentando, como em
"Magicai Mistery Tour"; rudos, contrabaixo e guitarra, mudanas
rtmicas e um final semi-apotetico. O que faltava era uma melodia como
as de Paul McCartney.
Gal Costa tambm se apresentou no modelo "estilo festival": um vestido
azul, estrelinhas prateadas no cabelo; s faltava uma varinha para
parecer uma fada, "mas uma fada cafona", fez questo de salientar. A
msica que defendeu, de Roberto e Erasmo Carlos, "Gabriela Mais Bela",
agradou menos que a cantora.
O pblico aplaudiu intensamente um novato em festival, o ator Rolando
Boldrin (que mais tarde ficaria conhecido como intrprete de msicas
sertanejas), num samba tradicional, "Onde Anda lolanda", bem como, de
Toquinho e Paulo Vanzolini, "Na Boca da Noite", defendida pelo conjunto
vocal Canto 4 e a cantora paulista Ivete, que desapareceu do circuito
poucos anos depois. "Na Boca da Noite", a nica parceria dos dois, seria
gravada com certa assiduidade e se tornaria ttulo de um programa da
Rdio Eldorado.
Quem roubou a noite foi Caetano Veloso com a montagem atrevida de sua
composio " Proibido Proibir", inspirada na frase que, pichada numa
parede de Paris, foi vista em reportagem da revista Manchete: "II est
interdit d"interdire". Por insistncia de Guilherme Arajo, atrado pelo
jeux ds mots que to bem se prestava a uma denncia contra as primeiras
aes praticadas pela Censura brasileira, precedendo o arrocho que
estava por vir, Caetano fez uma letra tola mas nada ingnua, com aluses
a cenas que estavam na ordem do dia: "Eles esto nos esperando/ os
automveis ardem em chamas/ derrubar as prateleiras/ as estantes, as
esttuas, as vidraas/ louas, livros sim...". Ao final, declamava
versos de Fernando Pessoa sobre o rei portugus Dom Sebastio. Ao lado
dos Mutantes, agora vestidos em plstico rosa e alaranjado, foi recebido
com aplausos e saudaes de "Caetano! Caetano!". Com sua cabeleira 
Jimi Hendrix, vestia um traje tipo "cheguei", proveniente da butique Ao
Dromedrio Elegante, de Regina Boni: uma camisa de plstico verde, um
colete prateado, colares de fios eltricos e correntes metlicas com
dentes de animais pendurados: a prpria antibeleza. Uma mixrdia de sons
eletrnicos, rudos, pratadas, escalas ao piano, suspiros e guitarras
antecediam uma cano pueril, cujos atrativos eram o escracho por meio
do arranjo, o exotismo da apresentao e o happening que Caetano
resolveu incluir, sem participar a ningum sua deciso. Quase ao final,
entra em cena uma excntrica figura loura de roupas estranhas, o
americano John Dandurand, a quem Caetano cede o microfone para as frases
ininteligveis e os berros desconexos que passa a proferir, atingindo em
cheio o objetivo pretendido, o de cutucar ainda mais escandalosamente a
platia. Esses elementos foram os agentes provocadores de uma reao
adversa e totalmente oposta  de sua entrada. Sendo uma das seis
classificadas, " Proibido Proibir" foi reapresentada aps o intervalo
sob vaias, tomates podres e gritos de "Bicha!" dirigidos ao gringo.
Nervoso e mal conseguindo se ouvir, Caetano foi consolado com os abraos
de amigos ao sair do palco.
O pblico  que no se conformou com tamanha anarquia, vaiou um artista
que aplaudira minutos antes e era tido como dolo da juventude mais
esclarecida. Temeroso da multido, Caetano saiu escoltado por dois
policiais enquanto Guilherme Arajo fazia um comentrio premonitrio:
"Onde est a juventude brasileira?".
As outras classificadas foram "Canto do Amor Armado", "Quadro" (Carlos
Viana e Jos Mrcio), "Caminhante Noturno", "Na Boca da Noite" e "Onde
Anda lolanda".
Na segunda semifinal paulista, a concorrente "Questo de Ordem", de
Gilberto Gil, que fora acompanhado pelos Beat Boys e, novamente, o
hippie americano John Dandurand tocando uma calota, foi eliminada. O
pblico, j meio cabreiro com o Tropicalismo anrquico de Caetano,
duplicou a represlia manifestada antes e o jri embarcou na rejeio 
estranha forma musical concebida por Gil, que vivia o momento de sua
mxima paixo pelo guitarrista Jimi Hendrix. Tendo composto uma cano
convencional em termos de harmonia e melodia, em ritmo de marchinha, e
que provavelmente no despertaria controvrsias, Gil resolveu
desconstru-la aproximando a interpretao dos maneirismos vocais de
Hendrix, trocando a poesia cantada por um canto esdrxulo, seguido de
gemidos, ganidos e cacofonias. Sua provocao quela faco da juventude
nacionalista engajada na resistncia  ditadura, mas conservadora em
termos estticos, foi recebida com o troco previsto: vaias contra aquele
"vendido  msica estrangeira e entreguista". Nem alguns de seus
admiradores entenderam onde ele queria chegar. Gilberto Gil ficou fora
do Festival, quebrando a dupla dos gmeos da Tropiclia, expresso j
consagrada naquela altura. Entre as seis que passaram para a disputa da
final paulista na noite seguinte, estavam "Oxal", de um Tho de Barros
desvinculado de Vandr, "Dana da Rosa", de Chico Maranho, um dos que
mais se identificava com a platia, a panfletria "Amrica, Amrica", de
Csar Roldo Vieira, e a temerosa "Pra No Dizer que No Falei de
Flores", alcunhada "Caminhando", de Geraldo Vandr. Enquanto a maioria
dos autores cuidava de incrementar as performances com todos os
elementos possveis para causar impacto, Vandr resolveu seguir caminho
oposto. Apresentou-se sozinho, com seu violo rudimentar, numa cano
tambm rudimentar, cuja letra poderia ser o cerne de um roteiro
cinematogrfico contra as Foras Armadas. O refro era de colher para o
povo cantar junto: "Vem, vamos embora/ que esperar no  saber/ quem
sabe faz a hora/ no espera acontecer". A previso de Boni de que a
msica no iria longe comeava a perigar.
Vinte e quatro horas depois, domingo, 15 de setembro, aconteceria no
TUCA a final paulista do III FIC. Uma noite para a histria.
A primeira grande vaia foi para os Mutantes, logo  entrada de Srgio e
Arnaldo, fantasiados com becas de formandos, e Rita, de noiva. Depois,
quando Vandr foi defender "Caminhando", ocorreu um tumulto. Algum
ergueu uma faixa de duas faces idealizada pelo artista plstico Edinzio
Ribeiro Primo: de um lado, um violo com uma caveira de boi e, do outro,
a frase que separava as duas faces na platia: "Folclore  reao".
Havia uma clara diviso entre o pblico e os grupos se pegaram feio,
obrigando a polcia a intervir.
Os estudantes do TUCA, considerados os mais politizados entre os
freqentadores de festivais, no se conformavam que Caetano e Gil no
assumissem uma atitude clara de reao ao militarismo e ainda
demonstrassem no palco uma certa falta de virilidade que no se
coadunava com quem fosse contra a ditadura. A postura mscula de Vandr,
um dos dolos dessa faco, era o oposto. A outra parte do pblico era
dos tropicalistas, tanto simpatizantes, como Augusto de Campos e Dcio
Pignatari, quanto artfices, como Gal Costa e Torquato Neto, em visvel
situao de inferioridade numrica e de nimos bem menos exaltados.
Caetano chegou ao TUCA quando os Mutantes terminavam seu nmero, aps
ter vivido horas de grande excitao resumidas na frase dita  entrada:
"O que me interessa  desclassificar as coisas". A performance de "
Proibido Proibir" ofuscou de tal maneira o que aconteceu dali em diante,
que seria lanado um disco compacto tendo no lado A a gravao normal de
estdio e no lado B, sob o ttulo "Ambiente de Festival", a msica que
no aconteceu. As vaias comearam quando seu nome foi anunciado.
Despediu-se de sua mulher Ded com um beijo e entrou no palco. Com as
mesmas vestimentas de plstico, Caetano Veloso incrementa sua
performance com movimentos de quadris simbolizando um ato sexual, que
mais exaltam os nimos, prontos para atingir o paroxismo. Vaiando
estridentemente, uma parte da platia d as costas para o artista; os
Mutantes, que o acompanham, reagem na mesma moeda, virandose de costas
para o pblico. s vaias, sucedem gritos e xingamentos cada vez mais
pesados. Caetano fica perturbadssimo defrontando-se com o dio
estampado em alguns assistentes e, em lugar de cantar, inicia um
discurso totalmente diferente do que tinha preparado nos estdios da
RGE, a homenagem  atriz Cacilda Becker, perseguida pela Censura e
dispensada dos teleteatros da TV Bandeirantes sob a alegao de que sua
atuao era subversiva: "Mas  isso que  a juventude que diz que quer
tomar o poder? Vocs tm coragem de aplaudir, este ano, uma msica, um
tipo de msica que vocs no teriam coragem de aplaudir no ano
passado!... Quem teve essa coragem de assumir essa estrutura e faz-la
explodir foi Gilberto Gil e fui eu. No foi ningum, foi Gilberto Gil e
fui eu!".
Dividida em duas faces, a platia do TUCA, em So Paulo, se
manifestava com cartazes e vaias na final da fase paulista do III FIC.
A participao performtica do norte-americano Johnny Dandurand
foi a surpresa de Caetano Veloso em " Proibido Proibir", a polmica
msica classificada para a final paulista do III FIC.
A zoeira  tanta que poucos entendem o que ele diz, comeam a chover
tomates, bolas de papel, ovos, copos de plstico, bananas, Gil entra no
palco, fica sorrindo e abraando Caetano, que prossegue, parecendo fora
de si: "Vocs esto por fora! Vocs no do para entender. Mas que
juventude  essa?! Vocs jamais contero ningum. Vocs so iguais sabem
a quem? So iguais sabem a quem? Tem som no microfone? Vocs so iguais
sabem a quem? queles que foram na Roda Viva e espancaram os atores!
Vocs no diferem em nada deles, vocs no diferem em nada. E por falar
nisso, viva Cacilda Becker!...".
Agora um pedao de madeira do cenrio arremessado atinge a canela de
Gil, que no se d conta, morde um tomate e o devolve. A turba urra tal
qual feras famintas, Caetano vitupera como um possudo, a situao  de
total descontrole no palco e na platia. Prolifera um embate irado como
nunca se imaginou pudesse acontecer em algum teatro ou programa de TV;
misturam-se, numa zorra total, o som das guitarras, a gritaria
ensurdecedora e a irreconhecvel voz de Caetano: "O problema  o
seguinte: vocs esto querendo policiar a msica brasileira! ... Mas eu
e o Gil j abrimos o caminho, o que  que vocs querem? Eu vim aqui para
acabar com isso. Eu quero dizer ao jri: me desclassifique ... Gilberto
Gil est comigo para acabarmos com o Festival e com toda a imbecilidade
que reina no Brasil ... Ningum nunca me ouviu falar assim. Entendeu? Eu
s queria dizer isso, baby... se vocs, em poltica, forem como so em
esttica, estamos feitos! Me desclassifiquem junto com o Gil! Junto com
ele, t entendendo? E quanto a vocs... O jri  muito simptico, mas 
incompetente. Deus est solto!". E volta a cantar sem ligar a mnima
para o que est fazendo, sem se importar com a melodia ou se est fora
do tom, provoca ainda mais o jri com as palavras finais e encerra
depois de mais de quatro minutos: "Chega!". Sai abraado com Gil e os
Mutantes.
Um grande constrangimento reina nos bastidores. Caetano  cumprimentado
pelos baianos e baianas, por Lennie Dale e Guilherme Arajo. Gil
declara: "No tenho raiva deles, no, eles esto embotados pela burrice
que uma coisa chamada Partido Comunista resolveu pr nas cabeas deles".
Caetano nem aguarda o resultado, recebe um abrao de Marcos Lzaro e,
desinteressado pelo que possa suceder no Festival, sai para seu
apartamento na avenida So Luiz.
"Por que eles no so de esquerda como ns?", pensava a classe
estudantil supostamente mais politizada. "Se fossem, assumiriam as dores
do povo brasileiro, fariam um protesto contra a situao, no ficariam a
baalar  a msica importada." Ainda que amassem os baianos, como amaam
Chico e Vandr, havia uma diferena fundamental: para a juventude
daquele momento, o talento em si no era suficiente, era preciso ter
alento acompanhado de uma posio poltica, como Chico e Vandr
demonstravam em suas msicas. Gil e Caetano no assumiam.
Os jurados Srgio Cabral, Chico de Assis, Paulo Cotrim, Maurice
Fapovilla, Boni e Jos Otvio Castro Neves, classificaram seis msicas
para as duas eliminatrias do Rio: "Caminhando" (Geraldo Vandr), Oxal"
(Tho de Barros), "Amrica, Amrica" (Csar Roldo Vieira), Dana da
Rosa" (Chico Maranho), "Cano do Amor Armado" (Srgio Ricardo) e,
surpreendentemente, " Proibido Proibir". Caetano diria ainnda nos
bastidores, havia declarado que nunca mais participaria de um festival.
No Rio de Janeiro, o III FIC estava sediado no Hotel Savoy, em
Copacabana, provocando tamanho entra e sai que as ruas Xavier da
Silveira e Miguel Lemos foram interditadas para facilitar o
estacionamento. Augusto Marzago, que ocupava uma sala no segundo andar,
ficou deveras preocupado com o escandaloso Caetano, submetendo sua
participao a uma condio: ele poderia cantar com a mesma roupa de So
Paulo, mas tal alemo (sic) no poderia de maneira alguma pisar o palco
de um festival para manobras sensacionalistas. Caetano ficou de ir ao
Rio para tomar a deciso de participar ou no, deixando no ar uma
expectativa que aumentava quanto mais prxima estava a data da primeira
eliminatria.
No Maracanzinho os servios de montagem de um palco mais acustico, para
que os cantores pudessem ouvir melhor a orquestra, prosseguiam
normalmente desde 8 de setembro. Tinha 30 metros de largura por 2 de
profundidade; o disco onde ficaria o cantor estava a 2,60 metros do
piso, o coro,  esquerda, e o piano,  direita. De cada lado saa uma
tampa de 10 metros descendente rodeando a orquestra a ser regida por
Laya, Panicalli e Rogrio Duprat. Decorado em azul e branco, com o
smolo Galo de Ouro, o fundo do palco tinha colunas iluminadas em cores.
O corpo de jurados pretendido no incio sofreu vrias mudanas e, no
final, sua formao definitiva teve como presidente o diplomata Donaello
Grieco e como integrantes Ari Vasconcelos, Paulo Mendes Campos, a
carnavalesca Eneida, os maestros Carioca, Isaac Karabtchevsky e Aleu
Bochino, o cronista Eli Halfoun, Billy Blanco, Bibi Ferreira, o
deseihista Ziraldo, Justino Martins, diretor da revista Manchete, o
jornalista paulista Nilo Scalzo, Ricardo Cravo Albin, diretor do MIS, e
Carlos Lemos, do Jornal do Brasil. Ao lado dos jurados ficaria o sr.
Christian Mark comandando o placar eletrnico que poderia ser
acompanhado pelos presentes, uma novidade nesse FIC.
Uma semana antes da primeira eliminatria, foi anunciado que, devido ao
sucesso do FIC paulista, seriam includas na fase nacional mais duas
msicas de So Paulo, "Caminhante Noturno" e "Na Boca da Noite". Houve
protestos de Roberto Menescal, que prometeu retirar sua msica "Salmo",
mas voltou atrs. So Paulo ficou ento com oito concorrentes; Minas
teria duas, "Corpo e Alma" (Augusta Maria Tavares) e "Festa do Povo"
(Jota D"ngelo); "Vera Cruz", de Milton Nascimento e Mrcio Borges,
ficou de fora; a Bahia teria uma, "Maria  S Voc" (Carlos Coqueijo e
Alcivando Luz); Pernambuco, uma, "Por Causa de um Amor" (Capiba); o Rio
Grande do Sul, "Tempo de Partir" (Srgio Knapp); e o Paran, "Roteiro"
(Lpis e Paulo Vitola). As demais, definidas desde o final de agosto,
eram do Rio. As cariocas mais comentadas pela imprensa eram "Andana",
"Sabi", "Salmo", "Meu Sonho Antigo", "Mar Morta" e "Dia de Vitria";
pouco se falava de "O Sonho", do estreante Egberto Gismonti. Por fim,
Caetano Veloso decidiu no participar do FIC, declarando ao Jornal da
Tarde que estava mais interessado na preparao de seu novo disco e na
msica inscrita para o Festival da Record, "Divino, Maravilhoso".
A fase internacional tambm se agitava, a despeito de algumas
dificuldades para o diretor Augusto Marzago. Vrios convidados
estrangeiros no se mostraram propensos a assistir ao FIC no Rio temendo
vaias como as do ano anterior. A cantora Ella Fitzgerald, convidada para
presidir o jri, foi a primeira a se manifestar temerosa, levando em
conta as notcias que ouvira de Mancini, Nelson Riddle e Quincy Jones.
Marzago garantia que o pblico seria comportado e no vaiaria os
artistas, rebatendo a matria de um jornalista alemo que meteu o pau no
Festival anterior, tachando-o de bagunado e dizendo que o pblico no
tinha educao.
A lista de convidados do exterior que efetivamente vieram ao Rio inclua
os cantores Paul Anka, Pino Donaggio, Kyu Sakamoto, Franoise Hardy,
Jimmy Cliff, Dinah Shore, Cidalia Meirelles, o letrista Sammy Cahn e o
compositor David Rose (que retornaram ao Rio), Ray Evans e Jay
Livingston (autores de "Mona Lisa"), Harry Warren (autor de imensa obra,
da qual se podem citar "I Only Have Eyes for You", "Lullaby of Broadway,
"There Will Never Be Another You" e "The More I See You"), os regentes
franceses Frank Pourcel e Paul Mauriat e o americano Don Costa.
Vinte e trs composies concorreram na primeira eliminatria, realizada
quinta-feira, 26 de setembro, mas apenas 5 mil pessoas compareceram ao
Maracanzinho.
Os apresentadores Hilton Gomes e Ilka Soares anunciaram a primeira
cano, "Meu Sonho Antigo", de Srgio Bittencourt, com Taiguara, na
linha modinha fora de poca, com uma levada de maxixe na segunda parte.
Das concorrentes inscritas pelo Rio, duas agradaram mais: "Dia da
Vitria", a stima apresentada, com uma letra tipo "desperta, povo!",
foi indevidamente comparada a "Viola Enluarada", tambm de Marcos Valle,
que a defendeu. A outra foi "Andana", a dcima segunda concorrente, uma
toada com canto e contracanto entre as vozes masculinas e afinadas dos
Golden Boys e a feminina de Beth Carvalho, ento uma garota de 22 anos
que abandonara seu curso de Psicologia para se dedicar  msica.
"Andana" era de autoria de trs estudantes de Arquitetura, Danilo
Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajs, que j eram amigos no Colgio
Andrews e tornaram-se freqentadores das festinhas semanais de msica
sob o comando da festeira-mor Beth Carvalho, namorada de Edmundo. Assim,
nasceram canes e parcerias desse grupo, que foi aumentando,
participando de festivais universitrios, at formar o movimento Msica
Nossa, com as adeses de Arthur Verocai, Luiz Cludio Ramos, Antnio
Adolfo, Joyce, Menescal, Edu Lobo, a cantora Lcia Helena, s vezes
grafada Lucelena, que seria a Lucina da dupla Luli e Lucina. Gonzaguinha
e Ivan Lins tambm participaram mais tarde do Msica Nossa.
Ainda como amadores, vrios deles fizeram parte de uma caravana carioca
que foi a Porto Alegre participar de um festival universitrio em 1968.
A trinca de estudantes de Arquitetura obteve o segundo lugar com "Canto
pra Dizer-te Adeus", cantada por Iracema Werneck, perdendo para "Jogo de
Viola", cuja letra, do gacho Joo Alberto, impressionou fortemente
Paulinho Tapajs. No retorno do Sul, Edmundo, que no havia viajado, foi
receb-los no aeroporto e enquanto Paulinho foi para sua casa em
Botafogo, ele rumou com Danilo para a casa de Beth. Nesse dia, "Andana"
comeou a nascer.

Edmundo mostrava-lhes uma melodia que estava compondo quando Danilo
decidiu improvisar uns contracantos na flauta que se incorporaram ao que
seria uma segunda parte. Ficaram to animados que resolveram gravar uma
fita para Paulinho fazer a letra e este, aproveitando os cantos e
contracantos, resolveu criar um dilogo entre uma voz masculina, a da
melodia de Edmundo, e a feminina da flauta de Danilo. Era uma letra
romntica de um andarilho em sua caminhada para o amor: "Vim, tanta
areia andei/ da lua cheia eu sei/ uma saudade imensa/ ... Olha a lua
mansa a se derramar/ Me leva amorl ao luar descansa meu caminhar/ amor/
seu olhar em festa se fez feliz/ me leva amorl lembrando a seresta que
um dia eu fiz/ por onde for quero ser seu par...". Como nessa ocasio
Paulinho estivesse lendo Guimares Rosa, teve vontade de tambm usar
alguma palavra diferente, propondo como ttulo "Andana", que tinha
certo sabor de neologismo.
Logicamente, Beth faria a voz feminina, e a idia de convidar os Golden
Boys, de quem os trs eram fs, foi para quebrar a impresso
generalizada de que o pessoal do i-i-i no cantava direito. Os quatro
rapazes ficaram receosos de serem mal recebidos mas acharam o mximo
cantar num festival, tido como domnio dos universitrios. O pblico
adorou a combinao das cinco vozes e recebeu com entusiasmo a toada
moderna no arranjo de Gaya com a participao do Som Trs no
acompanhamento.
O letrista Mrio Telles, irmo da cantora Silvinha Telles, que resolveu
ele mesmo interpretar sua composio com Menescal, "Salmo", foi vaiado.
Teria ela melhor recepo com um intrprete mais tarimbado, como sugeriu
o diretor da Philips Andr Midani? O fato  que nenhum dos jurados a
incluiu entre as melhores. O mesmo aconteceu com a radical "Mar Morta",
de Edu Lobo e Ruy Guerra, cantada por Eduardo Conde num elaborado
arranjo de Chiquinho de Morais. "Na Boca da Noite", essa sim, foi bem
aplaudida, mas a grande surpresa da primeira eliminatria foi a ltima
cano, "Caminhante Noturno", com Os Mutantes. Houve um princpio de
vaia para o trio, vestido espalhafatosamente como j era hbito em So
Paulo. Rita tocava pratos e castanholas e acionava um gravador porttil
de onde uma voz dizia " proibido proibir". Rogrio Duprat regeu a
orquestra. A apresentao foi elogiadssima, mas a deciso do jri seria
divulgada s no domingo, aps ouvirem as 19 msicas programadas para a
segunda eliminatria. Dezenove porque a vigsima havia sido retirada por
Caetano, que se tornara alvo de entrevistas, concedidas at na praia.
Pel com seus companheiros do Santos e o doutor Christian Barnard
estavam entre os assistentes mais destacados na platia, maior e mais
animada, do Maracanzinho para conhecer no sbado, 28 de setembro, as
msicas restantes candidatas s 20 vagas da final nacional. "Sabi" foi
a primeira, bem aplaudida e bem apresentada por Cynara e Cybele,
sugeridas como intrpretes a Tom Jobim por Chico Buarque, entusiasmado
com a performance da "dupla p-quente" de "Carolina". Chico fez a letra
e viajou para a Europa, enquanto o consagrado Tom Jobim, que fez questo
de acompanhar o ensaio, estava presente, fazendo seu dbut no FIC e
concorrendo pela segunda vez num festival, j que "Vou Te Contar" tinha
ficado na saudade.

A quarta msica da noite, que causou impacto igual ao de So Paulo, era
"Pra No Dizer que No Falei de Flores", uma cano de campo ou um
rasqueado, conforme a definio do autor e intrprete Geraldo Vandr,
que repetiu a dose do TUCA dispensando acompanhamento de orquestra.
Nesse ano ele apresentava na TV Bandeirantes o Canto Geral, cujo ttulo
foi trocado para Canto Permitido. A mudana se deveu aos cortes que a
Censura fez no primeiro programa da srie, no incio de maio, em que um
filme de 15 minutos sobre a crise do mundo foi interpretado pelos
censores como subversivo. O novo ttulo do programa, que era gravado s
segundas-feiras no Teatro Bandeirantes (ex-Cine Arlequim), foi proposto
por Vandr para ressaltar a posio da Censura. O primeiro contato dos
cariocas com a cano e a interpretao agressiva, que os paulistas j
conheciam, foi sensacional. A msica foi delirantemente aplaudida,
deixando Vandr to emocionado que chegou a passar mal nos bastidores.
Outros intrpretes, tarimbados em festival como Tuca e Maria Odete, ou
estreantes como Eliana Pittman e Morgana, a fada loura, no chegaram a
comover nem a platia nem os jurados, ao passo que o veteranssimo
Silvio Caldas foi o destaque da noite ao cantar a valsa "Rainha do
Sobrado", dcima quinta concorrente, do garoto de 17 anos Eduardo Souto
Neto. Os ouvidos mais atentos no deixaram passar em brancas nuvens a
composio de outro jovem, Egberto Gismonti, apresentada em dcimo
lugar. Com o grupo vocal Os Trs Morais, de afinao impecvel, Egberto
defendeu "O Sonho", que tambm no impressionou o jri. Eram os passos
iniciais de um dos maiores msicos brasileiros que, j nos ensaios,
podia-se notar, apresentava uma composio inteligente e originalssima
com sua linha meldica de intervalos de meios tons.
Os cariocas tambm adoraram a interpretao de Csar Roldo Vieira para
"Amrica, Amrica", a dcima stima concorrente, aps o que, nada mais
mereceu destaque na vspera da final nacional do III FIC.
Nesse mesmo sbado, em So Paulo, a torcedora smbolo dos festivais,
Tel Cardim, foi ao escritrio de Marcos Lzaro a fim de conseguir um
ingresso para a final. Enquanto aguardava na ante-sala, durante a
ausncia do recepcionista, ouviu uma conversa telefnica de Marcos, que
disse a seu irmo Jos Lzaro assim que desligou: "Os militares no
querem que a msica de Vandr ganhe o Festival. Temos que falar com a
organizao do FIC porque, se ele ganhar, vo tomar uma atitude de
srias conseqncias".
Tel gelou. Impressionadssima, desistiu do ingresso decidida a procurar
seu amigo Geraldo Vandr, que nem estava mais no apartamento da alameda
Barros, tinha ido para o Rio com seu empresrio Borges. Tel no tinha
um minuto a perder, foi direto para o aeroporto tentar embarcar sem
passagem. Depois de horas sem nada conseguir, e observando as aeromoas
vestidas com seus sbrios tailleurs azuis-marinhos, voltou para casa e,
no dia seguinte, retornou com uma malinha e vestida com um conjunto azul
de saia e blusa, como autntica aeromoa. Sorrateiramente, conseguiu
misturar-se com um grupo de passageiros, entrando com tranqilidade num
avio da ponte area. Pouco antes da decolagem, a aeromoa dirigiu-se a
ela aps contar os passageiros:
- Desculpe, mas no me lembro de voc entregar seu bilhete.
- No dei mesmo.
- Voc pode me dar agora?
- Olha, eu entrei no avio, no tenho passagem, porque preciso ir ao Rio
avisar o Geraldo Vandr que se ele ganhar o Festival vai sair de l
preso pelos militares.
A aeromoa arregalou os olhos, com receio de um seqestro, mas o avio
j decolava. Logo depois, voltou, ouvindo de Tel:
- Agora no tem mais jeito, o avio est no ar, s se voc me jogar para
fora. Olha, no tenho passagem, no sou seqestradora e preciso ir para
o Rio avisar o Vandr que ele no vai ganhar o Festival.
Aturdida, a comissria chamou o comandante Arajo, que morreria no
trgico acidente areo de 1973, prximo ao aeroporto de Orly, em Paris,
onde tambm desapareceram o cantor Agostinho dos Santos e o arranjador
Carlos Piper. Sentando-se a seu lado, ouviu a mesma histria:
- Comandante, no me leve a mal, me perdoe, mas eu preciso avisar o
Vandr que ele no vai ganhar o Festival e  bem capaz de sair preso do
Maracan.
- T legal. Eu no vou fazer nada se voc garantir que me pe dentro do
Maracanzinho.
- OK, eu ponho - disse por fim, como se ainda fosse mais fcil conseguir
o segundo ingresso.
Do aeroporto Santos Dumont, Tel foi com o prprio comandante em seu
Buick para o escritrio do FIC, onde conseguiu agitar jornalistas e meio
mundo dizendo para quem quisesse ouvir que Vandr seria impedido de
ganhar o Festival pelos militares. Walter Clark veio ao corredor saber
do que se tratava e estava ouvindo a histria de Tel quando foi chamado
ao telefone.
Era o ajudante de ordens do general Sizeno Sarmento para avis-lo que
nem "Caminhando" nem "Amrica, Amrica", ambas com certificado da
Polcia Federal, poderiam ganhar o Festival. Walter argumentou que no
poderia impedir o jri de votar livremente, mas as ordens eram
taxativas: "Problema seu. As msicas no podem ganhar", respondeu o
oficial.
Walter confabulou com Augusto Marzago e decidiram no tomar providncia
alguma a fim de no criar um caso de repercusso imprevisvel. Deixaram
o assunto ao sabor do acaso.
Tel saiu ventando, com o comandante Arajo, para o ginsio do
Maracanzinho, onde se realizava o ensaio. Com a maior cara-de-pau,
dizendo ser irm de Geraldo Vandr, que vinha lhe trazer uma bolsinha j
aguardada, que o senhor a seu lado era o empresrio do cantor e que seus
documentos estavam l dentro com o "irmo", conseguiu entrar no
Maracanzinho com o comandante Arajo a tiracolo. Deu de cara com
Vandr, apresentou-lhe o comandante, disse que viera de carona para
avis-lo de algo muito grave:
- Vandr, eu vim para te contar uma histria: voc no vai ganhar o
Festival.
- Como  que voc sabe disso?
- Porque eu ouvi isso na sala do Marcos Lzaro.
- E, aquele gringo est com bronca minha porque no  meu empresrio.
- No  nada disso.
Geraldo ficou irritado, afastou-se de Tel e nem aceitou a sugesto um
tanto maluca de declarar em pblico que sua msica no poderia ganhar.
Com os tomates de uma caixinha de lanche que ganhou, Tel tinha sua
munio favorita para ser arremessada no momento adequado. Ela e o
comandante iriam assistir  final.
A atitude de Vandr no revelava sua grande apreenso. Os reprteres da
Manchete Joo Luiz Albuquerque e Renato Srgio estavam no hotel de
Copacabana, onde os concorrentes de So Paulo se hospedavam, quando,
aps o almoo, Vandr se aproximou dizendo que estava com medo de ser
preso, pedindo para ir ao Maracanzinho no carro da Manchete. Ambos
concordaram porque imaginaram que teriam uma grande histria para
escrever. Vandr foi com os dois, alm do motorista e um fotgrafo, mas
todos achavam que era uma certa parania de Vandr. O carro entrou
normalmente, Vandr ensaiou normalmente, nada aconteceu na tarde de
domingo.  noite  que o caldeiro iria ferver.
O ginsio estava abarrotado. Walter Clark chegou sob o peso de sua
arriscada deciso. A exemplo da Record, a TV Globo tambm mantinha um
esquema para aplainar os problemas com a Censura, atravs dos
"assessores militares" Edgardo Manoel Ericsen e o coronel Paiva Chaves.
O relacionamento com os rgos de comunicao havia mudado bastante
desde abril de 1964.
Voltemos a essa poca. O governo do regime militar teve ciclos
descontnuos. O primeiro foi de maro de 1964 a dezembro de 1968, quando
foi decretado o AI-5, um marco sombrio na histria poltica brasileira.
Nesse perodo, que coincide com a realizao dos principais festivais,
houve fases de compresso e descompresso do regime.
Logo aps o incio do regime militar, em abril de 1964, h um primeiro
endurecimento - uma primeira inflexo - sob a forma das cassaes que
incidem sobre polticos e lderes sindicais. Apesar de ser um momento
duro, as reas de educao e cultura, vale dizer as formas de
manifestaes artsticas, no so impactadas por essa medida de
represso denominada Ato Institucional. A medida, que refora o Poder
Executivo e diminui a rea de ao do Congresso, no vem acompanhada de
um nmero cardinal, o que leva  concluso que, ao menos nesse primeiro
momento, aparentemente no existia o projeto de outros atos
institucionais. Era assim, o Ato Institucional do Regime Militar, cuja
vigncia foi limitada at 31 de janeiro de 1966, quando se encerraria o
mandato do general Castelo Branco, j que a perspectiva da ala dos
castelistas era a de que tal regime se esgotaria. Em relao 
represso,  um perodo  de relaxamento que dura at as eleies
estaduais de outubro de 1965, cujos resultados, que consagram, em boa
parte, as oposies ao regime militar, so considerados inaceitveis
pela linha dura, coexistente com o grupo castelista nas Foras Armadas.
E ento baixado o Ato Institucional nmero 2, abreviado como AI-2, a
partir do qual inicia-se a numerao dos atos institucionais.
O AI-2  extremamente duro, extingue os partidos polticos e determina
que as eleies para presidente da Repblica sejam indiretas, deixando
muito clara uma mudana decisiva nas regras do jogo poltico. A
interpretao desse AI-2  que a linha dura estava ganhando fora dentro
do governo, embora o presidente Castelo Branco no tenha perdido o
controle, mantendo considervel poder. Assim, essa segunda inflexo no
significa um enfraquecimento do presidente, mas um enfrentamento das
duas linhas, a dura e a dos castelistas.
Como se v, no obstante a Era dos Festivais tenha comeado num contexto
de regime militar, a sociedade civil, e mesmo os setores culturais, no
haviam sido atingidos fortemente. A partir de outubro de 1965  que se
sente um avano do poder repressivo do regime militar sobre a sociedade,
pois, ao AI-2, segue-se o AI-3, em fevereiro de 1966. Quando o Congresso
 fechado, em outubro de 1966, eclodem as primeiras manifestaes
estudantis, coincidentemente s vsperas do II Festival da TV Record. 
a mobilizao de estudantes universitrios e secundaristas ao se
articularem com as reas culturais de msica, teatro e cinema de uma
forma geral. Os setores artsticos e estudantis convivem com formas de
manifestao e de rejeio ao regime militar.
Uma nova inflexo se d com a derrota do grupo castelista e a chegada de
Costa e Silva, da linha dura, ao poder, iniciando-se outra etapa que vai
da data da posse, em maro de 1967, e atravessa quase todo o ano de
1968. Paradoxalmente, durante o perodo inicial de seu governo, voltam a
ter vigncia, embora por curto tempo, as prticas constitucionais, h
uma interlocuo do presidente com o Congresso, uma movimentao
parlamentar. Esse perodo, que no  dos mais duros,  o da face
contestatria e da grande mobilizao da sociedade, que vai para as
ruas. O verbo contestar entra na ordem do dia enfeixando novas e grandes
manifestaes populares, estudantis e artsticas,  o momento das
passeatas,  o perodo dos maiores festivais da Era dos Festivais. No 
uma poca de represso nem de sociedade vigiada, como se pode deduzir
pela conhecida frase, proferida na Passeata dos Cem Mil (em meados de
1968), segundo a qual a ditadura seria derrubada com um cuspe.
Havia, portanto, uma percepo, compartilhada por setores polticos,
artsticos e estudantis, de subestima ao poder repressivo da ditadura
militar. Exatamente porque nesse momento esse poder no estava
integralmente acionado, embora existisse e fosse operante. E era
operante atravs da Censura que agia sobre as letras das canes dos
festivais.
A platia do Maracanzinho em 1968 devia estar imaginando que, pelo fato
de letras eomo as de Geraldo Vandr e Csar Roldo Vieira serem cantadas
livremente, a Censura estava amolecendo e a juventude cada vez mais
perto do poder, tendo como arma um simples violo. Na apresentao das
20 msicas concorrentes dessa noite, duas canes foram acompanhadas por
um coro de milhares de pessoas. Uma era a romntica "Andana", e a
outra, "Pra No Dizer que No Falei de Flores" ("Caminhando"), que,
pelos motivos acima, era a franca favorita. Quando "Sabi" foi cantada
sob aplausos por Cynara e Cybele, vestidas de marrom cintilante dos ps
 cabea, no arranjo vocal de Tom Jobim (o arranjo instrumental era de
Eumir Deodato e a orquestra, regida por Mrio Tavares), duas jornalistas
soltaram sabis de verdade, que voavam sobre o pblico. Na platia
muitos tambm cantavam "Vou voltar/ sei que ainda vou voltar/ para o meu
lugar/ foi l e  ainda l/ que eu hei de ouvir cantar/uma sabi".
Fato  que a apresentao das finalistas ficaria completamente ofuscada
a partir do momento em que as dez primeiras colocadas fossem
proclamadas. Tendo ouvido as 20 finalistas, cada jurado ordenou suas dez
canes preferidas com as respectivas colocaes, da primeira  dcima,
atribuindo-lhes pontuao decrescente de 10 a 1. Antes de totalizar os
pontos, Walter Clark estava apavorado com a possibilidade de que o
resultado desse a vitria a Vandr. A seu lado, o compositor Luiz
Antnio (parceiro de Jota Jnior em "Lata d"gua") ia somando,
dispensando o computador da Globo, que teve uma pane e s servia para
impressionar a massa ignara - uma calculadora elementar era mais que
suficiente para uma simples operao de adio. Quando se chegou ao
total final, Walter sentiu um alvio: "Caminhando" tinha 106 pontos e
"Sabi", 109, sendo, portanto, a vencedora. Iniciava-se agora a fase
mais dramtica daquela noite, anunciar e reapresentar as dez canes
mais votadas. Infelizmente, "O Sonho", de Egberto Gismonti, no era uma
delas. Felizmente, na platia havia uma cantora que no embarcou nessa
mancada dos jurados. Depois de ouvir Egberto, pensou consigo mesma:
"Essa no escapa", e gravou "O Sonho" no seu disco seguinte. Era ela
mesma, quem esto imaginando, Elis Regina.
Como o computador falhava, o apresentador Hilton Gomes foi obrigado a
anunciar o resultado que no aparecia na tela. Os protestos comearam a
se avolumar na apresentao da sexta colocada, "Caminhante Noturno",
pois a torcida dos Mutantes no se conformava com a msera colocao.
Depois dela vieram a quinta e a quarta: "Dia de Vitria" com Marcos
Valle e "Passacalha" com o Quarteto 004. Uma vaia estrondosa estourou
quando foi anunciada a terceira colocada, "Andana"; Beth e os Golden
Boys mal conseguiam cantar e no eram ouvidos. Paulinho Tapajs estava
na platia ao lado de Elis, que se mostrava empolgada com a cano mas
no sabia ser ele o autor. Estava doido para se identificar e
sugerir-lhe que gravasse "Andana", o que seria uma glria. A gravao
acabou acontecendo, os dois se conheceram depois e "Andana" est no
disco Como e Porque em companhia de "O Sonho" e "Vera Cruz", ou seja,
duas concorrentes do III FIC e uma eliminada na fase mineira.
O nome de Vandr era clamado em peso. Quando Hilton Gomes anuncia o
segundo lugar, "Pra No Dizer que No Falei de Flores", o pblico deduz
que "Sabi" seria a vencedora. Fica todo mundo de p para vaiar a
deciso. Vandr surge, caminha sob vaias para o microfone mas, antes de
cantar, tenta contemporizar: "Olha, sabe o que eu acho? Eu acho uma
coisa s: Antnio Carlos Jobim e Chico Buarque de Hollanda merecem o
nosso respeito". Totalmente intil. As vaias redobram. Se havia alguma
dvida quanto  vitoriosa, deixa de haver. A multido se comporta como
uma gigantesca legio de mosqueteiros, no ponto de contra-atacar
cegamente  primeira estocada. Sem querer, Vandr d a pontada: "A nossa
funo  fazer canes. A funo de julgar, nesse instante,  do jri
que ali est". Foi a conta. As vaias vm com fria inusitada. "Por
favor, por favor... Tem mais uma coisa s. Pra vocs que continuam
pensando que me apoiam vaiando..." A multido responde ensandecida:
-  marmelada,  marmelada,  marmelada...
- Gente, gente, por favor...
-  marmelada,  marmelada... Vandr solta a frase que se celebrizou:
- Olha, tem uma coisa s, a vida no se resume em festivais.

As vaias diminuem quando ele ataca ao violo os dois acordes iniciais,
os nicos de toda a msica.
- Lai-ra-la-l...
Antes da proclamao da vitria de "Sabi", Geraldo Vandr pede calma 
platia para poder apresentar "Pra No Dizer que No Falei de Flores"
("Caminhando") na final nacional do III FIC de 1968.
Geraldo Vandr canta "Caminhando" s com o violo e o Maracanzinho em
peso, num coro de milhares de vozes contra o regime militar.
S param quando ele inicia, com a segurana de um vencedor, a letra da
cano, revelando na voz um leve toque de empolgao: "Caminhando e
cantando...". Vandr  acompanhado por um monumental coro de mais de 20
mil vozes que se abrem com a intensidade de quem estava proclamando a
prpria alforria: "Vem vamos embora que esperar no  saber...".
Entregam-se quela catarse com a violncia de quem dispara versos com
sua mais verossmil arma para combater a ditadura militar, o canto.
Com uma estrutura musical muito simples, descendo do modo menor para o
maior um tom abaixo e subindo novamente numa repetio constante desse
movimento de ida e vinda, herana da influncia moura que se arraigou
nas toadas pelo interior do Brasil, sendo oriunda dos modos elico e
mixoldio, "Pra No Dizer que No Falei de Flores" obedecia  conduta do
compositor, resumida na frase do depoimento que me fora dado 12 dias
antes, em seu apartamento da alameda Barros. Geraldo dissera que "em
cano popular a msica deve ser uma funcionria despudorada do texto".
Vandr termina de cantar. O pblico aplaude mas volta a vaiar
incontinente, j sabendo quem viria. Hilton Gomes se prepara para a
ingrata misso de anunciar a vencedora; sua voz nem  ouvida com a vaia
ensurdecedora que, dirigida  deciso dos jurados, atinge diretamente
Cynara e Cybele, prontas para cantar "Sabi", e Tom Jobim, que entra no
palco impelido. A torcedora Tel arremessa os tomates guardados, que
acabaram caindo no representante da rainha Elizabeth e em Bibi Ferreira.
Imediatamente dois seguranas tamanho armrio correm em sua direo e
agarram a pequena Tel erguendo-a como uma pluma. Nesse momento, Boni,
que viu a cena, intercede dizendo: " porra-louca, ela  porra-louca,
deixa que ela  louca". Tel  liberada.
A vaia estrondosa no pra, Vandr tambm entra no palco e fica ao lado
das duas baianas que cantam "Sabi" sem ouvir nada. Entram vaiadas,
cantam vaiadas, no ouvem a orquestra, o maestro no ouve as duas, as
lgrimas escorrem. Foi uma vaia retumbante, prolongada, macia, quase
raivosa, de deixar aquele moo de smoking se sentindo o coc do cavalo
do bandido. Era Antnio Carlos Jobim, o maior compositor brasileiro,
aturdido, quieto como quem pede desculpas por ter composto mais uma
melodia destinada a ser um clssico da msica de seu pas. Foi um
pesadelo. "O dia mais negro de sua vida", recordou o filho, Paulinho
Jobim, anos depois.
Ao sair do palco, muito sem graa, ainda disse a Joo Luiz Albuquerque:
"Pensei que fosse cair, porque me obrigaram a vir de smoking, estou com
um sapato de verniz novo e quase escorrego na rampa. Se eu escorrego, a
vaia ainda seria maior". Durante todo o tempo ele se lembrava de Chico
Buarque, que estava na Itlia.
Foi a primeira vez que Tom participou de um FIC. A composio fora
iniciada menos de trs meses antes na casa do pianista Ben Nunes, em
homenagem  cantora Maria Lcia Godi, com o ttulo de "Gvea". " uma
toada que segue a linha da modinha de Villa-Lobos", definiu Tom. Se
seria cantada pelo povo, ele no sabia, mas garantia que era popular e
bem brasileira. Tom inscreveu a msica para se safar do incmodo convite
de participar do jri, mas no alimentava a menor expectativa de ganhar.
Fez at uma aposta com Vinicius, documentada: se a cano vencesse, o
poeta ganharia uma caixa de usque Johnnie Walker Black Label; se
perdesse, Tom  quem ganharia.
Uma vez definidas as duas intrpretes, por sugesto de Chico, como foi
visto, houve vrios ensaios comandados por Tom Jobim. O pai das quatro
baianinhas do Quarteto em Cy, que gostava de pesquisar o significado de
nomes prprios, dera a suas filhas nomes ligados a divindades e plantas
comeando com a slaba Ci, mas Cynara e Cybele adotaram o "y".
Tom ensaiou as meninas em sua casa na rua Codajs, no Leblon. Cantava
cada voz, no queria fazer um arranjo que soasse sofisticado, queria uma
"Sabi villalobiana", com duas vozes paralelas e muito simples. Quando
novos sons vinham  sua cabea, ele inclua uma notinha, combinando em
contrapontos e interpenetraes vocais que davam a impresso do simples
ser sofisticado. Na verso original, Cybele fazia a primeira voz,
Cynara, a segunda.
Na poca no se falou de "Sabi" como uma cano de exlio e sim de
esperana, embora houvesse a chamada de voltar. Voltar para onde? Chico
dizia que era uma cano lrica, no era uma cano poltica. Sua
inteno era mostrar a saudade em exagero, o saudosismo alucinado. "A
inteno  levar a saudade ao "Chega de Saudade", porque ela j esta
ficando boba de to repetida", diria ele ao retornar da Itlia.
J em 1587 o historiador Gabriel Soares de Sousa escreveu ao rei de
Portugal e da Espanha, D. Felipe II, que havia no Brasil uma ave de
origem indgena com plumagem parda que cantava suavemente. Chamava-se
sabi. O passarinho estaria presente na poesia de Gonalves Dias "Cano
do Exlio", escrita em Coimbra, Portugal, em julho de 1843: "Minha terra
tem palmeiras/ onde canta o sabi...". Na msica popular,  o sabi seria
o ttulo de uma polca de Chiquinha Gonzaga, "Sabi da Mata". E tema
escolhido por outros autores: Sinh, na letra do maxixe "Sabi", em
1928; Milton de Oliveira, em "Sabi-Laranjeira", de 1937; Mrio Vieira
(parceiro de Herv Cordovil), em "Sabi na Gaiola", de 1950; Z Dantas
(parceiro de Luiz Gonzaga), em "Sabi", de 1951, so alguns exemplos. Em
1968, Tom estava preocupado porque os versos de Chico Buarque se
referiam a uma sabi e no a um sabi como em todas as letras
anteriores. No nordeste e eventualmente no Rio, entre os avicultores, o
nome do pssaro  feminino, dizendo-se "a sabi". Na sua simplicidade
aparente, "Sabi"  uma msica bastante elaborada, como tudo que Tom
Jobim produziu. O motivo meldico principia no tom de r maior, mas, no
compasso 17, o mesmo motivo  harmonizado na relativa, em si menor (no
verso "Que eu hei de ouvir"), retornando aps oito compassos ao tom
maior. A seqncia harmnica mais atraente  iniciada no meio do verso
"Talvez possa espantar", com um movimento descendente de meio em meio
tom - f, mi, mi bemol, r, d sustenido e d - durante o verso "As
noites que eu no queria", at a preparao para reconduzir ao tom
original atravs da dominante, l, na frase "E anunciar o dia". Desta
vez, o motivo inicial se abre de r para f  maior ("No vai ser em vo/
que fiz tantos planos"), seguindose dez compassos finais com a repetio
de dois acordes, sol menor e r menor. A msica termina num r
("esquecer"), a tnica da tonalidade inicial, mas harmonizada com um
acorde de r menor, que  o relativo da tonalidade dessa parte final, f
maior, e tambm propcio para uma eventual repetio, bastando passar de
r menor para r maior. Uma primorosa criao de Tom Jobim, o mestre da
harmonia.
Assim que saiu do palco, cumprimentado por todos e abraado por ori
Caymmi, Tom foi encaminhado ao estacionamento por um segurana da Globo.
Seguiu sozinho em seu Fusquinha pelo tnel Rebouas, no acreditando que
tivesse ganho, vendo passar as placas de limite de velocidade sem
raciocinar. No tnel, chegou a chorar, dizendo em voz alta: Que
loucura!". Foi para seu refgio, a casa do amigo Raimundo Wanierley, no
Leblon, tirando os sapatos assim que se sentou. Abriram umas Brahmas
enquanto ele repetia abanando a cabea: "Que loucura!". Na peqncia,
foi para a festa que o aguardava na sua casa da rua Codajs. L estavam
alguns, jornalistas, os jurados Paulo Mendes Campos e iraldo, o
cronista Rubem Braga. Foram feitas tentativas de ligao internacional
para Chico Buarque, o que na poca exigia muito tempo. Quando as duas
baianinhas estavam posando para uma foto na escadinha da casa de Tom
Jobim, o telefone toca e algum quer falar com Fernando Sabino. Ao
desligar, com uma expresso de completa tristeza, Fernando disse para
todos: "Acho que a festa acabou, porque o Srgio Porto acaba de morrer".
Acabou mesmo, todo mundo foi embora.
Aps a final, Vandr saiu do ginsio num Ford Galaxie, oferecendo carona
para Bibi Ferreira, enquanto Tel foi no "Buico" com o comandante
Arajo para o Hotel Plaza, onde se hospedavam vrios compositores.
Geraldo chegou to perturbado que se recusou a ouvir a histria de Tel.
Quem se interessou foi o empresrio Borges, que ficou a par dos
detalhes.
Chico Buarque, que estava em Veneza, recebeu um telegrama e tentou fazer
uma ligao para Roberto Colossi, seu empresrio. Quando conseguiu
completar a ligao, ouviu de Colossi:
- Tenho duas notcias, uma boa e uma ruim. A boa  que "Sabi" venceu a
parte nacional. A ruim  que teve uma vaia, uma vaia terrvel, o
Maracanzinho em peso vaiou "Sabi". As meninas Cynara e Cybele foram
vaiadas, Tom foi vaiado...
Logo depois, Chico enviou um telegrama para Cynara e Cybele: "Eu
SABIAH, EU SABIAH, EU SABIAH. OBRIGADO. ABRAOS, CHICO".
Naquela semana, nas festas com as delegaes estrangeiras, Vandr foi o
brasileiro que mais fez sucesso. No sbado, vspera da final
internacional, assinou no bar do Hotel Savoy um contrato para a edio
de suas msicas na Europa e iniciou contatos para um show no Teatro
Toneleros. Corriam boatos que seria preso, acusado de promover agitaes
no setor de imprensa do Maracanzinho.
Quando Tom conseguiu falar com Chico, convenceu-o a voltar, dizendo que
no entraria no palco da parte internacional sem ele. Chico antecipou
sua volta, chegou na manh do domingo e foi direto para a casa de Tom
Jobim. Almoaram feijoada e foram ao Maracanzinho para a final
internacional. No dia 6 de outubro, "Sabi", Cynara e Cybele, Tom e
Chico Buarque seriam consagrados no mesmo local, arrebatando o primeiro
lugar na final internacional do III FIC por deciso de um jri presidido
pelo compositor americano Harry Warren.
Na segunda-feira houve uma festa no Clube Monte Lbano onde os quatro
primeiros colocados da fase nacional tambm receberam seus prmios.
Vandr, de cala vermelha e camisa de seda branca, foi o mais aplaudido
quando as canes foram interpretadas. O compacto de sua cano era
bastante vendido nas lojas, mas a polcia do estado da Guanabara
resolveu apreender os que ainda restavam. A chefe da Censura estadual,
dona Marina Ferreira, declarou no existir ordem alguma para apreender
os discos com a msica de Vandr, sendo portanto ilegal qualquer ao
nesse sentido.
Contudo, o secretrio de Segurana da Guanabara, general Lus de Frana
Oliveira, considerou "altamente subversiva a letra de "Pra No Dizer que
No Falei de Flores"..., atentatria  soberania do Pas, um achincalhe
s Foras Armadas e no deveria nem mesmo ser inscrita. Que isso sirva
de advertncia aos organizadores de festivais, para que no aceitem
composies dessa natureza, que so exemplo de declarada subverso". Uma
semana depois, assessores do ministro Gama e Silva desmentiram que a
cano tivesse sido proibida.
Em compensao, a Marinha, que j havia forado a Censura para brecar a
msica "Tamandar", de Chico Buarque, considerada ofensiva a seu
patrono, decidiu responder a Vandr duas semanas mais tarde com uma
manifestao de protesto. No dia 23 de outubro veio a degola: a msica
de Vandr era proibida pelo governo de ser executada em rdios e locais
pblicos em todo territrio nacional. O cerco se fechava  sua volta a
despeito de sua msica ser muito cantada nas reunies em casas
particulares.
Muito cantada foi tambm "Andana". Com o tempo, tornou-se a coqueluche
das festinhas cariocas, com moas e rapazes, divididos em dois grupos,
cantando as partes vocais dos Golden Boys e de Beth Carvalho. Tornou-se
tambm um clssico no repertrio de Beth, mesmo depois que ela se
consagrou como uma das mais dedicadas e bem-sucedidas intrpretes de
samba. Mais tarde, "Andana" incorporou-se ao repertrio predileto de
jovens nos acampamentos, chegando a ser o hino da torcida jovem do
Fluminense, contrariando frontalmente a previso do crtico do Jornal do
Brasil Juvenal Portela na frase final de sua anlise sobre o III FIC:
"Em resumo: ningum vai cantar as msicas deste Festival, pois elas no
vo durar por muito tempo".
Por ter sido proibida por quase 20 anos, "Caminhando" ou "Pra No Dizer
que No Falei de Flores" ou ainda "Sexta Coluna", o subttulo que foi
esquecido, teve uma trajetria em discos relativamente restrita frente 
importncia que adquiriu como um verdadeiro hino da oposio  ditadura
militar. Millr Fernandes tratou-a como a "Marselhesa" brasileira, era
cantada nas cerimnias de protesto merecendo apreciaes de autores
eruditos e de militares, provocando "uma eloqente sntese das
contradies dialticas", conforme Trik de Souza. Segundo ele, "a
esquerda desdenhava a msica, achando-a catrtica e desmobilizadora,
enquanto a direita representada por militares, dissecava ponto a ponto a
composio, pedindo a priso de Vandr pelos jornais por excesso de
eficincia mobilizatria". Foi gravada duas vezes por Vandr, uma ao
vivo, no Maracanzinho, e outra em estdio, com dois violes numa levada
de guarnia paraguaia, por Luiz Gonzaga, num compacto recolhido pela
Censura, e pela cantora Simone anos mais tarde.
"Andana" foi muito gravada. H verses instrumentais como as de Lus
Ea, Walter Wanderley, Os Velhinhos Transviados e a orquestra alem de
James Last. Entre as cantadas esto a de Beth, Maria Bethnia, Elis
Regina, Cynara e Cybele, O Quarteto, Joyce e o Momento Quatro, Golden
Boys, Danilo Caymmi, Z Paulo (como ax music) e Paulinho Tapajs, que,
 propsito, foi contratado como produtor da gravadora Philips.
A gravao de "Sabi" com Cynara e Cybele saiu em compacto e no seu LP
da gravadora CBS com arranjo de Dori Caymmi, produo de Hlcio Milito e
considervel participao de Chico Buarque na seleo de repertrio.
Aps o FIC, as duas cantariam "Sentinela" ao lado de Milton Nascimento
no IV Festival da Record, enquanto Chico preparava-se para defender
"Benvinda" no mesmo Festival. Apesar do grande destaque que tiveram na
imprensa, do assdio para outras apresentaes, ficaram em dvida se
valeria a pena continuar disputando festivais. Convidadas por Vandr,
tomaram parte no programa da TV Bandeirantes no qual cantaram "Sabi"
mais de uma vez. Um ano depois, Cynara venceu o I Festival de Juiz de
Fora cantando "Casaco Marrom" (Renato Corra, Gutemberg Guarabira e
Danilo Caymmi), mas a cantora Evinha antecipou-se e gravou a msica,
ficando com os louros da vitria de outrem. Cynara gravou "Casaco
Marrom" no seu LP individual, Pronta para Consumo, com produo de
Sidney Miller.
"Sabi" foi gravada tambm pelo MPB 4, por Clara Nunes, Nara Leo, Chico
Buarque e a homenageada com o tema, Maria Lcia Godoi. Elis Regina
incluiu "Sabi" em seu show Saudade do Brasil. Tom Jobim gravou-a pela
primeira vez em 1970 no LP Stone Flower em arranjo de Eumir Deodato. Dez
anos depois, regravou-a, cantando em ingls, no lbum duplo Terra
Brasilis em arranjo do alemo Claus Ogerman que se inicia com uma flauta
imitando o canto da sabi, provavelmente por sugesto de Tom. Em 1987,
gravou-a pela terceira vez, cantando em portugus e acompanhado pela
Nova Banda noutro lbum duplo, para a Sabi Produes.
O III Festival Internacional da Cano marcou a primeira e ltima
participao de Tom Jobim como compositor num FIC. O time de estrelas
dos festivais ficou ainda mais desfalcado quando Elis Regina, que fora
jurada na fase internacional, declarou ao Jornal da Tarde que no
renovaria seu contrato com a Record caso houvesse uma clusula que a
obrigasse a defender uma msica. Sua carreira na Era dos Festivais se
encerrava com duas vitrias. Tambm fizeram suas despedidas de palcos
dos festivais Gilberto Gil e Caetano Veloso. Suas relaes com o poder
militar iriam se agravar substancialmente. Geraldo Vandr ainda
participou do IV Festival da Record, mas seus passos seguintes foram
dramticos.
Aps a decretao do AI-5, em 13 de dezembro, Vandr passou a ser
procurado pelos setores mais radicais da represso militar. Enquanto a
diretora do Correio da Manh, Niomar Moniz Sodr Bittencourt, que o
conhecera pessoalmente atravs do jornalista Arthur Poerner, lhe deu
grande apoio, sua msica "Caminhando" foi encarada nos bolses do setor
repressivo com um desafio  ordem pblica. Vandr sentiu necessidade de
se ocultar. Inicialmente, se albergou com a atriz Marisa Urban, sua musa
nessa poca; depois abrigou-se no apartamento da viva do escritor
Guimares Rosa, dona Araci, na rua Francisco Otaviano, junto ao Forte de
Copacabana, de onde podia-se ver, pelas frestas das persianas, os
soldados de planto circulando em suas rondas.
To intensa a procura por Vandr, que em determinado momento comeou-se
a tratar de sua sada clandestina do Pas, uma vez que a caada impedia
que sasse legalmente. Nesse refgio, no incio do ano de 1969, Vandr
foi maquiado, incluindo uma rinsagem para envelhec-lo, a fim de ser
fotografado para um passaporte falso. O passaporte foi conseguido com um
delegado da polcia e a sada foi marcada para o carnaval de 1969.
s vsperas de sua evaso, com tudo organizado, Geraldo comeou a
argumentar que no queria mais sair do Brasil, preferindo asilar-se na
Embaixada Americana. Talvez iludido com a extraordinria repercusso
internacional de sua msica, dizia que desejava ir para os Estados
Unidos e de l voltar para o Brasil, com o apoio democrtico. Arthur
Poerner, que participava da operao, convenceu-o que seria impossvel,
pois os Estados Unidos no eram signatrios da conveno de Montevidu,
que garantia asilo poltico. Sua inteno era um sonho, o asilo nos
Estados Unidos era invivel e assim ele foi convencido a seguir o
caminho to penosamente construdo para sua sada do pas.
No carnaval de 1969, Geraldo Vandr entrou num automvel com dona Araci,
seu filho e o delegado de polcia. Devidamente envelhecido no disfarce e
com passaporte falso, atravessou a fronteira com o Paraguai, de onde foi
para o Chile. Escapuliu sem nunca ter sido preso.
Aps uma longa estadia no exterior, incluindo Paris, onde se sentia
infeliz por no se adaptar  vida de exilado, retornou ao Brasil com a
ajuda de um coronel do exrcito que articulou sua volta. Fez ento um
pronunciamento renegando qualquer ligao com os adversrios da ditadura
militar.
No incio dos anos 1990, houve um jantar no apartamento da atriz e
cantora Vanja Orico na avenida Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Vandr
foi solicitado a cantar suas novas composies. No se fez de rogado.
Com o violo, cantou uma bonita cano que lembrava o estilo do
Movimento Armorial, remetendo  Idade Mdia, distante da realidade
brasileira. Ao ser perguntado pelo ttulo, respondeu: "Fabiana". Por
certo dedicada a uma namorada, deduziram. No, respondeu Vandr: " uma
homenagem  FAB".  a sigla da Fora Area Brasileira.
Geraldo Vandr nunca mais foi o mesmo.
Captulo 10
"SO, SO PAULO MEU AMOR"
(IV FESTIVAL DA TV RECORD, 1968) zzz Mil novecentos e sessenta e oito
no parou a. Depois da I Bienal e do III FIC, veio o IV Festival da
Record.
Aquele "som universal", como diziam Gil e Caetano no III Festival da
Record referindo-se  maneira como foram expostas "Alegria, Alegria" e
"Domingo no Parque" (denominao essa que no passava de um rascunho de
conceito), ganhou em 1968 uma razo social com a potncia de um luminoso
auriverde decorado com pencas de bananas e folhas de palmeira em
Picadilly Circus: TROPICLIA. Para tanto,  estridncia da guitarra e 
adoo do pop foram acrescentados a comunicao em massa, a abertura
para o cafona, o auditrio do vale-tudo e as vestes espalhafatosas. Eram
elementos da geratriz de uma esttica: a esttica tropicalista.
Trs so os discos essenciais para se entender a sonoridade da
Tropiclia, como tambm haviam sido trs os discos iniciais de Joo
Gilberto na Odeon, fundamentais para se entender a bossa nova. No
primeiro destes, a nova expresso aparece oficialmente no texto da
contracapa e na letra de "Desafinado". No primeiro LP individual de
Caetano Veloso, lanado em janeiro de 1968, pela primeira vez a palavra
Tropiclia  usada em msica, aparecendo no ttulo de uma das canes,
sem que fizesse parte da letra.
O neologismo fora inventado pelo artista plstico de vanguarda Hlio
Oiticica, substantivando o adjetivo "tropical", a fim de denominar a
instalao que construiu para a exposio Nova Objetividade Brasileira,
no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1967, para a qual
escreveu tambm um texto justificando o tal movimento. Hlio
desconstrua o mito de paraso tropical contrapondo situaes
contraditrias nas duas estruturas penetrveis de que sua obra se
compunha.
Quando ouviu o prprio Caetano cantar uma nova msica, ainda sem ttulo,
o futuro produtor de cinema Lus Carlos Barreto acreditou existir uma
ligao entre ela e a instalao de Hlio e sugeriu cham-la tambm de
"Tropiclia". Hesitante a princpio, pois gostava mais de "Mistura
Fina", Caetano acabou adotando-o para a cano, cuja letra contrapunha
situaes contraditrias e que, por ser sua favorita, foi a faixa de
abertura do disco. A msica fora composta logo aps ele ter assistido 
pea O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, dirigida inovadoramente por
Jos Celso Martinez Corra, revelando a relao que lhe parecia existir
naquele momento entre o teatro brasileiro, o Cinema Novo - representado
por Terra em Transe, de Glauber Rocha - e o programa do Chacrinha: s
restava a msica para fechar o circuito sob o ponto de vista esttico e
comportamental. A letra de sua nova cano sedimentava o que se iniciara
em "Alegria, Alegria".
Execrados pela poesia acadmica, os poetas concretistas Dcio Pignatari,
Haroldo e Augusto de Campos haviam se aproximado de Caetano e Gil,
enxergando uma ligao direta da poesia concreta com suas letras. A
extrema vanguarda da poesia brasileira, da qual faziam parte, estava
ligada  cultura popular, e os trs tornaram-se arautos, avalistas e
eventualmente cmplices influentes da faceta potica tropicalista.
Na parte musical do disco de Caetano, ou melhor, na funo de
orquestrador, mas exercendo papel mais abrangente como mentor
intelectual, atuou o maestro Jlio Medaglia, que por seu turno
incorporou para a mesma funo dois companheiros do movimento de
vanguarda Msica Nova: Damiano Cozzella e Sandino Hohagen. A convite de
Caetano, Jlio escreveu o arranjo de "Tropiclia".
Assim como Rogrio Duprat, Jlio vinha de uma formao musical erudita,
tendo estudado na Alemanha  mesma poca que Frank Zappa e, por
conseguinte, adquirira uma viso prtica dos processos culturais, por
vezes mais clara que a dos prprios artistas populares, na sua intuio
e espontaneidade. Na realidade, nos anos 60 a rea erudita tambm
passava por uma reviravolta: a msica dodecafnica dos anos 50 estava
sendo bombardeada pela msica construtivista. O compositor John Cage e
outros da vanguarda ps-guerra explodiam o sistema com irrupes como a
que se assistiu no Festival de Darmstadt, na Alemanha: Cage chegou num
avio da Fora Area Americana com um dos grandes pianistas dos Estados
Unidos, David Tudor, e diante da ansiedade de Boulez, Stockhausen, Luigi
Nono, Maderna, comeou a jogar bolinhas nas teclas do piano, circulando
 sua volta e tirando fotografias. Sem tocar. A idia era mesmo colocar
uma bomba naquele sistema to bem-organizado e estratificado, dinamitar
o terreno para um novo plantio. A experincia de arrebentar sistemas foi
trazida para o Brasil, onde havia cabeas brilhantes que intuam como
fazer uma revoluo numa msica popular to bem constituda como era a
brasileira.
Em 1954, o reitor da Universidade Federal da Bahia, Edgard Santos,
convidou o professor Hans Joachim Koellreuter para lecionar, surgindo
da os Seminrios Livres de Msica que fizeram de Salvador um centro de
experimentao e especulao de importncia capital na formao de uma
gerao inteira de msicos. O professor Koellreuter, o mais importante,
avanado e influente educador musical do Brasil na segunda metade do
sculo XX, levou para Salvador o que havia de mais recente na msica de
vanguarda e eletrnica, como Boulez e Stockhausen, que, ao lado do corpo
docente da UFBA propiciaram aos msicos baianos, em suas palestras e
aulas, informaes ainda mais atualizadas que as disponveis no Rio ou
So Paulo. Gil, Caetano, Tom Z e os baianos ligados  msica se
beneficiaram, uns mais outros menos, dessas valiosas oportunidades.
Assim, com um respaldo invulgar para os padres de msica popular
brasileira, tanto na forma potica quanto nos contornos instrumentais,
acrescido do pop via sangue novo dos Beat Boys e Mutantes, foram
gravados os trs primeiros discos do Tropicalismo. O primeiro deles era
o lbum solo de Caetano Veloso, cujo produtor era o mesmo arguto Manoel
Barenbein, quela altura perfeitamente enfronhado nas msicas de
festival e principalmente nas propostas estticas dos dois baianos, nas
quais poderia combinar os gneros musicais que mais o atraam, a bossa
nova e o rock. Em sua funo, sentiu que realizava o acalentado sonho de
dar um sabor internacional  msica brasileira. Em So Paulo, onde
viviam os poetas concretistas, os maestros ps-modernizadores da msica
erudita, os dois grupos pop e os criadores baianos, Barenbein era o
produtor do momento, trabalhando tambm no disco de Gil e no coletivo
com o grupo tropicalista.
Barenbein encontrou campo propcio para as tiradas gravadas casualmente
e mantidas de propsito, uma das marcas do estilo dos discos
tropicalistas. O disco de Caetano comea com uma delas: foi por mero
acaso que o baterista Dirceu parodiou sobre o Descobrimento do Brasil,
um dos motivos da ampla e diversificada seara tropicalista.  como se
inicia "Tropiclia", a cano que abriga o estilo fragmentrio e
alegrico, empregando colagens de citaes literrias, ironias e
pardias sobre valores que identificam as letras das canes
tropicalistas. Sob o ponto de vista formal, h nela frases com mais
slabas do que poderiam caber em determinados compassos, mas que nem por
isso so cambiadas. Pelo contrrio, so enunciadas atropeladamente para
para que caibam. No mesmo disco, Caetano imita Orlando Silva no choro
"Onde Andars", enxerta o ritmo caribenho pasteurizando a msica latina
em "Soy Loco Por Ti Amrica", faz uma continuao dos simbolismos de
"Alegria, Alegria" em "Superbacana", descose a tonalidade em "Clara" e
ainda escreve um texto desconexo na contracapa.
O segundo disco da trilogia  o de Gil, que, como o de Caetano, tinha no
ttulo o nome do autor. Debochado desde a capa, com suas fotos vestindo
fardo acadmico e em farda militar de gala, encerra tambm acasos
registrados e aluses literrias. Com a participao de Rogrio Duprat e
dos Mutantes, o sentido tropicalista tem incio na segunda faixa, pois a
primeira  o esplndido "Frevo Rasgado" que Gil inscrevera no III
Festival da Record mas que no ficou entre as 36 finalistas.  um disco
menos cosmopolita, com uma paisagem mais interiorana, destacando-se na
esttica tropicalista a penitente e irnica "Marginlia II", em cuja
letra se destaca o refro "Aqui  o fim do mundo", de um grande crebro
do grupo, Torquato Neto; a embolada "Pega a Voga, Cabeludo", com
empolgante levada de Gil, Mutantes e o baterista Dirceu; e "Luzia
Luluza", que remete s baladas dos Beatles.
Para o disco coletivo, que deveria representar quela altura dos
acontecimentos o que j era considerado um movimento, decidiu-se que
Gil, Caetano, Mutantes, Gal Costa, Tom Z e Nara Leo teriam duas faixas
cada um. "Por que Nara?", podero estranhar. Nara entrou porque era uma
vanguardeira nata, tendo participado ativamente da transio da bossa
nova para a msica de protesto; tinha opinio, fora madrinha do (resgate
de compositores do morro e do Nordeste e j vinha manipulando uma srie
de desconstrues em relao a cnones convencionais - perspectiva que o
Tropicalismo levava s ltimas conseqncias. Era natural que quisesse
aderir ao Tropicalismo.
A gravao das duas msicas de Gil estava programada para comear num
domingo, antes de uma viagem para a Bahia, mas no aconteceu. Manoel
Barenbein aguardou de manh no estdio e nada de Gil. Estava dormindo.
Na vspera, a alta esfera tropicalista tinha se reunido no apartamento
de Caetano e, aps o jantar, nascera um novo conceito do disco. Em vez
de duas faixas para cada um, as msicas seriam eventualmente ligadas uma
com a outra, como no Sgt. Pepper"s dos Beatles, possibilitando a
insero de cenas e fragmentos no musicais no contexto. Ou at mesmo
alheios.
Realizou-se, ento, em maio de 1968, o disco Tropiclia ou F"anis et
Circencis (sic), destinado a figurar entre os dez discos fundamentais da
msica popular brasileira. Em sua extensa e profunda anlise, Celso

F. Favaretto resume seu contedo com toda propriedade: "Suma
tropicalista, este disco integra e atualiza o projeto esttico e o
exerccio de linguagem tropicalistas. Os diversos procedimentos e
efeitos da mistura a comparecem - carnavalizao, festa, alegoria do
Brasil, crtica da musicalidade brasileira, crtica social, cafonice -
compondo um ritual de devorao".
O disco  um exemplo de obra coletiva feita com prazer, com o intuito de
"descaracterizao do certinho que fazia parte do Tropicalismo", segundo
Barenbein. Mais de 30 anos depois, Tropiclia soa como um momento de
efervescncia dos que dele participaram direta ou indiretamente,
percebendo-se a convico que tinham no que propunham e a plenitude na
qual se sentiam, como criadores e intrpretes. O disco  repleto de
detalhes e mensagens sutis, para ser ouvido de cabo a rabo, como o dos
Beatles, ainda que algumas faixas tenham se destacado individualmente: o
hit "Baby", primeiro da carreira de Gal Costa, "Batmacumba" e "Gelia
Geral", msica-sntese dos cnones do movimento nos versos do mais
terico dos tropicalistas, Torquato Neto, que, ao lado de Jos Carlos
Capinan, forma a dupla de letristas que atuou indiretamente no disco,
colaborando para a nova linguagem que se instaurou na msica brasileira
em 1968.
O lanamento desses trs discos no mercado gerou tamanha intensidade de
crticas e manifestaes, que o Tropicalismo foi o acontecimento musical
mais debatido e provocante nos meses que antecederam o IV Festival da TV
Record. Ainda mais: Caetano e Gil se desligaram dessa emissora em maro
e no ms seguinte assinaram com a Rhodia, associando suas propostas
musicais ao lanamento dos novos padres de tecido, propositadamente
denominados Tropiclia e difundidos, por exemplo, nos camisoles
ostentados por Gal e Gil na foto da capa do disco coletivo. A coleo
seria promovida no show Momento 68, estrelado por Gil, Caetano, Eliana
Pittman, Raul Cortez e Walmor Chagas, com direo musical de Rgis
Duprat e coreografia de Lennie Dale. A mais nova edio do conhecido
esquema de "msica e moda", ou "show e desfile", de Livio Rangan deveria
percorrer o Brasil e atingir o exterior, repetindose o processo que
vinha se atrelando s novidades dos festivais desde 1965. Contudo, o au
que j se formava em torno de um produto de consumo desagradou alguns
defensores do Tropicalismo, como Hlio Oiticica, o jornalista Nelson
Motta e at o letrista Torquato Neto.
O acordo com a Rhodia vinculava ainda um programa na TV Globo, que,
tantas vezes adiado e rebatizado, acabou sendo rompido, bem como as
relaes com Livio Rangan, depois que Gil e Caetano afinal chegaram 
concluso de estarem sendo usados. Foi o que possibilitou ao
mpresrio Guilherme Arajo amarrar um novo contrato, mas com a TV Tupi,
num programa dirigido por Fernando Faro e produzido por Antnio
Abujamra. Desta vez sem adiamentos, ele foi ao ar pela primeira vez
menos de um ms aps o show que Caetano, Gil e os Mutantes realizaram
por nove dias (de 4 a 13 de outubro) na boate Sucata, do Rio de Janeiro.
Esse espetculo, que gerou opinies contraditrias, incidentes e
acusaes levianas e determinou o arrocho dos militares aos dois baianos
alm do fechamento da boate), foi interrompido quando Caetano se recusou
a atender a imposio de um delegado que tentou oficialmente impedi-lo
de continuar com os discursos que vinha fazendo. Em seguida, Gil Caetano
retornaram a So Paulo para apresentar seu primeiro programa na TV Tupi,
em 28 de outubro. O ttulo era Divino, Maravilhoso, o mesmo da cano
inscrita por Gil e Caetano no IV Festival da TV Record, que comearia
duas semanas depois.
Mais uma vez, repetiu-se o processo de escolha das 36 semifinalistas, a
partir de mais de mil msicas inscritas, submetidas  triagem a cargo de
Augusto de Campos, Jlio Medaglia, Raul Duarte e Amilton Godoy, que se
reuniram no mesmo quarto dos fundos da casa do pai do maestro, na Lapa.
Repetiu-se a oferta de prmios em dinheiro, num total de 100 mil
cruzeiros novos, e de trofus: Violas de Ouro, de Prata e de Bronze para
os autores das trs primeiras, Sabi de Ouro para o mehor intrprete.
Repetiu-se ainda o coquetel de apresentao das 36 concorrentes na
Terrazza Martini do Conjunto Nacional, no dia 24 de setembro. Desse
ponto em diante, as mudanas foram considerveis. Como decorrncia do
"Festival dos Excludos" de 1967, a TV Record decidiu atender ao apelo
dos compositores que no concordavam em submeter sua obra ao julgamento
de um nico jri e criou um julgamento paralelo ao oficial na forma de
um jri popular. Haveria assim duas premiaes distintas, a oficial e a
popular, esta anunciada no cartaz do Festival, onde se lia: "Voc tambm
 juiz".
No poderia haver melhor maneira de complicar a votao para satisfazer
aquilo que o autor do plano e lder de um grupo de compositores, Srgio
Ricardo, taxou de "socializao do Festival". Em sua proposta, o
julgamento seria realizado atravs de dois corpos de jurados. O de
"qualidade" ou de "gabarito" seria formado por duas equipes de sete
pessoas  cada, uma postada no Teatro Record Centro, e outra acompanhando
pela televiso na TV Rio. Este era o jri "oficial", com 14 membros. O
outro seria o jri "popular", com 14 equipes de sete membros cada: sete
no interior, nomeadas por autoridades locais, e sete na capital,
distribudas em clubes escolhidos por sua posio socioeconmica. Esse
emaranhado envolvendo 98 jurados populares, equipes de apoio e uma
central telefnica para receber as votaes poderia conduzir,
eventualmente, a resultados diferentes dos do jri oficial em cada uma
das colocaes finais. As cidades escolhidas foram Santos, Campinas,
Ribeiro Preto, Guaratinguet, Bauru, Araraquara e a regio do ABC com
sede em Santo Andr. Os clubes eram Corinthians, Palmeiras, Monte
Lbano, Srio Libans, Paulistano, Hebraica, Pinheiros e Crculo
Israelita; e os scios escolhidos votariam por telefone. E tem mais: o
pblico tambm poderia votar com os cupons encontrados na revista
Intervalo. No plano original de Srgio, o total dos prmios deveria ser
dividido equitativamente entre os sete primeiros colocados, caso
contrrio os compositores retirariam suas msicas. E durma-se com um
barulho desses!
Paulinho Machado de Carvalho estava disposto a aceitar as
reivindicaes, desde que dois teros dos compositores participantes
assinassem o memorando. O intrincado esquema acabou vingando e no foi 
toa que provocou a seguinte declarao do diretor da emissora no
coquetel da Terrazza Martini: "Talvez seja o ltimo Festival da Record;
h um desgaste muito grande neste tipo de promoo". Alm disso, para
evitar possveis reclamaes, os trs discos com as 36 selecionadas
seriam lanados logo aps a primeira eliminatria.
Os problemas continuavam: desgostosos com as vaias do ano anterior,
grandes nomes do cast da emissora como Hebe Camargo, Agnaldo Rayol e
Ronnie Von (e nas entrelinhas adicione-se Elis Regina) no mais
defenderiam msicas, dando lugar a uma nova gerao de intrpretes. Dela
fazia parte a baiana de 22 anos que via seu primeiro sucesso estourar
nas paradas, Gal Costa, rotulada musa do Tropicalismo, cantando "Baby".
Nos dias que antecederam o Festival, ela estava  cata de uma vestimenta
adequada para o novo tipo de competio que, extra-oficialmente, passava
a ter peso nos festivais: o do visual dos intrpretes. Gal estaria
descala e com uma bengala antiga, vestiria uma tnica indiana vermelha
bordada com espelhos, um porta-nqueis de couro na cintura e muitos
colares de miangas. Suas duas companheiras de palco, as cantoras Ivete
e Arete, vestiriam um vestido de rendo transparente, tudo criado e
confeccionado por Regina Boni.
Dez dias antes da primeira eliminatria, algumas msicas ainda no
haviam sido liberadas pela Censura Federal: "Dia de Graa" (Srgio
Ricardo), "O General e o Muro" (Adilson Godoy), "So, So Paulo Meu
Amor" (Tom Z) e "Dom Quixote" (Rita Lee Jones). Letras que "ferem a
moral e agridem a poltica do governo federal e as Foras Armadas",
diziam os censores. "General no ttulo, no pode", acrescentavam. Srgio
teve que ir a Braslia para explicar ao coronel Aloysio Muhlethaler de
Souza, chefe do Servio de Censura da Polcia Federal, o que
significavam seus versos. Depois de ouvi-los, achou que no tinham nada
demais e liberou a msica. Srgio j tinha estado tambm com o ministro
Gama e Silva, que no vira na letra nenhuma agresso s Foras Armadas.
Rita Lee teve que enfrentar dona Judith de Castro Lima, chefe da Censura
Federal em So Paulo, que desconfiou da frase "Armadura e espada a
rifar". Sem alegar um motivo plausvel, achou que era uma crtica ao
Exrcito brasileiro. Rita alegou:
- No  no. A armadura e a espada so de Dom Quixote mesmo. No
adiantou, dona Judith no aceitou a argumentao. Algum
teve a idia de substituir "espada" por "lana". Dona Judith concordou,
pois afinal lana era uma arma ultrapassada.
O dilogo que aconteceu entre dona Judith e Tom Z  um primor do
burlesco. A censora cismou com o verso que mencionava "uma bomba por
quinzena".
- Mas por que, dona Judith? Isso acontece mesmo - defendeu-se Tom Z.
- Acontece, meu filho, mas fatos como esses s a imprensa pode comunicar
ao pblico.
E o coronel Aloysio achou que a frase "em Braslia  veraneio" podia dar
a idia de que ningum faz nada em Braslia.
Sem dizer nada, Tom Z fez outros versos na frente da censora.
Substituiu "Em Braslia  veraneio/ no Rio  banho de mar/ o pas todo
de frias/ So Paulo  s trabalhar" por "Pelo Norte  veraneio/ no Rio
 banho de mar/ todo mundo est de frias/ So Paulo  s trabalhar".
E como no encontrava uma palavra para substituir "bomba", perguntou:
- E o outro verso? Como  que eu vou fazer, dona Judith? Dona Judith
teve um lampejo.
- Voc pode aproveitar a inflao de festivais e falar disso.
- timo, dona Judith. Assim est genial: em vez de "uma bomba por
quinzena" fica "um festival por quinzena".
"So, So Paulo Meu Amor" foi liberada.
O festival comeou em 13 de novembro, com o primeiro de dois espetculos
to inusitados quanto estreis: as apresentaes das 36 msicas
divididas em lotes de 18, um nessa noite e o outro na seguinte. Mas
nenhuma delas se constitua em eliminatria. No valia nada, era uma
prvia para se conhecerem as concorrentes. Assim, no haveria vaias,
pensaram todos.
Para bagunar mais o coreto, logo na primeira dessas apresentaes,
surgiu um novo problema: Vandr brigou com o Trio Maray e, como seu
parceiro em "Bonita" era um dos trs, Hilton Acioly, exigiu que a msica
fosse apresentada duas vezes, uma com o trio e outra com ele, abrindo um
perigoso precedente. Solano e Paulinho concordaram. J imaginaram se a
moda pegasse?
"Foi mais um festival de fantasias que de canes", resumiu um dos
presentes ao Teatro Record Centro nessa primeira noite. Snia Ribeiro
anunciou que Srgio Ricardo iria cantar sem violo, no havendo,
portanto, perigo para o pblico. Cantou acompanhado pelo modern Tropical
Quintet mas enfrentou outro problema: na ltima hora, a Censura voltou
atrs e vetou o verso final, impedindo-o de cantar toda a estrofe. Nesse
trecho, o pblico gritou "Censura! Censura!", enquanto ele ficava mudo e
de cabea abaixada. Como no valiam nada, foram perfeitamente inteis os
aplausos para Edu e Marlia Medalha em "Memrias de Marta Sare", ou
algumas vaias para Roberto Carlos em "Madrasta", de Renato Teixeira e
Beto Ruschel.
No dia seguinte, repetiu-se a lengalenga com as 18 canes restantes.
Aplausos para uns, muxoxos para outros, indiferena para a maioria e to
pouca gente na platia que as portas do Teatro foram abertas para quem
quisesse assistir. Os destaques da noite foram os j corriqueiros
aplausos para Chico Buarque na sua "Benvinda", a boa receptividade a
Martinho Jos Ferreira, autor e intrprete de "Casa de Bamba",
acompanhado por ritmistas, passistas e os Originais do Samba, e a
surpreendente performance de Gal Costa, com uma cabeleira avantajada,
cantando com os olhos esgazeados e afinao impecvel "Divino,
Maravilhoso", de Gil e Caetano.
Tambm foram elogiadas "Sentinela" (Milton Nascimento e Fernando Brant)
e "Sei L Mangueira" (Paulinho da Viola e Hermnio Bello de Carvalho),
mas quem mais se aproveitou do desfile de concorrentes foi o produtor
Manoel Barenbein, responsvel direto pela sofisticao imprimida ao
disco de Jair Rodrigues do ano anterior, um fracasso em vendas.
A cano "Bonita" foi apresentada duas vezes na primeira eliminatria do
IV Festival da Record, em novembro de 1968: na sua ltima apresentao
em um festival, Geraldo Vandr cantou-a sozinho, e depois foi a vez do
Trio Maray.
Sem ligar a mnima para as vaias, Roberto Carlos participa pela ltima
vez num festival com a cano "A Madrasta", de Beto Ruschel (ao violo)
e Renato Teixeira.
Ao ver Martinho, estreante como intrprete em festival, ensaiar "Casa de
Bamba", sacou que ali estava a chave do sucesso para o prximo disco de
Jair. Nem esperou a performance da noite: no mesmo dia conseguiu
autorizao do autor e uma semana depois Jair entrava em estdio para
gravar a msica que recomps sua carreira de sambista no LP Jair de
Todos os Sambas. "Casa de Bamba" seria tambm uma das msicas a projetar
no ano seguinte seu autor, Martinho Jos Ferreira, com o nome artstico
de Martinho da Vila. Ao valorizar o samba de partido-alto, constituiu o
incio de uma estupenda obra que difundiria solidamente a cultura negra
brasileira, justificando a brilhante carreira que desenvolveu. Uma
grande novidade dessa noite foi o Theremin tocado por Rita Lee em
"2001", um instrumento eletrnico, criado em 1924 pelo russo que lhe deu
o nome, marcante na trilha de Miklos Rosza nas cenas mais arrepiantes do
filme Spellbound (Quando Fala o Corao, dirigido por Hitchcock). Esse
instrumento opera com dois osciladores e  tocado aproximando ou
afastando dele as mos, uma para alterar as freqncias e a outra para o
volume, produzindo um gemido tenebroso. Em sua verso caseira, foi
manufaturado pelo craque na construo de instrumentos eletrnicos
Cludio Csar Dias Baptista, o mais velho dos irmos Srgio e Arnaldo.
Para julgar as 12 concorrentes da primeira eliminatria, na
segundafeira, 18 de novembro, os jurados se instalaram no poo da
orquestra, de onde assistiam aos concorrentes como se estivessem na
ambicionada "fila do gargarejo" - como se chamava na poca do teatro
rebolado a posio de quem ficava muito prximo do palco, como a
gargarejar, e com a possibilidade de uma viso panormica de certas
intimidades das vedetes. Quem chegou primeiro foi o pianista Joo Carlos
Martins, depois o jornalista Paulo Cotrim, o esquentado maestro Gabriel
Migliori, Jlio Medaglia, o compositor Cludio Santoro, o jornalista
Carlinhos Oliveira (do Jornal do Brasil), Roberto Freire e, por fim, o
elegante Raul Duarte.
Em outro ponto de So Paulo, no Parque So Jorge, enquanto Bragantino e
Ponte Preta se enfrentavam no gramado, outros sete jurados, entre eles o
jogador de basquete Wlamir Marques e sua mulher Ceclia, assistiam, num
aparelho instalado na secretaria do clube,  mesma eliminatria, para
atribuir notas de 1 a 10 a cada concorrente. Os sete ficaram muito
felizes, porque um jri formado s de alvinegros deveria confirmar que o
Corinthians  a voz do povo.
Martinho da Vila j comeava a aparecer, e conquistou a platia
do IV Festival da Record com o partido-alto "Casa de Bamba",
acompanhado dos Originais do Samba e do regional de Caulinha.
O jri oficial do Festival da Record de 1968, formado por Jlio Medaglia
Carlinhos Oliveira, Raul Duarte, Srgio Cabral, Paulo Cotrim, Gabriel
Migliori,
Roberto Freire (encoberto), Joo Carlos Martins e Cludio Santoro.
No Teatro Record Centro, nem brigas entre as torcidas, quase nenhum
cartaz e pouco entusiasmo pelos cantores, entre os quais estavam Roberto
Carlos e Vandr. Numa noite morna como aquela, uma vaiazinha at que
cairia bem, devem ter pensado alguns  sada do Teatro. Mas teriam que
aguardar uma semana para nova oportunidade. O jri popular elegeu a
cano "A Grande Ausente" (Francis Hime e Paulo Csar Pinheiro) como a
melhor, alm da toada "Bonita", "Descampado Verde" (Chico Maranho) e
"Madrasta". A primeira e a ltima, ambas bem equilibradas entre letra e
msica, tambm estavam na lista do jri oficial, alm de "Dia da Graa"
e da tendente jeca "2001" (Tom Z e Rita Lee), que teve a maior votao,
embora tenha sido a ltima no jri popular. A letra que Tom Z fizera
antes do carnaval de 1968, com o ttulo "Astronauta Libertado", incitara
Caetano a esforar-se uma noite inteira tentando music-la, mas sem
sucesso. Tom Z no se sentia satisfeito com o resultado de seu
trabalho, at que Rita fez uma melodia caipira, criou o novo ttulo,
baseado no filme de Stanley Kubrick e, contrariando a vontade de Tom Z,
inscreveu-a no Festival.
Pela televiso, o maior destaque foi a gafe de um reprter de uma das
cidades do interior, que reclamou no ar de um engano cometido no
resultado divulgado pela Central de Operaes em So Paulo. No dia
seguinte, a comisso organizadora fez publicar um comunicado
reconhecendo o erro ao recontar os pontos do jri popular. Em vista
disso, "Rosa da Gente" (Dori Caymmi e Nelson Motta) entrou no lugar de
"Madrasta", que no entanto se mantinha entre as classificadas do jri
oficial. A socializao do Festival podia tambm surtir efeitos
embaraosos.
"O que aconteceu com as vaias?" No d para acreditar, mas diante desse
ttulo na ltima Hora de 24 de novembro, vspera da segunda
eliminatria, a impresso que se tem  de que,  sndrome da vaia,
sucedeu-se a sndrome da falta de vaia, que deixou atnita a direo do
Festival. Para alvio de todos, o entusiasmo - et pour cause, a vaia -
voltou a campear quando as msicas foram apresentadas. A vibrao fez o
pblico despertar da pasmaceira em que havia mergulhado nos espetculos
anteriores, comentaria o jornalista mais rodado em festivais, Adones de
Oliveira, na Folha de S. Paulo, traduzindo a opinio geral. J se ouviam
vaias antes de Blota Jnior e Snia Ribeiro entrarem no palco. Mas
palmas, s para a segunda concorrente. A platia no se conteve,
aplaudindo de p e sambando  vontade diante da entusistica
interpretao
de Elza Soares (secundada pelo conjunto de Caulinha, Raul de Souza ao
trombone e quatro ritmistas) da composio de Hermnio Bello de Carvalho
e Paulinho da Viola "Sei L Mangueira".
Paulinho no tinha a menor inteno de participar do Festival de 1968,
depois de ter concorrido em 1966 e ficado fora em 1967. Chegou at a
declarar publicamente que estava desligado dos festivais. Um belo dia,
chegou de surpresa  casa de Hermnio Bello de Carvalho, ento s voltas
com a preparao de seu segundo musical, desta vez sobre a escola de
samba da Mangueira. O ttulo era Fala, Mangueira e, em seus planos, o
elenco teria Cartola, Carlos Cachaa, Clementina e outros bambas.
Hermnio mostrou as letras que j tinha aprontado, pedindo que Paulinho
desse uma olhada, e saiu da sala.
Ao ler a quarta letra, num lampejo de inspirao, Paulinho comps
imediatamente a melodia inteira. Quando Hermnio voltou, ouviu:
- Hermnio, essa letra aqui j tem msica.
- Como?
- , j tem msica, acabei de fazer.
- Opa, ento vamos registrar isso, no vamos deixar perder. Hermnio
deu-lhe um violo e Paulinho gravou em poucos minutos, de cabo a rabo e
sem mudar nada, a melodia que acabara de criar. Depois, despediu-se e
foi para casa. Semanas mais tarde, Hermnio lhe telefona, dizendo com a
maior alegria:
- Paulinho, a nossa msica foi classificada!
- Classificada? Qual msica?
- O "Sei L Mangueira". Paulinho quase teve um chilique:
- Hermnio, voc est louco? Eu sou da Portela, rapaz, eu sou compositor
da Portela! Imagina eu aparecer num festival cantando um samba da
Mangueira! Eu sou da ala de compositores da Portela, fiz samba-enredo em
66, j fui presidente da ala... Ningum vai entender isso, Hermnio!
Decepcionado, pois imaginava dar uma grande notcia a Paulinho, Hermnio
respondeu do outro lado: "No, isso  bobagem", sem se dar conta de que,
enquanto seu corao era mangueirense, o de Paulinho era portelense.
Preocupado, Paulinho fez de tudo para retirar a msica do Festival. Veio
a So Paulo falar com Solano, pediu-lhe para excluir o samba pois seno
teria srios problemas na Escola, mas no foi atendido. Desapontado, nem
acompanhou o Festival. Quando soube do sucesso de "Sei L Mangueira",
sua preocupao triplicou. Como um portelense poderia
l
justificar ter feito um samba com estes versos: "Sei l, no sei/ sei
l, no sei no/ a Mangueira  to grande/ que nem cabe explicao"? A
situao era inslita: um compositor preocupado com o sucesso de sua
msica. A quarta concorrente da noite foi "Memrias de Marta Sare", de
Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri. Era uma cano impressionista,
harmonizada com acordes de tons inteiros num arranjo cuidadosamente
elaborado por Edu, empregando sax tenor, obo, fagote, flauta e quarteto
de cordas, na contramo do modelo de festival, motivo pelo qual ambos
foram at desaconselhados a inscrev-la. Fazia parte de uma pea escrita
por Guarnieri, a ser estrelada por Fernanda Montenegro, que, conquanto
no fosse um musical, admitia algumas canes. A msica foi muito bem
recebida, para o que certamente pesou a interpretao da dupla vencedora
do Festival de 1967, Edu e Marlia Medalha, ambos ensaiadssimos e dessa
vez com uma postura dramtica, como convinha ao seu contedo potico. O
atraente refro "Pra dentro, Marta Sare", que intensificava o ar de
mistrio da composio, foi bobamente considerado plgio de "Adeus,
Maria Ful", de Humberto Teixeira e Sivuca, uma objeo tpica de quem
no sabe avaliar a estrutura de uma cano, isto , sua harmonia.
As quatro seguintes foram recebidas sem muito entusiasmo e s a nona
concorrente  que mexeu com o pblico: "Divino, Maravilhoso", em defesa
da qual o grupo de seguidores do Tropicalismo chamado "Cafonlia"
ostentava vrias faixas. Gal entrou depois do incio da msica e,
andando sem parar, ultrapassou o poo e foi cantar na passarela atrs
dos jurados e perto do pblico, que imediatamente aderiu ao contagiante
refro " preciso estar atento e forte/ no temos tempo de temer a
morte".
Aquela baianinha meiga e tmida, apelidada "Joo Gilberto de saias",
havia se transformado numa figura espantosa, com uma cabeleira black
power, roupas berrantes e atitudes agressivas: parecia um bicho quando
gritava "Uaaau!" antes do refro, encolhendo-se como que atingida por um
uppercut no estmago.
Seguindo as pegadas dos baianos, Gal Costa tambm viera morar em So
Paulo, inicialmente numa kitchenette na avenida So Joo e depois no
apartamento de Guilherme Arajo, na So Luiz, no mesmo edifcio onde
tambm moravam Gil e Caetano. Freqentadora assdua de seus
apartamentos, a ouviu os discos de Jimi Hendrix e Janis Joplin, por
quem se apaixonou. Sendo to radical que s admitia at ento Joo
Gilberto e seus sditos, passou a admirar o Tropicalismo e deixou-se
influenciar pelo jeito rasgado de Joplin cantar "Summertime", quando foi
convidada  a defender "Divino, Maravilhoso", nascida de uma exclamao
freqente de Guilherme. Combinou com Gil, autor do arranjo, que cantaria
de modo totalmente diferente, rompendo com o que tinha sido e passando a
seguir a esttica tropicalista, buscando uma maneira extrovertida de se
comunicar. Quando cantou pela primeira vez, Caetano, que ainda no havia
presenciado nenhum ensaio, levou um susto: no imaginava que Gal fosse
capaz de cantar assim.
Ela vestia calas, uma tnica colorida bordada com espelhos e usava um
colar de vrias voltas. A primeira reao do pblico foi um misto de
aplausos e vaias. Na passarela, inclinou-se para uma mulher que vaiava
com todas as foras, apontou o dedo para o seu rosto e continuou
cantando com tal empenho que aos poucos a mulher foi parando de vaiar.
Gal arriscava sacrificar sua carreira anterior ao assumir a postura
tropicalista, retomando, em outro grau, a ruptura do Opinio e levando
adiante a luta contra o regime. Como no saudava as esquerdas ou o
comunismo, agredia o sistema atravs da atitude, no apenas do texto.
Acompanhada pelo conjunto Los Bichos (Beat Boys) e com vocal das irms
Ivete e Arete nos "tchu tchu ru", Gal foi aplaudidssima e saiu sob
gritos de "J ganhou!".
Sintomaticamente, enquanto Gal, ao lado de Elza Soares, foi a mais
aplaudida da noite, o mais vaiado foi Jorge Ben, ao fazer o gesto do
poder negro com o brao erguido e o punho cerrado, aps defender
"Queremos Guerra".
No jri oficial, em que Srgio Cabral substituiu Joo Carlos Martins,
por pouco "Divino, Maravilhoso" no entrou. Foram selecionadas "Memrias
de Marta Sare", a mais votada, "Terra Virgem" (Adilson Godoy e Saulo
Nunes), defendida por Mrcia, e "Sei L Mangueira", que quase gerou um
carnaval quando foi bisada.
O jri popular escolheu "Marta Sare", tambm a mais votada, "Terra
Virgem", a penosa "Dilogo" (Marcos Valle e Milton Nascimento) com os
autores e o bachiano "Choro do Amor Vivido" (Eduardo Gudin e Walter de
Carvalho) com os Trs Morais. Por conta da incluso destas duas ltimas,
ambas representantes, na gria dos produtores de segunda, da "msica
difcil", o veredicto do jri popular mereceu mais vaias. Na comparao
dos resultados, alm de duas superposies, pode-se fazer uma
surpreendente constatao: ao desprezar o samba de Paulinho da Viola, o
jri popular agia como se esperava que agisse o oficial, que por sua vez
se comportava como o popular ao classific-lo.
Para quem reclamava da falta de vaias duas semanas antes, a terceira
eliminatria foi um banquete. O confronto que vinha se definindo entre a
corrente tradicional, via samba, e a revolucionria, via Tropicalismo,
esquentou para valer, chegando s vias de fato com sopapos trocados na
entrada do Teatro e palavres impublicveis vociferados no seu interior.
A casa estava lotada por um pblico jovem, disposto a fazer uso de sua
arma mais devastadora: vaiar tudo o que fosse possvel, msicas,
cantores, atitudes, visuais, jurados, bem-comportados e rebeldes.
Aps o sorteio para a ordem de apresentao, desfilaram, a partir das
22h35, as 12 ltimas concorrentes ao IV Festival da Record.
A assistncia se manifestou ruidosamente a partir da quarta concorrente,
o samba de partido-alto "Casa de Bamba", com Martinho Jos Ferreira
vestido de prateado dos ps  cabea, os Originais do Samba e o conjunto
de Caulinha. Seu estilo "ogunh-ogunh" conquistou as duas torcidas
rivais, embora o gnero seja representativo da ala tradicional. O futuro
dolo Martinho da Vila (Isabel) ingressaria na etapa decisiva de sua
carreira a partir desse Festival.
 entrada de Tom Z, fez-se silncio. Acompanhado dos integrantes do
Canto 4 (em vistosas fantasias representando habitantes de So Paulo de
diferentes pocas) e do conjunto de i-i-i Os Brases (armados de uma
bateria eletrnica),  recebido com entusiasmo digno de um futuro
vencedor. A platia sente-se homenageada com "So, So Paulo Meu Amor",
derrama-se em aplausos e fica de p no trecho "Porm com todo defeito,
te carrego no meu peito". Sob apelos de "Mais um! Mais um!" e "J
ganhou!", aquele baiano tmido, o mais original dos tropicalistas, sai
aps uma ovao como jamais havia recebido. "Foi lindo, meu filho, foi
lindo", declara ao descer do palco.
Aps vaias intensas para "Sem Mais Luanda" (Joyce e Jos Rodrigues), vem
a stima concorrente, precedida de nova manifestao ruidosa, porm
favorvel: "Benvinda", com o dolo Chico Buarque e os rapazes do MPB 4
de gravatas e palets brancos, apoiados pelo violo de Toquinho, em
arranjo vocal de Magro e orquestrao do maestro Gaya. Com salientes
brincos de argolas, Marieta Severo, mulher de Chico, visivelmente
nervosa, analisa a reao da platia, agita-se na poltrona, levanta-se e
finalmente aplaude, colaborando para suplantar as vaias e at
xingamentos procedentes dos torcedores tropicalistas: "Superado! Voc
est velho!". Chico no liga a mnima. Ainda que no se alinhe entre as
l
suas mais inspiradas composies, "Benvinda" contm uma das marcas da
sua obra: a capacidade de emocionar fortemente a platia, especialmente
no final: "Benvinda, benvinda, benvinda no meu corao".
Aps mais duas competidoras, houve novo agito na platia com a entrada
dos Mutantes, surpreendendo ao trajar smoking e mscaras de borracha um
tanto sinistras. "Dom Quixote"  pura gozao, da returnbante marcha de
filme pico no incio - arranjo de Rogrio Duprat - ao final, com a
frase da introduo de "Disparada". Muito vaiada. Bastante aplaudida.
Aps  maior vaia da noite, endereada a "Cantiga" (Caetano Zamma e C.
Queiroz Telles), com O Quarteto, vem a ltima concorrente: Cynara,
Cybele e Milton Nascimento numa cano excepcional, tpica dos
procedimentos harmnicos e das surpreendentes quebradas rtmicas de
Milton, e que o tempo ajudaria a consagrar - "Sentinela".
As manifestaes do pblico ficaram ainda mais fortes na proclamao dos
resultados de cada conjunto de jurados. Desta vez, ambos concordaram em
trs msicas: "Benvinda", "So, So Paulo Meu Amor" e "Sentinela". O
jri popular optou ainda por "A Famlia" (Ary Toledo e Chico Ansio),
com Jair Rodrigues e os Golden Boys, e o especial, pela vaiadssima
"Cantiga". Significa dizer que os Mutantes ficaram de fora, apesar dos
votos da ala declaradamente tropicalista entre os jurados que l
estavam. Muito embora "2001" j estivesse escalada para a final, o alto
comando do Tropicalismo, incluindo Gilberto Gil, que se postara numa
frisa, reclamou bastante da desclassificao de "Dom Quixote". Choravam
de barriga cheia: a maior ovao na repetio das classificadas foi para
Tom Z, que nessa altura formava com Gal Costa a dupla de cantores
favoritos do Festival. De uma forma ou de outra, era provvel que na
final desse um baiano tropicalista na cabea. Algum atrs de Marieta
chegou a gritar "Viva Tom Z! Abaixo Chico!", forando um antagonismo.
Tom Z era o mais festejado entre os escolhidos. Estavam definidas,
assim, as 18 msicas para a final, agendada para a segundafeira
seguinte, 9 de dezembro.
Em termos de televiso, o formato de cada etapa dos festivais dos anos
60 seria inconcebvel para os dias atuais. Aps a apresentao das
concorrentes, 12 em geral, as msicas selecionadas pelo jri eram
reapresentadas na ntegra, momento em que as vaias dos descontentes
costumavam ser assustadoras. Com a novidade das duas classes de jurados
no IV Festival, a reapresentao era por conseguinte duplicada, mesmo
que uma msica fosse selecionada por ambos os blocos, o que j vinha
acontecendo nas eliminatrias. De sorte que Tom Z, por exemplo, cantou
"So, So Paulo Meu Amor" trs vezes na terceira eliminatria. Como
naquela final seriam ouvidas 18 concorrentes, mais seis premiadas pelo
jri popular e seis pelo jri oficial, seriam 30 msicas na ntegra,
sendo diversas delas repetidas. D para imaginar essa mesma situao
numa TV Globo no sculo XXI?
Para remediar a questo, decidiu-se na ltima hora antecipar o incio da
final das 22h30 para as 21h30. Para os componentes do jri especial,
porm, seria ainda mais cedo. Desde as 13 horas eles estavam reunidos
numa sala da TV Record, ouvindo e reouvindo vrias vezes as fitas das
concorrentes, fazendo avaliaes e manifestando seus pontos de vista.
Essa prtica salutar criada por Solano Ribeiro permitia uma interessante
troca de opinies, de tal modo que jurados indecisos ou irredutveis
(caso do maestro Gabriel Migliori) poderiam se munir de novos elementos
para votar  noite.
Os 100 mil cruzeiros novos seriam distribudos aos seis primeiros
escolhidos por cada um dos dois jris, especial e popular, ganhando em
dobro quem se classificasse nos dois. Tambm haveria trofus de 18
centmetros de altura em ouro e prata, a Viola de Ouro e a Viola de
Prata, para os vencedores de cada categoria. Assim comeou a final do IV
Festival da Record. Casa abarrotada e barulhenta, porteiros nervosos,
familiares dos compositores presentes, torcidas, muita fantasia, confete
e serpentina, e Tel, a torcedora-mor, de reco-reco na mo.
Iniciada a final com o choro de Gudin, seguiu-se-lhe "Bonita", a tal que
deveria ser apresentada duas vezes. Mas Vandr no apareceu. Ou melhor,
chegou atrasado, foi impedido de cantar e irritou-se  bea, sem
imaginar que aquela teria sido sua ltima oportunidade de cantar na Era
dos Festivais. O Trio Maray defendeu-a com dignidade. Seguiram-se mais
quatro concorrentes sem nenhum destaque especial, at que Blota Jnior
anunciou a stima, "So, So Paulo Meu Amor". Quase todo mundo ficou de
p, alguns subiram nas cadeiras pulando e gritando, uns vaiavam, outros
xingavam os que vaiavam, era um pandemnio. Apenas um ser naquela malta
de desvairados mantinha-se imperturbvel: o prprio Tom Z. Vestia uma
camisa estampada, colete, diversos colares e trazia uma bengala sobre a
qual se apoiara, agachado na coxia em seus exerccios de concentrao
antes de entrar no palco. Sabia que estava vivendo um dos maiores
momentos de sua vida. Ficava de olhos fechados e, quando os abria,
tambm se abria num sorriso de felicidade.

Aconselhado por Caetano Veloso a tentar a msica popular em So Paulo, o
magricela Tom Z instalara-se em janeiro de 1968, aos 33 anos, numa
penso da rua Conselheiro Brotero, entregando-se  tarefa que j tinha
tentado em sua cidade natal, Irar, no serto da Bahia, antes de estudar
e atuar na Escola de Msica da Bahia: compor canes populares. No
feriado de 21 de abril, uma manh fria, desceu a Brotero, virou 
direita na alameda Barros, e se deparou com a manchete do Notcias
Populares numa banca de jornais: "Prostitutas invadiram o centro da
cidade". Ficou to espantado com a audcia do ttulo que voltou para a
penso levando o jornal e decidido a fazer uma msica sobre So Paulo,
enfocando a contradio dos que falavam mal de So Paulo mas continuavam
morando na cidade. Por isso, o refro seria "So, So Paulo, quanta dor/
So, So Paulo, meu amor". Tom Z havia sido aconselhado a no fazer
msica sobre So Paulo para festival porque, diziam-lhe, os paulistas
eram bairristas, amavam sua cidade e no iriam suportar brincadeiras de
um baiano. Quando a msica estava quase pronta, foi  casa de Augusto
Boal, que o dirigira no Arena Conta Bahia, mostrou-a e recebeu vastos
elogios. Msicas sobre So Paulo costumavam louvar a terra boa da garoa,
suas barracas de flores, a cidade que amanhecia trabalhando; nenhuma a
descrevia to crua a ponto de envergonhar seus habitantes, nenhuma
abordava de forma to contundente a neurose dos paulistanos, sua relao
de amor e dio com a cidade.
Tom Z decidiu inscrev-la no Festival em vez de "Glria" e, para sua
surpresa, foi classificado. Na performance, ele entoava concentradamente
o recitativo ("So oito milhes de habitantes..."), tentando ouvir a
orquestra para no cantar em tom mais alto. No final do recitativo,
abria um sorriso franco que desvendava a contradio: "porm com todo
defeito, te carrego no meu peito". A mesma contradio, chave do tema
que o inspirou, no era porm cantada pelo pblico. Em lugar do refro
original, o povo repetia "So, So Paulo meu amor". Tom Z fechava os
olhos e, sem cantar o refro com medo de destoar do vocal do Canto 4,
apenas dublava, parecendo gozar o prazer de ouvir sua msica na boca do
povo paulista.
Depois dele, aclamado  sada, foram apresentadas mais duas msicas,
"Terra Virgem" e "Sentinela", para as quais o pblico no deu muita
pelota. No foi o que pensaram desta ltima alguns jurados, vrios
msicos e a cantora Beth Carvalho, intrprete de "Rosa da Gente":
"Sentinela" vai seguir o mesmo caminho de "Eu e a Brisa", disse ela com
segurana. Quem viveu, viu. Sua melodia tem um cunho religioso e a letra
descreve os sentimentos de um personagem diante dos ensinamentos que
restam aps a morte de um sbio conselheiro, inspirado no seu Francisco,
um negro alto que servia caf no Juizado de Menores, onde Fernando Brant
trabalhava. Alm de designar uma cachoeira prxima a Diamantina e de
sugerir o ato de velar, "sentinela" tambm significa velrio. Donde a
atmosfera ritualstica preservada na cano.
A farra recomeou quando Blota anunciou o compositor e cantor da dcima
cano. "Lindo! Lindo!", gritavam as meninas para Chico Buarque, agora
com uma camisa plo e um berrante cardig listado, entre Aquiles e
Miltinho do MPB 4, com quem dividia um microfone, enquanto Magro e Rui
usavam o outro. Mas Chico no era unanimidade: alguns o tachavam de
superado, inconsciente e alienado. Mais uma vez deu o recado e saiu
tranqilo.
Em seguida entrou Taiguara para defender "A Grande Ausente". Comeou a
cantar sob vaias estrepitosas mas, numa prova de sua ascendncia,
conseguiu dominar aquela rebeldia. Interrompeu-se no meio e disse:
"Escute, minha gente, no consigo ouvir a orquestra. Silncio, porque
aqui tem gente que quer ouvir a msica". Houve um suspense e ele
reiniciou a cano, terminando sob aplausos. Marlia Medalha cantou
"Marta Sare" com a classe de uma grande atriz. Num elegante vestido com
gola em V, sorriso e olhar cativantes, levantava o brao no refro, ao
lado de Edu, com a tranqila discrio de quem sabia o que era vencer um
festival.
A seguir, Os Mutantes, em mais uma aguardada surpresa visual - Rita com
uma roupa de plstico transparente e uma enorme coroa na cabea, e os
irmos Batista com capas tambm de plstico - apresentaram "2001". O
Quarteto mantendo a sina de "Cantiga", a mais vaiada da noite; Elza
Soares, de vestido rosa com mangas largas e sapatos prateados, para se
consagrar no samba; e Srgio Ricardo, um dos mais aplaudidos da noite,
em nada lembrando a cena do Festival anterior, foram os intrpretes
seguintes.
Depois de novas vaias dirigidas a Roberto Carlos, que dava, talvez sem o
saber, seu au revoir definitivo aos festivais, chegou finalmente a vez
de Gal Costa em mais uma festejada performance de "Divino, Maravilhoso".
Aps uma entrada triunfal, com toda a platia de p, cantou indo
novamente ao encontro do pblico, realada pelos espelhos bordados em
sua tnica colorida, e saiu sob gritos de "J ganhou!".
Quem esperava um longo intervalo teve que voltar correndo para o
interior do Teatro Record Centro. J passava de meia-noite quando Blota
Jnior e Snia Ribeiro anunciaram no palco os vencedores na categoria
melhor interpretao; enquanto Kalil Filho, no estdio de Congonhas, 
frente de uma lousa repleta de nmeros representando as votaes do
interior e dos clubes, proclamava os vitoriosos pelo jri popular. Em
ordem inversa, a sexta foi "A Grande Ausente", com 1.404 votos; "So,
So Paulo Meu Amor" teve 1.457, ficando em quinto; "Bonita", com 1.477,
em quarto; "A Famlia", com 1.544, em terceiro; "Memrias de Marta Sare"
em segundo com 1.697; e "Benvinda" em primeiro, com 1.778 votos. No jri
especial, porm, o vencedor do popular, Chico Buarque, ficou em sexto,
Srgio Ricardo ("Dia da Graa") em quinto, Tom Z e Rita ("2001") em
quarto, Gil e Caetano ("Divino, Maravilhoso") em terceiro e Edu e
Guarnieri ("Marta Sare") em segundo. O jri especial decidiu na ltima
hora endossar a votao popular, atribuindo o segundo lugar a "Memrias
de Marta Sare" e, pelo que se comentou  boca pequena, empurrando
"Divino, Maravilhoso" para terceiro. Na reapresentao das ganhadoras,
Gal foi intimada a bisar, entrando em definitivo para o primeiro time
das cantoras brasileiras. As notas que os jurados torcedores do
Tropicalismo atriburam a "Sentinela" foram determinantes para jogar
Milton Nascimento para escanteio.
Depois de "Marta Sare", quase toda a platia j sabia o nome do
vencedor. Quieto o tempo todo na coxia, Tom Z somente se convenceu de
que deveria reapresentar sua msica quando ouviu Snia Ribeiro declarar
pausadamente: "Primeira colocada pelo jri especial... "So, So Paulo
Meu Amor", de Tom Z. Arranjo de Damiano Cozzeila com participao de
Flvio Teixeira, Roni Jlio e Os Brases. Interpretao do Canto 4 e Tom
Z". Tratado pelo povo e pela imprensa como o verdadeiro vencedor - j
que numa competio pode haver empate mas no faz sentido admitir a
priort dois ganhadores atravs de julgamentos independentes previstos em
regulamento, como determinaram as regras impostas pelo modelo de
festival socializado - Tom Z sorriu feliz e voltou  cena, sorvendo
cada gole da vitria. Na Bahia, sua irm, que ouvia o Festival pelo
rdio, ficou to emocionada quando ouviu o resultado, que o aparelho
caiu-lhe das mos, espatifando-se no solo. No Teatro Record Centro, o
povo cantava em p, surgiram bales e serpentinas, num novo delrio do
qual participaram, no palco, todos os concorrentes, abraando-se e
regozijando-se com sua vitria - e, na platia, mais de 2 mil pessoas
cantando em coro "So, So Paulo Meu Amor".
Era 1:40 de tera-feira quando a cortina do Teatro Record Centro baixou
de vez. Tom Z e Gal eram os mais festejados; Chico e Edu davam
autgrafos; todos eram fotografados e se abraavam. Comearam a tratar
da retirada, os mais espertos em automveis que j os esperavam na
Brigadeiro Lus Antnio. O pblico adorou a vitria de Tom Z, que 
sada do Teatro era festejado com foguetes e carros buzinando, nos
estertores de mais uma festa da msica popular.
O Blow Up, onde Maria Bethnia se apresentava, foi o destino de Edu
Lobo, que comemorou mais uma vitria bebendo usque Chivas Regai e
comendo picadinho com banana, exultante com o prmio de melhor arranjo e
elogiando "Sentinela", de Milton Nascimento.
A vitria tambm foi festejada no restaurante Patachou, na rua Augusta.
Tom Z queria ir dormir mas Guilherme Arajo o convenceu a aderir s
comemoraes. Gal Costa, Toquinho e Marcos Valle foram cumprimentados
por Solano Ribeiro e o jurado Carlinhos Oliveira. Tomando Coca-Cola, Tom
Z ainda no acreditava que havia vencido, sua maior preocupao era
retomar o show So Paulo Meu Amor no Ponto de Encontro da Galeria
Metrpole. Depois, foi para a casa de seu amigo baiano Waldemar Waldez
comemorar outro prmio da noite, o de melhor letra para "2001". No dia
seguinte, Guilherme Arajo transferiu Tom Z para um flat na praa da
Repblica.
Em 16 de dezembro foram entregues no Teatro Record Centro os prmios aos
vencedores. Jlio Medaglia entregou o de Tom Z. O Festival gerou
intensas discusses na imprensa, em artigos de Nilo Scalzo, Jos Maria
dos Santos, Alberto Helena Jnior, Chico de Assis, Adones de Oliveira,
Srgio Cabral e Tinhoro, este em prol do samba, destacando Martinho e
Paulinho da Viola.
Apesar de no estar entre as seis primeiras do jri popular nem do jri
oficial, "Sei L Mangueira" fez um sucesso incrvel, criando um clima
pesado para Paulinho da Viola na Portela. Em condies normais, o
presidente da escola, seu Natal, que no tinha papas na lngua, teria
dito: "Como  que , voc fez samba para a Mangueira? Por que no faz
para a Portela?". Mas nem ele nem ningum disse nada. Todos o
respeitaram, o que contudo o levou a sentir-se mal, sem saber o que dele
pensavam, ainda que a letra fosse de um mangueirense, Hermnio. Como ia
freqentemente  Mangueira, onde ele e o tambm portelense Z Kti
tinham muitos amigos, ouviu dias depois algumas senhoras da ala das
pastoras comentar: "Ele fez aquele samba falando da nossa escola porque
sabe que se falasse da dele no ia acontecer nada". Paulinho fingiu que
no ouviu. Mas tempos depois, comps "Foi Um Rio que Passou em Minha
Vida", dedicado  Portela.
O musical de Hermnio no vingou, mas ele aplicou sua idia num disco
histrico, Fala, Mangueira, de 1968, em que Odete Amaral cantou o samba
de Paulinho da Viola. Elza Soares foi quem fez sucesso com "Sei L
Mangueira", mais tarde gravada tambm por Elizeth Cardoso e Clementina
de Jesus: mas nunca por Paulinho. Em 1969, Milton lanou "Sentinela",
com orquestrao de Lus Ea, no disco Milton Nascimento, pela Odeon,
regravando-o com Nana Caymmi e um coral de monges beneditinos em 1980. A
inteno de gravar com religiosos no vingara em 1968 porque Frei Betto
e outros dominicanos j enfrentavam problemas polticos. Alm dele,
Cynara e Cybele, o MPB 4 e Beth Carvalho interpretaram "Sentinela" em
disco. Chico Buarque no gravou "Benvinda", que foi lanada pelo MPB 4
em LP da Elenco de 1969. Gal Costa gravou "Divino, Maravilhoso" no LP
Gal Costa; os Mutantes lanaram "Dom Quixote" e "2001" no LP Mutantes
tambm em 1969, e Tom Z incluiu "So, So Paulo" no seu primeiro disco,
pela gravadora Rozenblit.
Todas essas msicas, bem como as demais finalistas, faziam parte dos
trs volumes dos discos do Festival que j estavam nas lojas desde
meados de novembro, com os intrpretes do cast da marca Philips.
Se por um lado o IV Festival da TV Record conferiu um upgrade de
coadjuvante para destaque no cenrio principal da msica brasileira a
Tom Z, Gal Costa, Martinho da Vila e Mutantes, incluindo Rita Lee,
marcou a maior debandada, forada ou no, de compositores e cantores da
Era dos Festivais. Cada qual com seu motivo.
Provavelmente enfastiado com as vaias e certamente atribulado com sua
carreira, Roberto Carlos dispensou mais essa atividade. Chico Buarque
decidiu o mesmo, s que foi obrigado a dizer "tchau". Dias antes do
Natal de 1968, teve a indita surpresa de acordar com a polcia em seu
apartamento. Foi levado para um interrogatrio no Ministrio do Exrcito
e liberado na mesma tarde, mas necessitou de uma autorizao para a
viagem  Frana, j programada, onde se apresentaria no Midem. Partiu no
dia 3 de janeiro de 1969 e, diante das notcias que recebia do Bra-
sil, achou mais prudente permanecer na Itlia, onde ficou at maro de
1970. Jair Rodrigues, que dificilmente enjeitava um desafio, talvez
arriscasse mais um festival, mas o fato  que no compareceu a nenhum
outro. Elis j tinha tomado sua deciso ao trmino do III FIC e estava
em plena temporada na Europa. Decepcionado com as duas notas zero a
"Sentinela", que depois ficou sabendo terem sido dadas de propsito,
Milton Nascimento viajou de nibus para o Rio no dia seguinte  final
com seu parceiro Fernando Brant. Refez-se do abatimento com uma viagem
para os Estados Unidos, mas os festivais desapareceram de seu horizonte
mineiro. Edu Lobo tambm se apresentou no Midem, voltou ao Brasil e em
abril foi estudar orquestrao em Los Angeles, onde ficou dois anos.
Marlia Medalha iria compor com Toquinho e Vinicius de Moraes um grupo
de shows e discos de xito, mas posteriormente comeu o po que o diabo
amassou quando seu marido Isaas Almada foi preso por motivos polticos.
Com tantos elogios e aplausos, Srgio Ricardo sentiuse plenamente
redimido da "violada no auditrio", alm de ter cumprido a misso de
encabear mudanas igualitrias no Festival. Os que tambm davam mostras
de dizer bye-bye mas tiveram que trilhar caminhos pedregosos foram
Vandr, Caetano e Gil. As carreiras dos trs foram ceifadas aps a
decretao do AI-5, em 13 de dezembro, quatro dias aps a final do IV
Festival da TV Record.
Aps ocasionais tentativas em espetculos um tanto peculiares nos anos
70, Vandr saiu da cena musical. Transfigurou-se num personagem do
evasivo advogado Geraldo Pedrosa de Arajo Dias, de vida rotineira ao
que tudo indica, que, quando instado a falar do artista Vandr, ficava
mudo. Geraldo Vandr , com Tho de Barros, autor da campe das campes
da Era dos Festivais. Quando Jair Rodrigues a canta, a despeito do
nmero de vezes que repete em seus shows, "Disparada" ainda arrepia os
plos, toca fundo o corao e sacode o sentimento cvico da assistncia.
As msicas de Vandr quase no so regravadas em virtude de suas
negativas peremptrias em conceder a liberao. Essa obra, contida em
apenas cinco lbuns LP (Geraldo Vandr, de 1964, Hora de Lutar, de 65,
Cinco Anos de Cano, de 66, Canto Geral, de 68, e Das Terras do
Benvir, de 73), mostra a grande riqueza da msica regional, que o
Brasil no conhecia bem, e que ele vislumbrou em seus sonhos.
A classe mdia fardada, que  moralista, encarava Chico, Vandr e Srgio
Ricardo como um militar v um inimigo, enquanto os baianos, Gil e
Caetano, representavam um desacato, no coincidindo com a imagem por ela
desejada como exemplo para o povo brasileiro. Com seu  preconceito
enraizado, vendo homens vestidos de mulher - houve at comentrios de
que Caetano era meio mulher e Bethnia meio homem -, suspeitando que
eles estivessem drogados, os militares de classe mdia no suportaram o
que passaram a considerar uma ofensa, uma atitude abjeta, passaram a ter
nojo dos baianos. Exigiam sobriedade e uma atitude digna, de homens
comportados como homens. Gil e Caetano no brigavam contra o poder nem
assumiam uma posio poltica. Viviam um perodo de parania com seu
programa Divino, Maravilhoso na TV Tupi, numa escalada de provocaes
que atingiam os militares da classe mdia pela via moral. No programa do
Natal de 1968 Caetano apontou um revlver de brinquedo para si prprio,
fingindo dar tiros. Ambos foram presos em seus apartamentos da avenida
So Luiz em 27 de dezembro, levados para o Rio, onde ficaram
encarcerados por dois meses, separadamente, de cabea raspada,
inicialmente na Tijuca e depois na Vila Militar, bairro de Deodoro.
Tom Z apresentou os derradeiros dois programas Divino, Maravilhoso pela
TV Tupi. O momento de maior glria do Tropicalismo nos festivais deu-se
dias antes do ato de sua extrema-uno. Segundo Carlos Calado, autor do
livro Tropiclia, como Caetano e Gil j vinham anunciando a dissoluo
do movimento, sua priso e a extino do programa representam o enterro
oficial do movimento tropicalista.
Do Rio, Gil e Caetano foram remetidos para a Bahia, onde viveram cinco
meses confinados, de maro a julho. Como estavam impedidos de qualquer
apario pblica, a gravadora Philips providenciou um adiantamento sobre
dois discos que seriam iniciados l mesmo, com produo de Manoel
Barenbein. Foram gravados s a voz e o violo na Bahia e o restante
posteriormente, no Rio e em So Paulo, com arranjos de Rogrio Duprat,
invertendo-se o processo de se cobrir as bases com a voz na ltima etapa
de uma gravao. Caetano gravou o disco com capa branca comeando com
"Irene" ("Eu no sou daqui/ eu no tenho nada/ quero ver Irene rir"), e
Gil, o que continha sua despedida do Brasil, o samba "Aquele Abrao"
("Pra voc que me esqueceu, aquele abrao/ Al, Rio de Janeiro, aquele
abrao/ todo povo brasileiro, aquele abrao"). Os discos foram lanados
e os dois baianos, em seguida, banidos, viajando rumo  Inglaterra em 27
de julho. Provavelmente, foi a que a classe estudantil, supostamente
politizada, compreendeu sua posio poltica.
O ano de 1968, que foi o ano com mais festivais, que foi o da fadiga dos
festivais, da Tropiclia, do AI-5, no foi um ano qualquer. Em 1968 a
Era dos Festivais entrava na curva descendente da parbola.
Captulo 11.
"CANTIGA POR LUCIANA"
(IV FIC/TV GLOBO, 1969)
A ditadura militar consolidou-se na reunio do Conselho de Segurana
Nacional presidida pelo presidente Costa e Silva no Palcio das
Laranjeiras do Rio de Janeiro no dia 13 de dezembro de 1968, que
antecedeu a edio do Ato Institucional nmero 5, o AI-5. Aps a sua
divulgao pelo locutor oficial da Agncia Nacional Alberto Curi, irmo
do cantor Ivon Curi e do narrador de futebol Jorge Curi, atravs da rede
nacional de rdio e televiso, estavam abertas as portas para fechar o
Congresso por tempo indeterminado. O ato permitia, entre seus 12
artigos, que se proibisse ao cidado o exerccio de sua profisso, que
se confiscassem seus bens e, pelo artigo 10, ficava suspensa a garantia
de habeas corpus nos casos de crimes polticos contra a segurana
nacional. O regime militar assumiu ento sua face mais dura e
repressiva, com aparelhos de segurana ganhando um poder gigantesco e
uma autonomia de ao consideravelmente superior a outros aparatos do
governo. As aes que se seguiram, adotando a tortura e acobertando
sumios, sufocaram guerrilhas, assaltos, sequestros e atos terroristas,
censuraram a imprensa, rdio e televiso, esmagaram as formas de
protestos polticos de estudantes universitrios e secundaristas nas
ruas, derrubaram manifestaes artsticas com prises e a injuno ao
exlio. Tudo sob o amparo legal do AI-5.
De sorte que a baixa considervel sofrida pela equipe principal da
msica popular facultou a entrada em campo, para suprir o desfalque
generalizado de craques nos festivais, de todos os reservas e juvenis
que vinham tendo oportunidades  bea na avalanche de certames em 1968.
Alm dos dois da TV Record e do FIC, realizaram-se nesse ano o I
Festival Universitrio da Guanabara pela TV Tupi do Rio, o I Festival
Universitrio de Msica Popular em Porto Alegre, o II Festival
Fluminense da Cano em Niteri, o I Festival de Juiz de Fora, o Brasil
Canta no Rio pela TV Excelsior, o II Festival Estudantil no Teatro Joo
Caetano, o II Festival Estudantil Petropolitano de Msica Popular e
outros mais. Festival tinha virado moda. Se fossem convocados os
participantes de todos os festivais de 1968, dava para lotar boa parte
do Maracanzinho. Joyce, Luiz Carlos S, Csar Costa Filho, Ronaldo
Monteiro de Souza, Antnio Adolfo, Tibrio Gaspar, Arthur Verocai,
Egberto Gismonti, Alceu Valena, Aldir Blanc, Slvio da Silva Jnior,
Macal, Guilherme Dias Gomes, Guto Graa Mello, Ruy Mauriti, Eduardo
Lages eram algumas das promessas para o primeiro time da msica
brasileira que se inscreveram no IV Festival Internacional da Cano
antes do ltimo dia do prazo, 31 de maio de 1969. O FIC foi assentado
para o final de setembro.
Havia meses que se procurava corrigir falhas dos trs festivais
anteriores,  verdade que algumas delas consideradas admissveis num
evento de tal porte. Mas havia limite. O som dos FIC era o alvo das
maiores frustraes. O drama podia ser resumido em uma palavra que
aterrorizava msicos e cantores: Maracanzinho. Era preciso investir
para solucionar o problema, ou pelo menos atenuar o temor dos artistas e
abafar a fama que prejudicava cada vez mais o FIC. Nessa edio, a TV
Globo, encarregada da rea tcnica, no poupou esforos para tentar
solucionar a encrenca. Para equiparar-se a eventos dessa natureza no
exterior, foi adquirido um equipamento da marca Amplicord Westfalia que
inclua nova mesa de mixagem, alto-falantes e caixas acsticas, duas das
quais seriam instaladas no palco, atrs do intrprete, para evitar o eco
com trs segundos de retardamento. Foi contratado um bambamb na
matria, o alemo Gunther Steinke, e, para diminuir a disperso sonora,
o piso onde ficava a orquestra foi forrado de l acstica. Com tais
medidas, o coordenador tcnico da TV Globo, Orestes Polvoreli, prometia
surpreender agradavelmente o pblico e os participantes. O cenrio
tambm foi aperfeioado: as rampas foram revestidas de borracha
sinttica para que ningum temesse escorregar.
Conforme o projeto do cenarista Mrio Monteiro, os intrpretes surgiriam
no palco por uma abertura circular ao fundo, atravessando uma passarela
para chegar ao praticvel cilndrico com cinco metros de dimetro, onde
cantariam. Foram montados dois palanques em forma de lrio para alojar
as cmaras da televiso alem Saarlaiensischer Rundfunk de Saarbrucken.
 que, pela primeira vez, se gravaria um videoteipe que seria ento
transformado no programa de trs horas a ser transmitido pela Euroviso
na noite de 1 de janeiro de 1970. Com um detalhe de capital
importncia: a transmisso seria em cores. Por esse motivo, alm de
cmeras adequadas e uma equipe de 12 pessoas, a iluminao foi aumentada
para 26 mil watts e reforada com 24 lmpadas tipo photoflood. A imagem
do Brasil no exterior seria clara e colorida, inteiramente diferente da
escurido e do negrume existentes nos pores e masmorras onde se
torturavam presos polticos, conforme notcias propagadas por certos
rgos de imprensa de outros pases.
A TV Globo tinha ainda a seu cargo a segurana, a orquestra, arranjos,
ensaios e a produo de cada programa de televiso. De outra parte, como
cavalheiresco anfitrio que era, o diretor Augusto Marzago, alm de
conseguir verba da Secretaria de Turismo, organizar o jri, cuidar dos
prmios e trofus, obter passagens areas gratuitas, deveria garantir a
presena de convidados estrangeiros que vinham pelos seus belos olhos.
Para eles foram reservados os melhores apartamentos do Hotel Glria,
onde os escritrios do FIC estavam instalados desde 13 de setembro, e
montada uma esmerada programao social: jantares, coquetis, recepes
e festas no Iate Club, no Club Srio, no Club Caiaras, no Club Federal,
no Caneco, espetculo na boate Sucata, feijoada e vatap com show de
passistas, passeios de lancha e pela floresta da Tijuca, reunies,
drinks  volta da piscina, baile de gala na Hpica, enfim, uma seqncia
para ningum botar defeito e deixar os gringos com lngua de fora e gua
na boca. De quebra, o Festival, naturalmente.
Com tantos atrativos e mordomias, foi uma surpresa desagradvel a
chegada das comunicaes de desistncias justo em cima da abertura do
FIC. Jane Fonda, Roger Vadim, a cantora Nancy Wilson, o compositor Burt
Bacharach, o regente Frank Pourcel, todos anunciados, mandaram dizer que
estavam comprometidos. O ator James Mason, o cantor Jack Jones, e o
beatle George Harrison teriam invocado a necessidade de um seguro de
vida por causa do clima de terror e insegurana em que vivia o pas aps
o seqestro do embaixador americano sr. Burke Elbrick. Dizia-se que
artistas brasileiros na Europa boicotavam o Festival afirmando que no
Brasil no havia condies polticas para sua realizao. Marzago
desmentiu tudo, justificou que o cancelamento era em funo de contratos
de ltima hora, ou tambm em funo do corte nas mordomias exageradas
dos anos anteriores, como mais de uma passagem por convidado.
Telefonemas e telegramas foram trocados, a temperatura se elevou, a
imprensa criticou e, na vspera da primeira eliminatria, foi
oficialmente comunicado que dez convidados no viriam mais. Cada qual
por um motivo.
Um dia antes, Marzago presidira a reunio dos jurados que escolhera;
ali foram tomadas algumas decises. Nas duas eliminatrias no haveria
notas, apenas votos de sim ou no para cada cano, apurando-se assim as
20 finalistas. Na final  que seriam atribudas notas de 1 a 10 para
decidir os dez primeiros colocados. Os 15 jurados eram os compositores
Marcos Vasconcelos, Durval Ferreira, Luiz Reis e Joo de Barro, os
msicos Csar Camargo Mariano, Turbio Santos e Cussy de Almeida, o
empresrio Ricardo Amaral, os cantores Marlene e Wilson Simonal, os
escritores Pedro Bloch e Jos Mauro Vasconcelos, o radialista Big Boy
(Milton Alvarenga Duarte) e os crticos Carlos Dantas, Jlio Hungria e
Carlos Menezes.
Das 41 classificadas, seis msicas vinham da eliminatria realizada no
TUCA de So Paulo em 30 de julho, entre elas, "Ando Meio Desligado" (Os
Mutantes), "Madrugada, Carnaval e Chuva" (Martinho da Vila) e "Charles
Anjo 45" (Jorge Ben). Havia tambm msicas da Bahia, Minas, Paran, Rio
Grande do Sul e Pernambuco. "Beijo Sideral", "Cantiga por Luciana",
"Juliana" e "Mercador de Serpentes" eram as cariocas mais enfocadas
pelos jornais do Rio, resultantes de 1970 inscritas, bem menos que as
5508 do III FIC.
Ningum imaginava, comentava ou ousava fazer msica com mensagem
poltica. A nova onda era comunicao. E a maior autoridade no assunto
no era Abelardo Barbosa, o Chacrinha, um dos cones do defunto
Tropicalismo e autor da frase "Quem no comunica, se trumbica". O rei da
comunicao chamava-se Wilson Simonal de Castro, o Simona, que,
desfrutando de um prestgio jamais atingido - tanto que foi convidado
para presidir o jri do Festival, isto  s interferir para dar o voto
de Minerva em caso de empate -, era assediado para entrevistas a fim de
emitir seu ponto de vista sobre a matria. Semanas antes do FIC, Simonal
havia participado do espetculo de despedida de Srgio Mendes aps
temporada na Sucata. O "farewell to Brazil" de Srgio Mendes e seu
conjunto Brasil Sessenta... (e alguma coisa) foi no Maracanzinho, onde
Simona "deixou cair", reduzindo a p de traque o pianista habitue das
listas na Cash Box. Sucedendo a Srgio e acompanhado pelo Som Trs
(Csar Mariano ao piano, Sab ao baixo e Tomnho Pinheiro  bateria) e
pelo Metais com Champignon (Maurlio, trompete, Juarez Arajo,
sax-tenor, e Aurino, sax-bartono), ele comandou com o olhar, o balano
do corpo e as pontas dos dedos a multido que se esbaldou cantando
alegremente os sucessos de sua fase pilantragem, "S Marina", "Meu Limo
Meu Limoeiro", "Mame Passou Acar em Mim", "Pas Tropical" e "T
Chegando a Hora". O banho foi to escandaloso que no mais conseguiram
localizar o artista principal para o grand finale. Srgio Mendes havia
sumido do Maracanzinho. Simona passou a ser o talk of the town, e,
conseqentemente, mais que habilitado para deitar sua sabedoria sobre
comunicao nas duas etapas do FIC, nacional e internacional.
Com transmisso direta para So Paulo, Belo Horizonte, Salvador e Porto
Alegre, foi para o ar s 21 horas da quinta-feira, 25 de setembro, pela
TV Globo, a quarta edio do Festival Internacional da Cano no ginsio
do Maracanzinho. Aps a abertura da orquestra regida pelo maestro Lirio
Panicalli - com trechos de O Guarani, de Carlos Gomes, e msicas
brasileiras, entre as quais, surpreendentemente, o samba "Aquele
Abrao", de Gilberto Gil, exilado em Londres -, entra o casal Hilton
Gomes e Ilka Soares para apresentar os membros do jri que -desciam a
rampa sob assobios e palmas, incluindo Simonal, o mais ovacionado, de
smoking e um leno estampado amarrado na cabea. O violonista Turbio
Santos no estava entre os 15 jurados. Faltou.
O mais assediado convidado internacional era o compositor Jimmy Webb
(autor de "Up Up and Away"); ele estava na primeira fila das cadeiras
numeradas em frente ao palco, que, destinadas aos artistas estrangeiros,
em sua maioria desconhecidos pelo pblico, tinha apenas metade da
lotao ocupada. Para ingressar no ginsio, as pessoas tinham passado
por uma severa vigilncia, no sendo permitidos embrulhos, instrumentos
musicais, tomates e ovos. Antes da primeira cano, surgiu no palco um
grande painel com o galo, smbolo do festival, e os ttulos das 21
canes que seriam ouvidas, avaliadas pelo jri e tambm votadas pelo
pblico, que passava, portanto, a desfrutar da oportunidade de eleger a
msica mais popular.
Alm de compositores novos, havia alguns cantores pouco conhecidos, como
Eduardo Conde, e vrios grupos: o Vox Populi, com sete figuras, sendo
algumas remanescentes do Manifesto, o Grupo Mineiro, de Juiz de Fora, os
conjuntos gachos Liverpool Sound e Os Cleans, os paulistas O Bando e Os
Brases e os cariocas O Grupo, Os Argonautas e A Brazuca. Era tanta
gente nova que parecia um festival universitrio.
A chegada desses grupos, que j vinha sendo incrementada em festivais
anteriores, consagrava a inteno de apresentar canes concorrentes com
uma forma final mais bem acabada e menos dependentes dos ensaios
oficiais, abrindo tambm espao para a extravagncia visual e a
coreografia. Estes dois elementos eram dessa maneira incorporados
definitivamente  produo de uma cano de festival. De contrapeso, a

chegada dos grupos criava inmeras manobras para os tcnicos de som,
obrigados a recompor parte da microfonao a cada msica.
O desfile das 21 concorrentes foi entremeado de minishows internacionais
com cantores de quem ningum tinha ouvido falar, um suo, uma
australiana e uma norueguesa. Msicas mais aplaudidas nessa noite:
"Madrugada, Carnaval e Chuva", de Martinho da Vila, "Cantiga por
Luciana", de Edmundo Souto e Paulinho Tapajs, "Viso Geral", de Csar
Costa Filho, Ruy Mauriti e Ronaldo M. de Souza, e a bluesy "Juliana", de
Antnio Adolfo e Tibrio Gaspar.
Compondo desde que se conheceram numa das reunies na casa de Beth
Carvalho, Antnio e Tibrio comearam a se projetar atravs de Simonal.
Apostaram que uma de suas primeiras composies parecia de encomenda a
seu estilo e viajaram a So Paulo para lhe oferecer a toada moderna "S
Marina". A msica emplacou naquela mesma noite no Show em Si... monal,
foi logo gravada no lado B de um compacto e converteu-se rapidamente em
nmero obrigatrio de seus shows, portanto um sucesso antes mesmo do
Festival. Tibrio era professor de matemtica, Antnio Adolfo tinha sido
pianista de Elis Regina durante a turn europia no incio de 1969 e
assim que retornou ao Brasil comps ao violo outra melodia no estilo de
"S Marina", igualmente bem construda e gostosa de cantar. Era a
"Juliana", cuja letra de Tibrio conta de forma quase inocente o
primeiro amor de uma garota: "Num fim de tarde meio de dezembro/ inda me
lembro e posso at contar/ o sol caa dentro do horizonte/ e Juliana viu
amor chegar ... e Juliana ento se fez mulher". Como nenhum dos dois
cantava, montaram A Brazuca com duas cantoras, Bimba e Julie, para
defender a msica no FIC. O instrumental consistia em Antnio Adolfo
tocando um Fender Rhodes, o nico piano eltrico existente no Brasil na
poca, Vitor Manga  bateria, Luizo Maia ao baixo e Luiz Cludio 
guitarra.
Apesar da mudana de posio das caixas acsticas, o som do
Maracanzinho na segunda eliminatria, realizada no sbado, continuou na
mesma: pssimo.  certo que havia bem mais pblico para aplaudir o Hino
Nacional (nova e significativa abertura), alm da primeira e da segunda
msica, "Serra Acima" (Slvio da Silva Jnior e Aldir Blanc) e "Ave
Maria dos Retirantes" (Alcivando Luz e Carlos Coqueijo), esta defendida
por Maysa, uma das mais queridas cantoras da histria do FIC. Poucos se
atreviam a vai-la.
A terceira era "Charles Anjo 45", com o autor, Jorge Ben, e o infernal
Trio Mocot (Nereu, Fritz e Joozinho Paraba), significa dizer, samba
em alta temperatura. Por trs daquela letra crua e cida sobre o Robin
Hood dos oprimidos, sem mtrica ou rima de espcie alguma, marcas
inconfundveis do autor que praticamente a declamava, estava uma
precursora do gnero que s aconteceria muitos anos mais tarde, o rap. A
temtica transgressora, premonitria sobre a situao dos morros
cariocas, por incrvel que parea no foi interceptada pela Censura:
"ba, ba, ba Charles/ como  que  my friend Charles ... um homem de
verdade com muita coragem/ s porque um dia Charles marcou bobeira/ e
foi tirar, sem querer, frias numa colnia penal ... nosso Charles vai
voltar ... vai ter batucada ... whisky com cerveja e outras milongas
mais". O personagem era real: seu amigo Charles Antnio Sodr, do Rio
Comprido, tinha ponto de bicho, boca de fumo, uma pistola 45, foi preso
e condenado, segundo Jorge declarou a Trik de Souza para a Veja. Algum
na gravadora Philips inscrevera a msica numa fita gravada por Caetano
Veloso, sem o conhecimento do autor. A apresentao no FIC, cuja metade
final era uma sensacional batucada com apito, pandeiro, cuca e
atabaque, foi calorosamente aplaudida por uns, intensamente vaiada por
outros e duramente criticada na imprensa. "Charles Anjo 45" seria um
sucesso pouco tempo depois.
A quarta concorrente foi ainda mais vaiada, "Gotham City" (Jards Macal
e Jos Carlos Capinan), um happening alusivo ao homem-morcego, defendida
agressivamente por Macal, num camisolo branco, gritando como um louco
"Cuidado! H um morcego na porta principal!", e Os Brases, de peito
descoberto, pintados de urucum, com uma rede metlica pendendo na testa.
Esta letra de Capinan, sim, confundiu a Censura, que a liberou
desconfiada mas sem perceber a metfora sobre o regime militar atravs
da cidade imaginria de Batman, heri das pginas do gibi, ento fora de
moda, mas leitura assdua na adolescncia do baiano Jos Carlos: "...meu
amor no dorme/ meu amor no sonha/ no se fala mais de amor em Gotham
City/ s serei livre se sair de Gotham City/ agora vivo o que vivo em
Gotham City/ mas vou fugir com meu amor de Gotham City/ a sada  a
porta principal". "Afinal, o que Capinan queria dizer com aquilo?",
devem ter pensado intrigados os censores. Se tivessem substitudo Gotham
City por Brasil, teriam matado a charada. No Maracanzinho, os policiais
se entreolhavam vendo a gritaria de parte da platia, que aderia ao
happening.
Outras duas msicas de destaque nessa noite foram "Beijo Sideral", dos
irmos Marcos e Paulo Srgio Valle, e a esotrica "O Mercador de
Serpentes", de Egberto Gismonti, num arranjo elaborado com orquestra e
coral. Foi uma apresentao conturbada, com problemas sonoros seguidos
de uma pane de mais de meia hora nos geradores de energia, a ponto de
parte do pblico e at os convidados estrangeiros terem se retirado
antes das ltimas msicas.
X
Nesse fim de semana, as rusgas entre as duas entidades que produziam o
FIC comearam a despontar. O diretor Augusto Marzago, respondendo pela
Secretaria de Turismo da Guanabara, criticava a participao de tantos
conjuntos "amadores" cujas aparelhagens desequilibravam o som do
Maracanzinho, uma das responsabilidades da TV Globo. Esta tomava
decises contrrias s suas ordens. Comeava uma guerrinha que iria
vazar na imprensa durante a semana da fase internacional.
Mas o resultado da final nacional do IV FIC, no domingo, aps o desfile
das 20 selecionadas para um pblico que lotava o ginsio, no poderia
ter sido mais pacificador, agradando em cheio a gregos e troianos. A
vencedora ganhou na votao do jri por unanimidade, na eleio popular
com 3037 votos (no total de 9838), na opinio favorvel dos
estrangeiros, do ressentido diretor do FIC Augusto Marzago, dos
dinmicos diretores da Globo Boni e Walter Clark, e dos conformados
concorrentes derrotados. Desculpem, nem todos. Dori Caymmi estava
possesso achando que a maioria dos jurados no teve coragem de
contrariar o voto popular.
Antes mesmo do resultado final ser conhecido, a valsa "Cantiga por
Luciana" j cara em definitivo no agrado da maioria. Com um arranjo de
valsa lenta do acordeonista e maestro Orlando Silveira, fora defendida
por Evinha, a simptica garota de 18 anos e voz melflua, que comeara
pouco antes uma carreira prpria ao se separar de seus irmos Mrio e
Regina, com quem formava o Trio Esperana, de considervel sucesso na
Jovem Guarda, especialmente com "Filme Triste", "Meu Bem Lollipop",
"Festa do Bolinha" e "Gasparzinho". Com texto de apresentao de
Simonal, Evinha havia gravado seu primeiro LP, Evinha 2001, quatro meses
antes do Festival.
Quando o resultado foi proclamado, pouco depois da meia-noite e meia de
domingo, foi uma choradeira generalizada. Evinha, vestindo um
palazzo-pijama azul com um cinto dourado, seus quatro irmos do grupo
Golden Boys, os compositores e at o presidente do jri, Wilson Simonal,
choraram emocionados. Na platia, uma moa soluava sem parar ao lado do
colunista Carlinhos Oliveira. Era Vnia, irm de Beth Carvalho, cuja
filha recm-nascida fora a inspiradora da cano.
No incio de maio daquele ano, Edmundo Souto, namorado de Beth Carvalho,
telefonou a seu parceiro Paulinho Tapajs contando que tinha feito uma
valsa em homenagem ao futuro filho de Vnia, grvida de quatro meses
embora proibida por seu mdico de ter filhos. Seria Ricardo, se fosse
menino, ou Luciana, por causa da msica de Vinicius e Tom de 1958, se
fosse menina. Paulinho gravou a melodia por telefone, foi tomar banho e,
no chuveiro, j tinha parte da letra pronta: "Luciana, Luciana/ sorriso
de menina dos olhos do mar". Nesse dia houve uma reunio na casa de
Beth, que festejava seu aniversrio, e, na cozinha, Edmundo e Paulinho
terminaram a msica, deixando um papel com a letra escrita sob o prato
de Vnia. Foi a primeira choradeira. Dias mais tarde, Paulinho e Edmundo
mostravam a msica a Renato Corra, enquanto sua irm Evinha ouvia da
cozinha e rapidamente a aprendeu, comeando a cant-la com perfeio. "A
intrprete tinha que ser ela", pensaram, e a msica foi inscrita e
classificada enquanto Paulinho e Edmundo faziam uma longa turn pela
Grcia, Itlia e Frana. No dia 30 de julho, Vnia deu  luz uma menina
que Paulinho e Edmundo foram conhecer no aeroporto do Galeo quando
Vnia foi receber o segundo, que voltava da Europa. Apresentou-lhes o
beb, Luciana.
No domingo da final nacional, Edmundo e Paulinho receberam os dois
primeiros Galos de Prata com a famlia Corra em festa. A emoo foi
geral, o nome Luciana virou hbito nos cartrios, inclusive quando
nasceu a filha de Walter Clark e Ilka Soares.
Antnio Adolfo e Tibrio Gaspar ficaram com o segundo lugar da fase
nacional com "Juliana", enquanto Evinha, que tambm recebeu o prmio de
cantora revelao, prosseguiria na segunda parte do festival. Aps a
final, ela tinha ido  casa dos pais, em Copacabana, seguindo depois
para o apartamento de Gutemberg Guarabira, onde festejou at 6 da manh,
mas s 11h50 de segunda-feira j estava de volta ao Hotel Glria, pois
precisava se preparar para a fase internacional.
Na sexta-feira, os atritos na cpula do FIC ficaram ainda mais
evidentes. Marzago desmentiu seu pedido de demisso da vspera mas,
sentindo-se desmoralizado, manifestou seu aborrecimento. Os shows de
Agostinho dos Santos e Rosemary, marcados para a eliminatria
internacional  de quinta-feira, foram transferidos "por falta de tempo
para os ensaios", segundo Boni, diretor da Globo. Marzago queixava-se
ainda da distribuio de convites, que favorecia a televiso e
desprezava os artistas brasileiros, e da retirada de cadeiras destinadas
 imprensa para atender convidados da ADEG. A guerrinha foi para os
jornais.
Na final internacional do domingo seguinte, 5 de outubro, logicamente a
platia deveria torcer pela msica brasileira, "Cantiga por Luciana",
ovacionada quatro dias antes pelo pblico que agitava bandeiras do
Brasil e lenos brancos. No foi o que aconteceu. A simpatia e a
performance do cantor ingls Malcolm Roberts cantando "Love Is Ali"
havia conquistado os cariocas e agora o preo era diferente. Quando foi
anunciada a vitria de "Cantiga por Luciana", a segunda de uma cano
brasileira na fase internacional do FIC, j que "Sabi" fora a primeira
um ano antes, o xod por Evinha foi pr brejo. Malcolm Roberts era o
dono da bola. Aps Milton Gomes ter anunciado "Em primeiro lugar,
Brasil", a consagrada Evinha era agora vaiada estrepitosamente, sem
entender por qu, ao lado de Paulinho e Edmundo. Incoerentemente, a
maioria do pblico havia preferido "Cantiga por Luciana", que venceu na
votao popular por 4895 votos contra 3959 dados  msica inglesa. A
cano foi vaiada at por quem havia votado nela.
Nessa noite, Wilson Simonal, tambm presidente do jri internacional,
realizou outro show histrico. Antes do resultado ser anunciado, o
cantor francs Antoine, que se promovia dizendo-se torcedor do Flamengo,
cantou trechos de "Aquele Abrao", mas o povo queria mesmo era Simonal.
Com toda tranqilidade, levantou-se de seu lugar entre os jurados, com
uma fita verde e amarela amarrada na testa, e, como quem diz "Deixa
comigo", fez o maior show acontecido no Maracanzinho. "No gog!",
comandava ele, e as 20 mil pessoas em peso cantavam afinadas, no ritmo
balanado, em pianssimo ou fortssimo, delirando sob seu completo
domnio, numa performance coletiva como dificilmente algum maestro
conseguiria. "Meu limo/ meu limoeiro, meu p, meu p de jacarand/ uma
vez o-tind l-l/ o-l-l/ outra vez o-tind l-l" era a verso
"pilantragem" que remodelou para sempre a velha cano dos anos 1930
aproveitada do folclore. Ao final, "Cidade Maravilhosa" foi bisada. Quem
estava no Maracanzinho nunca mais esquecer esse show - que ele iria
apresentar na Europa com idntico resultado, levando at alemes de
Dsseldorf e Munique a cantarem com ele as msicas da pilantragem. Em
portugus.
De todas as msicas internacionais, ganhadoras ou no dos sete FIC,
l
"Cantiga por Luciana", saudada na fase nacional, acabou sendo
vaiada ao vencer a fase internacional do IV FIC: os cariocas preferiam
a msica "Love Is AH", interpretada por Malcolm Roberts.
apenas "Love Is Ali" tornou-se relativamente conhecida. Ainda assim, o
tenor ingls Malcolm Roberts foi uma paixo que pereceu to rapidamen-
te como nasceu.
Os prmios do FIC foram entregues no Teatro Municipal em noite de gala
no dia 6 de outubro. Os autores e a intrprete de "Cantiga por Luciana"
levaram para casa dois Galos de Prata, dois Galos de Ouro, 30 mil
cruzeiros novos pela parte nacional (aproximadamente US$ 8,5 mil) e mais
15330 cruzeiros novos (aproximadamente US$ 4,2 mil) pela parte
internacional. Nerihuma outra cano foi to premiada na histria dos
FIC. A insubsistente contestao de um possvel plgio de "Cinderela" de
Adelino Moreira, gravada por ngela Maria, no foi avante.
"Juliana" foi a msica que impulsionou o grupo A Brazuca para um show na
boate Sucata e, na seqncia, seu primeiro LP, na Odeon, reforado por
um compacto bastante executado. Foi ainda cantada por Claudete Soares e
tocada por Lus Ea em verso instrumental.
"Charles Anjo 45" iniciou uma trajetria de sucesso logo aps o Festival
na verso em estdio de Jorge Ben, sendo depois gravada por Caetano
Veloso e, mais tarde, por Gal Costa, Sandra de S e Os Paralamas do
Sucesso.
"Gotham City" foi revivida por dois grupos totalmente diferentes: os
roqueiros do Camisa de Vnus nos anos 1980 e os vocalistas do Boca Livre
no disco Danando pelas Sombras, em 1992, passando a ser uma das mais
solicitadas nos seus shows. Macal lanou seu primeiro LP em 1972, mas
"Gotham City" no estava no repertrio.
"Cantiga por Luciana"  a msica com maior nmero de gravaes do IV
FIC. Aps a de Evinha na Odeon, a mais conhecida, vieram discos com
Regininha (sua irm), Golden Boys (trs irmos e um primo), os veteranos
Carlos Galhardo e Francisco Petrnio, as verses instrumentais de Lus
Ea, Dom Salvador, Lirio Panicalli e da orquestra alem de James Last.
Foi tambm gravada por dois estrangeiros presentes ao Festival no Rio,
Henri Mancini e o prprio Malcolm Roberts. Paulinho Tapajs tambm
gravou a cano num CD, com Fagner.
Entre os discos oficiais do Festival, foi lanado um lbum duplo do IV
FIC produzido por Armando Pittigliani, contendo 18 faixas, ao vivo ou em
estdio, com artistas do elenco da gravadora, a Philips, e outros sem
contrato. Ao mesmo tempo, foi lanado o LP da Odeon, IV Festival
Internacional da Cano, com dez faixas, entre as quais, as duas
primeiras colocadas da fase nacional com seus intrpretes originais,
Evinha e Antnio Adolfo e a Brazuca.
Por sua vez, Evinha virou Eva, continuou fazendo sucesso no Brasil e,
anos depois, realizou um desejo que alimentava desde aquela poca, viver
no exterior. Aps excursionar com o francs Paul Mauriat em 1977 pela
Frana e China, casou-se com o pianista da orquestra Gerard Gambus e foi
morar na Frana. Nos anos 1990 as trs irms Eva, Marisa e Regina
reconstituram o Trio Esperana para shows e discos a capela, lanando
na Frana o CD A Capela do Brasil.
O IV FIC encerrava-se sem nenhuma msica que tivesse dado trabalho 
Censura. Praticamente, canes romnticas ou danantes. "Seis
espetculos, nenhum incidente, o mais tranqilo de todos os festivais",
estampava O Globo. A eficincia da varredura nos bastidores, camarins,
cadeiras de pista, arquibancadas, palco e local do jri, efetuada pelo
esquema de segurana com dezenas de policiais da PM, agentes do DOPS e
da Polcia Federal, estava comprovada.
quela altura, numa violao  Constituio, o pas era governado
temporariamente por uma junta de trs ministros militares em
substituio ao vice-presidente civil Pedro Aleixo, que deveria ter
assumido automaticamente aps o derrame de Costa e Silva.
O grana finale do sexto e ltimo ato do FIC, duas eliminatrias e uma
final em cada fase, poderia perfeitamente ser uma montagem de colher
para a linha dura do governo militar. O pano de fundo do palco seria
muito mal iluminado e, de qualquer ponto da platia, no se veria
claramente cenas de aplicao de torturas e at de execues, frente 
escalada da esquerda radical. O que se via num primeiro plano era
profusamente iluminado por spots coloridos: o povo a retirar-se do
Maracanzinho cantarolando e assobiando "Love Is AH", ainda embasbacado
com o monumental show de Wilson Simonal, que deixara de queixo cado at
os gringos experts na matria. Aquela cena feliz, em ritmo de Brasil
Grande, precisava ser exportada.
Em 28 de maro de 1969, o Teatro Record  consumido pelas chamas,
deixando na memria da cidade de So Paulo espetculos musicais
histricos e inesquecveis, assistidos durante mais de dez anos.
Captulo 12
"SINAL FECHADO"
(V FESTIVAL DA TV RECORD, 1969)
Uma das marcas do dr. Paulo Machado de Carvalho era sua capacidade de
liderana, superando vaidades que reconhecidamente proliferavam nas duas
atividades onde exerceu seu comando - entre artistas de rdio ou
televiso e jogadores de futebol. Sua fama de lder carismtico chegou a
exageros que beiram a fantasia, mas alguns fatos comprovam sua notvel
capacidade de juntar personalidades antagnicas num grupo unido e
credenciado ao sucesso, mesmo em condies adversas.
O cataclisma futebolstico da Copa de 50 deixou uma cisma que perdurou
durante anos na seleo brasileira: a de que os jogadores da raa negra
no conseguiam suportar a carga de uma final, pipocando na deciso.
Durante anos os dois jogadores mais execrados pela catstrofe frente aos
uruguaios foram Bigode e Barbosa, dois negros. Esqueciam que o grande
capito da celeste olmpica tambm era um negro, Obdulio Varela, e que o
maior jogador desse scratch brasileiro, considerado o maior do mundo na
Copa, era outro negro, mestre Zizinho, eventualmente o mais inteligente
jogador que o futebol brasileiro conheceu. Nada disso era lembrado e a
Copa de 54 teria servido para confirmar tal fama atravs de outro
extraordinrio craque do passado, o grande Bauer.
Ao ser designado por Joo Havelange para chefe da delegao brasileira
da Copa de 58 - num perodo em que os cariocas dominavam o futebol
brasileiro, alimentados por uma rixa com os paulistas que, verdade seja
dita, era insuflada pela crnica esportiva -, o paulista dr. Paulo tinha
no apenas que superar esse problema que vinha de anos, como tambm
descascar o grande abacaxi que imperava na seleo brasileira, a cisma
de que os negros se mijavam de medo, especialmente nos jogos finais. Sua
primeira providncia foi formar uma comisso de jornalistas dos dois
estados, para depois concentrar a seleo longe das duas capitais, no
Hotel Arax, em Minas Gerais.
No primeiro dia, dr. Paulo reuniu todos os jogadores para uma saudao e
transmitiu a norma que desde aquele momento deveria ser seguida: no
salo de refeies, os jogadores seriam separados em duas turmas,
os brancos de um lado e os negros de outro. Foi um baque no grupo que
apenas comeava a ser formado. Os comentrios foram os piores possveis,
disseram que o dr. Paulo era ditador, racista, o diabo. Nenhum jogador
acreditava que o grande lder fosse capaz de tal discriminao,
reascendendo uma questo que se tentava superar. Desanimados, foram para
o salo, enquanto o chefe subiu para seu quarto. Quando desceu para o
jantar, o ambiente era tenso e de grande expectativa, com negros de um
lado e brancos de outro. Dr. Paulo entrou resoluto e foi direto
sentar-se junto com os negros. Foi uma surpresa que descarregou por
completo a tenso que acabara de se formar, os jogadores ficaram
estupefactos, os brancos foram os primeiros a aplaudir, e o dr. Paulo
acabava de conquistar, com um s gesto, amizades para toda a vida,
estimulando a vontade e o empenho de que precisariam para chegar 
vitria na Copa. Na conquista, basta lembrar, o grande lder foi Didi, a
maior revelao, Pel, a grande sensao, Garrincha, e o maior lateral
do mundo, Djalma Santos, atuando somente no jogo final - todos negros,
que jantaram com Paulo Machado de Carvalho naquela noite.
Da mesma maneira que tinha solues brilhantes, de cunho estritamente
popular, para os desafios no futebol, dr. Paulo tambm era fascinado
pela superstio. Usou um terno marrom em todos os jogos dessa Copa, que
repetiu na de 1962, quando tambm voltou com a taa. Transmitiu aos trs
filhos sua ligao com a mstica e o culto da sorte atravs dos nmeros.
As_placas de todos os automveis da famlia Carvalho terminavam em sete,
a Rdio Panamericana, futura Jovem Pan, tinha o prefixo de PRH 7, a TV
Record era canal 7. Se no fosse sete, tinha que ser nove ou treze. A
Rdio Record era PRB 9, a TV Rio era canal 13, o endereo das Emissoras
Unidas era avenida Miruna, nmero 713, o dia 7 de cada ms foi escolhido
para o clebre Show do Dia 7. Enfim, o culto cabalstico estava sempre
presente nas atividades e na criatividade que dr. Paulo tanto
incentivou.
Da mesma maneira que no h mal que no se acabe, inversamente, no h
bem que sempre dure. O ano de 1969 no foi nada feliz para os Machado de
Carvalho. Em janeiro, o edifcio da avenida Paulista, onde se localizava
a torre de transmisso do canal 7, pegou fogo. Em 28 de maro, um
incndio se alastrou a partir do camarim de Roberto Carlos, e o Teatro
Record Consolao foi destrudo. s 17h45 de domingo, 13 de julho, ou
seja, dia 13 do ms 7, surgiram chamas nos fundos do Teatro Record
Centro, que ficou quase inteiramente arruinado, sobrando a fachada e
algumas paredes externas. A histria da msica brasileira  perdeu em
menos de seis meses os palcos de algumas de suas maiores conquistas.
Foi o ano da epidemia de incndios na TV Record, que ningum acreditava
terem sido acidentais, mormente pelo fato de que no mesmo 13 de julho,
menos de trs horas depois do fogo no ex-Paramount, os estdios da TV
Globo na rua das Palmeiras tambm foram destrudos por um incndio.
Nunca foram devidamente esclarecidos, embora os proprietrios
acreditassem que tenham sido atos terroristas. H uma concordncia
tcita que a inacreditvel seqncia de incndios nas diversas
dependncias da TV Record abateu de tal forma o nimo dos Machado de
Carvalho que da em diante eles comearam a perder o entusiasmo pela
tnica que os tornou famosos, rdio e televiso. A Record entrou em
parafuso.
Com a moral no fundo do poo, sem a maioria dos astros que vinham
brilhando desde 1965 e, compreensivelmente, at desorientada, a direo
da emissora acreditava que programas polmicos eram uma nova tendncia
na televiso, podendo ser a chave do sucesso para tentar salvar a
audincia e a receita dos comerciais, que caa a olhos vistos. Os
anunciantes ficavam exauridos porque, com um pequeno acrscimo ao que
lhes era cobrado pela Record para cobrir apenas a praa de So Paulo,
poderiam alcanar o Brasil todo anunciando na TV Globo.
Em decorrncia da represso, legalizada pelo AI-5, a vontade de
polemizar poderia estar recalcada, e as pessoas mais dispostas a
discutir e at brigar. Partindo desse raciocnio, o produtor Carlos
Manga imaginou um programa baseado num tribunal onde o convidado era
colocado na situao de ru, acusado, questionado, defendido e julgado.
Era preciso incluir na equipe de participantes fixos - acusadores,
defensores e jurados - elementos dispostos a assumir o tipo canalha,
utilizando sem o menor pudor argumentos, provocaes e artimanhas de
quaisquer procedncia, para descontrolar o convidado e escandalizar o
espectador. Outro grupo de componentes do programa, varivel
semanalmente, faria o contraponto com tiradas engraadas que aliviariam
a tenso. Assim se misturavam viles como Slvio Luiz e Clcio Ribeiro
com as adorveis figuras de Aracy de Almeida e Adoniran Barbosa.
O convidado em julgamento no Quem Tem Medo da Verdade?, ttulo do
programa, era em geral um astro do elenco da Record. A armao de
pssimo gosto e altos cachs, um Btg Brother da poca, atingiu ndices
to elevados de audincia, aquilo que a Record mais precisava, que a
premiada Equipe A complacentemente deu um jeito de encaixar esse
mundo co no V Festival, programado para novembro. De que maneira?,
perguntar o leitor sem entender como um festival possa ser de tal forma
afrontado. Misturando alhos com bugalhos. A malsinada idia de envolver
a competio de canes com debates desse naipe foi levada a srio, em
nada contribuindo para um festival onde seriedade  fundamental.
O V Festival da Msica Popular Brasileira foi realizado no Teatro Record
Augusta, o antigo cine Regncia, arrendado pela emissora e apresentado
por Paulinho Machado de Carvalho como a "casa de espetculos de
categoria, com ingressos pagos, para um pblico popular mas de
qualidade".
Em maio Solano Ribeiro se desligara da TV Record, pondo fim ao vnculo
do qual resultaram quatro eventos bem-sucedidos na Era dos Festivais.
Solano resolveu ir para a Alemanha, e a Record decidira mudar o rumo de
sua programao, desistindo dos musicais, que j tinham dado flor. O
assistente do IV Festival, Marco Antnio Rizzo, assumiu sua posio.
No desfigurado V Festival, as canes seriam avaliadas por um jri
oficial mas, logo depois de apresentadas, deveriam ser submetidas a um
tribunal formado por dois grupos de debatedores adversrios que,
esperava-se, deveriam se comportar entre o engraadinho e o histrinico.
A ordem era polemizar. Aps a execuo de uma msica, o "promotor" faria
acusaes contra a letra e a melodia. Um "advogado de defesa" rebateria.
A, cada membro do grupo de jurados daria sua opinio. Teoricamente nada
disso deveria influir no julgamento do jri oficial, este sim nos moldes
dos festivais anteriores, s que com direito a comentrios ao vivo.
O cenrio expressionista de Ciro Del Nero era do estilo medieval,
remetendo propositadamente  cena da condenao de Joana D"Arc. Os
pobres dos intrpretes estariam num plano inferior ao do tribunal, para
se sentirem esmagados pela acusao e jurados.
No contente, a direo do Festival, pela qual respondiam Rizzo e a
Equipe A, determinou ainda que seriam proibidas as guitarras, numa
atitude de censura que se casava de vu e grinalda com o prprio governo
militar. Com tais medidas, inacreditavelmente estapafrdias, esperava-se
transformar o V Festival da Record em quatro grandes programas de
televiso.
Para o Jornal Jovem Pan, um quarto de pgina dentro do Jornal da Tarde
dedicado s noticias da emissora dirigida por Tuta, as entradas para a
primeira noite do Festival estavam todas vendidas e 70 jornalistas
estariam em lugares reservados. Nilton Travesso iria produzir as trs
eliminatrias e a final. Como uma das 42 msicas classificadas no tinha
sido liberada pela Censura, foi feita uma substituio: entrou "Nas
Areias da Lua" (Onizete Marizinho e Saulo Farias) em lugar de "Clarice"
(Eneida e Joo Magalhes).
Logo no incio da primeira eliminatria, s 22h20 de sbado, 15 de
novembro, Blota Jnior, com sua verve admirvel, discorreu longamente
sobre a proibio das guitarras em virtude das manifestaes acaloradas
pr e contra a medida. Como no havia muita gente mesmo, a justificativa
se evaporou. O pblico no lotava nem os 400 lugares disponveis e o
balco estava quase vazio. Em compensao, o palco estava abarrotado com
trs amontoados de jurados e debatedores. Havia o jri constitudo pelos
maestros Gabriel Migliori, Herv Cordovil e Severino Filho (lder de Os
Cariocas), os radialistas Fausto Canova e Moraes Sarmento, o poeta Paulo
Bonfim e as cantoras Maysa e Aracy de Almeida. Noutra ala, um dos grupos
de debate, formado por jovens supostamente agressivos, prguitarra por
certo, que se apresentaram voluntariamente ante a recusa dos que tinham
sido sorteados na platia. Trocando em midos, desconhecidos emitindo
opinies imprevisves que nivelavam por baixo as eventuais consideraes
dos entendidos. D para acreditar? O segundo grupo de debates,
supostamente dos ponderados, era formado nessa noite por Agostinho dos
Santos, Joo de Barro, os jornalistas Liba Friedman e Arley Pereira, e o
radialista da casa Randal Juliano.
Aps a apresentao de cada msica, entravam em ao os debatedores,
para depois os jurados se pronunciarem. Saiam prolas e pedradas em
profuso nesse programa em que artistas experientes e consagrados como
Luiz Vieira, Miltinho, Paulinho Nogueira e Elza Soares, ou com
promissora carreira como Paulinho da Viola, Maria Creusa e Elton
Medeiros, se viam remetidos ao estgio de calouros diante de
consideraes que, em alguns casos, poderiam provocar gargalhadas ou
demonstrar sobeja ignorncia musical. Os achados no foram poucos. Aracy
de Almeida, de longe a mais espirituosa, considerou a candidata "Hoje 
Domingo" (Haroldo Barbosa e Raul Mascarenhas) "uma verdadeira bagulhada.
Estamos conversados". Quando Paulinho da Viola terminou "Sinal Fechado",
um dos representantes do grupo jovem rotulou-a "de verdadeira msica de
ninar defuntos". Maysa, uma das que dizia coisa
com coisa, avaliou "msica e letra de uma dignidade que estava faltando
nesse Festival".
O som era um problema que interferia no espetculo. Randal Juliano, do
grupo ponderado, mandou um espectador calar a boca, reclamou do som e
justificou no estar dando opinio sobre as msicas porque no conseguia
ouvi-las. Discretamente, algum da direo lhe ordenou: "Randal, ou voc
volta atrs e diz que era mentira que no estava ouvindo as msicas, ou
sai da imediatamente". Protestando, Randal saiu do palco.
O problema de som tambm se estendia aos intrpretes. Como a orquestra
ficou jogada num canto do palco, escondida do pblico, os cantores ou
no conseguiam ouvi-la (caso de Elza Soares), ou atravessavam o ritmo
porque o som chegava atrasado (caso de Djalma Pires).
Com algumas excees - uma delas era "Bola Branca", de Paulinho
Nogueira, cantada por Cludia e que iria se tornar conhecida como "O
Jogo  Hoje" -, a monotonia da maioria das candidatas foi a tnica dessa
noite que em nada se parecia com as dos festivais anteriores da Record.
Outras trs excees foram classificadas: "Gostei de Ver" (Eduardo Gudin
e Marco A. Silva Ramos) com Mrcia e os Originais do Samba,
"Comunicao" (Edson Alencar e Hlio Matheus) com Vanusa, e "Sinal
Fechado" (Paulinho da Viola) com o autor. Completavam o grupo "Catend"
(Jocafi, Onjas e I. Tavares) com Os Caulas e "Hei, Mister!" (Ary Toledo
e Chico de Assis) com Ary Toledo, a nica que teve faixas e torcida. Na
reapresentao das classificadas, metade do pblico j tinha se mandado
para suas casas.
A no ser pelas quatro excees, as msicas foram consideradas sem
criatividade, a platia se mostrou indiferente e desanimada, e o pior de
tudo  que o objetivo da polmica, no qual a produo punha tanta f,
no foi alcanado, ficando mais na rea da fofoca que do debate.
Salvaram-se os que entendiam, no tinham parti pris e sabiam se
expressar, como Fausto Canova.
O esquema montado no agradou nada a cantores e compositores e alongou
inutilmente o programa, que s terminou por volta de duas da manh. Nilo
Scalzo escreveu em O Estado de S. Paulo que essa eliminatria
transformou o festival de msica em "mais um espetculo de televiso com
o tempero da vulgaridade como ingrediente obrigatrio para garantir
audincia e pontos do Ibope". Talvez nem isso.
"Responda: voc j viu festival pior do que este?" era o ttulo
estampado no Jornal da Tarde de 22 de novembro. A matria conclua: "o
que ele realmente merece  que a msica de Paulinho da Viola no se
classifique entre as primeiras, porque  boa demais". Os concorrentes
tambm no estavam gostando: "Esto matando tudo, antes era um festival
de msicas. Agora virou um festival de polmicas, as estrelas so o
grupo de debates e o jri. O cantor e a msica so complementos",
declarou Tom Z no ensaio para a segunda eliminatria.
A produo deslocou a posio da orquestra mas o formato seria o mesmo,
variando apenas alguns dos debatedores. No adiantou muito. Maria Odete,
com um decote pronunciado em seu vestido vermelho e verde, reclamou que
no ouvia a orquestra ao cantar "Monjolo" (Dino Galvo Bueno e Eric
Nepomuceno). Antes dela, "Infinito" (Reginaldo Bessa), foi muito
aplaudida pela numerosa torcida feminina que saudava com faixas e
cartazes o cantor Agnaldo Rayol, pouco importando o que cantava.
Aps a apresentao de "Bola pra Frente" com Tom Z, o "acusador" Slvio
Luiz, marido da cantora Mrcia, pediu a palavra: "Eu vim aqui mais para
me redimir das acusaes que fiz contra Tom Z no programa Quem Tem Medo
da Verdade?. Mas infelizmente tenho que confirmar o que disse naquele
programa. Tom Z  mesmo uma besta quadrada". Sem comentrios.
Depois do baiano, entrou Moacyr Franco para defender "Vem Enquanto 
Tempo", dele e Fernando Lona. Apareceu com uma guitarra, ganhou aplausos
da turma pr, e, no meio da msica, surpreendeu a todos batendo no
instrumento com um pedao de madeira, para obter aprovao da turma
contra. Aps aquela cena de pastelo, enquanto os jurados davam seus
recados, os autores desinteressados liam revistas e conversavam com o
auditrio. A anlise de Maysa definiu o que pensavam: "A msica 
pssima. E quem nasceu para ser Moacyr, nunca chega a ser Rogrio
Duprat". A dcima terceira concorrente foi "Moleque" com Luiz Gonzaga
Jnior, que parou no meio e recomeou, o que no prejudicou sua
apresentao. Foi uma das classificadas, alm de "Tu Vais Voltar"
(Ribamar e Romeu Nunes) com Antnio Marcos, "Al, Hel" (Nonato Buzar)
com Edgard e Os Tais, "Infinito" e "Monjolo". Ainda faltava uma etapa.
Aos trancos e barrancos, o V Festival teve seqncia no sbado seguinte,
dia 29 de novembro, com a participao de vrios cantores conhecidos:
Marlene, Moreira da Silva, Slvio Csar, Noite Ilustrada, Isaura Garcia,
Clara Nunes e Agnaldo Rayol que, para variar, tinha a maior torcida. A
porta do teatro, estacionaram os nibus, certamente fretados, dos
associados do F Club Agnaldo Rayol, que ingressaram no teatro,
provavelmente sem pagar, com o objetivo de mais uma vez saudar seu
dolo. Com o Trio Mocot ele defenderia a msica mais encrencada com a
Censura, "Clarice", de Eneida e Joo Magalhes, afinal liberada, e que
foi a ltima candidata da noite, para alvio de quem estava presente e
dos telespectadores do canal 7.
Ningum gostou de ter participado dessa eliminatria. Nem Tom Z, que
foi classificado, nem Marlene, que ficou nervosa e no conseguiu a
classificao, nem Isaura Garcia, que conseguiu. O comentrio da maioria
dos competidores era curto e grosso: a falncia dos festivais.
Foram classificados "Sou Filho de Rei" (Joo Mello e Fernando Lobo) com
Clara Nunes, "Primavera" (Lupicnio Rodrigues e Hamilton Chaves) com
Isaurinha, "Casa Azul" (Roberta Faro) com a prpria, "Jeitinho Dela"
(Tom Z) com ele e os Novos Baianos e "Clarice" com Agnaldo.
"Aqui no pode sentar, est reservado", diziam os guardas e dois homens
de camisa vermelha aos que tentavam ocupar as trs primeiras filas do
Teatro Record Augusta antes da final no dia 6 de dezembro. Eram os
lugares para as fs de Agnaldo Rayol, a torcida mais bem fornida de
todas, com retratos, faixas e cartazes de seu dolo.
Pelos aplausos, o primeiro concorrente da noite, "Gostei de Ver", de
Eduardo Gudin e Marco Antnio Ramos, com Mrcia e os Originais do Samba,
deveria ser o grande favorito do pblico. De violonista com diversas
aparies nos programas musicais da Record, Gudin, que havia estreado em
festival no ano anterior, despontava agora como compositor de samba e,
anos mais tarde, seria o nico paulista com uma obra equiparvel aos
clssicos Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini. Em seguida, a loirssima
Vanusa defendendo "Comunicao" com grande parte dos mais jovens a seu
favor, antecedeu "Sinal Fechado", que contava com a preferncia dos
entendidos e dos msicos. Eram as trs melhores canes da final. Da em
diante, uma ou outra animava o auditrio, mas sobraram vaias para todo
mundo, inclusive Agnaldo, recebido com confetes e serpentinas pela sua
tropa. Foi o ltimo concorrente da final. A idolatria que gozava era
tamanha que ao ser anunciado o nome do melhor intrprete, Antnio
Marcos, as "agnaldetes" partiram para a ignorncia contra os torcedores
rivais, rapazes na maioria.
Antes de apresentar as primeiras classificadas, Blota Jnior e Snia
Ribeiro estavam carecas de saber que da para a frente as vaias iam
engrossar. No deu outra. Depois da fria recepo para a quinta
classificada, "Monjolo", composio e interpretao num estilo
considerado superado em termos de festival, o pblico reprovou em peso a
deciso de atribuir apenas a quarta colocao a "Gostei de Ver" com uma
vaia consistente e clamores de "Primeiro! Primeiro!" dirigidos aos
jurados, a ponto de Mrcia mal conseguir ouvir os Originais do Samba. A
platia exigiu um bis, foi atendida, e continuou gritando "Marmelada!"
durante a apresentao das demais.
Com concorrentes e penetras por todos os cantos, mal deixando espao
para os intrpretes, o palco era sede da mais completa anarquia. Mais
parecendo um bando de papagaios de pirata na tela do canal 7, cada um
entrava e saia quando bem entendesse, gesticulava com o pblico a seu
bel-prazer, compondo as imagens finais do que tinha sido o Festival.
Pulando de contentamento pelo terceiro lugar dado a "Comunicao",
Vanusa, de vestido longo, mal conseguia se ouvir, tapando os ouvidos
para no desafinar. Quando a segunda colocada foi anunciada, Agnaldo
Rayol, de palet sem camisa e uma corrente metlica pendente no peito,
soltou a voz em "Clarice", acompanhado pela orquestra e pela autora
Eneida, que milagrosamente conseguiu um espao para tocar seu violo.
Abrindo caminho para chegar ao microfone, Blota Jnior anunciou o trofu
SIGAM para a melhor letra, "Moleque" de Gonzaguinha, e o prmio de
melhor arranjo para a msica tambm vencedora do Festival, "Sinal
Fechado". Segundo se comentava nos bastidores, foi a maior justia feita
em festivais de msica no Brasil. De camisa esporte de mangas curtas,
Paulinho se abria num vasto sorriso sob os aplausos dos que lotavam o
palco, posicionando-se ao violo para cantar sua msica, a mais difcil
de ser ouvida no meio daquela balbrdia generalizada. Vanusa, Nonato
Buzar, cantores, msicos e at funcionrios da TV Record, demonstrando o
reconhecimento pela sua vitria, vieram at a boca de cena para pedir
silncio, no que conseguiram ser atendidos em parte, para que o eufrico
compositor cantasse "Sinal Fechado".
Paulinho da Viola foi acompanhado pela orquestra no arranjo que o
maestro Gaya escreveu para a seo de cordas baseado na parte de violo
escrita pelo autor. A composio no tinha um ritmo definido,
iniciava-se com um leve toque de chorinho, mas sbito, aps uma pausa, o
ritmo se perdia, quase um ad libitum, criando uma sensao de gnero
musical indefinvel. "Sinal Fechado" foi a composio mais estranha
entre  todas as vencedoras da Era dos Festivais. Estranha e
atraentemente hipnotizadora, um canto de sereia como uma conhecida
cano americana do repertrio de Nat King Cole, "Nature Boy". Era to
deslocada na obra de Paulinho, com suas mudanas rtmicas, seus
intencionais acordes arpejados de nona e o evasivo dilogo de sua letra,
que, anos depois, quando Chico Buarque gravou-a, muitos pensaram que
fosse sua.
Antes de compor a msica, Paulinho, como a maioria dos artistas
brasileiros, passava pela sensao de isolamento diante da partida de
colegas para fora do pas, sentia o clima pesado das pessoas se falarem
sem nada dizer. Havia at um amigo seu que dizia sempre "Temos que
conversar assuntos importantes", e apesar de se cruzarem com freqncia,
nunca conversavam.
Durante anos de sua vida, Paulo Csar Batista de Faria, filho do emrito
violonista do conjunto de choro poca de Ouro, Csar Faria, tomava um
nibus para ir ao centro da cidade ou ao cursinho preparatrio para o
Colgio Pedro II, passando defronte ao monumento dos pracinhas, na praia
do Flamengo, que, da janela, observava com prazer. Em 1969, acredita ter
tido um sonho cujas imagens ficariam gravadas fortemente em seu
subconsciente, retornando mais de uma vez, como um delrio. No sonho,
Paulinho embarcava num nibus nesse local e via algum l na frente com
quem desejava falar. Como o nibus estava muito cheio, tinha que se
comunicar por sinais, que eram correspondidos. O veculo parava
exatamente no mesmo ponto, como se tivesse se movimentado e, ao mesmo
tempo, permanecido no mesmo lugar. A pessoa saltava, enquanto ele, ainda
de dentro, tentava inutilmente continuar a comunicao. Constantemente
repetido, esse desvario foi a inspirao da msica, evoluindo para a
cena de duas pessoas que se avistam em dois carros parados no sinal,
tentam se falar rapidamente enquanto o sinal ainda est vermelho, pouco
conseguem, e o sinal fica verde.
Na letra de "Sinal Fechado" ("Ol como vai?/ Eu vou indo, e voc, tudo
bem?"), a dificuldade do dilogo ("pois , quanto tempo/ ... me perdoe a
pressa"), o isolamento na cidade ("precisamos nos ver por a/ Pra
semana, prometo, talvez"), a necessidade de fuga ("por favor telefone,
eu preciso beber alguma coisa...") e o final sem fim ("adeus...
adeus..."), refletem a mordaa da comunicao. Para a historiadora
Angela de Castro Gomes,  a melhor das msicas de festival com conotao
poltica, elaborada em pleno regime militar. Paulinho, que jamais
pretendeu fazer uma msica retratando esse perodo, fez questo de dar
esse carter pesado ao lirismo da composio atravs do arranjo e de sua
interpretao fria. Foi cobrado para fazer outras no mesmo estilo e anos
depois fez o samba "Roendo as Unhas", com apenas quatro acordes e to
incomum que no tem uma resoluo tonal muito definida.
Mal terminou de cantar "Sinal Fechado", Paulinho foi levantado nos
ombros por Agnaldo Rayol, no meio da confuso que tomava conta da final
de mais um festival da TV Record. A cortina se fechou com o pblico
gritando e os ganhadores sendo cumprimentados por concorrentes, msicos
e at jurados. Paulinho chorava abraado  esposa, sem condies de
transmitir aos reprteres o grau de emoo que vivia.
Com essa vitria realizou um cross over de sambista para astro de
primeira grandeza sem perder um pingo de sua dignidade, a mesma dos
maiores bambas da msica brasileira. Seus prmios foram 10 mil cruzeiros
novos e o trofu de primeiro lugar. Nessa noite, seu sobrenome artstico
poderia ganhar um aposto que sua modstia jamais permitiria: Paulinho da
Viola de Ouro.
Os prmios foram entregues no sbado seguinte  final, mas, antes disso,
na segunda-feira, a TV Record expediu um comunicado informando que o
quarto lugar era para "Tu Vais Voltar", derrubando "Gostei de Ver" para
quinto, e "Monjolo" para sexto. Foi a ltima rata do V Festival da
Record.
Na mesma proporo em que o noticirio da imprensa - que nos festivais
anteriores ocupava muitas vezes uma pgina inteira com anlises,
previses, letras e crticas posteriores - foi consideravelmente
limitado, os discos com as 36 finalistas em trs volumes lanados com
estardalhao pela Philips foram reduzidos a um LP, As Finalistas,
contendo 12 das 15 finalistas, interpretadas pelos contratados da
gravadora. Por esse motivo, "Sinal Fechado" era cantada pelo MPB 4,
"Clarice" ficou de fora, "Comunicao" era cantada por Regininha, Malu e
Dorinha, "Tu Vais Voltar" por Ruy Felipe, mas "Gostei de Ver" pode ser
gravada pela prpria Mrcia. Foi tambm lanado um LP da RGE com 11
msicas gravadas ao vivo, nem todas finalistas, em uma capa negra
inexpressiva. No inclua nenhuma das trs primeiras colocadas, nem
mesmo em interpretaes diferentes. Paulinho da Viola gravou "Sinal
Fechado" em compacto da Odeon, Agnaldo Rayol gravou "Clarice", tendo
"Infinito" no lado B, em compacto da Copacabana e Vanusa fez sucesso com
o compacto duplo da RCA que tinha "Comunicao", tambm gravada por Elis
Regina no seu LP da Philips ...Em Pleno Vero,
de 1970. Oito anos depois Elis incluiu "Sinal Fechado" no show e disco
Transversal do Tempo.
Malgrado tenham demonstrado uma louvvel sensibilidade, aliada 
independncia de opinio, conferindo o primeiro lugar a uma criao to
original quanto misteriosa, os senhores jurados deixaram escapar uma
oportunidade que poderia pelo menos redimir aquele que seria o ltimo
festival da TV Record. A redeno poderia ter-se dado desde a primeira
eliminatria, onde a quarta concorrente era interpretada por um
espalhafatoso bando de trs cabeludos, trajando capas psicodlicas, e
uma garota espevitada com um espelho na testa. A msica que defenderam,
e que no se classificou, era "De Vera" (Antnio Carlos Moraes Pires e
Luiz Galvo) e o grupo, os Novos Baianos, formado por Moraes Moreira (o
autor, Antnio Carlos M. Pires), Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvo e
a garota Baby Consuelo. Iriam botar pra quebrar logo em seu disco de
estria, Ferro na Boneca, no qual "De Vera" seria o primeiro sucesso,
projetando o grupo nacionalmente. Os Novos Baianos tinham sido
contratados por Joo Arajo da RGE, eram empresariados por Marcos Lzaro
e habitavam o Hotel Paramount na Boca do Lixo. Antes do Festival eram
reconhecidos na cidade, a ponto de serem cumprimentados at por
policiais que superavam a resistncia natural a seu aspecto espantador,
porque tinham abafado no programa Quem Tem Medo da Verdade? como
advogados de defesa de Tom Z - onde argumentaram com msicas
improvisadas em versos como este: "As feras do Manga (Carlos Manga)/ so
bem domadas/ com pur e cach/ mas quando chegam em casa/ mandam brasa
no i-i-i". A suave e ingnua "De Vera" ("Falando de Vera/ e da
primavera"), no love das primeiras composies de Moraes e Galvo, era
um samba chegado ao rock com muito suingue e foi ovacionada durante a
apresentao naquela primeira eliminatria. Os Novos Baianos, que tambm
fizeram coro para Tom Z em "Jeitinho Dela", se consagraram na dcada de
1970 como das mais conseqentes propostas na msica brasileira.
Como programa de televiso, esse Festival no foi nada para Paulinho
Machado de Carvalho. "O balo dos festivais na televiso j estava
murcho desde 1968 e a Record j pressentia que esse modelo de programa
estava em declnio", completou. No foram s os incndios. Para Blota
Jnior, tudo aquilo que a Record fez ficou prejudicado por uma srie de
acontecimentos, entre os quais os incndios. Neles, o canal 7 perdeu
praticamente todo o seu equipamento por duas vezes seguidas. Se a
programao que foi obrigada a produzir - aps o primeiro incndio nos
estdios - criou o indito cenrio que nenhuma outra emissora tinha, os
rostos e a vibrao espontnea da platia participativa do Teatro
Record, os incndios subseqentes dos dois teatros destruram
precisamente esse cenrio fundamental, responsvel pelo vnculo que se
formou com o pblico.
Alm disso, a relao que a Record tinha com os artistas era a de uma
famlia. Muitos dos grandes nomes da msica brasileira ingressaram como
semi-amadores na Record, vivendo a fase romntica em que se fez a
histria do perodo mais brilhante da msica popular brasileira na
segunda metade do sculo XX. Havia um grau de profissionalismo bem
remunerado, mas a relao tinha o carter da amizade. Essa relao
nasceu, cresceu e acabou na fase urea da Record.
A aura que se mantm nos festivais da Record tem uma razo de ser: eles
foram realizados numa emissora musical como conseqncia do que j vinha
acontecendo, fizeram parte de um contexto onde havia um grande programa
musical por dia, nos sete dias das semana. O espectador do canal 7 era
uma pessoa encantada com a msica, uma pessoa que tinha prazer em ouvir
msica, que se interessava por msica, que discutia e participava do que
acontecia na msica. Esse era precisamente o pblico dos festivais.
Foi uma lstima que o quinto e ltimo Festival da Record tenha sido to
melanclico. Em compensao, com apenas dois dos festivais anteriores,
os de 1966 e 1967, a TV Record  mais lembrada na Era dos Festivais que
qualquer outra emissora de televiso brasileira.
Captulo 13
"BR-3"
(V FIC/TV GLOBO, 1970)
Sob a presidncia do general Emlio Garrastazu Medici, amigo ntimo e
sucessor de Costa e Silva, aps os pouco menos de trs meses em que o
pas esteve sob o comando da junta provisria formada pelos trs
ministros militares, alcunhados maldosamente de "os trs patetas", o
terrorismo urbano sofreu perdas considerveis. Foi "um dos perodos mais
repressivos, se no o mais repressivo da histria brasileira", afirma o
historiador Boris Fausto. Segundo o jornalista Elio Gaspari, no final de
junho de 1970, estavam desestruturadas todas as organizaes que algum
dia chegaram a ter mais de cem militantes. Restava apenas um lder de
destaque, o capito Lamarca, que se embrenhara no interior da Bahia e
cedo ou tarde seria capturado. Questo de tempo.
Durante o governo Medici, a partir de 1970, o Brasil viveu um clima de
expanso. Para alguns simpatizantes, era indcio de que ocorria um
milagre. A massa da populao tinha a ntida sensao de prosperidade,
para a qual a conquista da Copa do Mundo de Futebol ajudou em muito,
como reafirmao da grandeza e confiana no pas. "Todos juntos, vamos/
pra frente Brasil, Brasil/ salve a seleo..." diziam os versos de
Miguel Gustavo comemorando as vitrias da seleo canarinho no Mxico,
cantados por um coro de 90 milhes de pessoas.
O "Milagre brasileiro" era exaltado em nmeros contundentes, do
crescimento do PIB mdio e da reduo da taxa de inflao; em
realizaes reconhecidas, como a rodovia Transamaznica anunciada em
junho daquele ano; em adesivos nacionalistas nos vidros dos automveis -
"Ningum segura este pas" ou "Brasil, ame-o ou deixe-o". Na economia,
tinha-se a impresso da adio de uma dose de fermento no bolo que
crescia pelo acmulo de capitais, quando na verdade acontecia uma
concentrao de renda favorecendo determinados setores exceto o dos
trabalhadores de baixa qualificao.
A TV Globo, que vinha expandindo sua rede desde 1968, atingia predomnio
macio atravs de uma mquina bem azeitada, de uma imagem e programao
uniformes - depois conhecidas como Padro Globo  de Qualidade,
idealizado por Boni - difundidas por todas as afiliadas. Beneficiou-se
ainda com o crescimento do nmero de aparelhos de televiso domsticos,
alcanando 40% das residncias urbanas em conseqncia das facilidades
de crdito pessoal. Em 1970 a Globo j tinha adquirido os 49% de seus
associados norte-americanos, o Grupo Time Life, mas no conseguiria se
livrar de uma pecha para o resto de sua existncia: de docilidade para
com o regime militar, "Docilidade  eufemismo", contestaro uns e
outros, os que sabiam das coisas.
O crescimento da rede se refletiu nos antecedentes do V FIC. Prometendo
uma transmisso a cores para toda a Europa e um documentrio de 60
minutos feito pela Rdio Televiso Francesa com equipamento da EMI
inglesa, o diretor da TV Globo Walter Clark se afinava perfeitamente com
a euforia que se apossou do Brasil no ano de 1970.
Por sua vez, o diretor geral do FIC, Augusto Marzago, eleito presidente
da Federao Internacional dos Organizadores de Festivais, enfrentava um
clima de desconfiana com relao  realizao do festival. O
Maracanzinho tinha sofrido um incndio em janeiro, as obras de
reconstruo estavam atrasadas e, para assegurar o festival e rebater
dvidas, a primeira providncia foi adi-lo. Depois de 45 dias na Europa
e Estados Unidos fazendo contatos, Marzago, ligeiramente mais gordo,
sem o bigode e com gravatas espalhafatosas, regressou confirmando que o
FIC seria em outubro. Prometeu a presena de Andy Williams, Percy Faith,
Jane Powell, dos portugueses Carlos do Carmo e Amlia Rodrigues como
convidados e afirmou que seria seu ltimo ano de festival.
Gradualmente o festival se transformava numa grande janela escancarada
para mostrar a felicidade do povo brasileiro. As odiosas vaias de cunho
poltico eram coisa do passado. Driblando no futebol e sambando no
carnaval, o povo agora torcia livremente por canes. To livremente que
no FIC anterior aplaudira uma cano inglesa mais que a brasileira. Sem
que ningum molestasse ningum. A liberdade manifesta na assistncia do
Maracanzinho era um smbolo vivo, talvez at mais valioso e eficaz que
as aes da AERP (Assessoria Especial de Relaes Pblicas) promovidas
no governo anterior. Claro, liberdade desde que no ofendesse a famlia
brasileira.
A TV Globo tinha plena conscincia do significado do FIC para o governo,
ao mostrar no exterior a imagem do povo brasileiro cantando e espantando
seus males. Tanto que, mesmo reconhecendo o prejuzo anual desde 1967,
quando investira 140 mil cruzeiros contra 240 mil da Secretaria de
Turismo, continuava investindo, passando agora a arcar com 3/4 partes
dos custos contra 1/4 da Secretaria, para quem tambm as despesas se
justificavam. Afinal de contas, as dezenas de artistas estrangeiros e
jornalistas convidados deixavam a "fortuna" de cerca de dez mil dlares
no Rio em roupas, instrumentos musicais e souvenirs adquiridos. "Isso 
receita para o pas!", reconheciam.
Ao mesmo tempo, a responsabilidade da maior parte do oramento a cargo
da Globo era um dos fatores que diminua o poder de Marzago. Aps
quatro anos seu contrato estava para expirar e, segundo se comentava em
conversas de bastidores, no havia inteno de renov-lo. Antes que isso
chegasse aos potins, Marzago pulou na frente. "Este ser o ltimo
Festival da Cano que eu promovo", declarou o homem do FIC em 3 de
outubro ao jornal O Globo.
Nessa altura j se tinha finalizado a triagem das concorrentes
classificadas. Como no ano anterior, So Paulo teria direito a cinco
vagas entre as 40 distribudas pelas duas eliminatrias do Rio. No dia
21 de agosto, no Teatro Globo  praa Marechal Deodoro, fora realizada a
eliminatria paulista com 20 msicas apresentadas por Marlia Gabriela,
Maria Cludia, Lvio Carneiro e Hilton Gomes. Entre as cinco que se
classificaram estavam "Sermo" (Baden Powell e Paulo Csar Pinheiro) com
Cludia e "Rio Paran" (Ary Toledo e Chico de Assis) com Tnico e
Tinoco. Pela primeira vez uma msica caipira concorreria ao Galo de
Prata.
No Rio, o cargo de coordenador musical era agora ocupado pelo vencedor
do II FIC, Gutemberg Guarabira. Depois de passar dois anos como chefe de
gabinete do presidente do Banco do Brasil, seu ento sogro, Gut foi
contratado como auxiliar do departamento musical do FIC, que era
coordenado por Paulo Tapajs desde a primeira edio. Houve um quiproqu
no seu pagamento e Paulo ficou to aborrecido que saiu. Gut ficou como
coordenador interino e com o tempo foi efetivado. Era eficiente, gil,
simptico e tinha uma vantagem: mesmo passando para o outro lado do
balco, gozava de slida amizade com os compositores que freqentavam
festivais. No fundo ainda era um deles.
Gut coordenou o grupo de trabalho que fez a peneira das inscritas
seguindo o mtodo de festivais anteriores: descartavam-se as fitas que
no tinham a menor chance e repassavam-se as trezentas e poucas
restantes, que constituam o chamado balaio, ouvidas com redobrada
ateno para se atingir a seleo de semifinalistas pelo Rio. Reunido
numa pequena casa prxima  sede da Globo no Jardim Botnico, o grupo
inclua alm de msicos, ex-jurados, caso de Jlio Hungria do Jornal do
Brasil, e um ex-concorrente, caso de Marcos Vasconcelos. Na reta de
chegada sobraram  cinco msicas que ningum queria deixar de fora, as
discusses se tornaram to acaloradas que Jlio e Marcos quase chegaram
s vias de fato. Jlio havia fechado com "Encouraado" de Sueli Costa e
Tite de Lemos, enquanto Marcos queria "Conquistando e Conquistado", de
Carlos Imperial e Ibrahim Sued. Quebraram o pau, "voou tinta para todos
os lados" e os dois tiveram que ser contidos para no se atracarem. A
soluo foi entrarem as duas, abrindo-se mais uma vaga e totalizando 41,
computadas as cinco de So Paulo, nico estado concorrente nesse ano
alm da Guanabara.
Duas semanas antes do incio do FIC praticamente todos os compositores
selecionados j tinham assinado o contrato de edio de suas msicas com
a editora Cannes. Porm Carlos Imperial, alegando que tinha uma editora
prpria, e os paulistas Adilson Godoy e Ary Toledo se recusaram, mas
receberam uma carta dando-lhes um prazo. Ficaram de resolver. Como era o
processo de edio de uma msica? E por que os demais compositores
tinham assinado?
Uma obra musical  considerada publicada quando  gravada, isto ,
registrada num disco. Anteriormente a prova de autoria de uma obra era a
publicao de uma partitura impressa por uma editora com quem o autor
celebrava um contrato. Cobrando uma porcentagem, a editora se
encarregava de defender a parte patrimonial da obra, esforando-se em
divulg-la, inclu-la em gravaes de cantores, enfim, explorar a obra
para poder auferir os dividendos a que tinha direito.
Com o advento das gravaes fonogrficas, a edio (impresso da
partitura) ficou sem sua funo primeira, passando a ser um mero
acessrio para efeito de prova de autoria. As editoras, ento,
transformaram-se em procuradoras ou cessionrias do autor para efeitos
patrimoniais, isto , o editor  quem autoriza gravaes e recolhe os
direitos autorais como representante legal do autor.  o que acontecia
no V FIC.
Com o tempo, os compositores de um repertrio considervel resolveram
constituir suas prprias editoras e, para evitar arcar com uma
infra-estrutura burocrtica necessria, passaram a entregar a
administrao de suas editoras, digamos menores ou particulares, aos
grupos editoriais que se formaram por iniciativa das gravadoras. Assim
os grupos editoriais, um brao das grandes gravadoras, administram a
tarefa das editoras pequenas em troca de um outro percentual.
No FIC, o procedimento para a edio das msicas seguiu em parte o
modelo do festival de San Remo. Neste, para se ressarcir das despesas de
organizar o festival que promovia uma obra indita, foi montada uma
editora que ficava com 50% dos direitos futuros ou ento abria mo de
porcentagem em troca de 2000 dlares por cano. Assim, o FIC tambm
montou uma editora prpria, a Cannes, com a qual todos os compositores
selecionados, uma boa parte iniciantes, assinavam um documento pelo qual
cediam os direitos de edio de suas composies no ato de inscrio.
Dessa maneira, o festival evitava que os eventuais proventos de seu
investimento com cada cano fossem depois parar nas mos de editores
que nada tinham investido e poderiam se beneficiar. Afinal a organizao
do FIC montava a competio, arcava com despesas de jurados, de
arranjos, acertava com os intrpretes quando necessrio, promovia a
apresentao das canes, pagava a infra-estrutura e ainda oferecia
prmios. Julgava justo receber uma porcentagem dos futuros resultados da
edio das canes.
Corriam rumores que a editora Cannes, representada pelo advogado Alberto
Rego, era ligada a Augusto Marzago e no  TV Globo como se propagava.
Fosse como fosse, ao menos algumas canes dos FIC, as mais celebradas
supostamente, eram candidatas a possveis rendimentos sob a forma de
edies e, vale recordar, tambm de gravaes. Efetivamente o FIC foi um
forte componente na criao da Sigla, que gerou a gravadora Som Livre da
Globo, como se ver.
De qualquer forma, aps alguns dias, dentro do prazo, Imperial, Adilson
Godoy e Ary Toledo recuaram e assinaram em branco com o FIC.
As 41 canes escolhidas eram ensaiadas inicialmente no auditrio da
Rdio Nacional e depois no ginsio ainda em obras. Animadssimos, os
componentes do grupo da fase de classificao apregoavam que nunca se
havia atingido uni nvel to elevado, incluindo-se composies dos
novatos Ivan Lins, Beto Guedes, Sueli Costa e Luiz Gonzaga Jnior, por
exemplo. Em funo da transmisso em cores para o exterior, o espetculo
de iluminao tambm prometia. "Ser o mais lindo de todos os
festivais", antecipava Marzago, atarefado com seus 140 convidados do
exterior e mais 160 que vieram por conta prpria, acrescentando: "e o
som vai ser maravilhoso".
O tititi sobre o som era tradio nos FIC. Nos ensaios do Maracanzinho
at msicos da orquestra, sob a batuta de Mrio Tavares ou Leonardo
Bruno, chiavam a respeito. Ningum conseguiu entender uma palavra da
letra cantada por Cludia, uma cantora elogiada pela clareza da dico.
O eco era tal que nem ela se ouvia. Havia caixas penduradas no teto por
fios de ao, direcionadas para o pblico da rea superior, e outras,
presas nas grades da arquibancada, voltadas para o piso trreo. O
coordenador musical Gut apressava-se em desfazer o temor, "essas caixas
vo ser todas trocadas". Um dos responsveis refutava: "No vamos tirar
as caixas. Um amplificador quebrou e quando for substitudo vai ficar
tudo uma maravilha". Quatro dias antes da abertura, Marzago foi dar uma
espiada no ensaio, ficou 15 minutos e caiu fora rapidinho, antes que lhe
perguntassem sobre o som. A cantora Ellen de Lima declarou aps o ensaio
que "o som ainda era imaginrio", aludindo ao grupo que iria participar
da primeira eliminatria, o Som Imaginrio, que, ao contrrio da maioria
dos novos grupos escalados para o V FIC, no estava nem um pouco
preocupado com a produo cnica.
Assim, antecedido de promessas auspiciosas, exceto no item som, o V
Festival Internacional da Cano foi iniciado s 20h35 de quinta-feira,
15 de outubro de 1970 - sendo transmitido em cores para os Estados
Unidos e Europa - com Hilton Gomes e Arlete Sales saudando pblico e
telespectadores de todos os cantos.
Ele:
- O Brasil volta a cantar para o mundo! 
Ela:
- Boa noite Brasil, bero da Msica Popular!
Entra o segundo casal de apresentadores, o narrador de futebol Geraldo
Jos de Almeida, no apogeu de sua carreira televisiva, e Maria Cludia.
Ele:
- Lindo, lindo, lindo! Brasil que  tricampeo do mundo. Esta  a Copa
Mundial da Cano! Pra frente Brasil!
Dispensemos outras frases nesse roteiro apologtico para no arrebentar
o corao do prezado leitor. Vamos aos senhores jurados. Nesse ano, o
jri era formado pelos compositores Edmundo Souto e Francisco de Assis
Bezerra de Menezes (o fazendeiro de Barretos, autor de "Perfil de So
Paulo"), a cantora Rita Lee, o professor Reginaldo Carvalho, os
jornalistas Carlos Menezes, Eduardo Athaide, Srgio Noronha, Milton
Temmer, Nelson Motta, Reynaldo Jardim, Zevi Ghivelder, Luiz Carlos
Maciel, o presidente da Ordem dos Msicos, violonista Geraldo Miranda, o
diretor do MIS Ricardo Cravo Albin, o regente Henrique Morelenbaum e por
Paulinho da Viola, convidado para presidente. Foi ainda criado um jri
popular, com votao independente, formado por sete elementos escolhidos
entre o pblico, a ser presidido por Chacrinha que, ao surgir fantasiado
espalhafatosamente com sua famosa buzina de interromper calouros,
sacudiu o Maracanzinho numa evidncia de sua popularidade.
No novo palco os ttulos das canes, autores e intrpretes apareciam em
trs crculos iluminados acima das folhas de trs portas giratrias, por
onde surgiam os cantores. Os dois primeiros eram Maria (revelao de
cantora no FIC anterior) e Lus Antnio (tambm premiado em outros
festivais)  frente do grupo com seis msicos - todos negros vestindo
batas africanas coloridas, liderados pelo pianista Dom Salvador ao
rgo, para interpretar "Abolio 1860-1980", dele e Amoldo Medeiros,
gnero spiritual. "No, no se pode falar em Black Power ou coisa
assim", declarou a cantora quando indagada se a msica tinha carter
poltico no tocante a racismo. "Tem grande vinculao com a raa, razes
negras... mas sem intenes racistas, s musicais". A apresentao da
primeira concorrente, bastante aplaudida, dava a pista do que seria a
tnica desse ano, a produo cnica das canes alimentada pela soul
music. Sendo artistas negros ento, as chances eram maiores.
Os demais 20 concorrentes dessa noite alternaram-se entre cantores
convencionais - Cludia (muito aplaudida), Cauby Peixoto e Fbio, que
conquistou a platia defendendo a balada soul "Encouraado" (Sueli Costa
e Tite de Lemos) e os novos grupos, sobretudo dois deles, O Tero e o
Som Imaginrio. O Tero havia se formado sete meses antes e contava com
Jorge Amidem (guitarra), Srgio Hinds (baixo) e Vinicius Canturia
(bateria) para defender "Um Milho de Olhos", de Jorge e Srgio, com boa
receptividade. Os no-conformistas de cabelos compridos do Som
Imaginrio, s vsperas de seu primeiro disco aps acompanharem Milton
Nascimento, defendiam "Feira Moderna" (Fernando Brant e Beto Guedes),
sendo integrado por Z Rodrix (rgo e vocal), Fredera (guitarra), Lus
Alves (contrabaixo), Wagner Tiso (piano), Tavito (violo) e Roberto
Silva (bateria).
O mais comentado artista dessa noite, vencedor na votao popular e to
aplaudido quanto Fbio, usava cavanhaque e bigode, tocava piano e
cantava tambm sob influncia soul, "O Amor  Meu Pas", dele e Ronaldo
Monteiro de Souza. Era o espadado Ivan Lins, um dos componentes da
turma que se reunia s sextas-feiras na casa do psiquiatra Alusio Porto
Carrero,  rua Jaceguai, na Tijuca, para trocar idias, cantar e ouvir
suas prprias composies. Denominava-se Movimento Artstico
Universitrio, o MAU. Tambm faziam parte da turma Luiz Gonzaga Jnior,
Csar Costa Filho, Slvio da Silva Jnior e Aldir Blanc.
Dos shows intermedirios dessa noite, que no participavam da
competio, o mais aplaudido foi o de Paulo Diniz, com seu sucesso do
momento, "Quero Voltar pra Bahia (I Wanna Go Back to Bahia)". s 11 da
noite as luzes do ginsio j estavam apagadas.
No dia seguinte  eliminatria, o reservado presidente Medici fez chegar
 organizao do festival a confirmao de que iria receber os
jornalistas visitantes para uma audincia no Palcio das Laranjeiras. A
finalidade do encontro era, segundo o Jornal do Brasil, buscar "dar aos
estrangeiros uma melhor e maior imagem do Brasil no exterior", bem
diferente da que tinham na Europa, onde as informaes sobre o pas
estavam muito distorcidas. Ali estava o FIC para no deixar ningum
mentir.
No sbado 17 de outubro, a maioria das faixas ostentadas pelo povo
presente  segunda eliminatria, mais animado e numeroso que na
primeira, era de incentivo a Wanderla, em seu dbut no FIC ao defender
"A Charanga", dela e do novo compositor Dom (Eustquio Gomes de Farias,
autor de "Eu Te Amo Meu Brasil"), que formava dupla com Ravel. Definida
como xaxado-sow/ - mais uma que aderia  soul music, o gnero da moda -
agradou bastante, apesar de sua apresentao ter sido prejudicada por
uma pane na iluminao bem no meio da msica. Wandeca, em minissaia que
ouriou os marmanjos, recomeou depois que as luzes voltaram, teve que
interromper pela segunda vez por causa de nova pane de dez minutos e
afinal conseguiu levar "A Charanga" a bom termo, com seu jeitinho
cativante e a retaguarda de Marins e sua gente.
Antes dela j tinham se apresentado oito candidatos. O primeiro da noite
daquele sbado recebeu muitos aplausos, pois trazia para o palco o ritmo
que est no sangue dos cariocas, o samba. Era Martinho da Vila em seu
partido-alto "Meu Laiarai", acompanhado por Rosinha de Valena ao
violo e a Turma do Samba.
Se algum ainda tinha dvidas acerca da relao verdadeiramente
umbilical entre o carioca e o samba, deixou de ter na apresentao da
quarta cano. Ignorando totalmente a msica caipira do interior de
outros estados, a grande maioria da platia castigou pesado com uma vaia
de lascar dirigida  histrica dupla sertaneja Tnico e Tinoco
defendendo "Rio Paran". Alguns jurados riam, outros disfaravam o
desdm, provavelmente achando que festival no era programa das cinco da
manh na rdio de Botucatu. Os dois irmos cantadores foram at o fim
com a maior dignidade e nem deram pelota.
Vieram mais dois grupos, A Tribo (Nelson Angelo, o autor, Joyce, Novelli
e Toninho Horta) num baio de ttulo escalafobtico "Onoceonokot", e O
Grupo numa cano de ttulo boboca "E Coisa e Tal" (Eduardo Souto e
Srgio Bittencourt). Ambos precederam a concorrente recebida com mais
uma solene vaia, s que por outro motivo, a evidente apelao do
coadjuvante Carlos Imperial ao lado do cantor de "Conquistando e
Conquistado", Guilherme Lamounier. Fantasiado de ndio o fanfarro
Imperial conseguiu exatamente o que pretendia, ser vaiado. Enterrado
naquele cocar de penas e felicssimo, distribuiu beijos em penca e ainda
jogou suas duas sandlias para a platia, no desperdiando, como seu
habitual desiderato, a oportunidade de dar a nota de sua presena.
A dcima segunda concorrente foi a que mais agradou at aquela altura da
segunda eliminatria, a empolgante cano romntica "Universo no Teu
Corpo" com Taiguara, sozinho no palco, empunhando o microfone de mo e
cantando com o empenho previsto, como quem se despede para sempre do
pblico.
A mais aguardada atrao dessa noite era a dcima terceira concorrente.
Desde os ensaios que se comentava sobre Toni Tornado, o intrprete que a
dupla Antnio Adolfo e Tibrio Gaspar havia descoberto para transmitir o
que tinham imaginado para "BR-3", sua valsa que se transformava em soul
music na segunda parte. Com a participao do Trio Ternura, Toni, um
negro de quase dois metros de altura, seria encarregado de defender a
composio, tendo liberdade para improvisar. Entrou sob algumas vaias e
um burburinho que em instantes se transformou em silncio sob o impacto
de sua presena. Toni exibiu uma performance to espetacular, cantando e
danando no estilo de James Brown, que deu a todos a impresso daquela
ser a melhor msica de todas. Ficou to comovido com os aplausos que,
depois de cantar, desmaiou nos bastidores declarando ao se recuperar:
"Foi a emoo,  a primeira vez que eu participo de um festival, mas no
h de ser nada, a gente est aqui  para vencer". Prximo  cena, o
compositor Antnio Adolfo que deixara a cargo do quarteto de Osmar
Milito o acompanhamento, chorava de emoo.
Antes da ltima concorrente, ainda foram apresentados mais dois
componentes do MAU, Luiz Gonzaga Jnior, que no agradou muito ao
pblico mas punha f em sua composio "Um Abrao Terno em Voc, Viu
Me?", e Csar Costa Filho em "Diva", que nada acrescentou.
Finalmente a vigsima concorrente, o ltimo show da noite na
superproduo de Erlon Chaves para "Eu Tambm Quero Mocot" de Jorge
Ben. O talentoso maestro Erlon Chaves, com longa carreira na Rdio e TV
Tupi de So Paulo desde os 13 anos, arranjador em trs discos de Elis
Regina, diretor musical do I FIC, assumiu a funo de cantor porque nem
Jorge nem Wilson Simonal diziam estar livres naquela data. Achou que era
hora de tirar um sarro em sua carreira, promovendo sua apresentao
durante a semana anterior ao declarar que iria incendiar o Maracanzinho
vestindo um sarong amarelo. Acompanhado da Banda Veneno, que no deixava
por menos (trs trumpetes, trs trombones, um sax-alto, bateria,
contrabaixo, guitarra e ritmistas), alm de bailarinas, coro masculino e
feminino num total de 40 figuras, ele lotou o palco do FIC como ningum
tinha se atrevido antes. Com muito suingue, "Mocot" sacudiu o festival,
o pblico cantou, danou e aplaudiu de p. O negro Erlon Chaves, deixou
o palco consagrado como o mais srio rival do negro Toni Tornado no
duelo final marcado para a noite seguinte, domingo.
No deu outra. Na finalssima, "BR-3" com Toni, e "Eu Tambm Quero
Mocot" com Erlon se destacaram, assumindo as duas primeiras posies na
reta final nacional do V FIC assinalado pelos big shows e black music.
"BR-3", a favorita, foi a dcima segunda. Com o cabelo African look que
aumentava seu metro e noventa e quatro de altura, Toni Tornado entrou de
botas pretas at o joelho, calas e camisa caqui desabotoada com o peito
 mostra, onde um sol colorido pintado pelo maquiador Erick contrastava
com a pele escura, os braos abertos para cima com as mos espalmadas,
uma figuraa. Com ele, no backing vocal, o Trio Ternura, trs filhos do
compositor de "Ningum  de Ningum", Humberto Silva - Jussara e Jurema
em vestidos longos de mangas compridas, estampados com cores vivas, e
Robson, de camisa azul com uma manta vermelha pendurada ao ombro. Aps a
calma introduo gospel do piano os trs repetiam, como um eco, a
estrofe de oito compassos da primeira parte cantada tranqilamente por
Toni - "A gente corre/ e a gente corre/ na BR-3/ na BR-3/ e a gente
morre/ e a gente morre/ na BR- 3/ na BR-3" - que emendava no solo de
Toni com a mesma melodia e outra letra: "h um foguete/ rasgando o cu,
cruzando o espao/ e um Jesus Cristo feito em ao/crucificado outra
ve-e-e-z". No mesmo andamento  mdio-lento e diviso a 3/4, que induziam
a platia a balanar o corpo e braos, tudo era repetido mais duas vezes
com letras diferentes no solo de Toni, que acentuava cada vez mais as
inflexes soul. No arranjo do maestro Leonardo Bruno acontecia nesse
ponto uma chamada dos metais para a segunda parte, formada por riffs no
estilo funk, com o trio entoando apenas "Na be erre trs" repetidamente,
em andamento rpido e na diviso 4/4, enquanto Toni se soltava em frases
e exclamaes, em gritos desesperados como um piloto alucinado no seu
carro em alta velocidade, que poderia lev-lo  morte pela estrada BR-3.
No seu improviso tambm danava, rodopiando em passos que nunca tinham
sido visto antes no Brasil, produzindo uma coreografia espetacular com
uma agilidade estonteante, conseguindo um efeito semelhante ao de luzes
estroboscpicas. Um show! O pblico mal conseguia ouvir de tanto que
aplaudia, o tmido Antnio Adolfo, que estava ao piano, no se conteve e
foi abra-lo no palco. Toni Tornado acabou com o baile.
Antnio Viana Gomes, nascido em 1931 na cidade de Mirante do
Paranapanema, oeste de So Paulo, veio para o Rio com 11 anos e na
juventude freqentou o programa Hoje  Dia de Rock de Jair de
Taumaturgo, fazendo o que era moda na poca: dublar os cantores
americanos. Era um dos "mimiqueiros" na TV Rio dublando Chubby Checker
com o nome de Toni Checker, quando conheceu Carlos Imperial que
contratou-o como seu segurana encarregado de fazer uma presepada toda
vez que chegasse no seu carro  TV Continental para apresentar o
programa Os Brotos Comandam. Conviveu assim com Roberto Carlos, Erasmo e
Simonal, aprendeu as manhas dos astros e engajou-se no show Coisas do
Brasil especializado em levar a msica brasileira ao exterior. Depois de
uma temporada na Europa, Toni foi parar nos Estados Unidos, onde viveu
vrios meses na clandestinidade como lavador de carros, voltando ao
Brasil sob uma chocante cabeleira black power e falando ingls com
sotaque do Harlem. Foi contratado como atrao internacional de araque
por uma boate de reputao duvidosa nas cercanias da Praa Mau, centro
do Rio, com o nome de Johnny Bradford. Alm de cantar, danava no estilo
de James Brown e foi defender uma nota extra fazendo um showzinho com
sua mulher Edna, em outro inferninho barra pesada, o New Holiday, na
avenida Copacabana quase esquina de Princesa Isabel, o mesmo local onde
funcionara o club Poro 73 na poca da bossa nova. Foi l que Tibrio
Gaspar foi assisti-lo para avaliar se Toni, que tambm fora crooner do
conjunto de Ed Lincoln, tinha condies de defender no FIC sua
composio "BR-3".
Semanas antes, numa das viagens de nibus que fizeram a Belo Horizonte,
Antnio Adolfo mostrara a Tibrio a nova msica, no mesmo estilo de
"Tele Tema", tema de amor que ambos escreveram para a novela Vu de
Noiva, grande sucesso na TV Globo. Tibrio decidiu fazer uma letra
fotografando o momento em que se vivia, comparando-o com a estrada que
percorriam, a perigosa BR-3, antiga denominao da BR- 135, de 463
quilmetros que une o Rio a Belo Horizonte, notvel pelos muitos
acidentes prximos ao temeroso Viaduto das Almas. Era o momento das
conquistas espaciais, da juventude psicodlica, dos desmandos da
ditadura militar, disfarados no verso "e uma notcia fabricada/ pr
novo heri de cada ms". A msica foi oferecida a Simonal, amigo comum
da dupla, que a rejeitou por no se enquadrar na linha alegre em que
estava metido; a foram atrs de Tim Maia que estava arquivado pela
Philips, aguardando um lanamento bombstico, no podendo se expor
competindo no FIC; afinal, por sugesto do cantor Orlan Divo, Tibrio
foi ouvir Toni no inferninho de Copacabana.
Tibrio achava que "BR-3" necessitava de um intrprete engajado no
esquema Black Power para se encaixar na linha soul, em voga no festival
daquele ano e, como havia imaginado, ser danada na segunda parte. Viu
na figura de Toni a possibilidade dele reproduzir o gestual do movimento
negro americano e danar como quem flutua no ar, o que Michael Jackson
viria a fazer anos depois. Tibrio orientou-o na postura de um lder
negro na primeira parte e deu-lhe liberdade de improvisar na parte
danante. Em lugar de uma letra convencional, esta sugeria um "Guia para
improviso", um roteiro de palavras e frases tipo "Baby, baby, s morro
na BR-3" ou "Oh! I can"t love you na BR-3" que caram como uma luva para
Toni. No deu outra. Com o novo sobrenome Tornado, sugerido pelo
produtor Mariozinho Rocha da gravadora Odeon que preparava os discos do
festival, foi um furor na final nacional do FIC.
A ltima concorrente foi o grande happening da final nacional. Aquele
povo todo foi entrando pelo palco, a Banda Veneno em longas tnicas
vermelhas, o vasto coro feminino em batas amarelas, o masculino em cor
de abbora, Erlon Chaves com calas vermelhas e uma tnica prateada
estilo Mo com um cinto dourado, tudo bolado pela jornalista de modas
Ftima Ali. Qual maraj do Oriente, Erlon cantava sob a refrescante
brisa de grandes leques de plumas de avestruz, abanadas por um par de
"escravos" tambm negros. O regente Rogrio Duprat vestia um macaco
laranja de mecnico, no regia coisa nenhuma, virava as pginas ao lu,
incitando o coro a jogar as partituras para o ar. Ningum
parecia levar a srio a competio, estavam ali para fazer o povo se
divertir com o novo acpipe- o mocot.
Para os freqentadores do Jogral, o badalado bar paulista de Luiz Carlos
Paran, mocot no era s a nutritiva carne da pata do boi. O termo
designava as bem torneadas pernas das habitues, o achado que o assduo
freqentador Jorge Ben aproveitou para criar mais uma de suas letras sem
papo cabea, estribada no ritmo da palavra oxtona e no apelo de quem
sonha com uma nica coisa na vida, mocot: "... pois eu cheguei, to
chegado/ to com fome/ sou um pobre coitado/ me ajudem por favor/ bote
mocot no meu prato/mocot, mocot, mocot...". O mocot tomou conta de
todo mundo no Maracanzinho, at dos jurados. Sequiosa, Rita Lee cantava
"Eu quero mocot me, mocot pai", Erlon no teve dvidas, desceu do
palco seguido pela banda, ergueu-a nos braos e retornou com Rita no
colo, deixando o pblico alucinado com a festa de arromba.
Ao terminar de cantar "Eu Tambm Quero Mocot", Erlon tinha dado um
passo decisivo no cross over que pretendia imprimir em sua carreira.
Depois de anos atuando sob o manto recatado de arranjador, assumira o
papel de star para defender a msica de Jorge como um happening, por
sugesto do diretor da Philips Andr Midani. Erlon fora contratado pela
Simonal Produes de seu grande amigo, para esse novo projeto em sua
vida artstica. Naturalmente esperava ganhar. Como tambm esperavam
Taiguara, o preferido de Chacrinha, e Ivan Lins, criticado porque a
esquerda radical conclura que "O Amor  Meu Pas" era uma declarao de
amor ao Brasil. Quem no tinha nenhuma esperana de vitria eram os
componentes do Som Imaginrio, que ao tomarem conhecimento do boato que
o resultado j estava decidido, resolveram apresentar em sinal de
protesto, uma verso fake de "Feira Moderna", com um acorde s repetido
e sem nenhum sentido.
O resultado, aps uma homenagem a Luiz Gonzaga (e um conflito em que o
fotgrafo de O Globo Erno Schneider foi preso e liberado sob um protesto
pblico de seus colegas), decepcionou Taiguara que ficou revoltado com o
oitavo lugar, deixou Erlon Chaves feliz apesar do sexto lugar, promoveu
a turma do MAU com Gonzaguinha em quarto e Ivan Lins em segundo, que no
cabiam em si de contentes. Confirmando o esperado, a vitria coube a
"BR-3", provocando uma alegria incontida entre compositores e
intrpretes. Depois da reapresentao da vencedora, Tibrio e Toni se
abraavam chorando emocionados.
- No agento mais, bicho.  demais para mim - dizia o primeiro.
- Estou sonhando. Isso  um sonho. No  possvel - confessava o
segundo.
O jri nacional e o jri popular haviam premiado "BR-3" com o primeiro
lugar e ela iria representar o Brasil na fase internacional na semana
seguinte. Foram todos, compositores, intrpretes e msicos de A Brazuca,
festejar a vitria com champanha na casa dos pais de Tibrio Gaspar, D.
Isaura e seu Gaspar, no Jardim Botnico. s quatro da matina ainda
tiveram flego para encontrar Ivan Lins, Gonzaguinha, Csar Costa Filho,
Ruy Mausiti e outros num restaurante da Zona Sul. A turma do MAU tambm
estava feliz; tinha fechado contrato para uma srie de programas na TV
Globo cujo ttulo seria Som Livre Exportao.
Na segunda-feira desfilavam pelos sales do Hotel Glria os dois heris
da noite anterior. De um lado, como defensor do Brasil na competio
internacional, abordado por reprteres sequiosos, o novo astro, que uma
semana antes no passava de um ilustre desconhecido fingindo ser cantor
americano, era agora o dodi da imprensa especializada, Mister Toni
Tornado. Na piscina outro negro, feliz em ter sido convidado por Augusto
Marzago para ocupar a presidncia do jri e reapresentar "Mocot" no
show de encerramento da final internacional, Mister Erlon Chaves. Dois
dias depois, novamente na piscina do hotel, entre declaraes bem
humoradas sobre os planos em sua carreira, ele prometia:
- No encerramento do Internacional  que "Mocot" vai ser o maior
barato.
Nunca se comeu tanto mocot e gelia de mocot no Rio como naquela
semana. Houve um almoo na Sucata, em que o novo rei da Pilantragem,
Erlon Chaves, foi servido pelo garom Carlos Imperial com a presena de
Simonal. Era o estado maior da Pilantragem.
Na quinta-feira, dia da primeira eliminatria internacional, um grupo de
42 jornalistas e artistas ligados ao FIC foi recebido pelo presidente
Medici no Palcio das Laranjeiras. O encontro durou quase uma hora, o
presidente manifestou aos cantores de "BR-3" sua esperana de
conquistarem o tricampeonato tambm na msica. Alguns convidados acharam
o chefe da Nao "uma extraordinria figura humana", mas nenhum dos
jornalistas presentes teve oportunidade de conversar com o presidente
sobre o que se dizia do Brasil no exterior.
Para frustrao do general Medici, o Brasil no foi tricampeo na
msica. Na final internacional do domingo, 25 de outubro, diante de uma
platia de pelo menos 20000 pessoas, jornalistas nacionais e
internacionais, trs celebridades (Ray Conniff, Quincy Jones e Paul
Simon, que tinha se aborrecido quando sua mulher na chegada ao aeroporto
do Galeo foi abordada pela polcia para que no usasse uma blusa com um
retrato de Mo Ts-tung) e outros convidados do exterior (Wallace
Collection, Dave Grusin, Richie Havens, Franoise Hardy, Spanky Wilson e
Lalo Schifrin), diante dessa gente toda, "BR-3" conquistou o terceiro
lugar. O primeiro foi "Pedro Nadie", de Jos Tcherkaski e do cantor
Piero Benedictis, que defendiam a Argentina. A noitada foi mais longa
que o esperado: teve show de Ray Conniff, Jair Rodrigues, Spanky Wilson
e Erlon Chaves, mas nem Toni, gritando "Deus!" e plantando bananeira,
nem Erlon, foram os destaques que prometiam. Ou melhor, foram sim mas
num outro sentido.
As performances anteriores de um e de outro tinham causado tal rebulio
que agora simbolizavam uma ameaa: a do homem negro podendo invadir a
famlia branca brasileira e fazer um estrago. Os militares deram mostras
de temer que Toni Tornado pudesse tornar-se um novo lder negro, a
exemplo do que acontecia nos Estados Unidos com os violentos Panteras
Negras. A frivolidade crescente do competente maestro Erlon Chaves,
ocasionalmente um jurado debochado no programa de calouros de Flvio
Cavalcanti e naquele momento namorando Vera Fischer, poderia mexer com o
conservadorismo da famlia de classe mdia brasileira. Era um terreno
perigoso que nenhum dos dois conhecia.
Para a apresentao de "Eu Tambm Quero Mocot" na final de 25 de
outubro Erlon resolveu incrementar ainda mais o happenmg. Ao ser
convidado por Geraldo Jos de Almeida, o presidente do jri
internacional levantou-se e subiu ao palco para anunciar um nmero
extra, em que substitua os "escravos de sulto" pelas "gatas do
Caneco", lideradas por duas irms:
- Agora vamos fazer um nmero quente, eu sendo beijado por lindas
garotas.  como se eu fosse beijado por todas as que esto aqui
presentes.
Na platia foi uma vaia s. Nos lares, algumas esposas brancas engoliram
em seco ofendidssimas ao lado dos maridos. Erlon comeou a cantar "Eu
quero  mocot" em ingls quando surgiram as duas louraas em traje cor
de pele para rodopiar  sua volta gritando "Queremos mocot!" e beij-lo
carinhosamente. Surgiram mais garotas que, depois de repetirem a dose,
saram do palco de braos dados com Erlon. A  que a Banda Veneno
entrou, Erlon voltou para cantar "Eu Tambm Quero Mocot" com o enorme
coral sob a regncia de Rogrio Duprat e a surpresa - as presenas do
compositor Jorge Ben e do Trio Mocot. Foram delirantemente aplaudidos e
atacaram em seguida a marcha "Cidade Maravilhosa".
Para um crtico foi a loucura mais vitoriosa que presenciara. Para
milhares de telespectadores, o "nmero infeliz", acrescentado por Erlon
Chaves  revelia, segundo o comunicado posterior da TV Globo, poderia
ser descrito como divertido, desnecessrio, de mau gosto, indecente,
ertico ou libidinoso. Dependia do ponto de vista do observador. Para os
padres dos anos 70 era uma afronta! Imaginem um negro sendo beijado por
brancas na televiso.
Erlon Chaves saiu do palco e foi imediatamente levado preso a uma
delegacia acusado de atentado  moral. Com ele, Boni, o diretor da TV
Globo como responsvel pela transmisso, tambm foi preso. Assistiram ao
vdeo diversas vezes tentando explicar que no havia nada, no viam nada
demais nos gestos qualificados de obscenos. Afinal, Erlon foi liberado
por interferncia de Flvio Cavalcanti, mas o assunto no morreu a.
No dia seguinte choveram reclamaes e comentrios pouco favorveis 
cena levada aos lares do pas. Dois agentes da Censura Federal estiveram
no Glria para entregar uma advertncia a Erlon Chaves pela sua
participao no FIC da vspera, por ter sido beijado por moas em trajes
sumrios. Esperaram at a noite mas ele no apareceu no hotel. Na tera,
os comentrios nos jornais eram mais que azedos, taxando o episdio de
obsceno, cafajeste, desrespeitoso. Nesse dia 27 de outubro Erlon foi
interrogado durante quatro horas na Censura Federal sob a alegao que
seu espetculo de domingo fora considerado obsceno e de mau gosto. Na
mesma semana, depois de posar para fotos da revista Manchete no
apartamento da relaes pblicas da Simonal Produes, Ivone Kassu,
Erlon rumou para seu apartamento no mesmo bairro do Leme. Pouco depois,
Ivone recebe um telefonema avisando que Erlon tinha sido levado de sua
casa preso. Comentava-se que as esposas de alguns generais ficaram
extremamente ofendidas com sua performance no palco do FIC. Depois de
alguns dias, Erlon Chaves foi solto, mas no final de novembro ficaria
proibido de exercer suas atividades profissionais em todo o territrio
nacional por 30 dias pela portaria assinada pelo chefe da Censura
Federal, Geov Lemos Cavalcanti. Sua carreira de cantor se desmanchou.
Era outro homem.
Dias aps a final internacional, o colunista social Ibrahim Sued,
concorrente desclassificado, articulou um embuste sugerindo que BR-3 no
era somente a sigla da via Rio-Belo Horizonte mas, segundo o cdigo dos
viciados, uma veia do brao onde se injetava cocana. Por detrs da
inveno havia um lobby para um livreco escrito pelo seu amigo general
Jaime Graa, chamado Txico. Na sua capa vermelha, o ttulo lembrava uma
carreira de cocana e nas primeiras pginas sugeria que a msica "BR-3"
era um hino ao toxicmano com a substituio dos versos de Tibrio no
incio da msica: "H uma seringa/ que vem do cu, cruzando o brao/e
uma agulha feita em ao/pr espetar outra vez".
Como se no bastasse, Toni Tornado, j separado de Edna havia mais de um
ms, teve uma violenta discusso com a ex-mulher quando foi apanhar
documentos no apartamento 102 da rua Bolvar, 124, quase esquina de
Barata Ribeiro, que redundou numa acusao, fabricada, de "agresso".
Nessa altura dos acontecimentos, o tranqilo Toni, que no bebia e no
fumava, tinha engatado um romance ardente justamente com a atraente
Arete Sales, uma das apresentadoras do FIC. Pronto. No faltava mais
nada para se formar o maior bolol, fazendo tremer as bases das famlias
conservadoras e colocando em xeque a segurana das mulheres brancas.
Alm disso, "BR-3" caa de encomenda para a turma do fumac, que fumava
maconha na zona sul do Rio com a mesma facilidade que chupava um sorvete
Chicabon. Foram os ingredientes para mudar o rumo de uma possvel
trajetria de "BR-3" e iniciar um inferno astral que poderia dinamitar a
carreira de Toni Tornado e, por tabela, truncar os bits da dupla Tibrio
Gaspar e Antnio Adolfo.
Tibrio foi chamado a depor, sendo interrogado pelo chefe do SNI general
Joo Batista Figueiredo. Conseguiu convenc-lo de que no havia motivo
para preocupao, desmistificando o que se dizia de Toni Tornado. Mas o
estrago estava feito. O romance caf com leite foi motivo para grande
escndalo na poca criando problemas para Arete na emissora. Toni era
execrado, encontrava bilhetes annimos no carro que havia comprado, mal
podia sair  rua.
Num festival de vero em 1971 na praia de Guarapari, no Esprito Santo,
apresentado por Chacrinha, Toni teve que substituir Erasmo Carlos no
show complementar e quando foi dar um pio duplo no ar, perdeu o
equilbrio e despencou do palco rudimentar em cima de uma moa da
platia. Disseram que ele estava "doido" e queria voar.
Comeou o perodo de rejeio ao letrista Tibrio Gaspar e da pirao
que tomou conta de Antnio Adolfo. Os contratos da Brazuca Produes com
o Trio Ternura e Toni Tornado foram desfeitos. A Brazuca sofreu um
assdio dos militares querendo tirar partido para fazer propaganda do
governo. Antnio Adolfo sentiu a barra pesada, decidiu no embarcar
naquele esquema, resolveu sair do Brasil indo para os Estados Unidos e
Europa onde foi estudar com Nadia Boulanger. Retornou para atuar como
msico de estdio. Em 1976 gravaria o disco "Feito em Casa", o primeiro
disco independente na histria fonogrfica brasileira.
"BR-3", um nmero de show que dependia diretamente de Toni Tornado, foi
gravada no primeiro de seus dois LPs, em 1971 pela Odeon, ocupando a
stima faixa. A quarta, de autoria dele,  uma cano dolente, uma
confisso de um amor passado. Chama-se "Uma Cano Para ria". Grson
Combo, Wanderley Cardoso e o grupo Som Bateaux tambm gravaram "BR-3".
A irresistivelmente danante verso de "Eu Tambm Quero Mocot" era a
quinta faixa do lado A do primeiro de cinco volumes da Banda Veneno de
Erlon Chaves, lanado em 1971 pela Philips, depois do compacto da CBS
que saiu em cima do festival. Foi gravada ainda por Chacrinha (que meteu
o pau na msica como presidente do jri nacional), Os Grilos, o palhao
Carequinha, o conjunto de Caulinha, o organista Andr Penazzi e o
Milton Banana Trio.
Os discos oficiais do FIC saram ainda em outubro de 1970 - dois LPs com
14 das 20 finalistas nacionais no selo Odeon. Sugestivamente, ambos se
iniciavam da mesma maneira, com o Hino do Festival Internacional, de
Miguel Gustavo, o autor de "Pra Frente Brasil", sendo interpretado por
Wilson Simonal: "... No Brasil a alegria hoje  tanta/povo que canta 
povo feliz...". "BR-3", na gravao de Toni Tornado, estava no primeiro
disco mas nenhum dos dois tinha "Eu Tambm Quero Mocot".
O nmero datado de 4 a 10 de novembro de O Pasquim publicava uma charge
de Jaguar com Dom Pedro I declarando a Independncia e bradando "Eu
quero  mocot". O editor Srgio Cabral foi preso no dia seguinte,
fazendo companhia aos que l j estavam, e por ordem do irado general
Orlando Geisel um corretivo foi aplicado na equipe d"O Pasquim sob a
forma de estender sua priso por mais dois meses.
Plasticamente, "Eu Tambm Quero Mocot" e "BR-3" foram de longe as duas
campes do V FIC, mas um componente racista as destruiu.
Se Erlon Chaves fosse branco, talvez tivesse sido diferente. Depois da
priso, o msico alegre e comunicativo, um tanto exibido mas muito
admirado pela sua capacidade, estava abatido, angustiado, triste e sem
horizonte, logo quando sua nova carreira estivera  beira de explodir.
Seu lado emocional foi duramente atingido. Ele ficou com medo de se
apresentar cantando e voltou ao que fazia antes: escrever arranjos e
reger. Quando seu amigo Simonal foi acusado de delator em 1972, recebeu
um segundo golpe. Erlon baixou a guarda para a vida. Em novembro de
1974, estava numa loja de discos na Galeria Paissandu, na rua Senador
Vergueiro no Flamengo, prximo de onde morava, quando sofreu um enfarte
fatal. Erlon Chaves tinha 40 anos e atuava na msica desde menino quando
tocava piano no Clube Papai Noel da Rdio Difusora de So Paulo.
Se Toni Tornado fosse branco, talvez tambm tivesse sido diferente. Como
no era bem visto pelos militares e ainda exercia uma atividade de
pregao social em favor dos negros nos bailes black da periferia, um
certo dia, em 1972, "os homens" entraram derrubando a porta de seu
apartamento. Foi conduzido para a praa XV, levado a Braslia e depois
convidado a sair do pas. Foi para o Uruguai, sul de Angola, Egito e
depois Europa, interrompendo sua carreira de cantor no Brasil. Com o
tempo, tornou-se conhecido como ator de televiso, muito elogiado na
minissrie Vargas, baseada no livro de Rubem Fonseca, em que fez o papel
do guarda-costas de Getlio Vargas, Gregrio Fortunato.
O V FIC deixou um rastro de racismo, uma marca de preconceito contra
artistas da raa negra, aquela que contribuiu para a msica brasileira,
como tambm para a cubana e a norte-americana, com o elemento mais
proeminente de seu carter, o ritmo. Se algum ainda tinha dvidas, o V
FIC deixou claro que havia presso do governo militar para que os
festivais e a prpria msica popular fossem mantidos como eficazes
torpedos para mostrar ao resto do mundo o quanto havia de alegria e
felicidade no seio do povo brasileiro.
Captulo 14
"KYRIE"
(VI FIC/TV GLOBO, 1971)
"Pode colocar que  fabricada mesmo. Para uma msica fazer sucesso, ns
estudamos o mercado com todos os detalhes. Temos um trabalho
planificado, pastas com paradas de sucesso, pocas do ano, faixas de
pblico ... Se o governo nos honrar com a deferncia, muito bem. O hino
brasileiro  muito pessimista. Fala que o Brasil vai ficar deitado. O
Brasil est de p. Olha s a Transamaznica", declararam Dom e Ravel 
revista Veja, em fevereiro de 1971, sobre sua composio "Eu Te Amo, Meu
Brasil". Elaborada com tamanho rigor cientfico, no  de admirar que ao
sair da prancheta para as prensas, em outubro de 1970, o compacto tenha
atingido, em fevereiro, a casa de 200 mil unidades vendidas, ameaando
dominar o carnaval e dando seqncia ao ufanismo do tricampeonato de
futebol no Mxico. Como se pode notar, aventava-se at a hiptese da
cano ser oficializada como hino. Uma tal conjuntura deve ter espantado
alguns dos artistas da msica brasileira que retornaram ao Brasil nos
primeiros meses de 1971, Caetano Veloso, Edu Lobo e Carlos Lyra. Ou at
causado nuseas.
Passado o carnaval, o caldeiro musical era aquecido, em abril, com um
novo programa de televiso, Som Livre Exportao, no Parque do Anhembi,
em So Paulo, com milhares de pessoas se espremendo para assistir 
demonstrao de que a msica brasileira retomava o caminho de suas
origens aps o furaco esttico do Tropicalismo. Podia ser interpretado
como uma risonha perspectiva para a produo musical em 1971. No era
bem assim.
Quando voltou da Itlia, em maro de 1970, onde fora morar logo aps a
decretao do AI-5, Chico Buarque encontrou um Brasil bem diferente do
que lhe fora descrito. A situao no governo Medici no estava nada
melhor, havia represso, censura  msica e ao teatro, e ele sentiu a
barra pesada logo nas primeiras tentativas de retomar sua carreira
brasileira: "Apesar de Voc", que tinha sido gravada depois de liberada,
foi proibida, tendo sido recolhidos os discos que j estavam nas lojas.
Chico sofria ameaas constantes e compunha sabendo que tudo o que
criasse teria que passar pelo crivo da Censura, com alguma chance de ser
liberado, mas havia o risco de se repetir o que acontecera com "Apesar
de Voc". Em pouco tempo ele percebeu que no poderia trabalhar
sobressaltado pela incerteza.
O controle da Censura era nocivo  criao de um elenco dos grandes
compositores brasileiros, justamente os que poderiam ser to importantes
para o VI FIC. A TV Globo desejava garantir a retomada de sua
participao em festival, mas nenhum deles estava minimamente
interessado em inscrevermsica.
Nada parecia mais oportuno que tentar uma forma de reaproximao com
essas grandes figuras dos festivais anteriores e ver se topariam
concorrer novamente no FIC que se avizinhava. Foi essa a idia que Gut
incutiu na cabea de seu chefe, Augusto Marzago, que assumia o posto de
diretor geral pela sexta vez, muito embora tivesse declarado um ano
antes que seria o ltimo. Que tal se eles fossem convidados,
participando automaticamente com uma composio indita, no lhe parecia
uma boa idia? No poderia ser uma grande chance de levantar o VI FIC? O
nico problema seria aplainar as arestas com a Censura. Mas Gut
acreditava que seria bem-sucedido nos contatos que se propunha a
estabelecer com a fina flor da msica brasileira, Tom, Vinicius,
Caetano, Srgio Ricardo, Ruy Guerra, Capinan, Baden, Marcos e Paulo
Srgio Valle, Milton, Edu e Chico. Embora estivesse ocupando um cargo do
outro lado, sua origem ainda era a de um msico ganhador de festival, de
compositor. Pelo menos era o que se sabia de Gutemberg Guarabira. Por
mritos prprios, ele parecia cada vez mais prestigiado no FIC, mas, em
contrapartida, como todo elemento que trabalhasse na Globo, era
considerado pela imprensa esquerdista um vendido ao imperialismo.
Torquato Neto, cuja coluna Gelia Geral tinha projeo na ltima Hora,
no perdia chance de malh-lo. No entanto, Gut era operoso e criativo,
havia estabelecido um convnio mediante o qual o vencedor do Festival de
Juiz de Fora, disputado em julho, estaria automaticamente includo nas
eliminatrias do FIC.
O plano de Gut para o VI Festival foi avante. Em maio, a direo do FIC,
atravs de Augusto Marzago, comunicou que os principais rgos da
imprensa iriam receber uma circular com os nomes dos compositores que
haviam participado de festivais anteriores. Cada rgo deveria escolher
12 nomes, e, assim, os mais votados seriam convidados a participar do
FIC na condio de hors-concours.
A princpio seriam 17 vagas reservadas para essa elite, competindo
lado a lado com as composies dos que se inscrevessem. Foi com o maior
orgulho que o secretrio de Turismo da Guanabara, Rui Pereira da Silva,
anunciou no dia 9 de julho as 23 msicas selecionadas atravs do usual
processo do balaio, entre aproximadamente 1500 inscries. Entre elas
estavam canes de Sueli Costa, Antnio Carlos e Jocafi, Eumir Deodato,
Csar Costa Filho, Aldir Blanc, Nelson Motta e Gonzaguinha. Por falta de
tempo, nesse ano So Paulo no participaria, mas foi prometida uma noite
de gala no Teatro Municipal de So Paulo em 5 de outubro, aps a final
internacional. Entre os convidados do exterior, Marzago prometeu Little
Richard, The Osmond Brothers e Peter Fonda.
Em 1 de setembro, a Polcia Federal determinou que todos os
participantes do VI FIC deveriam ser registrados em seus arquivos at
uma semana antes do primeiro espetculo, visando "sanear a rea". Seria
fornecida uma carteira com nome, identidade oficial, foto 3 x 4 e
especialidade no FIC. Apenas duas msicas haviam sido vetadas, "Corpos
Nus", de Taiguara (um do grupo dos privilegiados), e "Pirambeira", de
Hermnio Bello de Carvalho e Maurcio Tapajs, irmo de Paulinho.
Taiguara no entendeu o porqu do veto: " um samba. A letra 
superlrica e fala de um homem e uma mulher que se completam para fazer
f.  de muito amor, muito mais romntica e amorosa do que ertica". J
estava at ensaiada por Alade Costa - mas como ele era taxado de
comunista e os censores implicavam com nudez e outros que tais, talvez
a estivessem duas boas justificativas para o veto. As 23 passaram a ser
21.
De outra parte, at o dia 4 de setembro apenas duas msicas do grupo dos
privilegiados haviam sido entregues para o processo de liberao,
arranjo e ensaio, "Calabouo", de Srgio Ricardo, e "Instantneos", de
Marcos Valle. Tinha-se vagas informaes das demais prometidas. "Que
Horas So?" seria uma "cano meio sombria" de Chico e Tom, a ser
defendida pelo MPB 4; j se sabiam os ttulos de outras trs: "So
Francisco dos Retirantes", de Egberto Gismonti, "Canto Continental", de
Edu Lobo e Ruy Guerra, e "O Estrangeiro", de Antnio Adolfo. Era tudo.
Um pouco de pacincia que as letras estariam chegando. Tambm iriam
participar duas msicas do Festival de Juiz de Fora, "Casa no Campo", de
Z Rodrix e Tavito, e "Cantiga Antiga", de Rui Gonalves.
Mais uma vez foram feitas promessas sobre as mudanas no malfadado
Maracanzinho: uma nova estrutura metlica na cpula, que atuaria como
rebatedor acstico; duas toneladas e meia de material de som,
incluindo microfones Neuman e Electrovoice; uma mesa de udio com 36
canais e alto-falantes que projetavam o som sem difundi-lo; quatro
cmeras e duas gruas; 48 refletores e uma iluminao com novos efeitos,
como o de um s foco concentrado sobre o cantor ou solista; um estrado
mvel sobre rodinhas onde os grupos se aprontariam com calma antes de
entrar em cena e, quando anunciados, seriam empurrados para dentro do
palco j posicionados. Eram esses os principais pormenores aos quais se
acrescentava o cenrio em preto-e-branco, criado por Fernando Pamplona.
No dia 9 de setembro, duas semanas antes da abertura, a coordenao do
FIC divulgou que das 17 vagas disponveis para os hors-concours apenas
dez seriam preenchidas. Dori Caymmi, Taiguara, Milton Nascimento, Ivan
Lins, Baden Powell, Os Mutantes e Caetano Veloso haviam se recusado a
participar e estavam definitivamente fora. As letras das msicas dos
demais, Paulinho da Viola e Capinan, Egberto Gismonti, Paulinho Tapajs,
Srgio Ricardo, Edu Lobo e Ruy Guerra, Tom e Chico, Tibrio Gaspar e
Antnio Adolfo, continuavam sendo aguardadas.
No dia 16, Augusto Marzago convocou a imprensa para uma coletiva em que
deu detalhes do sistema de som, que, mais uma vez, deveria ser bem
melhor, e rebateu as crticas aos ilustres desconhecidos que costumavam
vir do exterior para a fase internacional do FIC, destacando para esse
ano os irmos Castro, do Mxico, Palito Ortega, da Argentina, e o
conjunto Rock Horse, dos Estados Unidos. Embora disfarasse, Marzago
estava visivelmente preocupado com as letras dos compositores nacionais
convidados.
Nesse dia, faltando oito para o incio, a bomba estourou. Doze
compositores - autores convidados de sete msicas participantes das
semifinais do VI FIC - cancelaram sua participao. Os editores de O
Pasquim foram os intermedirios da carta  direo do FIC:
"Prezados Senhores,
Os compositores que abaixo assinam o presente documento renunciam  sua
participao no VI Festival Internacional da Cano Popular. As razes
so pblicas e notrias: a exorbitncia, a intransigncia e a
drasticidade do Servio de Censura na apreciao do que lhe tem sido
submetido, afora exigncias burocrticas inconcebveis, tais como
cadastramento e carteirinha dos participantes, estranhas ao que
normalmente se adota  para tais circunstncias. Sem esquecer sempre a
desqualificao dos que exercem uma funo onde a sensibilidade e o
respeito pela arte popular so prioritrios.
Agradecemos  direo do Festival e  imprensa que honrosamente nos
indicou para uma participao que, diante do exposto acima, torna-se
impossvel e impraticvel.
Assinado: Paulinho da Viola, Ruy Guerra, Srgio Ricardo, Tom Jobim, Jos
Carlos Capinan, Chico Buarque, Vincius de Moraes, Toquinho, Marcos e
Paulo Srgio Valle, Edu Lobo e Egberto Gismonti.
Rio, 15/9/1971.
P.S.: Os demais compositores convidados no se manifestam em virtude de
no se encontrarem momentaneamente na cidade."
E que bomba! Devastadora. Com os que j haviam se recusado a participar,
o FIC sofria um rombo capaz de pr o navio a pique. Diante do problema,
Walter Clark decidiu: "Olha, no h possibilidade de fazer o Festival
sem msica. Vocs da produo do Festival vo ter que se virar, fazer o
Festival sem os principais compositores do Brasil".
Os problemas da TV Globo com a Censura haviam comeado na fase da
seleo do balaio, os censores queriam conhecer as letras das msicas e
saber quem eram os autores antes mesmo de serem anunciadas. Agora a
Globo estava pressionada a fazer o Festival de qualquer maneira. Os
censores, que eram civis, tcnicos de carreira do Ministrio da Justia
submissos aos agentes militares, ameaavam. Por sua vez, os militares
no queriam permitir que o pblico deduzisse que os compositores tinham
fora para impedir a Globo de realizar o Festival.
Foi montado um esquema de emergncia para apagar o incndio. Dmarches,
demisses e substituies, confirmaes e desmentidos, consultas e
pedidos, telefonemas e reunies de horas e horas aconteceram nos trs
dias seguintes para se saber como e o que seria do Festival
Internacional da Cano.
Intrigado e ainda estupefacto, um Marzago exausto, sem gravata, falando
pausadamente, anunciou para a imprensa, na coletiva realizada no Hotel
Glria no dia 21, quais as 50 msicas, e no mais 40, que iriam
participar das duas eliminatrias dali a trs dias, 24 e 25 de setembro.
l
No disse uma palavra sobre o que tinha acontecido. Quem o conhecia
sabia que estava arrasado.
Recuemos no tempo e vejamos o que aconteceu do outro lado, o dos
compositores, e que no estava nos jornais.
A predisposio dos compositores no era apenas contra a censura que
tomava conta do teatro, da imprensa e da televiso, no lhes dando
chance para exercerem sua atividade criativa. Havia uma agravante de
mbito mais amplo que a maioria desconhecia.
O Exrcito, que j exercia um completo domnio sobre o DOPS e o SNI,
queria tambm ter um controle total sobre o Festival. E a razo no
tinha nada a ver com o interesse pelas msicas ou at pela carreira dos
artistas. O Exrcito havia detectado que o FIC era o melhor veculo de
propaganda de um "outro" Brasil, que poderia melhorar a pssima imagem
difundida no exterior em virtude das notcias sobre perseguies e
torturas. O governo brasileiro, que nesse aspecto no gozava de muito
prestgio l fora, poderia conquistar a posio da sonhada "Ilha da
Tranqilidade", que o Exrcito almejava, atravs da divulgao de cenas
do Festival que mostrassem artistas cantando e as alegres manifestaes
na platia, por meio de discos e vdeos que eram enviados  Europa.
Pouco antes do VI FIC, a vontade do Exrcito de controlar o Festival
atingiu as raias do absurdo. No apenas exigiu que os compositores
participantes tivessem a carteira de identidade registrada na Censura,
como at os intrpretes e acompanhantes teriam de ser fichados. Uma
ficha completa de cada um deveria ser enviada a Braslia para que os
dados fossem checados e emitidas as carteirinhas, que eram ento
devolvidas ao Rio. Essas informaes eram colhidas pelo jovem diretor
artstico do Festival, Gutemberg Guarabira, e passadas pelo diretor
geral do Festival, Augusto Marzago, a Carlos Alberto Rabaa, brao
direito do coronel Otvio Costa na Assessoria Especial de Relaes
Pblicas da Presidncia da Repblica (AERP).
Meses antes, Gut tivera uma idia mirabolante. Uma idia perigosa, na
qual acabaria por exercer um papel duplo, que tinha como principal
finalidade detonar aquela imagem favorvel, propagada pelo governo
brasileiro no exterior, execrada com razo pelos compositores. Como o
diretor artstico do FIC poderia agir em favor dos compositores que
estavam contra esse mesmo Festival? Como ser a favor do FIC que se
servia das msicas desse compositores para transmitir ao mundo uma falsa
imagem do Brasil? Como um elemento da emissora de televiso que mostrava
essa imagem cor-de-rosa do pas em plena ditadura do general Medici
poderia atuar contra os interesses de sua empregadora?
Gut convenceu Augusto Marzago que se deveria exercer uma presso sobre
alguns compositores para que participassem do Festival. O plano era
convidar elementos da imprensa especializada a apontarem 12 compositores
de tal envergadura que no precisassem nem passar pela primeira triagem
como os demais inscritos. Suas msicas seriam recebidas e aceitas,
estando assim automaticamente selecionadas e includas nas semifinais.
Dessa maneira, atenuava-se sua predisposio contra o Festival, pois,
com o status de compositores privilegiados que lhes era dado, poderia
ser quebrada a barreira. Eles se sentiriam sensibilizados a inscrever
suas msicas, afinal, em ltima anlise, no ficaria bem que
compositores considerados publicamente de primeira linha deixassem de
participar.
Marzago temeu pela reao dos compositores, mas Gut prometeu ter uma
conversa com esse primeiro time da msica brasileira. Antes mesmo da
escolha dos jornalistas, ele j imaginava quem seriam os escolhidos. To
logo a lista de privilegiados foi divulgada, Gut procurou sigilosamente
um deles, Chico Buarque, para desenvolverem o plano da conspirao de
usar o Festival e sua principal emissora de televiso como forma de
protesto internacional. Chico ficou de convencer os demais colegas
compositores a aderirem, mas alguns deles se recusaram peremptoriamente
a enviar canes, alegando problemas que tinham tido com a direo do
Festival. Antes mesmo que Chico chegasse a explicar o plano, as
respostas eram negativas, no queriam saber de nada relacionado a
festival. Outros, porm, aceitaram pelo menos conversar sobre o assunto
e, assim, marcou-se uma reunio onde seria exposta a segunda parte do
plano, que nem Marzago conhecia, e era a seguinte: os compositores
aceitariam participar do Festival, inscreveriam msicas, mas ningum
entregaria as letras. Aguardariam at o ltimo momento do encerramento
das inscries e, a sim, entregariam todas de uma s vez. Mesmo que as
letras fossem contra a ditadura, a Censura no teria coragem de barrar,
pois se tratava dos melhores compositores brasileiros. A Globo tambm
no poderia recuar, afinal, nessa altura j teriam sido anunciadas
aquelas atraes incrveis e no haveria como explicar uma desistncia.
Seria uma exploso no Festival e o fim do seu uso como propaganda
cor-de-rosa do regime militar.
Chico Buarque morava numa linda cobertura, rodeada de um terrao de
pedra mineira e com vista total para a Lagoa Rodrigo de Freitas.
Convocou os compositores para a reunio em seu apartamento e disps
vrias cadeiras como um pequeno auditrio, tendo  frente uma mesinha
mais alta para quem fosse falar. Gut saiu da Globo meio escondido e s 4
da tarde estava l. Chico fez a apresentao para os compositores
presentes, entre eles Ruy Guerra, Paulinho da Viola, Srgio Ricardo,
Marcos e Paulo Srgio Valle, Edu Lobo e Capinan, dizendo que Guarabira
tinha um plano a apresentar e era para isso que todos estavam ali
reunidos, inclusive ele, que tambm iria escutar o que se tinha a dizer.
Mal Gut comeou a explicar a primeira parte do plano, o inflamado Ruy
Guerra, que discursa muito bem, pediu a palavra para arras-lo
argumentando que eles no eram palhaos para serem enganados numa jogada
que, estava na cara, era da TV Globo e iria coloc-los em perigo. Enfim,
liquidou com Guarabira. Em pouco tempo j tinha o apoio de alguns
presentes e Guarabira, acostumado a essas reaes, sentiu que o plano
iria por gua abaixo.
Nenhum dos presentes, Ruy Guerra muito menos, sabia da vida ambgua que
Gut levava, completamente diferente da que aparentava. Aos olhos de
todos os compositores, estava queimado, pois trabalhava na TV Globo, de
mos dadas com o governo militarista. No era bem assim. J estava
separado de sua primeira mulher e morava num aparelho cujo aluguel era
dividido com a Aliana Libertadora Nacional. O apartamento do diretor do
FIC da TV Globo, na rua Hilrio Gouveia, que ficava quase defronte 
delegacia de Copacabana, era entreposto de armas e uniformes das Foras
Armadas, para uso dos guerrilheiros contra a ditadura. Gut no podia dar
bandeira de maneira alguma, nem chamar muita ateno para si, no que era
escolado. Tinha um treinamento de muitos anos no assunto, desde a dcada
de 1960, quando morava no apartamento do irmo. Nem Chico Buarque, que o
conhecia bem, sabia dessa sua atividade.
Em 1966, o baiano Gutemberg Nery Guarabira Filho morava no Mier num
ambiente muito politizado, pois seu irmo Jos era lder sindical dos
petroleiros, um setor muito visado em virtude do poder de outras
empresas multinacionais do setor. Jos Nery Guarabira era filiado ao
Partido Comunista e abrigava freqentemente fugitivos polticos que
dividiam o quarto com Gutemberg. Foi assim que este aprendeu desde muito
cedo a acobertar pessoas ou arquivar armas em seu quarto.
Gut freqentava um ncleo do Partido Comunista no Teatro Jovem da praia
do Botafogo, que realizava s sextas-feiras animados encontros musicais
juntando novatos com artistas mais famosos, como Paulinho da
Viola, Elton Medeiros, Nara Leo e Nelson Lins e Barros. Foi Paulinho
quem apresentou Guarabira como um "compositor rural" a Nelson Lins e
Barros, que o convidou para morar em seu apartamento em Copacabana e
ficar mais perto da msica, prximo de Edu Lobo e Chico Buarque. Quando
Nelson morreu, Gut foi morar no Solar da Fossa, no mesmo quarto de
Paulinho da Viola e Abel Silva.
Agora ele se via diante daquela reao de Ruy Guerra sem poder abrir o
bico. Foi com surpresa que, nessa altura, quando parecia que estava tudo
perdido, Paulinho da Viola pediu a palavra e fez um verdadeiro relatrio
sobre a vida de Gut, dizendo que por ele botava a mo no fogo.
Devidamente avalizado, a situao se reverteu inteiramente e Gut pode
ento explicar o plano todo que, afinal, foi bem recebido e obteve o
apoio dos compositores presentes e, posteriormente, at de ausentes como
Tom Jobim, que estava nos Estados Unidos, e Baden Powell, na Frana.
Dessa maneira, alguns dos maiores compositores brasileiros iriam dar o
troco a quem usava seu nome para uma divulgao de segundas intenes em
carter internacional. Era mesmo uma conspirao usando a prpria TV
Globo, promotora do VI FIC, para um protesto contra a Censura.
No limite dos preparativos para o Festival, quando toda a divulgao j
fora feita e j se encontrava na etapa dos arranjos, comearam a surgir
algumas letras, que nada tinham a ver com as partituras, algumas nem
cabiam na mtrica das msicas. A Censura brecou tudo, algumas letras nem
apareceram. Foi um pandemnio, um Deus nos acuda. Assim que as msicas
foram proibidas, por sugesto de Jlio Hungria, do Jornal do Brasil, Gut
e o grupo de compositores pediram ao jornalista Fernando Garcia para
produzir uma declarao que teria a assinatura de todos os participantes
do grupo, retirando suas msicas do Festival e culpando a Censura.
Funcionaria como uma pesada contrapropaganda ao que o governo fazia
atravs do Festival Internacional da Cano. Assinaram Paulinho da
Viola, Edu Lobo, Egberto Gismonti, Vinicius de Moraes, Toquinho, Chico
Buarque, Ruy Guerra, Capinan, Srgio Ricardo, Tom Jobim, Marcos e Paulo
Srgio Valle.
Como os manifestos eram, no entanto, proibidos por lei, a declarao foi
redigida sob a forma de uma carta aberta  populao, faltando decidir
quem a entregaria, pois sabia-se que a inteno dos militares era sempre
agarrar o cabea dos movimentos e, para eles, quem entregasse a carta 
imprensa era o lder. Foi resolvido que a carta seria jogada no quintal
do Pasquim, que tentaria public-la, mas, provavelmente, seria
l
impedido pela Censura. Contudo calculavam que houvesse tempo para que O
Pasquim passasse a carta a outras redaes onde havia jornalistas de
esquerda, alguns dos que colaboraram com a lista dos melhores
compositores. Assim foi feito, mas a Censura foi rapidssima e o nico
jornal brasileiro que conseguiu chegar s bancas com a carta publicada
foi uma edio da ltima Hora, que ainda assim foi recolhida. A Censura
s no contava com a repercusso fora do Brasil. Uma agncia
internacional conseguiu mandar a notcia e a carta foi publicada no
exterior, atingindo em cheio a propaganda da "Ilha da Tranqilidade" do
governo brasileiro.
A temperatura subiu atingindo o vermelho. O correspondente internacional
responsvel foi preso e expulso do pas no ato. Gut foi chamado ao
gabinete de Augusto Marzago e tiveram uma reunio telefnica com Rabaa
e o prprio presidente Medici, ambos em Braslia. Os dois queriam saber
quem era o lder do grupo.
Alguns agentes do DOPS foram  sede do Festival e procuraram Gut para
ajud-los a descobrir quem tinha inventado aquilo tudo. Assim que
saram, sabendo que Chico Buarque seria o primeiro a ser procurado, Gut
saiu voando numa Kombi da Secretaria de Turismo at o Caneco, sacou
Chico do ensaio do show "Construo" e levou-o a um botequim prximo
para preveni-lo. Justamente nesse momento chegaram os agentes do DOPS
chefiados por um sinistro torturador de chapu preto. Gut deu uma de
desentendido dizendo que estava acalmando Chico, preparando-o para um
bate papo no DOPS, e que no haveria nenhuma priso. O chefo ficou
feliz, no desconfiou de nada e, agradecidssimo, ainda deu uma piscada
de olho para Gut.
Como nesse dia foram localizados apenas Chico Buarque, Egberto Gismonti,
Augusto Marzago e Marcos Valle, que foi levado de camburo, marcou-se
uma nova data em que todos estivessem presentes. Os compositores do
grupo, entre eles Chico Buarque, Edu Lobo, Ruy Guerra, Marcos e Paulo
Srgio Valle, Tom Jobim, Vincius de Moraes, Paulinho da Viola,
Toquinho, Egberto Gismonti e Srgio Ricardo, foram intimados a depor no
sbado, 17 de setembro, devendo dar uma explicao sobre sua atitude, se
era um ato antipatritico, se eram subversivos, se eram comunistas. Para
Chico isso no era nenhuma novidade, estava mais do que acostumado a
prestar depoimento.
Os interrogatrios seriam realizados numa sala da Censura Federal onde
funcionava o SOPS, Servio de Orientao Poltica e Social, uma outra
unidade da Polcia Federal  praa Marechal ncora, 4. Foram presididos
pelo general Frana, Chefe de Segurana do Estado, acompanhados pelo
inspetor Sena, que Chico j conhecia, pela chefe da Censura Federal
Maria Selma Miranda Chaves e por um funcionrio que representava a TV
Globo.
Pressionada pelo governo a fazer o Festival de qualquer maneira, a TV
Globo precisava encontrar uma soluo em questo de horas. Walter Clark
teve duas aes: a primeira foi dar um jeito de liberar as msicas.
Tomou essa providncia imediatamente junto  Censura Federal em
Braslia, atravs de Duarte Franco, o encarregado desse assunto na
emissora, sem saber que alguns compositores nem tinham entregue as
letras.
A outra ao era negociar com os compositores rebeldes para que
participassem do Festival, embora Boni, o diretor mais ligado ao
Festival, achasse que eles no cederiam. Essa segunda ao foi um tanto
desastrada porque Walter Clark indicou para liberar as canes que ainda
estivessem presas - e que na realidade nem existiam - bem como dialogar
com os compositores seu assistente Paulo Csar Ferreira, um elemento
executivo rpido e de estilo "po, po, queijo, queijo", avesso 
diplomacia.
No incio de 1969, Paulo Csar Ferreira tinha sado da direo da Rdio
Nacional, ligada ao Ministrio da Fazenda, para ser integrado  TV Globo
na condio de assessor de Walter Clark, ao lado do publicitrio Joo
Carlos Magaldi, do coronel Joo Baptista de Paiva Chaves e de Homero
Icaza Sanchez, o bruxo panamenho das pesquisas. Os quatro formavam a
Assessoria Executiva da Direo Geral, a Assex. Agitado e intempestivo,
cumpria as ordens a ferro e fogo, ganhando o apelido de Tarz, quer pelo
seu tamanho, quer pelo empenho determinado nas misses que lhe eram
confiadas.
Nesse caso acabou assumindo uma posio exagerada na defesa da empresa.
Sua inteno era obrigar que os compositores voltassem atrs,
participando do Festival. Quando soube que algumas letras nem haviam
sido entregues, na verdade nem tinham sido feitas, o sangue subiu-lhe 
cabea. "Por que vocs no comunicaram com antecedncia?", indagou
ingenuamente, sem a mais vaga idia do que havia por trs. "Assim
acabaram comprometendo o Festival e a Globo." Paulo Csar dizia ter
feito um contato direto com o presidente Medici e este garantira que as
msicas no seriam censuradas.
Chico explicou que no era uma atitude poltica e sim uma forma de
protesto contra a Censura que os impedia de trabalhar, ningum sabia
quem tinha jogado a carta no quintal do Pasquim, ningum era comunista
ou subversivo, a Censura desmantelava sua obra, estavam tentando
trabalhar e no conseguiam, e essa era a oportunidade de informarem ao
pblico que isso estava ocorrendo.
Porm o funcionrio da Globo estava irredutvel, ameaou-o, apelando e
obrigando-o a participar do Festival: "Eu no estou aqui para discutir
problema ideolgico. Estou aqui numa misso, tenho que salvar o
Festival!", afirmou exaltado, excessivamente zeloso em defender os
interesses da Globo e, naquelas circunstncias, os do governo militar. O
tempo esquentou e, nesse beco sem sada, o general Frana, que j havia
dado um murro na mesa, interveio dizendo: "Ns no podemos obrigar os
meninos, se eles no querem participar, no adianta".
Chico e os demais foram liberados e, ainda assim, Chico prometeu pensar
sobre o assunto. Depois decidiu no voltar mesmo ao Festival. Mais tarde
cada um fez uma declarao individual caindo fora do FIC. Foi o incio
da fase de rompimento entre Chico Buarque e a TV Globo.
Diante do impasse, Paulo Csar deu por terminada sua participao e se
retirou levando as letras liberadas, algumas delas sem terem sequer sido
lidas pelos censores. Foi direto para o Hotel Glria, onde j se tinha
constitudo um ncleo com Joo Arajo, Jos Otvio de Castro Neves,
Duarte Franco e Clemente Neto para tentar conseguir em trs dias, e de
qualquer maneira, msicas inditas para substiturem as que tinham sido
retiradas.
Enquanto isso, Gut entrou em contato com Gonzaguinha e Aldir Blanc, os
dois em que mais confiava entre os previamente selecionados pelo sistema
de balaio, e pediu-lhes que, alm de no participar do Festival,
apoiassem atravs de outra carta a atitude dos que j haviam se
retirado. O texto de desistncia dessa segunda turma chegou a ser
redigido, vrios, devido  tremenda presso da TV Globo, no aderiram, e
um deles, integrante do grupo MAU e concorrente, teria ficado com medo e
telefonou para o Festival denunciando que seu companheiro Gonzaguinha
estava passando o abaixo-assinado. A os militares resolveram intimar os
novatos a depor tambm. Ficaram todos apavorados. A jornalista Ana Maria
Bahiana, que tambm era letrista, quase desmaiou quando soube por
telefone que poderia ser interrogada.
A diretoria da TV Globo comeou a desconfiar de Gut e, aps a denncia
telefnica de outro autor, assduo concorrente e advogado, decidiu pela
sua demisso. Boni foi at a sede do Festival no Hotel Glria para
arrebatar-lhe a direo, entrou na sua sala, olhou firme e no disse
meia palavra. O bom entendedor captou tudo, abaixou a cabea,
cumprimentou-o  e sentiu-se dispensado do Festival. Terminou a carreira
do baiano Gutemberg Nery Guarabira Filho no FIC dando lugar  sua
participao num trio que seria formado com Luiz Carlos S e Z
Rodrigues, mais tarde reduzido  dupla S e Guarabira, com grandes
sucessos nos anos 1970 e 1980.
O ncleo da Globo estava a todo vapor. Era um pega para capar, o que
viesse era lucro, valia de tudo, samba enredo destinado ao carnaval
("Al! Al! Ta Carmen Miranda", da Imprio Serrano), msicas j
programadas para serem gravadas ("Canto Livre"), temas reservados para
futuras novelas ("Voc No T Com Nada", para Bandeira 2); Joo Arajo
enfiou quem estava para gravar na Som Livre, at Paulo Csar Ferreira
botou uma cantora, a finalidade era deixar passar tudo que aparecesse
para completar o elenco do FIC. Na segunda-feira, trs dias antes do
Festival, continuava o entra e sai de compositor no apartamento 400 do
Hotel Glria e, como consequncia desse rapa tudo, chegaram mais msicas
que o necessrio: 80 composies, quando o normal eram 40. Conseguiram
eliminar 30, e as 50 restantes, onde inevitavelmente havia muito
bagulho, ainda deveriam ser preparadas, o que significa convocar os
intrpretes, escrever arranjos, fazer as cpias, efetuar ensaios, um
esforo inaudito para que o VI FIC fosse realizado. Seria o mais
medocre da Era dos Festivais.
Bem-humorado, Marzago anunciou na quarta-feira os membros do numeroso
jri: Eduardo Figueiredo (editor de OESP), Clio Alzer (programador da
Rdio JB), Cussy de Almeida (violinista), Joo de Barro (o compositor
Braguinha), Dom Salvador (pianista), Carlos Monteiro (maestro), Geraldo
Miranda (presidente da Ordem dos Msicos), Darcy Villaverde
(violonista), Agostinho Pestana (prefeito de Juiz de Fora), Mrio Luis
(diretor da rdio Mundial), Carlos Menezes (jornalista de O Globo),
Jorge Segundo (jornalista de O Cruzeiro), Lula Freire (autor), Francisco
de Abreu (dirigente da Rdio Nacional de So Paulo), Trik de Souza
(jornalista da Veja), Silvia Ravache (jornalista da Rio Grfica),
Tibrio Gaspar (letrista) e Moyses Weltman (da Editora Bloch). A atriz
Regina Duarte iria presidir o jri nacional. "Porque decidiu-se",
justificou Marzago, dando de ombros ao ser inquirido. O jri popular
teria sete pessoas sorteadas, sendo presidido por Grande Otelo. Marzago
explicou ainda que a sada de Gut se deu porque ele divergia de certas
decises, uma delas caracterizada pelo atraso na entrega de algumas
msicas.
Tibrio Gaspar, o letrista de "BR-3", msica que venceu o festival
anterior, participou do FIC de 1971 como jurado.
Normalmente um compositor de destaque nos festivais, Jorge Ben teve
participao discreta no VI FIC, apresentando a apagada "Porque 
Proibido Pisar na Grama" no Maracanzinho. No ano seguinte seria
diferente...
Com apresentao de Hilton Gomes, Lvio Carneiro, Maria Cludia e Arlete
Sales, e a orquestra regida pelo competente Mrio Tavares, foi iniciado
o VI Festival Internacional da Cano na sexta-feira, 24 de setembro.
Apenas trs concorrentes foram de fato aplaudidas pelo pblico, que em
sua maioria foi ao Maracanzinho para assistir ao show do guitarrista
Santana e sua Blues Band. Nem Gonzaguinha, tocando com um cigarro entre
os dedos sua composio "Sanfona de Prata", nem Z Rodrix e o grupo
Faya, com a campe de Juiz de Fora "Casa no Campo", dele e de Tavito,
despertaram os cariocas da quase indiferena diante das 25 concorrentes,
das quais 15 eram selecionadas atravs do balaio, duas vinham do
Festival de Juiz de Fora e oito entraram no afogadilho da necessidade de
salvar o Festival. As trs que se destacaram na preferncia popular
foram: "Kyrie" (Paulinho Soares e Marcelo Silva), ttulo ecumnico para
uma cano quadradinha com o Trio Ternura; "O Visitante" (Jorge Amidem e
Csar das Mercs) com O Tero devidamente incrementado com a guitarra de
trs braos tocada por Jorge e o violoncelo eltrico por Srgio Hinds;
"Desacato" (Antnio Carlos e Jocafi), que, mesmo num relance, mostrava
ser a melhor das trs, com o grupo Brasil Ritmo acompanhando os autores.
Na noite seguinte, foi impingida outra dose de 25 msicas inditas para
um pblico diminuto, calculado em 2,5 mil assistentes. "O Maracanzinho
estava melancolicamente  quase vazio... O nvel abaixo de medocre das
msicas e das letras que foram levadas ao palco do Festival foi o nico
culpado pelo insucesso", descreveu o Correio  da Manh. Nem Jorge Ben
nem os Golden Boys, nem os desconhecidos Tom e Dito ou um certo Jacks Wu
motivaram algum, por mais ferrenho torcedor do FIC que fosse. Os
ttulos de algumas concorrentes caam como uma luva para resumir o que
foi essa noite: "Voc No T Com Nada" (Slvio Csar), "No Existe Nada
Alm de Ns" (Fernando  Csar e Nelson de Morais Filho), "Voltar, Eu
No" (Lus Bandeira), "Sem Volta" (Guilherme Dias Gomes e Caique). Nem
que fosse de encomenda ficaria mais adequado.
A final foi assistida por um Augusto Marzago "amargurado, como um
espectador distante", segundo Jlio Hungria do Jornal do Brasil,
"triste... um extraordinrio  saco de pancadas", segundo Srgio
Bittencourt de O Globo.
Apesar do entusiasmo de Hilton Gomes e seus colegas apresentadores,
apesar da animao um tanto forada de torcidas organizadas para
Antnio Carlos e Jocafi prosseguem sua escalada de sucessos com
"Desacato", cantada em coro pela platia do VI FIC: "por isso agora,
deixa estar...".
"Kyrie", a msica vencedora do festival de 1971 tanto no jri oficial
quanto no popular, foi carregada pelo afinado Trio Ternura.
abafar o fracasso de pblico da noite anterior, apesar do aparato
tcnico e do tour de force do ncleo montado pela Globo, no havia como
aprumar um festival com  aquelas 20 canes selecionadas para a final
nacional. O programa foi ao ar, cumprindo-se o compromisso de realizar o
Festival, mas o VI FIC no pde ser salvo.  Faltava a matria prima:
msica. Ainda que pelo menos duas delas pudessem ser bem aproveitadas,
como de fato foram, "Desacato" e "Casa no Campo", a vencedora, nos  dois
jris, foi a pueril "Kyrie", possivelmente em funo do arranjo de
Leonardo Bruno e, certamente, da performance do Trio Ternura.
Os autores de "Kyrie", dois dos menos conhecidos entre os finalistas da
etapa nacional (concorrentes no FIC anterior com "Quebra Cabea"),
foram, como de hbito,  muito cumprimentados, ficaram felizes com a
possibilidade de sucessos no futuro e foram comemorar a vitria com
champanhe no sobrado dos pais dos cantores  rua  Aureliano Portugal, no
Rio Comprido. Em outra parte da cidade, a cpula da Globo festejava a
final nacional dividida em dois grupos, um no Number One e outro no
Rinco Gacho.
O tranqilo letrista Marcelo Silva dedicava-se a jingles e o simptico
compositor Paulinho Soares, que no tocava nenhum instrumento, tinha um
sistema sui generis  de compor: ligava o gravador e comeava a cantar.
Ambos tinham 18 composies em parceria. A melodia de "Kyrie" remete 
msica sacra e a letra  uma declarao  de amor aludindo a ritos ou
oraes, como no refro bastante cantado naquela noite: " meu amor/ por
piedade/  meu amor/ livre-me do mal tambm/ mate esta saudade,  amm".
Na liturgia, o Kyrie, que em grego significa Senhor,  a splica que se
segue ao Intrito no incio da missa catlica e denomina-se Kyrie
Eleison (Senhor  tende piedade).
O arranjo de Leonardo Bruno, a despeito da bateria fazendo um ritmo
pavorosamente quadrado, tirou leite de pedra atravs da tcnica do
cnone, a da melodia de uma  voz ser imitada,  pequena distncia, por
outras vozes, cuja origem  a msica sacra no sculo XV. Foi assim
criado um atrativo para uma cano chu muito bem interpretada  pelo
Trio Ternura. Os garotos Jussara, Jurema e Robson, filhos do compositor
Humberto Silva, cantavam juntos desde 1966 orientados e estimulados pelo
pai, que tambm  encaminhou os outros quatro filhos para a msica.
Promovidos pelo apresentador Haroldo de Andrade, estrearam em disco em
1968 na Musidisc (de Nilo Srgio) com o  LP Trio Ternura contendo trs verses e composies brasileiras, das quais "Nem um Talvez",
de Humberto, era de longe a melhor. Concorrendo na fatia msica de
juventude do mercado  fonogrfico com o Trio Esperana, era um grupo
bastante afinado, tendo Robson como solista. Em junho de 1971,
impulsionado pela participao em "BR-3", lanou seu  segundo LP pela
CBS, sob a direo artstica de Raul Seixas, com traos de soul music,
dando mais oportunidades s duas irms e obtendo destaque com "Vou Morar
no  Teu Sorriso", igualmente a faixa mais interessante. Sua carreira, no
entanto, no teve uma seqncia duradoura.
O refro da segunda colocada, "Desacato", foi o mais cantado pelo
pblico no interior do Maracanzinho e mesmo ao sair, aps o espetculo:
"Por isso agora/ deixa  estar, deixa estar/ que eu vou entregar voc".
"Desacato" deu continuidade  carreira dos baianos Antnio Carlos e
Jocafi, os autores de "Voc Abusou", um samba  que j era sucesso antes
do FIC e passou a ser executado com intensidade em todo o mundo,
especialmente no Oriente, determinando o padro de outros sambas da
dupla,  como "Mudei de Idia", um lembrando o outro.
Convidada para presidir o jri internacional, Elis Regina fez valer o
aguado senso de detectar msicas para seu repertrio. Caou a nona
colocada, "Casa no Campo",  e gravou-a espetacularmente num compacto
lanado em cima do FIC, transformando-a na mais slida cano do
Festival. Elis foi quem melhor soube aproveitar a mensagem  daquela
letra ("...eu quero carneiros e cabras pastando... meus discos e livros
e nada mais") identificada com um estilo de vida oposto ao urbano que
tinha tudo  a ver com a mentalidade da juventude da poca.
"Kyrie" seria a defensora do Brasil na competio internacional da
semana seguinte, empurrada por uma torcida animadssima vestindo camisas
dos clubes cariocas de  futebol e portando faixas, possivelmente
plantadas pela produo, "Marzago  cultura" ou "Elis is beautiful".
Sem protestos de cunho patritico, obteve o terceiro  lugar na deciso
que premiou o bolero mexicano "Y Despus dei Amor", de Arturo Castro,
que o interpretou "ai lado de su hermano, tambin Castro por supuesto".
H inmeras melodias na rea sacra da msica erudita para o Kyrie,
includas em missas escritas desde o sculo X. Alm dos "Kyrie" de
Carlos Gomes e de Homero de  S Barreto, h no Brasil gravaes de
Nelson ngelo, Edu Lobo e Cussy de Almeida e a Orquestra Armoriai com
esse mesmo ttulo, mas nenhuma delas era a vencedora  do FIC, que s foi
gravada mesmo pelo Trio Ternura. Nem Paulinho Soares, cujo primeiro
disco como intrprete foi lanado em 1978 na Continental, incluiu-a no
repertrio. Devido ao timbre de sua voz, esse LP com outras composies
suas deixa a lembrana de um Chico Buarque requentado.
A trajetria de "Desacato" em discos foi bem outra. Alm do compacto com
Antnio Carlos e Jocafi, lanado em setembro de 1971 pela RCA, foi
gravada tambm em compacto  pelo grupo The Jet Blacks e em LP, ainda nos
anos 1970, por Agnaldo Rayol, pelo guitarrista Poly, por Caulinha, pela
cantora Maria de Ftima e pela esplndida orquestra  brasileira de
Carlos Piper, o arranjador que faleceu com Agostinho dos Santos no
acidente areo de Paris em 1973. Z Rodrix incluiu "Casa no Campo" no
seu LP de  1976, Soy Latino Americano, da Odeon.
O disco oficial do VI FIC, produzido pela associao Sigla-Odeon, fazia
parte de um processo na montagem do selo Som Livre, ligado  TV Globo
para lanar trilhas  de novelas como a de O Cafona, que estava estourada
na poca. No alto da capa do LP do FIC havia uma observao entre
parnteses: "as favoritas". Continha assim  12 das 20 canes
finalistas, entre as quais, a vencedora com o Trio Ternura, "Desacato"
com Cludia e "Casa no Campo" com Z Rodrix. Foi melhor assim. Se mais
houvesse,  pior seria para seus compradores, pois s faixas que j l
estavam seriam acrescentadas outras oito, somando 18 micos a reafirmar a
baba do quiabo que foram as msicas  desse Festival. Sua capa trazia
ainda o desenho original de Ziraldo do Galo de Ouro, utilizado nos FIC
anteriores, que j estava sendo abandonado e nem tinha sido  utilizado
nos cenrios, como parte de um processo de encampao do FIC por parte
da emissora. Nos papis timbrados, o smbolo do Galo j tinha sido
trocado pelo  da Globo. Em curto espao de tempo, a emissora diminura
quase que totalmente o poder de Marzago, detentor de direitos sobre o
FIC. Em 22 de outubro ele enviou  uma carta pondo fim ao acordo que
durara cinco anos e oficializando seu afastamento.
O VI FIC fora merencrio. Para Boni foi um Festival que no existiu, em
que no aconteceu nada.
Para Marzago, o homem do FIC, no ficou claro o que aconteceu, os
compositores quiseram criar um fato poltico, uma denncia, aproveitando
a presena dos jornalistas  estrangeiros. Desiludido, Augusto decidiu
sair do Brasil; foi para o Mxico em 1972 e acabou se tornando
vicepresidente da cadeia Televisa e brao direito de seu  presidente,
Emilio Azcrraga, tambm proprietrio do Estdio Azteca. Conseguiu
elevar o faturamento de vendas externas de US$ 2 milhes para US$ 15
milhes
anuais mas jamais se afastou dos contatos com a msica de seu pas
durante os quase 20 anos em que l permaneceu, trabalhando em espanhol
com esprito brasileiro  e ganhando em ingls. Atravs de deliciosos
artigos publicados em jornais brasileiros mostrou seu descortino nas
mais diferentes questes de cunho nacional ou internacional.  Os que
participaram das seis edies do Festival, por ele comandadas,
permanecem seus incondicionais admiradores. Marzago retornou do Mxico
quando recebeu um convite  do presidente Jos Sarney para ocupar em maio
de 1989 o cargo de secretrio do presidente. Posteriormente tornou-se
chefe da Assessoria de Comunicao de mais um  presidente, Itamar
Franco.
Para a crnica especializada, o VI FIC foi o mais medocre da Era dos
Festivais. Entre os globais, nem todos tinham uma real percepo do que
os festivais representavam,  uma colossal importncia no relacionamento
entre a empresa e o governo militar. "A questo bsica  que a imagem do
Brasil no exterior  divulgada favoravelmente  por Pel e pelo FIC",
declarou  revista Veja o assessor de imprensa Hlio Tys, nomeado pela
TV Globo em setembro.
Por mais que tentassem tapar o sol com a peneira, os que de fato
conduziam o Festival sabiam no seu ntimo que aquilo tudo era o
prembulo do fim de uma era. Com  um ano de antecedncia. Na emissora
das novelas, um dos mandamentos rezava que o ltimo captulo devia ser
um fecho de ouro, tinha que ter um final brilhante. Na  novela do VI
FIC, todavia, no houve como seguir essa regra. Os captulos mais
dramticos aconteceram antes da estria, privando os telespectadores de
assistir ao  que aconteceu de mais eletrizante. A novela propriamente
dita, foi um fiasco retumbante.
Captulo 15
"FIO MARAVILHA" E "DILOGO"
(VII FIC/TV GLOBO, 1972)
O smbolo do FIC, um galo desenhado por Ziraldo, danou.
Sete anos antes, Augusto Marzago comentava com seu amigo e desenhista
mineiro que precisava de um smbolo para o festival que iria dirigir.
- Qual o canto que  ouvido no mundo inteiro, at na Conchinchina? -
perguntou-lhe Ziraldo. -  o canto do galo.
-  isso mesmo - concordou Marzago. - Ento desenha um galo para mim.
Nas suas horas vagas na revista O Cruzeiro, Ziraldo tinha desenhado um
galo no estilo do pintor francs Georges Mathieu, de quem se tornara
grande amigo quando ele  estivera no Brasil exibindo em pblico sua
tcnica de pintura com "revolta, rapidez e risco". Levou Marzago para
conhecer o modelo " la Mathieu".
- Vou fazer um galo como esse - disse Ziraldo.
-  esse o galo! - decidiu Marzago entusiasmado, sem permitir que o
desenhista fizesse outro. Assim, aquele galo, que nas correspondncias
dos FIC era substitudo  por um desenho simplificado de galo baseado
numa clave de sol, tambm de Ziraldo, tornou-se um smbolo to marcante
que ficou na moda passando a ser modelo para  as aulas de tapearia e de
pintura em cermica das senhoras cariocas.
Em 1972, o galo de Ziraldo foi para escanteio. Em seu lugar surgiu um
galinceo estilizado em linhas geomtricas com as letras f, i e c em
caixa baixa inseridas  no penacho e na papada simbolizando um novo ciclo
do Festival Internacional da Cano, sob a direo global e para ser
apreciado em cores.
Em maro de 1972 a TV Globo comandara a rede nacional do programa
inaugural da televiso em cores no Brasil - um filme sobre a vida de
Cristo e o documentrio Viagem  pelo Brasil, transmitido atravs do
sistema PAL-M para aproximadamente 5.000 aparelhos existentes no pas.
Em abril realizou-se um coquetel no novssimo Hotel Nacional,
inaugurado em fevereiro, onde foram anunciadas mudanas para recuperar
a boa imagem do certame. Tendo como meta reduzir seus custos para
enfrentar problemas econmicos a TV Globo decidiu diminuir sensivelmente
a participao de artistas  e jornalistas estrangeiros, alterando um
conceito defendido por Augusto Marzago com quem j no existia mais
vnculo. Dois novos diretores ocupariam o seu lugar,  Jos Otvio de
Castro Neves ficaria na direo internacional e para a fase nacional
Boni recorreu a quem j conhecia desde a TV Excelsior, o expert em
montar festivais,  que estava vivendo na Alemanha e retornou
especialmente para dirigir o VII FIC, Solano Ribeiro.
A fase nacional teria, como antes, duas eliminatrias marcadas para 16 t
17 de setembro, mas agora com a participao de apenas 15 canes em
cada. A final nacional seria dia 30 para selecionar duas entre 12, e no
mais uma entre  20 concorrentes, destinadas  final internacional,
tambm com muito menos compositores convidados. Os estrangeiros de
pases sem tradio musical no entrariam mais  e, coerentemente com o
novo plano de custos, os convites seriam limitados a dez msicas de fora
concorrendo direto com as duas brasileiras numa final internacional  com
12 participantes, agendada para o dia 1 de outubro. As atraes
internacionais seriam o grupo Blood, Sweat and Tears, Astor Piazzolla e
Aretha Franklin. Anunciar  Aretha, ou era chute ou falta de conhecimento
do mtier, pois ela no viajava de avio de jeito nenhum.
Aps o encerramento das inscries em 30 de junho, foi montado o grupo
para destacar 30 msicas entre as 1912 inscritas e, seguindo o sistema
institudo por Solano  na Excelsior e Record, sem que os autores fossem
identificados pelos cinco especialistas encarregados da tarefa, todos de
sua absoluta confiana: Roberto Freire,  Dcio Pignatari, Jlio
Medaglia, Srgio Cabral e Csar Camargo Mariano. No havia mais editora
ligada ao FIC, os compositores poderiam editar suas msicas onde bem
quisessem. Solano no prometia grandes astros, mas sim novos nomes para
uma renovao na msica brasileira dos prximos anos. Na sua opinio, se
aparecesse uma nova  gerao de grandes compositores, o FIC estaria
salvo.
O lengalenga que o som do Maracanzinho iria melhorar foi repetido pela
stima vez na histria dos FIC, com citaes tcnicas que poucos
entendiam ("diviso em planos:  o primeiro numa abertura de 10 graus
atinge a parte mais alta das arquibancadas... o segundo plano tambm em
trs fases, com abertura de 45, 55 e 65 graus..."),  com nmeros de
potncia para impressionar e com detalhes e marcas do equipamento para
mostrar servio. A aparelhagem de iluminao, requintada como pedia
uma transmisso a cores, foi importada da Alemanha e, para melhor
entrosamento com os cantores, a orquestra ficaria no meio do palco
projetado pelo argentino Frederico  Padilla que eliminou as passarelas
laterais. E as msicas? A grande expectativa recaa sobre as novidades
dos estreantes que suplantavam em larga margem o que os  FIC anteriores
haviam trazido  tona. Alinhavam-se entre os 30 concorrentes o diretor
de teatro Fauzi Arap, compositor de um "tango mineiro" ("Carangola ou
Navalha  na Carne") a ser cantado por Marlene; Hermeto Paschoal com
"Serearei", descrita como uma "espcie de lamento africano" a ser
defendida pela suave Alade Costa, que  encerrara uma temporada de
sucesso no Teatro Fonte da Saudade no Rio; dois cearenses parceiros em
"Bip... Bip", Antnio Carlos Belchior e Jos Ednardo Costa Souza;  o
jovem Oswaldo Montenegro, de 16 anos, para quem participar com
"Automvel" j era uma vitria; os dois mineiros Sirlan e Murilo,
autores de "Viva Zaptria", muito  comentada antes mesmo da
eliminatria; o paulista Walter Franco, filho do considerado radialista
Cid Franco, com sua composio "Cabea" que j provocava comentrios
controvertidos; o baiano Raul Seixas at ento mais conhecido como
produtor e agora assumindo carreira de compositor com duas concorrentes,
"Eu Sou Eu, Nicuri   o Diabo" e "Let Me Sing, Let Me Sing", que ele
mesmo defenderia; seu companheiro de hbitos e ideologia, o capixaba
Srgio Sampaio, primo do cantor Raul Sampaio,  comparecendo com "Eu
Quero  Botar Meu Bloco na Rua"; outro cearense, Raimundo Fagner,
compositor e intrprete de "Quatro Graus" que nos ensaios pintou como
uma  das favoritas; o pernambucano Alceu Valena que defenderia
"Papagaio do Futuro" com seu amigo e comparsa, tambm de Pernambuco,
Geraldo Azevedo; e, finalmente, uma  cantora taxada de fenmeno antes de
se apresentar, chamada Maria Alcina.
Inegavelmente um elenco promissor de novos nomes para a futura msica
popular brasileira. Contando com esses e outros concorrentes Solano
cumprira a tarefa que lhe  fora confiada. Seu erro de clculo foi
considerar Maria Alcina como o maior fenmeno surgido na msica popular
brasileira depois de Carmen Miranda e Elis Regina.
Nos dias que antecederam  primeira eliminatria os procedimentos
habituais foram efetuados. A sede do festival foi instalada, voltando
para o Copacabana Palace  Hotel. Solano convidou o jornalista Joo Luiz
de Albuquerque para assessor de imprensa, os ensaios foram iniciados, o
jri estava sendo montado e as letras das canes  foram para a
aprovao da Censura Federal.
Pelo que os censores podiam concluir, a que mais chamava a ateno 
devia abordar indiretamente um assunto muito srio, a ptria, pois
chamava-se "Viva Zaptria". A msica fora inscrita por Dona Cllia,
proprietria do bar Saloon,  em Belo Horizonte, onde msicos e
compositores mineiros se reuniam com freqncia. Depois de classificada,
o letrista Murilo Antunes recebeu um telefonema para que  fosse ao Rio
de Janeiro responder a algumas perguntas da Polcia Federal.
Chegando ao Rio na vspera do encontro, Murilo, com 21 anos, sem msica
gravada, comeando carreira, encafifado de ter que ir antes  polcia,
foi a um show com  o MPB 4 e seu dolo Chico Buarque, que ele j
conhecia de Belo Horizonte. Com Sirlan, foi ao camarim depois do show e
perguntou-lhe:
-  Chico, amanh eu tenho uma empreitada aqui. Estou meio preocupado e
queria pedir uma opinio para voc que j tem escova de dente l na
Censura. Estou imaginando  fazer uma burla no depoimento.
Como acontecia com todos os que eram censurados na poca, a sada era
essa: encenar diante das alegaes, geralmente primrias, do rgo
federal. Murilo disse a  Chico que pretendia dar uma de mineiro matuto,
falando errado, que era do Jequitinhonha e estava chegando na capital,
no sabia do que eles estavam falando, explicando  que a letra era uma
homenagem ao filme Viva Zapata. Chico, que j conhecia a msica, escutou
com o maior carinho e disse:
- Acho que voc est certssimo. Eles no tm argcia, no vo perceber
que voc est mentindo. Voc est no caminho certo, tem  que caprichar.
No dia seguinte s 9 da manh l estavam Murilo e Sirlan na Censura
Federal no centro do Rio, diante de uma mesa com oito pessoas, duas
mulheres e seis homens, funcionrios  que tinham sido removidos de
outras instituies federais para exercer o cargo de censor, todos com
uma pose danada mas que visivelmente no entendiam patavina de  cultura.
A primeira pergunta foi para o letrista:
- Porque ptria no nome?
- Eu to comeano agora moo, s l do Vale do Jequitinhonha, sabe onde 
que fica? Minha regio  munto pobre, demorei a muda pra capita pr pode
estuda, eu sempre  gostei de msica e quando eu fiz essa, eu queria
homenage um filme muito bonito. Mas o filme chamava Viva Zapata e
acontece que eu conheo uma msica que j tem  esse nome. Se no me
engano essa msica  dum pessoa que chama S e Guarabira. E eu no
queria comea seu moo, plagiano ningum, num posso faz uma coisa
dessa.
A vieram perguntas rpidas para criar uma presso emocional.
Perguntaram se ele conhecia algum do MR-8, algum da AP, da POLOP.
Claro que Murilo conhecia pois  exercia a militncia desde o curso
secundrio, estava ligado a aes de organizar passeatas, era ativo em
esconder pessoas, em lev-las para o interior, participando  do esquema.
Respondeu:
- Hein, qu que  isso? Num sei do qu que o sinh t falano. Nessa
toada conseguiu dar uma relaxada ao interrogatrio quando
uma das censoras, uma coroa de cabelo pavoneado e muitos colares,
perguntou sobre o filme.
- Pois  - disse Murilo -, era um filme do Elia Kazan, Viva Zapata, com
Marlon Brando, que tinha uma histria de amo muito bonita dos dois.
- Ah, eu vi esse filme. Murilo deitou e rolou.
- Pois , a senhora num lembra? Ele teve que sa fugido, foi perseguido
e tudo, mas o corao dele, ele dex na aldeia dele. E depois prele
encontra com o amo,  que dificurdade num ? Ele conseguiu encontra com
ela escondido, lembra? Depois eu achei aquele romance uma beleza...
Esticava sobre o filme quando dois censores saram da sala
desinteressados e Murilo sentiu que conseguira enfraquecer o empuxe que
tinham no comeo, foi desarmando  a Censura que acabou liberando a
msica "Viva Zaptria", cujos versos no tinham a mais leve referncia
ao romance do filme, direcionando-se noutra direo com este  incio:
"Esse meu sangue fervendo de amor/ aterrisam os falces onde estou/
Carabinas, sorriso onde estou/ um compromisso, a sirene chegou...".
A preocupao da Polcia no era s com os compositores. A imagem
verde-oliva e amarelo-gema seria enviada ao exterior pela televiso e
para que tudo corresse sobre  carretis algumas advertncias se faziam
necessrias.
Solano, um assistente e o assessor de imprensa Joo Luiz de Albuquerque
foram chamados para uma reunio nos pores do Palcio do Catete com a
Polcia Federal. Depois  de terem assegurado que todos os funcionrios
da Censura receberiam seus convites gratuitamente, foi-lhes passado um
declogo do que era e do que no era permitido.  No tolerariam letras
"perigosas" e, quando um dos trs sugeriu um censor msico para examinar
melodias que poderiam incitar  revoluo como a Marselhesa, a
observao  foi anotada. Tambm no seria permitido o gesto do punho
cerrado para o alto, do "perigo negro" que "no era o
vermelho, era o negro mesmo", o Black Power americano supostamente
interessado em prejudicar o relacionamento no "nico pas do mundo sem
preconceito racial". Se  algum fizesse o gesto, a estao sairia do ar.
Finalmente, em tom professoral, foi dada a recomendao que ficou para a
histria: "Como nos anos anteriores, um agente nosso ficar bem atrs da
boca do palco.  Quero avisar vocs que qualquer cantora com decote
avantajado no vai poder entrar no palco. Os decotes do ano passado no
sero mais permitidos". Houve uma pequena  discusso, e a ouviu-se a
seguinte frase: "Esse  o primeiro ano que o festival vai ser
apresentado em cores, e um decote avantajado em cores  muito mais
imoral  que um decote avantajado em preto-e-branco". Joo Luiz, Solano e
o assistente tiveram que se conter para no cair na gargalhada nos
vetustos pores do Palcio do  Catete.
S na vspera da primeira eliminatria  que o jri foi anunciado,
desfazendo a ansiedade de jornalistas e concorrentes. Seus integrantes
eram o diretor de programao  do sistema Globo de rdio Mrio Lus
Barbato, o maestro Rogrio Duprat, o poeta e professor Dcio Pignatari,
os experientes Roberto Freire e Srgio Cabral, o jornalista  Alberto de
Carvalho, o pianista Joo Carlos Martins, o empresrio dos baianos
Guilherme Arajo, e dois conhecidos radialistas - Big Boy, do Rio, e
Walter Silva,  de So Paulo. Nara Leo aceitou ser a presidente depois
de muito assdio. Desta vez o jri popular no foi sorteado mas
escolhido entre personalidades como a linda  mulata Aizita Nascimento, a
sodalite Beki Klabin e o cantor brega Waldick Soriano. Antes mesmo da
primeira eliminatria, "Fio Maravilha" j era considerada uma das  mais
fortes candidatas do primeiro grupo.
s 21h10 do sbado 16 de setembro, os quatro apresentadores deram o
start do VII FIC. s cores rosa, amarelo, lils, verde e azul do palco e
s das bandeiras desfraldadas  dos pases participantes, juntava-se o
jogo de luzes para um mximo efeito destinado a embelezar a transmisso
colorida. A orquestra sob a regncia de Mrio Tavares  atacou o tema do
festival e os quatro apresentadores entraram em ao: Murilo Neri vestia
um smoking azul enquanto Jos Augusto, um vermelho. Ao lado dos dois
novos  ocupantes das posies masculinas, as moas eram as mesmas do ano
anterior: Maria Cludia, de vestido azul, e Arlete Sales, de vermelho.
Entre tantas cores, o detalhe  que mais chamava a ateno era a ousadia
dos decotes de ambas. A Censura rendeu-se  decantada
beleza da mulher brasileira, no reclamou e a transmisso se fez para o
Brasil, Panam, Colmbia, Venezuela, Porto Rico e Mxico.
Foram apresentadas 15 canes com intervalos comerciais preenchidos por
msica brasileira executada pela orquestra regida tambm por Leonardo
Bruno e Chiquinho de  Morais. Ao final o jri classificou seis
concorrentes: "Serearei" (Hermeto Paschoal), em que a cabeleira do
albino Hermeto foi a maior atrao; o samba "N na Cana"  (Ari do Cavaco
e Csar Augusto) com o refro "Olha que tem n na cana..." muito
aplaudido com a ajuda dos requebros da cantora Mirna; "Eu Sou Eu, Nicuri
 o Diabo"  (Raul Seixas), um samba-rock com entrecho de tango cantado e
danado por Raul Seixas, vestido de diabo amarelo, acompanhado pelo
grupo Os Lobos; a teatral e anti  dj vu "Cabea", que o pblico,
despreparado para aquela linguagem potica adensada, vaiou violentamente
sem que o autor e intrprete Walter Franco se perturbasse  o mnimo; o
samba "Dilogo" (Baden Powell e Paulo Csar Pinheiro) tambm muito
aplaudido pela presena de Baden e pela participao danante de Cludia
Regina e  "Fio Maravilha" (Jorge Ben), a que mais empolgou com a cantora
Maria Alcina saracoteando num traje indgena estilizado. A presidente do
jri, Nara Leo, no se conformou  que seus companheiros tivessem
desprezado "Eu Quero  Botar Meu Bloco na Rua" com Srgio Sampaio.
Meia hora antes de comear a segunda eliminatria no dia seguinte, o
pblico estava impaciente e se agitou de vez quando as duas
apresentadoras apareceram. Com seus  novos decotes, Arlete e Maria
Cludia estavam ainda mais ousadas que na vspera e novamente ningum
protestou. A primeira manifestao de grande entusiasmo ocorreu  quando
Raul Seixas imitando Elvis Presley apresentou a quinta concorrente, "Let
Me Sing" vestido de preto com jaqueta de couro, botas e cinturo com
tachinhas. Com  exceo dele os demais tratavam de aproveitar ao mximo
as cores nas vestimentas. Os Originais do Samba fizeram a platia sambar
pra valer trajando blasers amarelo  e calas vinho, Arnaldo dos Mutantes
estava com uma tnica roxa e asas de anjo brancas, Rita Lee num saiote
brilhante de grega. A maioria tratava de caprichar no  que houvesse de
mais vistoso e berrante para fazer jus s cores da televiso.
Aps um show de Gal Costa o jri classificou mais seis canes na
eliminatria de domingo: "Let Me Sing, Let Me Sing" (Edith Wisner e Raul
Seixas), "Flor Lils"  (Luli) com a dupla Luli e Lucina, "A Volta do
Ponteiro (Roberto L. da Silva e Roberto F. dos Santos) com Os Originais
do Samba, "Viva Zaptria" (Sirlan e Murilo) com Sirlan, "Mande um Abrao
pra Velha" (Os Mutantes)  e "Carangola" (Fototi e Fauzi Arap) com
Marlene. Em vista de um empate entre duas msicas o jri transgrediu o
plano de vo estabelecido incluindo "Liberdade, Liberdade"  (Oscar
Torales) e, mostrando seu esprito de colaborao, decidiu tambm
alegrar sua presidente Nara Leo dando a mo  palmatria ao incluir a
composio de Srgio  Sampaio que fora prejudicada por um tumulto na
apresentao. Assim seriam 14 as concorrentes  final nacional assentada
para dali a duas semanas. Entrementes seriam  realizadas duas
eliminatrias internacionais com os 14 pases convidados, cada qual
concorrendo com duas msicas. Como se v, o esquema original foi
alterado. De  cada eliminatria internacional sairiam cinco
concorrentes, somando dez, que se cruzariam com as duas brasileiras
vencedoras da final nacional do dia 30 de setembro.
A condescendncia da Censura com o colo das apresentadoras, o
comportamento relativamente normal da platia, quebrado por meros
incidentes como duas garotas danando  frevo de saiote e sombrinha como
manda o figurino, o acatamento s decises dos jurados classificando
"Viva Zaptria" para a final, tudo isso levava a crer que o  intervalo
que antecederia a final nacional enquanto os estrangeiros se
digladiavam, seria de uma desfrutvel bonana para todo mundo.
Avizinhava-se, porm, uma tempestade.
Comentava-se que o jri nacional estava dividido em duas tendncias
dominantes: uma, baseada no gosto popular, inclinava-se por "Fio
Maravilha", apesar da performance  de Maria Alcina ter ficado abaixo do
esperado. "A roupa que ela usou agrediu o pblico, assustou um
pouco...", justificou Solano Ribeiro ao jornal O Globo, confiante  que
ela ainda iria estourar no FIC. A outra tendncia, voltada para o
experimental, podia ser resumida nas declaraes do jurado Srgio Cabral
no mesmo dia: "Eu  j tenho meu voto, mas no posso dizer agora. Alis,
acho muito bom esse intervalo de quinze dias entre as eliminatrias e a
final, porque ns, do jri, podemos  pensar melhor. S quero destacar o
trabalho de Walter Franco em "Cabea". Essa msica  genial porque
mostra que a vanguarda brasileira no tem nada a ver com a  vanguarda
americana". "Cabea",  bom recordar, fora a msica mais vaiada nas
eliminatrias mas gozava da preferncia de nove jurados.
Foi a que trovejou. O diretor Walter Clark chamou Solano para uma
comunicao importante:
- Os militares mandam voc afastar a Nara do jri.
- Mas ela  presidente do jri! Ela me ajudou a levantar o conceito do
festival. E agora tem que tirar? Vo jogar o festival no cho.
- Mas no tem jeito, ordem de militares no se discute.
Os militares impunham a sada de Nara por no terem gostado de uma
entrevista sua ao Jornal do Brasil desancando o que acontecia no pas.
- Ento eu tambm estou fora. Se a Nara sair eu tambm saio.
A discusso prolongou-se noite adentro. Props-se que Nara permanecesse
no jri, mas sem aparecer na televiso ou sequer ter seu nome citado.
Nada adiantou. Diante  do impasse e da iminncia de ele prprio
abandonar o festival, Solano cedeu, concordando em se destituir todo o
jri de brasileiros e substitu-lo por outro grupo,  mas s de
estrangeiros. Alguns jurados como Walter Silva, Roberto Freire, Dcio
Pignatari e Rogrio Duprat interpretaram a deciso como uma represlia
s intenes  manifestadas abertamente de elegerem "Cabea". E tinham
eles pelo menos um forte motivo para isso: Maria Alcina estava na mira
da TV Globo e dizia-se que j estava  contratada antes do FIC para seis
apresentaes.
A desculpa esfarrapada para a surpreendente mudana do jri foi dada
pelo diretor geral do FIC Jos Otvio de Castro Neves que considerou
inicialmente ter sido cumprida  a misso do jri presidido por Nara.
"Ns acreditamos", disse ele, "que essas msicas classificadas sejam
suficientemente boas para um julgamento internacional.  E um jri
internacional ter,  claro, uma viso maior para indicar as duas
representantes brasileiras com verdadeiras possibilidades de disputar o
mercado externo".  O novo jri seria presidido pelo editor da revista
Billboard, Lee Zitho, e seus companheiros gringos receberiam uma
traduo literal das letras para ingls e francs  acompanhada de uma
adaptao para que compreendessem o sentido de cada cano brasileira.
Por exemplo, "Eu Quero  Botar Meu Bloco na Rua" foi traduzida por uma
senhora, que confessou estar meio sem prtica para a tarefa, para "I
Want To Put My Block In The Street" o que, na cabea dos gringos, foi
entendido como "eu quero  colocar meu enorme pedao de pedra na rua".
Com um procedimento dessa natureza, a direo do FIC esperava
inocentemente que ningum chiasse. Mas nenhum dos jurados engoliu. Nara
ficou revoltada afirmando tratar-se  "de um verdadeiro escndalo
mudar-se as regras depois do jogo comeado, uma grossura, um
desrespeito". Os jurados brasileiros redigiram um comunicado para ser
distribudo   imprensa.
Foi nesse clima tumultuado que se iniciou a final nacional do FIC no
ltimo domingo de setembro de 1972.
Com um engradado na cabea contendo seis novos instrumentos para a
apresentao de "Serearei", o saxofonista Mazinho do grupo de Hermeto
Paschoal tentou entrar no  Maracanzinho, mas foi barrado. Motivo: os
instrumentos eram quatro galinhas e dois porcos. "Sei que quando a gente
aperta o p do porco ele d um grito que nenhum  piano do mundo consegue
igualar", justificava Hermeto para incluir novos sons no seu grupo. O
diretor do festival Solano Ribeiro, no sabendo se admitia ou no
tamanha  extravagncia, ligou para a Censura que vetou a participao de
animais no festival. Mas a direo da TV Globo no acreditou que Hermeto
fosse acatar a ordem na  apresentao de seu nmero, o primeiro da final
nacional. O fato  que quando ele subiu ao palco, no havia som nos
microfones. Foi anunciado que havia um defeito  no equipamento, Hermeto
gritou pedindo som, os tcnicos "tentaram" resolver mas no conseguiram.
O apresentador anunciou que Hermeto e Alade Costa voltariam para  se
apresentar ao final.
Logicamente a eficincia dos tcnicos foi comprovada em seguida. O som
estava normalizado para a segunda concorrente, o samba "N na Cana" com
Mirna e Elson. Nos  seus postos de jurados os canadenses, americanos,
franceses, espanhis e outros gringos tentavam decifrar o significado
daquela letra: "Quando eu digo que tem n  na cana/ quem  malandro no
fica de bobeira/ porque se marcar no sono baiano/ vai virar pino de
furar pedreira/ Olha que tem n na cana..." A letra, uma antologia  de
grias de morro carioca com o ritmo do samba comendo por baixo, fez o
pblico se esbaldar, danando e cantando nas arquibancadas, enquanto os
jurados se entreolhavam  com cara de paisagem, tentando captar o sentido
da coisa e esforando-se em acompanhar o ritmo com a cabea.
A quarta concorrente tambm foi recebida com uma exploso de aplausos e
uma faixa desfraldada na arquibancada com o ttulo "Eu Sou Eu, Nicuri 
o Diabo". Raul Seixas  e Os Lobos em traje medieval conquistaram os
jurados uma vez que guitarras eltricas e a linguagem do rock lhes era
familiar.
Mais aplausos para a quinta concorrente, "Fio Maravilha" na
interpretao da espoleta Maria Alcina vestida de odalisca em rosa e
vermelho. Essa tambm foi facilmente  assimilada pelo jri que
acompanhava
o ritmo com palmas e chegou a aplaudir ao final, envolvido pelo
entusiasmo da platia.
Mas uma bela vaia esperava "Cabea" que no perturbou minimamente Walter
Franco, o mais procurado para entrevistas e muito satisfeito com a
pequena torcida organizada  que aplaudia a letra clean da sua msica
experimental recitada que se iniciava com "Que  que tem nessa cabea,
irmo?...", prosseguindo repetitivamente mas sem  redundncia e com sons
de sintetizador gravados ao fundo. Os jurados, com fone de ouvido e
impassveis, pareciam estar ouvindo uma voz de outro planeta. A nona
concorrente  foi mais um rock, "Let Me Sing", novamente com Raul Seixas
trajando as mesmas botas, jaqueta e calas de couro negro da
apresentao anterior, numa empatia com os  jurados e o pblico
danante. A seguir, o violonista Baden Powell, demoradamente aplaudido
antes mesmo de tocar para Tobias e Cludia Regina cantarem seu extenso
afro-samba "Dilogo". Depois dele o cabeludo e bigodudo Sirlan Antnio
de Jesus subiu ao palco para cantar a barroca "Viva Zaptria",
acompanhado pela orquestra  da Globo e dois msicos do conjunto do bar
Saloon, o tecladista Flvio Venturini e o baixista Beto Guedes. Foi
ouvido respeitosamente com sua voz estranha lembrando  um frade
franciscano e ovacionado ao final, certamente no imaginando que ali
comeava o calvrio em que sua carreira se transformaria nos cinco anos
seguintes.  A penltima cano foi a marcha-rancho "Eu Quero  Botar Meu
Bloco na Rua" com o magro e cabeludo Srgio Sampaio, uma figura muito
parecida com Raul Seixas com quem  tanto se identificava. Depois da
ltima concorrente, "Carangola", a mais vaiada da noite, "Serearei"
voltaria a ser apresentada. Alade entrou no palco demonstrando  muita
preocupao pois pretendia explicar ao pblico o que acontecia nos
bastidores. Seu plano era dizer "Gente, eu estou presa no camarim e vou
cantar obrigada".  Ao se dirigir ao microfone comeou dizendo "Gente"...
e no saiu mais nada. Seu microfone foi desligado. O pblico vaiava
pedindo som. Alade se enfureceu, jogou  o microfone no cho, saiu do
palco e foi para o camarim mudar de roupa. A segunda tentativa de
apresentao de "Serearei" foi cancelada. Rapidinho, Murilo Neri deu
por encerrada a apresentao das concorrentes, aguardando a deciso do
jri de gringos. Nos camarins o jurado brasileiro Roberto Freire berrava
contra a violncia  de que fora vtima. Provavelmente por ser um
destemido atuante em manifestaes de carter poltico, ele fora
designado pelos companheiros do jri nacional para  entrar no
Maracanzinho, penetrar nos camarins e subir ao palco para ler o
comunicado que haviam redigido.
Fazendo-se passar por msico de um dos grupos, Roberto entrou no palco
para exercer sua arriscada e ingrata misso de arauto. Aproximou-se do
microfone e estava  lendo o incio do manifesto quando sentiu-se
agarrado. Foi violentamente arrastado pelos seguranas da TV Globo que o
conduziram para atrs do palco jogando-o numa  sala onde havia um grupo
de policiais e um delegado que disse: "Podem bater porque ele tambm 
comunista". Diante da autorizao os policiais se regalaram batendo
para valer, com socos e pontaps, jogaram-no contra a parede, pisaram em
suas costas, aplicaram uma tremenda surra deixando-o estendido no
camarim com fratura nos  dois braos, no malar, em quatro costelas e uma
couve-flor sangrenta em lugar do rosto. Totalmente lcido Roberto viu
quando Boni e outros diretores chegaram com  Nara, que vendo a cena
disse:
- Se vocs no lerem o comunicado, ns invadimos o palco e todos vamos
ser espancados.
Boni foi rpido no gatilho, passou os olhos no texto e disse: "Se vocs
tirarem esse primeiro perodo (falando mal da Globo) eu mando ler".
Assim foi decidido. Roberto  permanecia no camarim com enfermeiros
enquanto o comunicado era lido por Murilo Neri:
"Os integrantes do jri da fase nacional do VII Festival
Internacional da Cano, cumprindo sua finalidade de apontar as duas
composies musicais que representaro  o Brasil na final internacional,
decidiram indicar as seguintes concorrentes: "Cabea", de Walter Franco,
e "N na Cana", de Ari do Cavaco e Csar Augusto. Ao tempo  que divulgam
esta deciso, os membros de jri manifestam sua estranheza ante a
deciso do Festival, destituindo-os sem qualquer explicao. Consideram
ainda sua  destituio um ato arbitrrio e altamente suspeito.
Rio de Janeiro, 30 de setembro de 1972.
Nara Leo - presidente - Rogrio Duprat, Dcio Pignatari, Alberto C. N.
de Carvalho, La Maria, Srgio Cabral, Guilherme Arajo, Joo Carlos
Martins, Walter Silva,  Roberto Freire, Mrio Luiz e Big Boy."
Na platia, alguns policiais subiram as arquibancadas s carreiras
arrancando uma faixa que dizia "O jri de gringos foi dirigido" enquanto
outros, nos bastidores,  cerceavam os reprteres que desejavam 
entrevistar Roberto Freire, seguindo as ordens do coronel Ardovino Barbosa que
gritava "Bota a imprensa pra baixo no pau".
Nesse ambiente degenerado foram proclamadas as duas vencedoras
brasileiras que disputariam na noite seguinte com as 12 estrangeiras a
final internacional: "Dilogo"  e "Fio Maravilha". Nem Baden Powell nem
Jorge Ben, seus compositores, podiam ser considerados representantes da
renovao prometida.
Mostrando um virtuoso zelo pelo espetculo da noite seguinte, 1 de
outubro, os jurados escalados para a final internacional enviaram uma
recomendao aos artistas  participantes para que "no usassem recursos
extra musicais, no danassem ou rebolassem em suas apresentaes".
Eram 14 canes de dez pases sendo duas argentinas, duas alems, duas
americanas e duas brasileiras. Comentava-se que a vitria do americano
David Clayton Thomas  com "Nobody Calls Me a Prophet" j estava decidida
e quando o cantor grego Demis Roussos, que defendera "Velvet Mornings"
na semifinal internacional, tomou conhecimento  do que se dizia,
abandonou o Maracanzinho. Elementos da organizao saram correndo para
explicar aos jurados que ele no entraria no palco e era preciso tomar
alguma providncia sob a forma de agrado. Antes dele cantar houve um
intervalo comercial enquanto a orquestra ficou tocando "E Baiana"
durante vrios minutos. Afinal,  Roussos, numa tnica dourada com
estampados vermelhos, entrou com seu grupo dizendo "aquele abrao" antes
de cantar sua msica recebida entusiasticamente por um  pblico que
repartia sua preferncia com "Fio Maravilha", a outra grande favorita.
 esquerda do palco ficava o alto comando da Globo e do lado direito o
curral da imprensa onde rolavam as fofocas. L estava o assessor de
imprensa Joo Luiz de  Albuquerque aguardando a deciso dos jurados
quando Solano Ribeiro chegou correndo, inclinando-se para lhe falar
reservadamente:
- Joo, em quanto tempo voc consegue reunir a imprensa?
- Uns 15 ou 20 minutos. Por que?
- Porque o Walter Clark est me dizendo que eu preciso mudar o resultado
final do festival. No deu "Fio Maravilha" com a Maria Alcina e eles
querem que eu mude,  trocando com o segundo. E eu disse que no admito
isso e que vinha falar com voc para chamar a imprensa.
- Nesse caso eu junto a imprensa em trs minutos.
- Ento voc espera a que eu vou voltar para l.

E desapareceu, saindo do Maracanzinho mas no meio do caminho
resolveu voltar atrs indo se sentar no meio das arquibancadas como um
espectador.
O resultado no foi mudado. Enquanto o jri popular deu a vitria 
msica da Itlia, "Aeternum", com o conjunto Formula Tre, o jri
internacional premiou mesmo  o ex-crooner do Blood, Sweat and Tears,
David Clayton Thomas com sua voz de Ray Charles branco. Se Solano no
tivesse peitado uma das duas figuras mais importantes  da Globo e da
televiso brasileira, teria sido dada a vitria  msica defendida pela
cantora em quem a TV Globo apostava antes mesmo do FIC.
A alegre mineira de Cataguases Maria Alcina Leite nem rdio tinha em sua
casa. Ouvia msica no vizinho, aprendeu violo de ouvido e cantava na
rdio local. Aps  uma apresentao no Festival Audiovisual de
Cataguases em que ganhou o prmio de melhor intrprete com a cano
"Pesadelo Refrigerado", foi convidada para ir ao  Rio gravar a trilha do
filme O Anunciador, o Homem das Tormentas de Paulo Bastos Martins e
acabou ficando, cantando em inferninhos durante dois anos at que, em
1972, surpreendeu Mauro Furtado, proprietrio do Bar Number One em
Ipanema, que ao ouvi-la julgou ser um homem quem cantava. Foi contratada
como crooner do conjunto  mas sua voz extica e a extravagncia de suas
performances - j em Cataguases chegava a se jogar ao cho - animaram
Mauro a promov-la como atrao sob a orientao  musical de Severino
Filho, lder dos Cariocas. Maria Alcina rompia com a esttica de ento
atravs de sua voz gutural varonil, da maquiagem extravagante, das
roupas  irreverentes, compondo, com sua figura que lembrava Josephine
Baker, uma divertida mise-en-scne recheada de passos, saltos e coices
surpreendentes que no se enquadravam  em coreografia alguma. Foi o que
impressionou tambm a Solano Ribeiro que ao assisti-la no bar,
convidou-a para participar do FIC. Entre as fitas que ambos ouviram,
escolheram uma msica do flamenguista doente Jorge Ben que exaltava
outra figura extica, o jogador de seu clube Fio (Joo Batista de Sales)
apelidado Fio Maravilha.  Longe de ser um craque, este era um negro
retinto e dentuo, capaz de, na mesma partida, cometer lances bisonhos e
marcar gols inacreditveis como o que descreve  a letra de Jorge, uma
narrativa de speaker de futebol sem tirar nem por: "Aos trinta e trs
minutos do segundo tempo/ depois de fazer uma jogada celestial em gol/
tabelou, driblou dois zagueiros/ deu um toque, driblou o goleiro... Fio
Maravilha, ns gostamos de voc/ Fio Maravilha, faz mais um pra
gente ver". Maria Alcina inspirou-se na alegria da comemorao de um
gol, nos pulos que os jogadores costumam dar, para criar sua performance
para o FIC que conquistou  a todos - diretores da TV Globo,
flamenguistas ou torcedores de outros clubes presentes ao Maracanzinho
e jurados do festival. Em arranjo de Severino Filho, cantou  e foi
consagrada com o grupo do Number One, cujo percussionista chamava-se
Paulinho da Costa e seria anos depois um dos mais prestigiados msicos
brasileiros em  atividade nos Estados Unidos.
Quando terminou sua apresentao na final internacional, os diretores da
Globo Walter Clark e Boni aguardavam-na atrs do palco, incentivando-a a
bisar o nmero,  o que nunca tinha acontecido. Por conta da performance
de Maria Alcina, Jorge Ben recebeu um prmio que no estava programado.
Pressionado, o jri houvera criado  duas menes honrosas, uma para "Fio
Maravilha" e outra para a cano grega. Posteriormente, Roussos
afirmaria que receber meno honrosa foi um insulto.
Depois da surra dos policiais, Roberto Freire ficou 15 dias internado s
expensas da Globo, voltou a So Paulo e retornou ao Rio sendo recebido
por Boni de braos  abertos, para acertar o contrato da srie que
escreveria, A Grande Famlia. A assinatura ficou marcada para o dia
seguinte. Nessa noite Roberto foi convidado para  jantar com Jos Otvio
de Castro Neves, Solano Ribeiro e suas respectivas no restaurante Nino,
da Domingos Ferreira, em Copacabana. Comearam a beber e a recor-,  dar
os episdios do festival dando gargalhadas acima do normal. Na mesa da
frente havia uns senhores que comearam a reclamar sem ser atendidos. De
repente um deles  arremessa uma garrafa de usque Dimple que passou
zunindo sobre a cabea dos cinco espatifando-se num espelho que havia
atrs. Os trs se levantaram e com a ajuda  dos garons deram uma surra
nos reclamantes. No dia seguinte, Roberto voltou ao escritrio da Globo
e depois de assinar o contrato, Boni recomendou:
- Quando voc sair, saia por aquela escada ali. Aqueles caras em quem
vocs bateram ontem so diretores da Globo.
"Fio Maravilha" foi gravado por Maria Alcina num compacto da Chantecler
com o arranjo original, aproveitado para seu primeiro LP, lanado em
maio de 1973, reunindo  material de seus diversos compactos. Foi gravada
ainda por Jorge Ben (num compacto e depois em LP da Philips), por
Chacrinha, pelo saxofonista Meireles com orquestra,  por Paul Mauriat e
orquestra e, em verso de Boris Bergman, por Crystal Grass.
No seu repertrio de shows e discos Maria Alcina preocupou-se em
resgatar sambas gravados por Carmen Miranda como "Al Al", "Maria Boa",
"Me D, Me D" e a marcha  "Como Vais, Voc", mantendo uma vibrante
postura de reverncia  msica brasileira do passado.
Quem tambm pde tirar grande proveito do FIC em sua carreira foi Raul
Seixas. Antes do festival, ele e Srgio Sampaio j haviam sido
contratados por Roberto Menescal,  ento diretor artstico da gravadora
Philips. Inicialmente Srgio fez sucesso com "Eu Quero  Botar Meu Bloco
na Rua", uma das msicas mais executadas nas rdios  depois desse FIC.
Mas o palco no era seu forte e aos poucos Srgio Sampaio foi se
tornando um artista meio marginal at se incorporar ao time chamado de
"maldito",  que, longe de ser um termo pejorativo,  sinnimo de cult na
msica popular. O baiano Raul foi outra grande revelao desse festival.
Pensava-se que fosse apenas  um compositor mas no palco rendeu muito
mais. Sua carreira foi ascendendo assustadoramente at chegar ao topo de
maior dolo do rock brasileiro da histria, tendo  composto boa parte de
seus maiores sucessos em parceria com Paulo Coelho, que mais tarde se
tornaria um dos escritores brasileiros mais bem-sucedidos.
Em contrapartida a maior vtima desse FIC foi o compositor mineiro
Sirlan. S conseguiu gravar seu primeiro e nico disco Sirlan Profisso
de F na Continental em  1979. No entanto j tinha msicas suficientes
com seus parceiros Murilo e Fernando Brant para sair do festival, entrar
no estdio e gravar. Na primeira remessa de  dez msicas enviadas 
Censura s uma foi liberada, a que era instrumental. Numa segunda leva
de outras dez, foram aprovadas mais duas. O processo durava meses,  as
respostas vinham em dose de conta gotas, os dois letristas combinaram
inverter o que j tinham feito, fazendo novas letras para as mesmas
melodias mas de nada  valeu. A demora resultante do pouco caso por parte
da Censura, levou trs gravadoras, Som Livre, RCA e WEA, a rescindirem
seus contratos com Sirlan enquanto os anos  se passavam e nenhum disco
era gravado. O impulso que recebeu no FIC foi pouco a pouco se
desfazendo em poeira. Quando o LP foi finalmente lanado poucos se
lembravam  de quem era Sirlan, o compositor e cantor mineiro que teve a
carreira massacrada e foi impedido de ter seu lugar ao sol na msica
brasileira pela Censura Federal.  E isso no  conto de fada.
O disco oficial do VII FIC foi lanado pela Som Livre, a etiqueta da
Sigla, Sistema Globo de Gravaes Audio Visuais e tinha na capa azul o
novo smbolo do festival,  que no chegaria a completar um ano de uso.
Continha as 12 msicas da final nacional, quase todas com seus 
intrpretes originais. As ausncias eram dos contratados da Philips, Srgio
Sampaio, Raul Seixas e Os Mutantes, alm de Walter Franco, outro
"maldito" desse festival  e cujo primeiro LP seria lanado em 1973 pela
Continental.
O VII FIC foi alvo de crticas de toda sorte na imprensa brasileira.
Contabilizou despesas estimadas em um milho de dlares e um prejuzo de
400 mil dlares perdidos  em extravagncias que em nada combinavam com o
plano de economia inicial, como os 170 hspedes no Copacabana Palace ou
as duas viagens do equipamento de um cantor  francs, em sentido
contrrio ao seu dono. Vieram  tona tambm outros escndalos: o murro
que o empresrio de David Clayton Thomas dera num tcnico de som, a
priso  do representante de Israel, de Rogrio Duprat, Alade Costa e
Walter Franco. Lamentou-se a vaia descomunal a Astor Piazzolla em um dos
shows de intervalo e, logicamente,  o baixo comparecimento de pblico,
calculado numa mdia de 5.000 pessoas por noite. Para a TV Globo havia
ainda o implacvel nvel de audincia que, segundo o Ibope,  foi
considerado fraco. "Prosseguiremos de qualquer maneira porque o FIC  um
patrimnio do Rio e a nica maneira de exportar msica brasileira",
bradou um Walter  Clark arrebatado  revista Veja, contrariando o que j
estava na cara. Mas num ato falho afirmou tambm que "o charme do
festival era o pblico". Assim mesmo, no  passado.
Em maio do ano seguinte, a direo da Globo admitiu que o FIC de 1973
no seria realizado, alegando falta de interesse dos patrocinadores.
Nos quase 30 anos subseqentes foram realizados festivais esparsos
(detalhados na seo "Ficha tcnica dos festivais", ao final deste
livro), e se algum ainda mantinha  expectativas de que se pudesse
reviver a Era dos Festivais, o Festival da TV Globo em 2000 foi uma
prova dos nove a sepultar qualquer nesga de esperana,  qual  se podem
aduzir os ridculos e pretensiosos programas, tambm da Globo, Msica do
Sculo. Em ambos se revela que na cpula da produo no havia o
elemento indispensvel:  no havia quem tivesse ouvidos de msico.
Por que os festivais foram interrompidos? O criador dos festivais,
Solano Ribeiro, responde: "Porque a Rede Globo ficou cansada de resolver
problemas polticos.  A Globo se desinteressou por festival. Preferiu
parar e parou".
O diretor da Globo, Boni, sentiu que j estavam caminhando para o fim e
o festival estava sepultado. J se tinha perdido o que havia de 3om.
Para ele a perda dos festivais se compara ao desastre de Ayrton Senna:
"Foram dois momentos em que a televiso foi obrigada a admitir que
estavam sumindo do  vdeo duas atraes que mexiam com o pblico. A
Globo perdeu seu grande contato com a alma brasileira".
Para o jornalista Joo Luiz de Albuquerque, Augusto Marzago conseguiu
criar em seis anos um acontecimento na cidade como nem o concurso de
Miss Brasil do final  dos anos 50 foi capaz. Conseguiu revelar grandes
msicos e, sem esses festivais, talvez demorasse mais seis ou sete anos
para que eles aparecessem. Alguns teriam  at desistido.
Para o maestro Jlio Medaglia, quando a Globo quis retomar os festivais
em 2000, fez um festival com pirotecnias, efeitos e platias
artificiais, pensando que poderia  recuperar o que tinha destrudo em
anos.
Para o msico e cantor Magro, do MPB 4, a diferena entre os festivais
da Record e os que se fizeram depois  que naqueles, a msica mandava.
Quando o processo se  inverteu, acabou.
Para a historiadora Angela de Castro Gomes, os artistas participavam
francamente das manifestaes polticas ocorridas desde 1966 indo 
frente e sendo duramente  atingidos nos processos de censura e de
prises que desabaram sobre a classe. Quando o general Ernesto Geisel
tomou posse, essa forma de luta estava vencida, a guerrilha  estava
exterminada. No havendo mais clima poltico, no havia mais o pano de
fundo que animava os festivais, o pano de fundo da resistncia ao regime
militar. A  Era dos Festivais estava encerrada.
O psicanalista-jornalista-teatrlogo Roberto Freire, jurado no primeiro
festival da Excelsior em 1965 e no stimo FIC da Globo em 1972,
considera os jurados como  obstetras que ajudaram a tirar os filhos para
a msica brasileira. "Os festivais", continua Roberto, "foram um
acontecimento importantssimo na vida brasileira.  Primeiro porque
mobilizaram o povo a participar da criao e da renovao na msica
brasileira. Segundo porque com a tecnologia da televiso puderam
abranger um  nmero muito maior de pessoas na divulgao e no debate
sobre a msica brasileira. Terceiro porque tm o significado de um fato
histrico com uma importncia bem  superior ao que se imaginava. Os
jovens no sabem que Chico Buarque nasceu num festival e  preciso que
eles saibam a fora que isso teve, qual foi a luta, nica  no mundo,
para se operar essa revoluo na msica popular brasileira. Sinto que no
Brasil os fatos acontecem e a histria s registra o que interessa ao
poder.   muito triste. Os
jovens universitrios precisam saber que foram universitrios
brasileiros que derrubaram a ditadura. No foram os operrios que vieram
muito depois. Os estudantes  lutaram permanentemente contra a ditadura,
foram presos, torturados, mortos e mantiveram a luta. Os universitrios
de hoje precisam saber disso".
O povo brasileiro precisa saber. Saber tambm que em 1 de outubro de
1972 terminava o ltimo festival de uma era. Acabou-se. A Era dos
Festivais saiu do ar.
Fim do livro
